“Discursos desse tipo ameaçam a democracia de forma evidente, são discursos que criam desconfiança nas instituições, em um país como o Brasil, onde a democracia não voltou há muito tempo”, afirma o pesquisador
O extremismo é uma característica vinculada às políticas de extrema-direita, algo que vemos repercutir com grande profundidade nos últimos anos. A questão central é que movimentos assim não surgem do nada. Normalmente, o fascismo se instaura em uma sociedade que já não se identifica com as políticas públicas de seu país, sendo parte de uma radicalização desesperada que mina aos poucos os resquícios de democracia existente em uma nação.
Quando a democracia de um país é constantemente sequestrada, a população desacreditada tende a buscar outras realidades possíveis, algo que muitas vezes causa mudanças radicais nas eleições, sendo o fascista escolhido por seu discurso que causa fascínio, mas é enganador.
Em entrevista especial concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU via chamada de vídeo, o semioticista Paolo Demuru, autor de Políticas do encanto: extrema direita e fantasias da conspiração, menciona que “a ameaça à democracia não é apenas a desconfiança nas instituições, é também o sediamento insinuado dentro do corpo social desse tipo de polarização fundada no ódio pelo outro”.
Atualmente, analisando as articulações progressistas pela escala 6x1 e outras mobilizações sociais, Demuru acredita que a sociedade brasileira está “assistindo algo muito interessante no campo da comunicação política, nesse sentido de disputar sonhos, principalmente com as gerações mais novas”.
Paolo Demuru (Foto: Arquivo pessoal).
Paolo Demuru (Sassari, Sardenha, 1981) é doutor em semiótica pela Universidade de Bologna, na Itália, e em semiótica e linguística geral pela Universidade de São Paulo (USP). É docente permanente do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisador do Centro de Pesquisas Sociossemióticas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É vice-presidente da Associação Brasileira de Semiótica e foi coordenador do Grupo de Trabalho Práticas Interacionais, Linguagens e Produção de Sentido na Comunicação da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação (2021-2023). Autor de Políticas do encanto: extrema direita e fantasias da conspiração (Elefante, 2024), de Essere in gioco: calcio e cultura tra Brasile e Italia (Bononia University Press, 2014) e de diversos artigos científicos publicados em revistas internacionais. Pesquisa atualmente, em parceria com estudiosos europeus e latino-americanos, sobre a linguagem e as práticas discursivas do populismo digital do século XXI, as teorias de conspiração e outras estratégias de desinformação.
IHU – O que explica a polarização política no Brasil e o surgimento do bolsonarismo nos últimos anos?
Paolo Demuru – É uma pergunta bastante complexa, porque me leva a pensar sobre as razões históricas presentes no quadro contemporâneo. Como chegamos em 2018 até 2022 e como estamos agora, em 2026? Em minhas pesquisas, iniciadas em 2010, eu refleti sobre estudiosos dos campos da ciência política, da sociologia, da filosofia e da psicanálise, partindo de discursos da semiótica sobre os impactos das Jornadas de 2013. Eu defino esse período como o marco inicial da explosão de acontecimentos que levaram à eleição de Bolsonaro em 2018, implicando, consequentemente, na polarização da política nacional.
Por que tudo isso começa a partir dali? Anteriormente, existia a ideia do Brasil como o país do futuro, todo o entusiasmo e toda positividade construída nos anos dos governos do PT, com umas oscilações claramente, mas funcionava até então. Porém, a jornada de 2013 foi a mudança e o marco inicial dessa explosão e do avanço da extrema-direita no Brasil. Eles foram capazes de cooptar algumas demandas que surgiram das ruas a partir dos famosos 20 centavos e consolidaram uma construção expressiva, muito bem elaborada, da ideia de que o Brasil fosse um país à deriva. Isso ocorreu porque as pessoas se manifestavam contra tudo, como publicou a Folha de S. Paulo em 17 de julho de 2013. Começa a se criar, ali, a ideia de um Brasil ainda muito cru. Era um país – e ainda é – com muitas questões. Mas tudo o que aconteceu naquela época foi fundamental para desconstruir a ideia de positividade e de entusiasmo.
Como semioticista, analista do discurso e das linguagens, das práticas semióticas que levam à construção de certas realidades e impactam a sociedade, sempre insisto no papel que, por um lado, a mídia, sua linguagem tradicional e as redes sociais tiveram nesse processo.
Estou construindo uma espécie de trilogia interpretativa sobre os acontecimentos daquele período, porque foi somente a partir de 2014, após a derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo (o famoso 7 a 1), que percebi algo que venho defendendo como hipótese: as paixões que antes eram sublimadas no campo do esporte, especialmente no futebol, passaram a atravessar o campo político.
Aquela derrota se cruza com os movimentos políticos surgidos em 2013 e, posteriormente, com as mobilizações pró-impeachment que ganharam força após a eleição de Dilma Rousseff contra Aécio Neves em 2014. Soma-se a isso o discurso de Aécio, que levantou suspeitas sobre a lisura do processo eleitoral, alimentando um ambiente de desconfiança e tensão política. Tudo isso se mistura a uma espécie de “fofoca política” marcada pela circulação intensa de narrativas, acusações e disputas simbólicas.
Em 2015, a mídia passa a dar ampla visibilidade à atuação do Movimento Brasil Livre (MBL), enquanto as manifestações de rua começam a consolidar a imagem de um país paralisado e dividido. Forma-se, então, um campo que se apresenta como o dos “defensores do Brasil”, no qual a camisa da seleção brasileira passa a ser cada vez mais apropriada como símbolo dos movimentos pró-impeachment e, posteriormente, da extrema-direita.
Do outro lado estariam os “vermelhos”, associados ao PT, a Dilma Rousseff, a Lula e à esquerda de modo mais amplo. As manchetes dos principais jornais reforçavam essa construção simbólica. Quando as manifestações eram contrárias a Dilma e Lula, frequentemente apareciam representadas como a voz do “Brasil” que ia às ruas. Quando eram favoráveis ao governo, eram retratadas como expressões de grupos políticos específicos, ligados ao PT e aos seus apoiadores.
Nesse contexto, começa a se consolidar uma polarização em que, de um lado, estariam aqueles identificados como os defensores do Brasil e, de outro, os petistas, os apoiadores de Dilma e Lula e a esquerda em geral.
Esse processo contribui para a formação de uma primeira grande polarização política, na qual a mídia tradicional desempenhou um papel fundamental. Soma-se a isso a lógica algorítmica das redes sociais que, embora ainda não fosse tão sofisticada quanto é hoje, já começava a produzir dinâmicas de segmentação, bolhas informacionais e discursos que frequentemente ecoavam as narrativas presentes nos meios de comunicação tradicionais.
Esse cenário foi captado por Jair Bolsonaro, que passou a ocupar uma posição simbólica capaz de canalizar parte dessas demandas e afetos dispersos. O próprio termo “mito”, que o definiu naquele momento e permaneceu associado à sua imagem por muitos anos, surge como uma forma de preencher um vazio passional que vinha sendo construído desde as manifestações de 2013 e que encontrou um ponto de inflexão na derrota do Brasil para a Alemanha, no emblemático 7 a 1.
A partir dali caiu a ideia do país como uma nação unida. O futebol possui, no Brasil, uma importância decisiva para a vida pública e para a constituição dos sentimentos de patriotismo, nacionalismo e pertencimento coletivo. Não se trata apenas de um esporte, mas de um espaço privilegiado de elaboração simbólica da identidade nacional.
Nesse contexto, a apropriação dos símbolos nacionais pelos movimentos pró-impeachment e, posteriormente, pelo bolsonarismo, insere-se nesse percurso histórico. Esses símbolos passam a oferecer uma nova forma de pertencimento coletivo, preenchendo parte do vazio deixado pela crise das referências anteriores e reconstruindo a ideia de grandeza nacional. A bandeira, a camisa da seleção e outros emblemas nacionais tornam-se elementos centrais de uma narrativa política que procura reativar sentimentos de identificação, orgulho e mobilização em torno da nação.
Esse processo me parece representar, por assim dizer, o momento da faísca inicial. As Jornadas de Junho de 2013, a Copa do Mundo de 2014 e o impacto simbólico do 7 a 1, os movimentos pró-impeachment, a apropriação dos símbolos nacionais e a construção, por parte da mídia tradicional, de uma polarização entre os chamados “defensores do Brasil” que defendiam o impeachment e a esquerda, especialmente o PT, constituem um conjunto de acontecimentos que ajudam a compreender a formação do cenário político contemporâneo.
Trata-se de um processo histórico e discursivo que, na minha interpretação, contribui para explicar a polarização que marca o Brasil atual e que esteve na base das eleições de 2018 e 2022, cujos efeitos ainda permanecem presentes. Ao longo desse percurso, consolidou-se uma divisão simbólica na qual determinados grupos passaram a reivindicar para si a representação legítima da nação, enquanto seus adversários eram frequentemente retratados como externos ou contrários aos interesses nacionais.
No entanto, observa-se atualmente um movimento interessante de reconfiguração desse quadro. O tema da soberania nacional, que durante muito tempo esteve mais associado aos setores conservadores e ao bolsonarismo, vem sendo progressivamente reapropriado pelo governo Lula e por setores da esquerda em geral. Em especial, Lula tem procurado recolocar a questão nacional no centro do debate político, disputando simbolicamente valores, narrativas e signos que, nos últimos anos, foram apropriados por seus adversários.
Essa é, em linhas gerais, a pequena arqueologia que proponho para compreender a polarização política brasileira contemporânea e o surgimento do bolsonarismo. Bolsonaro aparece como a figura que conseguiu ocupar esse vazio simbólico e afetivo, captando simultaneamente um conjunto de demandas discursivas e paixões coletivas que vinham se acumulando desde o início da década de 2010. Na minha perspectiva, os acontecimentos políticos não se definem apenas pelos fatos em si, mas também pelas narrativas que lhes atribuem sentido. Foi justamente nessa articulação entre discurso, afetos e disputas simbólicas que o bolsonarismo encontrou as condições para emergir e se consolidar como uma força política de alcance nacional.
IHU – O que é política do encanto? Como essa política usada pela extrema-direita tem alcançado inúmeras pessoas e quais práticas de persuasão caracterizam essa aproximação?
Paolo Demuru – Tenho usado esse termo no meu livro “Políticas do encanto: extrema-direita e fantasias da conspiração” (Elefante, 2024) justamente para explicar a maneira como a extrema-direita no Brasil, e no mundo ocidental de modo geral, tem conseguido implementar consenso não apenas em suas próprias bolhas e esferas políticas tradicionalmente consolidadas em eleitorados tradicionalmente construídos ao longo das décadas, mas também de maneira mais ampla, na sociedade como um todo.
A tese principal do livro, sintetizada no conceito de “políticas do encanto”, associa-se às práticas comunicativas da extrema-direita. A hipótese é que sua eficácia decorre do fato de se tratar de um discurso que se concentra menos no racional e nas explicações lógicas e consequenciais dos mal-estares da contemporaneidade e mais em seu enquadramento afetivo e passional.
Trata-se, portanto, de uma forma de construção discursiva que opera sobretudo por meio dos afetos, das identificações e das fantasias, mobilizando emoções coletivas e oferecendo formas de pertencimento e de interpretação do mundo. Um discurso que, antes de tudo encanta. Encanta e produz maravilha em um mundo onde a maravilha está em falta.
Portanto, o discurso da extrema-direita beira às narrativas conspiratórias chamadas de fantasias de conspiração. Uso esse termo porque são discursos de fato fantasiosos e a sociedade precisa de fantasias para enquadrar e entender a realidade. Não uso esse termo de maneira pejorativa, pelo contrário. Enquanto seres humanos, precisamos de histórias. Somos feitos de histórias para enquadrar a realidade e poder entender como funcionam as nossas existências e que quadros que definem a nossa existência, sejam políticos, sejam sociais, econômicos ou religiosos.
O discurso da extrema-direita é um discurso que encanta e foi capaz de produzir encantamento num mundo onde o encantamento era algo que estava faltando. Por que digo isso? Tivemos tempos bastante complexos do ponto de vista econômico e ambiental. Os anseios da população dizem respeito, sobretudo, à necessidade de conseguir um salário e ter dinheiro suficiente para viver até a próxima semana e, muitas vezes, até o próximo mês. Todas as desigualdades que surgiram em decorrência da consolidação do sistema capitalista neoliberal, profundamente enraizado nas plataformas digitais, na plataformização do trabalho e no empreendedorismo, ou melhor, na precariedade disfarçada de empreendedorismo, somam-se às crises ambientais e aos eventos climáticos extremos. E não se trata propriamente de desastres, pois sabemos cada vez mais quais são suas causas e o que deve ser feito para evitá-los.
Livro Políticas do encanto: extrema-direita e fantasias da conspiração, de Paolo Demuru (Elefante, 2024).
Tudo isso constitui o que chamo de núcleos de verdade sobre os quais o discurso da extrema-direita se instala. Além de oferecer respostas extremamente simples para questões complexas, esse discurso afirma, por exemplo, que a causa das desigualdades sociais, da precariedade do trabalho, da falta de dinheiro para pagar as contas ou da necessidade constante de parcelar e endividar-se não está em um sistema político e financeiro que produz desigualdades e concentra poder e recursos nas mãos de 1% da população, enquanto os outros 99% permanecem sem acesso a esses mesmos privilégios.
Em vez disso, esse discurso desloca a responsabilidade para outros grupos, argumentando que houve avanços em políticas associadas à esquerda que favoreceram parcelas específicas da população, retirando direitos de quem supostamente os mereceria. Como exemplos, são frequentemente mencionados as políticas de cotas para a população negra, os direitos conquistados pela população LGBTQIA+, os avanços das mulheres, além de críticas dirigidas a esquerdistas, ao chamado “marxismo cultural” e aos professores acusados de doutrinação, entre outros alvos recorrentes.
E, claro, quando essa “verdade” é revelada – quando alguém lhe diz que nada disso acontece pelas razões que você imaginava, mas porque existe uma pequena seita de eleitos e poderosos que favorece grupos considerados esquerdistas, marxistas, globalistas, entre outros, e que supostamente domina o mundo –, você não apenas encontra uma explicação para os seus problemas cotidianos. Passa a acreditar que compreende por que não tem dinheiro suficiente para viver, por que trabalha exaustivamente e chega no fim do mês sem recursos, ou por que a chuva e o vento derrubam postes de energia, deixando cidades inteiras sem luz por dias ou até semanas, como já ocorreu em grandes cidades brasileiras. Além de explicar todos esses fenômenos, eles criam maravilha porque finalmente a pessoa entra em contato com o saber.
Nisso, as pessoas começam a se identificar que fazem parte de um pequeno grupo de eleitos que conhecem a “verdade”. Enquanto isso, tudo aquilo que outros atores procuram explicar por diferentes meios, recorrendo ao raciocínio lógico – como ocorre no campo progressista, nos discursos institucionais, nos governos, nas organizações não governamentais e em organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) –, muitas vezes não alcança esse público. Essas instituições procuram explicar um mundo complexo por meio de discursos igualmente complexos, o que, de certo modo, é justificável.
Já essa outra narrativa, mais sedutora, apresenta-se de forma muito mais simples. Isso porque, além de oferecer explicações, ela produz encantamento e um sentimento de pertencimento. Esse pertencimento não surge apenas da descoberta desse suposto conhecimento revelado e dessa pretensa verdade absoluta, mas também de outras práticas, muitas delas de caráter lúdico, que reforçam os vínculos entre aqueles que compartilham dessa visão de mundo.
Essas práticas lúdicas podem assumir diversas formas: vestir a camisa da seleção brasileira como símbolo de pertencimento político, recorrer ao humor como estratégia de comunicação – algo amplamente utilizado nos últimos anos –, adotar uma linguagem simples e direta ou direcionar mensagens específicas ao público religioso. Há também a incorporação de elementos do discurso de coaching, como ocorre, por exemplo, em narrativas associadas a figuras como Pablo Marçal, que dialogam com aspectos da teologia da prosperidade e ajudam a construir um imaginário centrado na superação individual.
Esse é um dos elementos centrais do discurso encantador: a promessa de que “você pode conquistar seu primeiro milhão” ou de que “você pode criar o seu próprio negócio se seguir os meus métodos e cursos”. O que esse tipo de narrativa oferece? Acima de tudo, uma perspectiva de futuro – e isso não é pouca coisa. Trata-se, muitas vezes, de futuros idealizados, marcados por promessas de prosperidade, realização pessoal e ascensão social.
A extrema-direita passou a explorar de maneira particularmente eficaz as linguagens das redes sociais e das plataformas digitais, apropriando-se de formatos caracterizados pela simplicidade, pela objetividade e pela provocação.
Inclusive, não apenas na língua verbal, mas na linguagem do audiovisual, nos memes, as maneiras como se usam certas linguagens em documentários, por exemplo, mais focada na paixão, no deslumbre, como faz muito bem o Brasil Paralelo. Tudo isso foi sendo muito frequentemente utilizado pela extrema-direita aqui no Brasil, não só aqui mas também fora, para conseguir um consenso mais amplo via afeto, via paixões que constroem as bases para uma leitura cognitiva racional do mundo, a partir dessas múltiplas verdades que especifiquei.
IHU – Os algoritmos podem interferir no acesso de conteúdos e impactar as eleições? Como o governo Trump e as big techs podem impactar nas eleições deste ano?
Paolo Demuru – Podem impactar e já impactaram muito. Falo pela avaliação de 2016. Diferentemente do que aconteceu aqui em 2022, ou até mesmo em 2018 no Brasil, ou nas últimas eleições de Trump nos Estados Unidos, nós sabemos cada vez menos o que acontece nos bastidores das redes sociais.
Até pouco tempo, tínhamos acesso às Interfaces de Programação de Aplicações (APIs, na sigla em inglês) não só no Twitter (X), mas também na Meta, com algumas ferramentas específicas. Agora, tudo isso se tornou mais restrito e mais caro, mais controlado pelas próprias plataformas e big techs. Os pesquisadores que trabalham na academia têm cada vez menos acesso a esses dados e precisam pagar muito mais, ou não conseguem acesso porque eles simplesmente não liberam.
Nas próximas eleições, cada vez mais saberemos menos do que está acontecendo nas lógicas algorítmicas que governam a nossa presença nas redes sociais. O modo como nós construímos e abastecemos o nosso feed, o que chega para nós, o que chega para os outros, como se constroem bolhas, o que circula e o que não circula, etc.
Portanto, isso é muito complexo. Desde a eleição de Trump, onde houve um alinhamento entre as Big Techs e o governo de Trump, isso tudo se consolidou de uma maneira radical.
Dito isso, eu gostaria de focar um pouco no meu campo específico de estudos, que é o campo da semiótica e da análise dos processos de construção de sentidos, de produção e interpretação dos sentidos dos discursos que circulam no debate público. Pretendo contribuir a partir desse ponto de vista porque, sobre essas questões mais estruturais, há muitos colegas que já vêm intervindo no debate público e, em grande medida, o que mencionei até aqui já foi apontado por eles.
O que posso dizer a partir do meu olhar de semioticista é que as Big Techs têm insistido fortemente em determinados tipos de discurso. Um exemplo é o discurso do avanço tecnológico, frequentemente mobilizado em oposição à regulamentação das redes sociais. Trata-se de uma narrativa que apresenta o desenvolvimento tecnológico como algo inevitável, como se os aspectos tecnológicos não precisassem ser analisados ou regulados do ponto de vista político e jurídico, considerando também os direitos da população e a necessidade de evitar concentrações excessivas de poder.
Nesse contexto, constrói-se a ideia de que, caso os governos, como tem ocorrido no Brasil, busquem regulamentar as plataformas digitais, eles acabarão ficando para trás, prejudicando a inovação e dificultando o crescimento econômico. Segundo essa narrativa, a regulamentação não afetaria apenas a macroeconomia, mas também a microeconomia, especialmente a vida dos microempreendedores, que teriam suas atividades dificultadas.
Esse discurso é particularmente eficaz porque desloca a responsabilidade para os governos que procuram compreender o funcionamento dessas plataformas e construir um ambiente digital mais transparente, equilibrado e responsável. No entanto, como mencionei anteriormente, a transparência praticamente não existe em muitos desses sistemas. Assim, a defesa do avanço tecnológico como valor absoluto acaba funcionando como uma forma de deslegitimar toda e qualquer tentativa de regulação ou de fiscalização pública.
Ao mesmo tempo, esse discurso reforça as estruturas e hierarquias de poder que as big techs construíram ao longo do tempo. Também se articula com o discurso da prosperidade e com as narrativas de coaching voltadas ao sucesso individual, que têm ocupado um espaço cada vez mais relevante em plataformas como Instagram, Facebook, X, TikTok e outras redes sociais.
Isso ocorre porque se trata, em grande medida, de um discurso de superação. A própria narrativa construída em torno dos fundadores dessas empresas segue essa lógica. Basta observarmos figuras como Mark Zuckerberg, que vendem uma história de superação e se mostram como homens que teriam construído impérios empresariais praticamente do nada e, o caso nem é esse, mas o discurso que pega é o da inevitabilidade. Independentemente da complexidade real dessas trajetórias, o que ganha força é a narrativa da superação individual, do empreendedor visionário e da inevitabilidade do progresso tecnológico.
Dessa forma, o discurso do avanço tecnológico se combina com a promessa de uma prosperidade futura, tanto em escala macro quanto micro. Mais uma vez, oferece-se um horizonte de abundância e oportunidades, ao mesmo tempo que se sugere que governos e instituições que buscam regulamentar esse ambiente estariam impedindo ou atrasando esse futuro promissor. Essa talvez seja uma das contribuições que eu poderia oferecer a partir da perspectiva da semiótica.
Além disso, essas dinâmicas operam tanto de forma estrutural quanto por meio das arquiteturas algorítmicas e tecnológicas que sustentam as plataformas digitais. Pesquisadores como Letícia Cesarino, David Nemer e outros colegas já demonstraram de maneira consistente como essas infraestruturas influenciam a circulação dos discursos e a formação das dinâmicas políticas contemporâneas.
O que acrescentaria a esse debate é a análise de como esses discursos se articulam com as linguagens próprias das redes sociais. Um aspecto importante é o favorecimento de determinadas formas de comunicação, em especial aquelas associadas ao discurso de ódio e a eixos discursivos que estimulam estruturas miméticas de reprodução e engajamento. A polarização, por exemplo, tende a favorecer a circulação de conteúdos marcados pelo ódio, pelo ressentimento, pela indignação e pela raiva. Essas emoções encontram nas plataformas condições particularmente favoráveis para sua disseminação.
Nesse sentido, estamos diante de uma questão que é, ao mesmo tempo, tecnológica e discursiva. De um lado, há as arquiteturas algorítmicas que organizam a visibilidade e a circulação dos conteúdos; de outro, há os discursos, as linguagens e os afetos que se propagam nesse ambiente. Essas duas dimensões não podem ser analisadas separadamente, pois se articulam continuamente e se retroalimentam de maneira permanente.
IHU – Como as “fábulas conspiratórias” disseminadas pela extrema-direita em 2020 dificultaram o isolamento social e as práticas de combate à Covid-19? Mesmo após o elevado número de mortes causadas pela pandemia e das evidências que apontam para a ineficácia do governo Bolsonaro, por que os movimentos bolsonaristas ainda mantêm tanta força?
Paolo Demuru – Reforço minha tese de que continuam se movimentando mesmo depois da pandemia porque o que interessa e o que funciona no meio da intervenção política não são mais os fatos, pois convence-se mais pela apresentação do fato puro do que pela divulgação dos dados que explicam, por exemplo, que aquelas mortes se deram por não ter havido uma política pública federal que impedisse o avanço da Covid-19 no Brasil.
Não se explica mais por isso, explica pelos avanços dos discursos que agem na epiderme do corpo social. E, dali o dado, o raciocínio, a evidência não funciona, não acessa mais. Por isso que defendo que, para haver um outro mundo real, para termos outra realidade, precisamos também de outras histórias e novas fantasias. O bolsonarismo foi um processo que desde 2013 foi se enraizando.
O imaginário coletivo continua profundamente polarizado. Principalmente na bolha bolsonarista e da extrema-direita, esse imaginário segue sendo mobilizado e encantado por meio dessas estratégias discursivas. Trata-se de narrativas que oferecem a perspectiva de um outro futuro, marcado pela promessa de prosperidade, ao mesmo tempo que atribuem os problemas do mundo às causas que mencionamos anteriormente.
Nesse processo, grupos minorizados são frequentemente atacados e percebidos como ameaças. Isso ocorre mesmo quando esses grupos constituem parcelas numericamente expressivas da população, como é o caso das mulheres. Esses discursos conspiratórios criam como disse, esse pertencimento, essa visão de mundo e isso tudo cria uma imagem de futuro. Por isso que esse dado não tem peso.
IHU – Como o bolsonarismo intensifica a crise da democracia? De que forma essa polarização política e as visões autoritárias de nosso tempo ameaçam a democracia?
Paolo Demuru – Tornaram-se bastante evidentes os motivos pelos quais isso ameaça a democracia porque no Brasil tivemos uma tentativa de golpe explícito. Nos documentos que foram levantados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a tentativa de golpe, um dos primeiros passos era um discurso conspiratório. Para que o golpe pudesse acontecer na prática, os próprios autores perceberam necessidade de construir antes um discurso de fraude eleitoral, sobre ter a desconfiança no sistema eleitoral brasileiro. Tentaram promover uma desconfiança no sistema eleitoral brasileiro dizendo que “as urnas não funcionam, a eleição vai ser fraudada, Bolsonaro não venceu”.
Isso foi a primeira etapa. As fantasias de conspiração sobre as urnas fraudadas foram divulgadas em muitos canais de grande impacto e com grande volume nos anos e meses antes da eleição de maneira muito estratégica. Portanto, esse discurso criou a realidade para que o golpe pudesse acontecer, para que o 8 de janeiro pudesse acontecer. Essa fantasia se tornou real. Esse discurso anterior criou a base para que isso pudesse ocorrer.
Discursos desse tipo ameaçam a democracia de forma evidente, são discursos que criam desconfiança nas instituições, em um país como o Brasil, onde a democracia não voltou há muito tempo. Isso é muito complexo, porque gerar desconfiança em instituições sólidas que estão em processo de consolidação, na qual o passado não está muito bem resolvido nesse sentido.
O passado da ditadura, do regime ditatorial, não foi tão bem elaborado coletivamente como em outros países na américa latina. Isso ainda é um problema porque leva ao surgimento desses outros movimentos. Esse tipo de discurso por esse motivo ameaça à democracia também porque cria ódio, ressentimento e fomenta violência. Ou seja, as afirmações práticas desembocam na violência contra grupos específicos, como a fomentação da misoginia que atingem as mulheres. O feminicídio no Brasil é altíssimo, a gente sabe. Também atingem pessoas negras, a população LGBTQIA+ e outros.
A ameaça à democracia não é apenas a desconfiança nas instituições, é também o sediamento insinuado dentro do corpo social desse tipo de polarização fundada no ódio pelo outro.
IHU – Uma de suas conclusões é que “a esquerda precisa de um discurso que junte utopia e concretude” de forma coletiva e centrada na ideia do bem comum. Que pautas a esquerda abandonou e como recuperá-las? Qual é o primeiro passo para retomar pautas concretas que visam à democracia e ao bem comum?
Paolo Demuru – Vou começar com duas pautas que foram retomadas pelo campo progressista nesses últimos dois anos. Falo das pautas do trabalho e de identidade nacional que hoje é conhecida como a soberania.
A pauta do trabalho é uma pauta que foi retomada e que a esquerda tinha perdido. Quem falava de trabalho era a direita com o discurso do microempreendedor, sobre o empreendedorismo individual dentro da economia plataformizada. Um discurso que juntava coaching com religião por meio da teoria da prosperidade, onde Pablo Marçal foi o exemplo principal nas eleições de 2024 em São Paulo.
A proposta era: "Você vai conseguir trabalhar sendo o seu próprio patrão". Nesse tipo de imaginário, cada um foca em si mesmo quando, na verdade, os patrões são as plataformas que são controladas e podem fazer o que bem querem e não oferecem nenhum direito trabalhista. Esse discurso se tornou prerrogativa da extrema-direita no mundo inteiro, em consonância com esse discurso coaching da prosperidade que é muito típico do bem-estar nas redes sociais.
No Brasil, com o avanço da pauta pelo fim da escala 6x1 e sua aprovação na Câmara dos Deputados, observaram-se uma importante mobilização pública e uma certa reviravolta no debate político. O trabalho voltou a ocupar um lugar central nas discussões do campo progressista, não apenas por iniciativa de um grupo específico, mas também porque a pauta alcançou um consenso social mais amplo. A repercussão e o apoio expressivo recebidos no debate público, atravessando diferentes setores e segmentos da sociedade, tornaram esse momento particularmente emblemático no que diz respeito ao resgate do trabalho como tema político central.
Trata-se de uma pauta que merece ser discutida com mais profundidade. Um dos seus aspectos mais relevantes é que ela associa o trabalho não apenas à produção econômica, mas também à vida, ao tempo livre e ao descanso. Em outras palavras, propõe uma concepção distinta de prosperidade, na qual a qualidade de vida e o bem-estar passam a ser considerados elementos fundamentais, e não apenas o trabalho em si.
Outra pauta importante é a da identidade nacional que, no Brasil, especialmente a partir de 2013, foi cooptada pela extrema-direita e por seus discursos. Recentemente, esse tema voltou a emergir também no campo progressista, sobretudo após o primeiro tarifaço de Trump, no início do ano. Nesse contexto, a defesa da soberania nacional passou a se tornar um dos pilares do discurso lulista e do governo Lula.
Claro que houve uma contingência específica que permitiu esse movimento. O próprio tarifaço contribuiu para recolocar a questão nacional em evidência, assim como as manifestações políticas que produziram uma cena bastante simbólica: de um lado, setores do campo bolsonarista foram às ruas com bandeiras dos Estados Unidos; de outro, setores do campo progressista e governista ocuparam as ruas com bandeiras do Brasil, reivindicando a defesa da soberania nacional.
Agora, será interessante observar o que acontecerá durante a Copa do Mundo. Alguns movimentos já em curso apontam para questões preocupantes nesse campo, mas é justamente nesse contexto que poderão surgir transversalidades importantes para análise. Trata-se de um processo que merece ser acompanhado com atenção.
O fato é que esses dois temas – o trabalho e a identidade nacional – voltaram a ser disputados pelo campo progressista, deixando de ser pautas mobilizadas exclusivamente pela extrema-direita.
Por outro lado, existem pelo menos duas pautas que o campo progressista ainda não tem conseguido trabalhar de forma eficaz. A primeira é a segurança pública, articulada a diversas outras questões sociais. A segunda é a questão do dinheiro, da prosperidade e das condições materiais de vida.
Dinheiro e prosperidade constituem um tema sensível. Falamos anteriormente do endividamento, do parcelamento constante e das lógicas do mercado de crédito e dos juros no Brasil, que frequentemente empurram as pessoas para ciclos de dívida que tendem a se retroalimentar. São questões centrais na experiência cotidiana da população que precisariam ser abordadas de maneira muito mais profunda e consistente no debate público.
Muitas vezes existe um receio de enfrentar determinados temas. Surge a ideia de que “não vou falar sobre segurança pública porque essa é uma batalha perdida”. No entanto, nem sempre o silêncio é a melhor estratégia. Em muitos casos, deixar de disputar um tema significa permitir que outros atores ocupem esse espaço e definam sozinhos os sentidos que vão ocupar o espaço público.
IHU – A extrema-direita tem apresentado pautas que favoreçam o bem comum? Quais?
Paolo Demuru – É uma pauta muito difícil porque normalmente não há. O bem comum na perspectiva da extrema-direita é de fato a defesa do patriotismo. A ideia de pátria, a ideia de comunidade interligada à extrema-direita está ligada à ideia de imaginário patriótico. E, de uma maneira muito disfarçada, com um discurso muito bem construído, está a defesa de interesses que são interesses específicos, não interesses da coletividade nacional.
Então, me fez lembrar da famosa expressão do 'cidadão de bem', da família. Nesse caso, o bem comum é a família, mas a família tradicional como a gente bem sabe. A família que extrapola esse modelo construído por homem, mulher e filhos, muito bem consolidado no discurso político da extrema-direita, não apenas no Brasil, se torna desviante.
A ideia de pátria do bem comum se restringe ao cidadão de bem, à família, à comunidade religiosa, mas sempre com a perspectiva de uma ameaça do outro que vem ameaçar, que constitui uma ameaça e que precisa ser olhado com desconfiança.
Bens comuns como a água, a luz e outros não entram muito no discurso da extrema-direita. Uma das principais ações dela é a vontade de privatizar esses bens, como fez Tarcísio em São Paulo. Mas não entra muito no bem comum; é um discurso que talvez o próprio campo progressista precise resgatar e se inserir, por exemplo, nas pautas ambientais.
Podemos encerrar por aqui, pois me parece que o discurso de bem comum da extrema-direita está mais pautado nas ideias de pátria e família. No entanto, trata-se de uma concepção de pátria e família que, no fundo, é restrita.
O problema é que, no Brasil, esse discurso costuma operar por meio de categorias amplas e ambíguas que aparentam abarcar toda a população. Porém, quando observamos a formulação de políticas públicas ou mesmo as especificações discursivas, percebemos que os interesses coletivos defendidos são mais particulares e direcionados. Da mesma forma, a figura do “cidadão de bem”, frequentemente apresentada como universal, acaba sendo associada a determinados marcadores sociais, como ser branco, heterossexual, entre outros.
IHU – Como avalia a proposta do fim da escala 6x1 e o debate sobre o tema? Projetos como este podem fortalecer os movimentos de esquerda?
Paolo Demuru – Podem e mostram uma capacidade de construir discursos muito mais eficazes para construir conceitos que precisamos. Acho que a escala 6x1 foi um exemplo muito interessante, emblemático de como fazer isso, a partir da perspectiva do campo progressista. Isso foi feito justamente porque o slogan do campo progressista não é um slogan apenas contra a escala 6x1. Mas sim algo afirmativo de uma vida para alguma coisa. No caso, vida além do trabalho. Esse slogan é bastante interessante nesse sentido justamente porque ele não coloca o discurso da escala 6x1 não apenas contra essa escala, mas a favor de algo.
Essa é uma mudança de perspectiva muito potente porque o discurso do campo progressista é, em geral, um discurso apenas reativo. Temos o exemplo das campanhas “Ele não” e “Sem anistia” que são discursos que negam apenas em vez de afirmar. A escala 6x1 traz um discurso que, pela primeira vez, foi capaz de afirmar, com vida além do trabalho. Não é um discurso que opõe vida ao trabalho, dizendo que não queremos trabalhar porque estamos cansados, enfim. A proposta fala que queremos trabalhar menos para termos direito de viver mais e passar muito mais tempo com nossas famílias.
Outro tema que está sendo recuperado pelo campo progressista é a família.
São discursos muito poderosos nesse sentido, porque não estabelecem uma oposição entre vida e trabalho. Não se trata de rejeitar o trabalho, como sugere frequentemente o discurso da extrema-direita ao afirmar que os “vagabundos não querem trabalhar”. A questão não é essa. O que se reivindica é o direito de trabalhar menos para viver mais. E esse viver mais significa poder passar mais tempo com os filhos, com a família e com os amigos; significa também ter tempo para descansar, porque o descanso é um direito e uma necessidade. Em outras palavras, trata-se de defender uma vida que não seja inteiramente subordinada ao trabalho.
E esse discurso se opõe, por exemplo, aos donos das plataformas, que defendem que todo mundo deveria trabalhar 50 horas semanais e que só o trabalho dignifica a pessoa. Diferentemente disso, o que a escala 6x1 diz é que precisamos viver além de trabalhar e isso é muito poderoso. É um discurso que junta utopia e concretude porque oferece um outro mundo possível, onde as relações familiares são outras, um mundo com mais calma e mais tempo para viver a partir de algo muito concreto: a diminuição da jornada de trabalho.
Zohran Mamdani faz algo parecido em Nova York. Sua estratégia consistiu em oferecer sonhos por meio de pautas extremamente concretas: mercados públicos com preços controlados, ônibus com tarifa zero, maior acesso à cidade e outras ações. Essas medidas significam mais dinheiro disponível, mais mobilidade e mais oportunidades de se divertir. Em outras palavras, elas não representam apenas políticas públicas; representam uma visão de futuro, ou seja, é um sonho, não é qualquer coisa.
É um sonho muito potente, mas que se constrói a partir da concretude. Não é um sonho abstrato. E aqui há um problema recorrente em certos discursos políticos, algo que considero importante enfatizar. Um exemplo foi a campanha de Kamala Harris, marcada por slogans como “precisamos salvar a democracia” ou pela ideia de que “Trump representa uma ameaça à democracia”. O povo não sabe o que é democracia, que é um conceito abstrato totalmente fora e alheio a vida cotidiana. Ninguém se importa com a defesa da democracia pela democracia.
A democracia precisa se consolidar de maneira concreta, tendo acesso à cidade, como diz Mamdani, tendo dinheiro para se fazer outras coisas além de trabalhar. É assim que se defende a democracia, construindo um discurso realmente amplo, pluralista, em uma nação que seja realmente para todos, sem ódio. É assim que se constrói uma ideia de democracia, não a partir da democracia, do conceito vazio de democracia da ciência política. Ninguém vai entender isso.
Então, a utopia e a concretude vão nesse sentido. A Escala 6x1 junta utopia e concretude de uma maneira muito eficaz. Vida além do trabalho, o sonho de uma outra vida, mas não é além desse mundo, mas nesse mundo e encarna nesse espaço. É uma coisa que vai combater a sobrecarga de trabalho, que leva à depressão das pessoas.
IHU – Se a política é movida por desejos e o combate à extrema-direita precisa envolver novos sonhos, como as mobilizações políticas no campo progressista podem agir para abarcar esse desejo e conquistar as eleições?
Paolo Demuru – Tudo o que falamos até agora mostra como a política é movida por desejos. A partir do que discutimos sobre o avanço da escala 6x1, o campo progressista precisa investir mais nessa junção de utopia e concretude para dar outras visões de mundos e construir consensos mais altos. O tema da escala 6x1 foi um exemplo emblemático, bem significativo, porque foi uma pauta transversal e se construiu um consenso transversal.
Mas há outras, como a pauta do futuro, por exemplo, pensando na geração Z, na geração alfa e outras gerações que fazem parte do debate público, mas muitas vezes não são contempladas ou não se sentem contempladas. O desespero e a angústia dessas gerações com relação ao futuro que parece só ser crítico geram preocupações com as crises ambientais: se vou ter dinheiro para viver ou vou conseguir um trabalho depois da faculdade. Precisamos construir outros tipos de narrativas que sejam mais amplas e capazes de ir além disso.
Há pessoas que têm feito isso muito bem. Com relação à geração Z no campo progressista, posso citar o caso do Guilherme Cortez, que é hoje deputado estadual em São Paulo, mas é pré-candidato a deputado federal. O seu discurso é muito focado na geração Z, por exemplo, sobre como essa necessidade de um futuro melhor, onde os bens comuns como a água sejam para todos e o direito à educação pública de qualidade seja central.
O direito de sonhar com novos futuros em uma cidade mais acessível tem funcionado muito bem. O caso Guilherme Cortez é um exemplo no campo da esquerda, progressista, mas, por outro lado, o Renan Santos, no campo da direita, faz um discurso parecido que é muito tópico. O partido de Renan se chama Missão, trazendo uma ideia de patriotismo, de uma projeção futura e de pertencimento.
Estamos no meio dessa disputa e assistindo algo muito interessante no campo da comunicação política, nesse sentido de disputar sonhos, principalmente com as gerações mais novas. Acho isso muito interessante, porque nesses dois exemplos que dei a disputa ocorre pelos sonhos, pela construção de um imaginário outro, mais utópico, imaginativo e coletivo.
Enquanto o discurso do campo da extrema-direita foca mais no sucesso individual, na narrativa de superação individualista, do outro lado está sendo construído um discurso que é mais coletivo.
IHU – O que iniciativas como as do movimento Mulheres Vivas ensinam sobre a importância da organização coletiva? Quais são os principais desafios para ampliar a participação social e fortalecer as mobilizações democráticas?
Paolo Demuru – Trago essa discussão para meu campo de estudos e mostro que a questão é importante não apenas pela comunicação política, mas também a partir da organização política e da prefiguração de outros cenários possíveis.
Quando vi o slogan Mulheres Vivas, escrevi sobre isso e destaquei como não era apenas um slogan negativo contra o feminicídio, mas um slogan positivo. Mulheres vivas não apenas no sentido literal em primeiro lugar, mas claramente Mulheres Vivas no próprio termo vivas, evoca outro tipo de vidas, outro tipo de vitalidade. É uma necessidade de que as mulheres estejam cada vez mais vivas no debate público, cada vez mais vivas nos cargos de poder público, por exemplo, onde elas ocupam ainda pouquíssimo espaço.
Na perspectiva das mulheres, temas como o da segurança pública serão abordados de outra forma, não apenas por repressões com ações policiais, mas também a partir de outros nortes, como o cuidado coletivo. O termo Viva aqui diz respeito exatamente a isso.
Tem um caso interessante das mulheres que estão concorrendo ao Senado no campo progressista. Manuela D'Ávila, Áurea Carolina, Marina Silva, Mônica Benício e outros exemplos de candidatas, nos últimos tempos percebo que elas têm feito até uma comunicação conjunta, mostrando como há uma necessidade de organização coletiva e como as mulheres podem oferecer uma outra política possível.
Isso se faz a partir também da construção de discurso, da construção de expressão, de fantasias que não são apenas fantasias, que têm impacto concreto. Então, é algo que serve também para fortalecer a democracia a partir das concretudes, não a partir do momento.
Precisamos dessas articulações, fundamentalmente de caráter discursivo, narrativo, construção de histórias conjuntas que criem essa ideia de coletividade em nossas cidades numa coletividade de uma mudança possível e concreta que pode acontecer no Brasil.
IHU – Fale um pouco sobre seu livro “Políticas do encanto: extrema direita e fantasias da conspiração”. Quais os principais pontos analisados através da semiótica?
Paolo Demuru – Fora o que já falamos anteriormente, o que falo no livro é da necessidade de contradiscurso a esse discurso encantador da extrema-direita. Não podemos apenas focar na construção e divulgação dos dados de raciocínio lógico ou na negação do discurso do outro. Houve o caso típico, por exemplo, do discurso antivacina em que afirmaram que a vacina causava autismo e respondemos que “não é verdade que a vacina vai causar autismo”, ou no exemplo em que respondemos diretamente sobre as eleições com um “não é verdade que as urnas foram fraudadas”.
Muitas vezes, o campo progressista respondeu com esse tipo de discurso, mas ele não é eficaz, inclusive tem estudos sobre isso. Tal discurso é eficaz apenas em certos contextos midiáticos ou apenas em alguns contextos internacionais. Mas, de modo geral, como estratégia, principalmente na esfera das medidas digitais contemporâneas, não tem sido muito eficaz, porque a verdade circula muito menos, enquanto o discurso falso circula muito mais. Os estudos também demonstram isso.
Acabou de ser traduzido no Brasil e publicado pela editora Fósforo, o livro clássico de George Lakoff intitulado Não pense num elefante: entenda seus valores e aprenda a enquadrar o debate, que fala exatamente disso. A obra traz a reflexão que se você falar com uma pessoa e dizer para ela não pensar em um elefante a primeira coisa que a pessoa vai pensar é no elefante.
Então, se você não quer anistia, talvez não seja o caso de falar sem anistia. Não digo que possa ser sempre ineficaz, mas, de modo geral, além de negar, é preciso afirmar. O que defendo no livro é a necessidade de afirmar, além de negar, e pautas como a vida além do trabalho trazem isso.