14 Março 2026
O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
O artigo é de Fernando Nogueira da Costa, professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP), publicado por A Terra é Redonda, 12-03-2026.
Eis o artigo.
Vou contrastar o lulismo 2003–2010 com o de 2023–2026, além de o confrontar com o discurso econômico do bolsonarismo. Vou abrir as duas trilhas com foco explícito na “gramática política” – não só em resultados socioeconômicos.
Na comparação entre os lulismos, ambos adotam a mesma política social ativa, mas com outra gramática. No lulismo 2003–2010, a gramática era da ascensão. Não era só crescimento com inclusão. Era uma narrativa de passagem de classe ou mobilidade social.
A estrutura discursiva era “ontem tinha exclusão, fome, invisibilidade, hoje tem emprego, consumo, carteira assinada, amanhã terá classe média de renda, diploma universitário, casa própria, viagem de avião”. Os elementos-chave dessa gramática era emprego formal como eixo organizador da vida, crédito como ponte para o futuro (não como armadilha), consumo popular como sinal de dignidade, Estado como alavanca, não como “socorro”.
O Bolsa Família funcionava como porta de entrada, não como destino. O subtexto era “você está subindo junto com o país”. Isso criava lealdade política, não apenas aprovação administrativa.
No lulismo 2023–2026, a gramática é da recomposição. Agora, o ponto de partida foi outro: terra arrasada e mundo pior. Estrutura discursiva atual é “ontem, no período 2019-2022, tinha destruição institucional, fome, caos, hoje tem reconstrução, normalização, credibilidade, amanhã…” Está indefinido ou técnico demais.
O problema da gramática atual está na ênfase em responsabilidade fiscal, reconstrução institucional, diálogo com o mercado. Trata-se de uma linguagem de contenção, não de transformação.
Mesmo quando os resultados são bons com queda do desemprego, crescimento do PIB acima do esperado, inflação abaixo do teto da meta irrealista, redução da pobreza e da desigualdade, tudo isso não vira narrativa mobilizadora. O subtexto percebido por muitos é “o governo está evitando o pior” – e não “o país está indo para algum lugar”.
Resumo do Contraste
Em contraste com o discurso econômico do bolsonarismo está o ponto decisivo. O bolsonarismo é capaz de iludir muitos mesmo sem entregar economia, porque entrega sentido. A economia no bolsonarismo é secundária. Ela não organiza o discurso. Ela é subordinada a três eixos morais: ordem, costumes, identidade.
O discurso implícito é “pode estar difícil, mas agora com a extrema direita o país tem valores.” A gramática bolsonarista, mesmo sendo contraditória e simplória, é clara. “O Estado é inimigo (exceto polícia e militares)”. “A inflação não é culpa do governo, é importada do mundo”. “A pobreza é resultado de preguiça ou corrupção passada”. “O mercado é moralmente superior”.
O sofrimento vira prova de caráter. A economia vira um rito de sacrifício moral: “estamos sofrendo hoje para salvar o país”.
Por qual razão isso poderá colar na mente de quase metade do eleitorado, mesmo com maus resultados econômicos e sociais? Porque oferece culpados claros (esquerda, STF, imprensa, minorias), simplifica o mundo, transforma frustração material em identidade moral.
Enquanto a direita discursa com esses maus modos, a esquerda responde com dados, séries históricas e explicações estruturais. São verdadeiras, mas frias para cativar um eleitorado em busca de esperança.
O ponto cego atual da esquerda, inclusive lulista, é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”.
Sem uma “gramática de futuro”, o conservadorismo preenche o vazio, a pauta moral domina e os resultados econômicos viram detalhe técnico.
Em uma síntese dura, mas honesta, para a esquerda preparar um novo discurso eleitoral, deve considerar o seguinte. O lulismo clássico organizava esperança material. O lulismo atual organiza contenção institucional. O bolsonarismo organiza sentido moral, mesmo no desastre.
Em política eleitoral, não se vence só com bons resultados econômicos e sociais. Vence-se quando esses resultados fazem parte de uma história compartilhada.
O significado de “traduzir política econômica em linguagem de dignidade” não é mudar o conteúdo da política. É mudar o regime de sentido no qual ela é apresentada, vivida e reconhecida.
Em vez de política como correção técnica de falhas, o desafio é passar a política como restituição de valor social às pessoas comuns. Isso se faz em cinco movimentos combinados.
O primeiro é nomear o sofrimento como injustiça, não como vulnerabilidade. O segundo passo é mostrar a política como reconhecimento, não como favor. Terceiro movimento é conectar economia ao cotidiano moral das pessoas. Quarto movimento é devolver agência sem culpar o indivíduo.
Por fim, cabe usar uma gramática de pertencimento, não de polarização abstrata. A linguagem tecnocrática fala em eficiência, equilíbrio, credibilidade. A linguagem de dignidade fala em pertencer ao país, ser respeitado como trabalhador, ter futuro aqui.
Não é moralismo conservador. É moralidade cívica. Dignidade é sentir “este país foi feito também para gente como eu”.
Portanto, traduzir política econômica em linguagem de dignidade é: trocar pena por respeito; trocar número por experiência; trocar favor por reconhecimento; trocar gestão por sentido coletivo. Onde a política econômica devolve nome, valor e pertencimento, ela deixa de ser técnica distante e passa a ser experiência compartilhada de justiça.
A esquerda defende, corretamente, direitos. Porém, está com dificuldade de reconstruir uma narrativa integradora, capaz de unir classes, regiões e culturas em um futuro planejado e compartilhado com esperança de todos os eleitores.
Para a esquerda recuperar essa gramática não se trata de apenas repetir o desenvolvimentismo de outrora. É atualizar a lógica de pertencimento: a necessidade emocional e psicológica humana de se sentir parte integrante, aceito e valorizado em um grupo, ambiente ou comunidade, como família, amigos ou trabalho. No caso, em uma comunidade nacional.
Deve voltar a falar de futuro, não só de proteção. Transição energética pode ser apresentada como projeto nacional. Infraestrutura social (cuidados com idosos, saúde, educação) ser visto como motor econômico. Tecnologia e Inteligência artificial serem parte de política pública, não só iniciativas de mercado. Não é “gasto social”, é investimento civilizatório. Política deve ser apresentada como é: ação coletiva.
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