Paolo Demuru afirma que combater fake news exige mais do que desmentir falsidades: é preciso disputar afetos, pertencimentos e a imaginação política.
Teorias conspiratórias não sobrevivem apenas porque as pessoas acreditam em informações falsas. Elas também oferecem pertencimento, sentido e encantamento. Por isso, desmontá-las com fatos e argumentos racionais pode ser insuficiente – e até reforçar a identidade de quem acredita nelas, afirma o professor e doutor em Semiótica Paolo Demuru.
Autor de Políticas do Encanto – Extrema Direita e Fantasias de Conspiração (Editora Elefante, 2024), Demuru sustenta que o poder das teorias conspiratórias está também na capacidade de produzir histórias que dão sentido a um mundo marcado por desigualdade e precariedade. Elas partem de “núcleos de verdade” para construir explicações simples para problemas complexos – e, ao fazer isso, não apenas convencem, mas também fascinam.
Nesta entrevista ao Extra Classe, ele analisa o papel das redes sociais na disseminação do discurso de ódio, a crise das instituições jornalísticas, a aproximação entre poder econômico e extrema direita, os limites da checagem de fatos e a necessidade de uma educação midiática que vá além da identificação de informações falsas. Para Demuru, é preciso compreender como imagens, palavras, sons e outras formas de linguagem produzem sentidos e, a partir desse conhecimento, desenvolver uma relação mais crítica e cética com os discursos que nos cercam.
A entrevista é de Elstor Hanzen, publicada por ExtraClasse, 14-09-2026.
Você identifica um “boom conspiratório” da extrema direita entre 2010 e 2020. Quais fatores explicam esse fenômeno?
Sim, eu entendo que realmente o boom se deu entre 2010 e 2020, e diversos fatores explicam essa explosão. Há tantos fatores de ordem política e social que podemos mencionar e que outros autores, de diferentes áreas, também já identificaram e exploraram profundamente, como, por exemplo, a crise de 2008. A crise de 2008 é claramente um ponto de virada bastante substancial porque, a partir dali, entramos em uma fase tardia do capitalismo neoliberal que não foi resolvida e que só produziu mais precariedade, tanto existencial quanto no trabalho. Alguns autores se aprofundaram muito nesse aspecto, entre eles, Rodrigo Nunes. Além disso, houve a explosão das redes sociais. Mas o que quero destacar é como, a partir desse contexto, o discurso conspiratório teve muito sucesso por uma questão propriamente discursiva. É isso que tento explicar no livro: essas teorias – ou, melhor, “fantasias de conspiração”, como digo – partem de determinados núcleos de verdade.
As teorias conspiratórias partem de problemas reais, mas atribuem a responsabilidade a quem não os causou?
O fato de existir desigualdade no mundo e de vivermos existências e trabalhos precários, sem podermos sequer sonhar minimamente com um futuro melhor, porque a situação se torna cada vez mais complexa em razão de questões estruturais relacionadas à economia e ao mercado neoliberal, constitui um núcleo de verdade. A partir desses núcleos de verdade relacionados à desigualdade, constroem-se histórias que oferecem respostas simples para questões muito complexas. Por exemplo: existe uma elite financeira por trás dos bastidores que quer oprimir o povo para ficar cada vez mais rica. Esse é o núcleo de verdade. É fato que existem grandes elites econômicas. Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Sam Altman, Elon Musk, Trump, etc. fazem parte desse universo de pessoas que concentram enorme poder econômico e político. Isso é verdade. Só que, a partir desses núcleos de verdade, o discurso conspiratório afirma que existem elites que querem oprimir o povo, mas atribui essa responsabilidade a outros grupos. Diz que são os comunistas, os migrantes ou outros grupos, criando histórias cada vez mais articuladas e talvez até um pouco absurdas. E esse absurdo é importante.
Por que o absurdo e a fantasia são tão importantes para a força das teorias conspiratórias?
Além de oferecer uma resposta simples para os males do mundo, o discurso conspiratório faz outra coisa: ele encanta. Essa é a minha tese. A vida precária também diz respeito à possibilidade de se maravilhar com a vida. E, quando entramos em contato com discursos conspiratórios absurdos, como a conspiração QAnon, que afirma que uma seita de pedófilos satanistas estaria dominando o chamado “Estado profundo” dos Estados Unidos e, portanto, controlando o povo e mantendo uma situação de opressão e precariedade. Aí temos diante de nós um cenário maravilhoso, uma história que encanta justamente por sua própria dimensão fantasiosa e, talvez, pelo absurdo em si mesmo.
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Medo, indignação e ressentimento podem ser mais mobilizadores do que argumentos racionais?
Sobre essas emoções, sabemos hoje que elas têm muito mais força. Desmentidos de teorias da conspiração e de fake news que se fundamentam apenas em argumentos racionais, dados e fatos não são eficazes justamente porque é muito difícil – muito difícil mesmo – que esses dados consigam desmontar todo um sistema afetivo e passional construído por meio de discursos que insistem nessas paixões. Diria que isso acontece por dois motivos. Primeiro, porque essas paixões criam pertencimento grupal. Elas são compartilhadas e fortalecem a sensação de fazer parte de um grupo. Por isso, é difícil desmontá-las apenas com argumentos racionais. Segundo, quem apresenta esses dados acaba agindo como um furador de bexiga em uma festa de criança. Ninguém quer se sentir chamado de burro. E, quando apresentamos dados para desmentir aquilo que o outro está pensando ou acreditando, no fundo, a mensagem que pode ser recebida é: “Olha, você é burro. Como pôde acreditar nesse tipo de discurso?”. Isso não funciona porque atinge tanto o perfil moral quanto o perfil racional da pessoa. Ela não está apenas sendo informada de que determinada crença está errada. Pode sentir que sua inteligência e seu caráter estão sendo questionados. E, diante disso, a tendência não é necessariamente abandonar a crença, mas reforçar a identidade e o pertencimento associados a ela.
A oposição entre uma “elite corrupta” e um “povo puro” continua sendo uma narrativa eficaz?
Com certeza. Trump fez isso ainda em sua última eleição. Partidos e movimentos, tanto de extrema direita quanto de direita, têm utilizado esse tipo de narrativa. Acho que a grande questão, agora, seria olhar para as diferenças. Historicamente, essa era uma posição clássica do populismo, tanto de direita quanto de esquerda. Mas seria muito interessante observar como essas narrativas se diferenciam atualmente. No campo da esquerda, algumas palavras e conceitos que foram capturados pela extrema direita nos últimos 10, 15 ou 20 anos – como “sistema”, por exemplo – sendo reutilizados pela esquerda. Isso é interessante. E, claro, a grande questão é: como a esquerda constrói o povo e como a direita constrói o seu povo? Do ponto de vista do discurso da direita, poderíamos dizer que o povo construído pelo discurso da extrema direita é muito mais assimilador, no sentido de que existe uma identidade – normalmente, a identidade nacional –, na qual as diferenças tendem a se perder. O povo que a esquerda tenta construir, e que os teóricos do povo de esquerda consideram interessante construir, seria um povo regido pelo princípio da pluralidade. Ou seja, mesmo na construção de uma totalidade, as diferenças não desaparecem. Não sei se você lembra daquele caso do Bolsonaro, em que uma pessoa negra aparecia frequentemente ao lado dele, com um cartaz dizendo “Minha cor é a cor do Brasil”. Esse é um ótimo exemplo de como funciona a construção discursiva do povo pela direita. A direita tende a apagar as diferenças, enquanto uma construção discursiva do povo pela esquerda deveria manter vivas essas diferenças na construção de uma totalidade. Seria, inclusive, uma totalidade nacional: o povo brasileiro é formado por diferentes identidades que não perdem suas particularidades quando se inserem no todo. Acho que isso é interessante.
Você defende a necessidade de “quebrar o feitiço do populismo conspiratório”. Quais seriam os pilares e estratégias dessa ruptura?
Retomando a questão dos dados e de por que a apresentação de dados e fatos, muitas vezes, não funciona, defendo a necessidade de quebrar esse feitiço justamente assumindo e partindo do pressuposto de que se trata de um feitiço, ou seja, de algo que antecede a racionalidade. Minha tese é que você não consegue quebrar algo que é da ordem do afeto, da paixão, do encantamento e do maravilhamento por meio de argumentos puramente racionais. Isso não significa, claro, que argumentos racionais não possam ser usados. Pelo contrário, defendo também o seu uso, mas dentro de um contexto diferente. Ou seja, não adianta simplesmente dizer, por exemplo: “É falso que a vacina contra a covid-19 cause mal-súbito” ou “É falso que houve fraude eleitoral”. Desmentidos apresentados dessa maneira, em uma linguagem fria e descontextualizada, não surtem efeito. Precisamos construir uma nova narrativa, mais encantadora, na qual o dado também assuma outra proporção e outra eficácia. Esse é o ponto.
Como?
Para fazer isso, temos algumas possibilidades. A primeira é a necessidade de sensibilizar o que se chama de debunking, ou seja, sensibilizar a própria desmentida. Temos exemplos de empresas de checagem que estão fazendo isso nas redes sociais, como TikTok e Instagram, produzindo vídeos de desmentido que vão muito além do simples “É falso”. Em vez de apenas apresentar um post dizendo “É falso que houve fraude eleitoral”, utilizam uma linguagem muito mais próxima das novas gerações, como a geração Z e a geração Alfa. Outro exemplo está na dimensão lúdica. Sander van der Linden, um autor que trabalhou muito com o conceito de “imunização” contra a desinformação, ou de “vacinas contra a desinformação”, criou alguns jogos – eu cito isso no livro – nos quais o jogador assume o papel de um criador e divulgador de fake news. A partir da vivência em primeira pessoa do que significa ser um produtor e divulgador de fake news, cria-se consciência e, segundo a tese dele, imuniza-se minimamente o público. Isso acontece justamente porque a pessoa passa a conhecer esses sistemas não apenas por meio de um estudo racional, da busca por informação ou da assimilação mecânica de conteúdos, mas por meio de uma experiência lúdica. Essa é uma diferença importante e esse é um primeiro ponto. O segundo ponto é reencantar o discurso político e propor novas narrativas. E aqui volto à dimensão utópica do discurso do prefeito de Nova Iorque, Zohran Mamdani, e aqui no Brasil, do movimento pela escala 6×1 como exemplos. O que eles propõem não é apenas um contradiscurso que nega o discurso da extrema direita, mas algo novo: “Quero vida além do trabalho”, “Quero uma cidade onde eu possa viver bem”. É essa dimensão utópica – que não é uma utopia absurda, como as fantasias de conspiração da extrema direita, mas uma utopia concreta – que tem surtido efeito. Portanto, construir um discurso utópico no qual a paixão seja mais positiva e gere entusiasmo, por exemplo, não apenas contra alguma coisa, mas em favor de uma outra possibilidade de vida, é uma resposta nesse sentido.
Em 2024, você lançou o livro Políticas do Encanto. Com base nas análises desenvolvidas na obra, qual é o seu diagnóstico sobre o cenário eleitoral deste ano, em comparação a 2022 e 2024?
Eu acho que, a partir do diagnóstico traçado em Políticas do Encanto e olhando para a evolução do cenário da comunicação política de 2022 para cá – e talvez até um pouco antes –, podemos dizer que muita coisa mudou no campo progressista, apesar de alguns impasses que ainda persistem. Percebemos, no Brasil e fora dele, algumas mudanças de estratégia e inovações discursivas que tiveram sucesso. Dois casos que costumo citar são o movimento pela escala 6×1, aqui no Brasil, e Mamdani, em Nova York. Acho que são dois exemplos emblemáticos nesse sentido. Por que tiveram sucesso? Porque tanto o movimento pela escala 6×1 quanto a comunicação de Mamdani optam por um discurso que sai daquilo que tenho definido como “negacionismo semântico”. Ou seja, a comunicação de esquerda frequentemente nega o ponto de vista do outro e acaba sempre se referindo ao discurso do inimigo.
Livro Políticas do encanto: extrema-direita e fantasias da conspiração, de Paolo Demuru (Elefante, 2024).
Estratégia de afirmar em vez de só reagir.
Isso. É o que George Lakoff aborda em seu livro Não Pense no Elefante!. A tese principal da obra é que, se você disser a alguém “não pense no elefante”, a primeira coisa em que essa pessoa vai pensar é justamente no elefante. A esquerda tem feito isso: constrói um discurso baseado no que chamo de “negacionismo semântico”, em que, ao tentar negar determinado discurso, acaba reforçando-o. Tanto o movimento pela escala 6×1 quanto Mamdani fazem o contrário: eles afirmam alguma coisa. O movimento pela escala 6×1, por exemplo, não diz apenas “contra a escala 6×1”. É claro que isso está escrito, foi divulgado e está implícito, mas não é isso que fica na cabeça. O que fica é: “Quero vida, quero vida além do trabalho”. A mesma coisa acontece com Mamdani. Ele não foi apenas contra os bilionários do Vale do Silício, contra as elites, as big techs, Trump ou a extrema direita. Não. Ele foi a favor de alguma coisa: de uma cidade que você possa pagar, a city you can afford, de aluguéis mais baratos, tarifa zero, mercados com preços acessíveis. Enfim, todo o discurso é bastante afirmativo nesse sentido e também traça um cenário utópico.
As plataformas apenas amplificam o discurso de ódio ou suas próprias lógicas ajudam a produzi-lo?
Como mostraram estudiosos da comunicação e das mídias digitais, a própria estrutura algorítmica das redes pode fomentar conteúdos de caráter violento. Discursos de ódio estão entre aqueles que mais circulam, mais produzem engajamento e mais chegam aos nossos celulares. Portanto, há uma questão relacionada à própria estrutura das plataformas e ao seu modelo de negócios, porque são esses conteúdos que geram mais engajamento e, consequentemente, ajudam a produzir espaços para publicidade, propagandas e inserções. As pessoas também pagam por isso. Então, é uma questão que precisamos sempre ter em mente: a questão do lucro. Mas, no que diz respeito especificamente ao meu campo de estudo, que é o discurso, as linguagens e as práticas discursivas das mídias — de modo geral, os processos de construção de sentido —, há também uma questão relacionada às próprias práticas discursivas das redes. As redes sociais produziram e consolidaram discursos baseados em determinadas estruturas retóricas, se quisermos chamar assim, como a provocação, o grito e a própria indireta, que é bastante típica das redes sociais desde os tempos do Facebook. De modo geral, podemos dizer que certas estruturas do discurso nas redes sociais ajudam a disseminar discursos de ódio. Isso está relacionado à construção de determinadas paixões que circulam e são produzidas por meio do discurso: o medo, a raiva e outras emoções. Quando existem ataques diretos ou indiretos que procuram, por exemplo, fomentar a população contra alguém específico, essas estruturas discursivas contribuem para a circulação desse tipo de conteúdo. É nesse ambiente que o discurso de ódio acaba ganhando força.
Como avalia o enquadramento jornalístico que a imprensa faz da polarização? Ela está sendo coerente e objetiva?
Olha, eu acho que não. Vou ser bem direto: não existe o fato puro. Do ponto de vista da teoria semiótica com a qual trabalho e que defendo, os fatos são sempre apreendidos dentro de histórias no âmbito das quais estão situados. Nós não apreendemos dados ou fatos por si sós. Mesmo em uma narrativa mais objetiva, como uma notícia jornalística cotidiana — “um acidente ocorreu hoje na Marginal Tietê”, por exemplo —, isso também é uma história. Então, precisamos entender que tipo de histórias podem funcionar para que fatos reais sejam apreendidos como tais. Não estou negando a realidade. Pelo contrário, estou me preocupando com quais estratégias discursivas podem fazer com que fatos reais sejam reconhecidos como tais, circulem e, cada vez mais, construam crenças capazes de fazer frente às crenças falsas divulgadas por outros sujeitos que não necessariamente atuam nas instituições jornalísticas. Acho que essa é a grande questão. E, claro, tudo isso tem relação com a crise das instituições jornalísticas. O cenário midiático das redes sociais deu muito mais importância às relações interpessoais e a outras formas de construção de confiança, que são muito mais diretas e dizem respeito a grupos de pares ou de pessoas que se encontram com determinado propósito para lidar com a precariedade da existência cotidiana e que passam a enxergar essas instituições como parte desse sistema, dessas elites, dos establishments. Então, o jornalismo também precisa se interrogar e repensar seus próprios modelos discursivos. Algo nesse sentido já está acontecendo, e há diversos exemplos no Brasil. Não apenas os podcasts, mas também novas práticas jornalísticas que estão reinventando suas próprias linguagens para que elas não sejam mais apenas, digamos, frias ou baseadas na apresentação pura dos fatos.
Qual deveria ser o papel da educação midiática diante do cenário?
A educação midiática tem um papel fundamental nesse sentido, nessa disputa. Mas não podemos pensar a educação midiática apenas em termos mecanicistas e funcionalistas, porque acho que isso não funciona. Defendo aqui um ponto de vista baseado na semiótica. Por exemplo, entender apenas de maneira mecanicista que uma imagem é falsa porque, sei lá, a inteligência artificial não sabe reproduzir corretamente os dedos. Então, vamos olhar para os dedos. Isso já não funciona, porque as ferramentas estão aprendendo a reproduzir imagens com detalhes e uma fineza cada vez maiores. Amanhã, esse critério provavelmente já não será suficiente. O que isso significa? Significa que precisamos dar um passo atrás e ensinar as pessoas como funcionam as estruturas e as lógicas de produção de sentido em diferentes discursos e textos. Quando digo isso, estou falando de compreender, por exemplo, o uso da primeira e da terceira pessoa e os efeitos de sentido que cada escolha produz. Em determinados casos, a terceira pessoa pode produzir um efeito de objetividade; em outros, o uso do “eu” pode produzir um efeito maior de subjetividade e proximidade.
É importante as pessoas saberem como se constrói uma história?
Entendo que, quando as pessoas compreendem como se cria um discurso, que tipo de papel tem não apenas um pronome, mas também uma determinada figura dentro de uma imagem, uma determinada disposição topológica, um ritmo, uma música, etc., e entendem que esses elementos podem ser utilizados para produzir um determinado efeito de sentido, elas conseguem se defender melhor. Elas aprendem a desconfiar. Umberto Eco dizia que a semiótica era aquela disciplina que estudava — ou deveria estudar — tudo aquilo que poderia ser utilizado para mentir. É isso. Essas estratégias e esses recursos podem ser utilizados para enganar. Mas se eu os conheço, sei como podem ser utilizados. Isso cria, digamos, conhecimento, desconfiança e um bom uso do ceticismo.
O jornalista Marcelo Soares escreveu que vivemos uma era da “pós-vergonha“, marcada pela aproximação cada vez mais explícita entre poder econômico e poder político, sem qualquer pudor. Como início desta fase, cita a posse de Trump, em janeiro de 2025, quando os principais magnatas das big techs ocuparam posição de destaque na cerimônia, em uma espécie de “beija-mão” ao novo presidente. Depois da ideia de “pós-verdade” em 2015, como avalia essa comparação? Quais são os riscos para a democracia e para a sociedade quando poder econômico e poder político se alinham em torno de um mesmo projeto de poder?
O ponto, como você bem coloca na pergunta e como o próprio Marcelo Soares afirma, é que essa relação se tornou muito mais direta e explícita, e a vergonha também se perdeu. As big techs perderam um pouco a vergonha de mostrar suas conexões com líderes autoritários de extrema direita. Ou seja, estão mostrando mais claramente a sua face autoritária, associada a uma lógica de reprodução da desigualdade e de busca pelo lucro. Enfim, tudo isso se tornou cada vez mais ligado a um ideal defendido por algumas dessas figuras, como Elon Musk, Peter Thiel, entre outros. São posições que não são apenas conservadoras. Poderíamos dizer que, em alguns casos, assumem características abertamente autoritárias e até eugênicas. Se você observar manifestos como os associados à Palantir Technologies, por exemplo, há elementos que podem ser interpretados nessa direção, com uma clara defesa da reprodução de hierarquias de poder e força. Nesse sentido, quem já detém poder econômico e político tende a utilizar esse poder para ampliá-lo, enquanto parcelas da população ficam cada vez mais vulneráveis e oprimidas. Então, acho que a ideia de “pós-vergonha” diz respeito justamente ao fato de que essa relação está se tornando cada vez mais explícita e direta, contribuindo para a construção de consensos em torno dela. E esse é um ponto crucial: a relação entre um sistema capitalista cada vez mais concentrador e as ideologias da extrema direita, também cada vez mais explícitas, é uma questão fundamental para o debate público e para a democracia.