Um cristianismo com muitos rostos, mas um único centro. Artigo de Ivanis Tiburcio

Papa Leão XIV participando de um encontro ecumênico e inter-religioso de oração pela paz no Coliseu, em Roma. (Foto: Vatican Media)

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04 Setembro 2026

"Talvez seja necessário deixar de perguntar somente 'qual Igreja está certa?' e perguntar também: 'o que podemos aprender com a existência de tantas experiências cristãs?'", escreve Ivanis Tiburcio.

Ivanis Tiburcio vem construindo sua trajetória acadêmica a partir da formação filosófica na Faculdade Paulus de Comunicação e Tecnologia (FAPCOM) e do bacharelado em Teologia pela Faculdade Católica Paulista (FACAP). Apaixonado pela Igreja, pela Filosofia e pela Teologia, dedica seus estudos especialmente à Eclesiologia e à Liturgia, com particular interesse no diálogo entre a tradição cristã e a contemporaneidade.

Eis o artigo.

O cristianismo atravessa profundas transformações no mundo contemporâneo. Em diferentes regiões, especialmente na Europa, antigas formas de pertença religiosa perdem força, enquanto novas expressões de fé e diferentes configurações eclesiais continuam surgindo. Diante desse cenário, esta reflexão parte de uma pergunta: o que a atual crise do cristianismo pode nos ensinar sobre sua capacidade de permanecer vivo quando assume diferentes rostos culturais e históricos?

Durante séculos, o cristianismo esteve profundamente ligado à cultura europeia. Igrejas, liturgia, arte, teologia e instituições contribuíram para a formação da identidade do continente. Hoje, porém, o cenário é diferente: diminui a identificação religiosa, muitos templos estão vazios e antigos espaços de culto passam a ter outras funções. Esses sinais não significam simplesmente o desaparecimento da fé, mas revelam uma transformação profunda na relação das pessoas com a religião e com suas instituições.

Surge, então, uma questão: até que ponto a crise de determinados modelos eclesiais está relacionada à dificuldade de dialogar com uma sociedade que mudou? Questionar o modelo europeu não significa rejeitar a tradição. A tradição é memória e identidade. O desafio está em não confundir uma determinada forma histórica e cultural de viver a fé com a própria essência do cristianismo.

A América Latina apresenta outra experiência. Sua religiosidade popular, suas procissões, músicas, devoções e formas comunitárias de celebração revelam que a fé cristã pode adquirir diferentes expressões culturais. O próprio Papa Francisco reconheceu a importância da inculturação e da religiosidade popular como formas pelas quais a fé recebida se encarna na cultura dos povos. Ao mesmo tempo, também o continente enfrenta mudanças profundas, inclusive com a redução da identificação católica.

É nesse cenário que as igrejas evangélicas e as tradições protestantes precisam ser observadas com atenção. No Brasil, elas constituem uma presença cada vez mais visível na sociedade e oferecem formas próprias de viver a fé: comunidades mais próximas, forte participação dos leigos, música, pregação, pequenos grupos, ação social e uma linguagem muitas vezes mais diretamente conectada ao cotidiano das pessoas. Os dados mais recentes mostram que os protestantes são o segundo maior grupo religioso no Brasil e que o país apresenta um ganho expressivo de pessoas que passaram a se identificar com o protestantismo.

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Esse fenômeno não precisa ser interpretado simplesmente como uma ameaça ao catolicismo. Pode também ser compreendido como um sinal para o cristianismo brasileiro. Essas comunidades demonstram que a fé pode assumir novas linguagens, formas de participação e maneiras de estabelecer vínculos comunitários. Reconhecer isso não significa ignorar seus limites ou diferenças teológicas, mas admitir que também há algo a aprender com aquilo que tem alcançado pessoas em nossa realidade.

Nesse contexto, os pontificados de Francisco e Leão XIV tornam-se significativos. Francisco, argentino, foi o primeiro papa proveniente das Américas. Leão XIV, nascido nos Estados Unidos, possui uma trajetória profundamente marcada por sua atuação e pastoreio no Peru, onde exerceu grande parte de seu ministério. Mais do que classificá-los, importa perceber como experiências não europeias passaram a ocupar lugar cada vez mais relevante na compreensão da Igreja universal.

Essa percepção conduz ao encontro com outras tradições cristãs. Anglicanismo, veterocatolicismo, ortodoxia, Igrejas Católicas nacionais e independentes e diferentes tradições protestantes não precisam ser observados somente como resultado de rupturas. Cada uma delas também preservou elementos da tradição, desenvolveu formas próprias de missão e respondeu, em diferentes contextos, às necessidades de seu tempo.

Isso não significa negar as diferenças teológicas e eclesiológicas existentes. Significa perguntar o que cada tradição conservou, transformou e pode oferecer ao cristianismo contemporâneo. A permanência histórica dessas comunidades não prova, por si só, sua origem divina ou sua plena legitimidade. Entretanto, sua perseverança, seus frutos e seu serviço podem ser objeto de discernimento.

É nesse ponto que o ecumenismo ganha novo significado. Talvez seja necessário ultrapassar um ecumenismo limitado ao diálogo institucional e buscar uma comunhão mais concreta na oração, no serviço e na missão. Reconhecer aquilo que une os cristãos não exige apagar aquilo que os diferencia. Unidade não precisa significar uniformidade.

A experiência de Dom Carlos Duarte Costa e a fundação da Igreja Católica Apostólica Brasileira também levantam questões sobre autoridade, identidade nacional, tradição e sucessão apostólica. Mais do que reduzir sua trajetória à categoria de ruptura, é possível perguntar o que sua experiência revela sobre a tentativa de expressar a fé católica a partir da realidade brasileira. O mesmo olhar pode ser aplicado ao anglicanismo e ao veterocatolicismo: tradições diferentes, com histórias próprias, mas que também procuram manter elementos da tradição cristã e responder aos desafios de seus contextos.

A sucessão apostólica, nesse sentido, não deveria ser apenas objeto de disputa sobre legitimidade. Se ela representa continuidade da missão apostólica, precisamos perguntar: o que estamos fazendo com aquilo que recebemos? A sucessão ganha sentido quando se transforma em serviço, testemunho, evangelização e compromisso com o Evangelho.

Por isso, esta reflexão não pretende determinar qual tradição possui a resposta definitiva. Propõe, antes, uma mudança de pergunta. Talvez seja necessário deixar de perguntar somente “qual Igreja está certa?” e perguntar também: “o que podemos aprender com a existência de tantas experiências cristãs?”

As divisões históricas permanecem como feridas no cristianismo, mas a diversidade também revela sua capacidade de atravessar culturas, conflitos e transformações sem desaparecer. Talvez Deus não precise das nossas divisões, mas também não abandone seus filhos por causa delas.

O futuro do cristianismo talvez não esteja na defesa de um único rosto, mas na capacidade de reconhecer que a Igreja sempre possuiu muitos rostos: europeu, latino-americano, africano, asiático, romano, ortodoxo, anglicano, veterocatólico, protestante e tantos outros.

Rostos diferentes, histórias diferentes e caminhos diferentes, mas diante de uma mesma pergunta: como anunciar Cristo de maneira significativa ao ser humano do nosso tempo?

Talvez não tenhamos todas as respostas. Mas talvez o primeiro passo seja reconhecer que precisamos fazer novas perguntas.

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