16 Junho 2026
"O lulismo é um modelo de gestão do Estado. Ele não é um projeto de sociedade, é um modelo de gestão do Estado."
O artigo é de Rudá Ricci, sociólogo, com larga experiência em educação e gestão participativa, diretor do Instituto Cultiva, publicado por Outras Palavras, 15-06-2026.
Eis o artigo.
Nos anos eleitorais, apelo às políticas sociais ganha relevo. Em seguida, desaparecem o diálogo e a mobilização das bases. Em especial no terceiro governo, Lula limita disputa ao campo que o governo desenha para si – e recusa-se a construir um projeto de país.
Num dos grupos de WhatsApp que participo, surgiu a pergunta sobre os motivos da esquerda latinoamericana vencer, mas não conseguir governar.
Veio à memória um artigo escrito por Jorge Castañeda, publicado na revista Foreign Affairs em 2006 sob o título “A Virada à esquerda da América Latina”, sugerindo que a lógica da esquerda regional oscilar entre o pragmatismo institucional e o radicalismo vanguardista. Ambos transitariam sobre a vertente discursiva do antagonismo entre elites e povo. Aliás, estes dois conceitos (elite e povo) são mais afetos ao campo teórico liberal progressista que propriamente às teorias clássicas de esquerda, como o marxismo.
Assim, o getulismo e peronismo dariam lugar a um certo populismo em que parte da esquerda teria embarcado e que derivaria, nos anos de crise aberta pela adoção de políticas alinhadas ao Consenso de Washington, à renovação deste ideário em vários países da América Latina.
Na outra ponta, o exemplo castrista cubano e as vanguardas organizadas em organizações guerrilheiras teriam criado braços partidários de massa.
Essas esquerdas governaram por algum tempo com certa estabilidade – caso da Bolívia e Venezuela, em especial. Na Argentina e Equador, assim como na Nicarágua, os destinos foram mais agudos e trágicos.
Contudo, no Brasil, o advento do lulismo foi mais complexo, além de ter elegido cinco Presidentes da República neste século, foi o mais longevo modelo de gestão de Estado do campo progressista latino-americano. Suas peculiaridades sugerem um detalhamento.
O lulismo é um modelo de gestão do Estado. Ele não é um projeto de sociedade, é um modelo de gestão do Estado.
Um modelo que tem traços nítidos do que o Norberto Bobbio um dia denominou de social-liberalismo, reconhecido como um ideário com forte preocupação com a agenda social e com a inclusão, desde que subordinadas aos interesses e ao acordo com o alto empresariado nacional. O que, na prática, avança até certo ponto.
A pauta social do lulismo é muito peculiar, porque ela adota nítidos traços de populismo eleitoral. Esses traços foram se consolidando a partir da segunda metade da década de 1990, quando o partido de Lula decide focar sua atenção nas disputas do campo institucional, e se cristaliza com a vitória eleitoral de Lula em 2002.
Atualmente, esta lógica parece revigorada, às portas da eleição nacional que pode dar a reeleição de Lula. Cito, como mera ilustração, o programa Desenrola 2, que objetiva auxiliar na superação das dívidas das famílias brasileiras. O Novo Desenrola Brasil (Desenrola 2.0) impacta a economia ao oferecer descontos de até 90%, juros máximos de 1,99% ao mês e parcelamento em até 48 vezes para pessoas físicas com renda de até 5 salários-mínimos. As projeções de economistas dão conta que este programa tem potencial para adicionar entre 0,15 pontos percentuais e 0,25 pontos percentuais no crescimento do PIB.
Pesquisas recentes, como as do Datafolha, revelaram que este programa recebeu apoio amplo mesmo entre eleitores que não aprovam o governo, sendo que 68% dos endividados dizem esperar benefício pessoal. Entre os brasileiros sem dívidas, 39% dizem acreditar que também podem obter algum ganho pessoal com a medida, enquanto 73% enxergam impacto favorável para a economia.
Enfim, a adoção deste programa segue a rota de anúncios que melhoram a imagem do governo neste ano eleitoral. Neste caso, os traços de populismo eleitoral não mobilizam ou articulam as organizações populares para trazer seus interesses e pautas para dentro do Estado, algo que ainda aparecia nos primeiros dois governos de Lula (2003 a 2006 e 2007 a 2010).
Na terceira versão do governo Lula, essas arenas neocorporativas onde movimentos sociais e sindicatos negociam políticas públicas federais, se diluíram ou desapareceram.
Neste sentido, seria o caso de definirmos se o lulismo é realmente representante das esquerdas latinoamericanas. Porque se trata de um ideário político que efetivamente governa. Não se trata de uma força que ganha eleição e não consegue governar por pressões de todos os lados. Na sua quinta versão, o lulismo no governo tem poder. Porque se trata de uma simbiose entre um ideário de avanço social no país e fomento à incursão nacional num projeto mais amplo de pós-modernidade. Talvez daí venha a longevidade do lulismo. Não rompe, mas não se acomoda plenamente ao status quo. Algo que já se disse parecer com o Carnaval brasileiro que “transgride dentro da ordem”.
Assim, em anos eleitorais o populismo das políticas sociais ganham relevo no discurso lulista, dando a impressão de se inclinar mais à esquerda. Contudo, analisando com mais profundidade, trata-se de uma agenda que se subordina aos interesses do grande capital. O grande capital que, paradoxalmente, o lulismo tenta acanhadamente se aproximar, mas é sempre rejeitado por ele, a despeito de movimentos bissextos como na articulação de resposta ao tarifaço decretado por Trump.
O que parece um ideário é uma nexo ao modelo de gestão do Estado lulista: não projeta uma nação, um país, mas alinha políticas sociais de alto impacto eleitoral.
No debate que se seguiu no grupo de WhatsApp, o baiano André Bittencourt citou três autores que contribuiriam neste diagnóstico.
Citou a socióloga argentina Maristella Svampa que descreve em escala regional o que denomina de “consenso das commodities”. Na sua leitura, a ordem política, econômica e ideológica adotada na América Latina durante o boom das matérias-primas, consolidou um modelo de desenvolvimento neoextrativista e de exportação de bens primários em larga escala. Os progressismos, nas suas palavras, pactuaram com o grande capital, financiaram a inclusão com a renda do boom e distribuíram sem tocar na estrutura, até o fim de ciclo. Acontece que tal pacto criou contradições que permanecem, como os conflitos territoriais e ambientais que acabam por gerar discursos e práticas desencontradas dos governos de esquerda ou no governo lulista.
André também cita Massimo Modonesi, da Universidade Nacional Autônoma do México, denominou de revoluções passivas, ou seja, o desaparecimento do “recurso político fundamental para a história das classes subalternas: a iniciativa dos de baixo, a capacidade de organização, de mobilização e de luta”. A iniciativa viria desde cima, dos governos, que acaba por criar uma hegemonia débil e instável. Na ânsia de garantir margem de manobra para governar, as cúpulas – ou elites – partidárias das esquerdas ou lulismo limite qualquer movimento de participação ou “formação de poder popular ou de contrapoderes pelos de baixo”.
Neste caso, o lulismo teria dificuldades para governar ou governa como realmente deseja? Os solavancos e disputas que travam seus projetos no Congresso Nacional conformariam um recuo programático do lulismo no governo ou seria justamente a lógica de disputa limitada ao campo institucional que desenhou para si?
Porque sem relações fluidas e intensas com a base social que o elege, o período seguinte às eleições passa a ser o de apresentação de agendas negociadas com forças políticas não alinhadas, acenos ao empresariado, controle dos gastos públicos, acenos ao empresariado com controle inflacionário e política fiscal. É como se a aparente tática de negociação permanente fosse mesmo a estratégia.
Neste caso, as tensões, agruras e jogadas de xadrez diárias seriam o “leitmotiv” da ordem lulista.
Enfim, trata-se de uma ordem política, social e econômica. Não é um projeto de sociedade, mas uma forma de gerir o Estado. Talvez, daí venha sua longevidade.
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