Jesus está vivo e presente no meio de sua comunidade de irmãos e irmãs

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04 Setembro 2026

  • A quase certeza de que sua mensagem não será ouvida pode levar o profeta a permanecer em silêncio. Deus quer que o povo saiba que Ele não se calou e, portanto, exige que o profeta continue a advertir, pois, caso contrário, ele será responsável pela falha do povo em se converter.

  • Em um contexto prático, Paulo resume toda a carta – na qual ele confrontou a lei – afirmando que tudo se completa no amor ao próximo, no qual toda a lei atinge sua plenitude. 

  • Mateus destaca dois elementos da vida comunitária: um relacionado ao irmão que peca e à atitude a ser tomada para com ele, para a qual é necessário procurar "ganhá-lo como irmão"; e o outro, o do pequeno grupo que se reúne "em meu nome", com a presença de Jesus em seu meio.

O comentário é de Eduardo de la Serna, comentando o evangelho do 23° Domingo do Tempo Comum A, publicado por Religión Digital, 02-09-2026.

Leitura de Ezequiel 33,7-9

Resumo: A quase certeza de que o profeta não será ouvido pode tentá-lo a permanecer em silêncio. Deus quer que o povo saiba que Ele não se calou e, portanto, exige que o profeta continue a adverti-los, pois, caso contrário, ele será responsável pela falha do povo em se converter.

Ezequiel enfrenta um sério risco em seu ministério profético. Desde o início de seu chamado, ele sabe que provavelmente não será ouvido (2,5, 7; 3,11); que muitos virão ouvi-lo como quem ouve um cantor (33,32), mas não se sentirão compelidos a mudar seu comportamento (3,7) porque sua pregação é dura: “lamentações, gemidos e ais” (2,10). Portanto, faz sentido pregar onde sabemos que não seremos ouvidos? O texto litúrgico de hoje oferece uma resposta a essa tentação do profeta.

O texto é uma repetição idêntica daquele que encontramos no contexto do chamado de Ezequiel (3:17-19).

Deus fala ao seu povo por meio do profeta (2:4), e essa é a responsabilidade de Ezequiel. Observe, aliás, que o texto não diz o que o profeta dirá. Nesse caso, isso não é o importante; o que importa é que o povo saiba que "houve um profeta" (2:5). Em outras palavras, eles não poderão dizer que Deus os ignorou. Deus falou, eles não ouviram. Mas justamente por essa razão, o profeta "deve" falar, porque se não o fizer, parecerá que Deus não falou.

É nesse contexto que a imagem do vigia deve ser compreendida: “quando ouvirdes uma palavra da minha boca” (33,7 // 3,17). Muito provavelmente, o “ímpio” não o ouvirá (o exemplo não faz referência à mudança de comportamento do “ímpio”, algo que parece não ter ocorrido), mas se a persistência na maldade se deve à sua “má conduta”, ele próprio é responsável. Contudo, se ele não mudar de vida porque o profeta permaneceu em silêncio, o profeta também é responsável por não o ter advertido. Por outro lado, se o profeta-vigia se dirigir ao “ímpio”, convidando-o em nome de Deus a mudar de comportamento, ele fica isento de responsabilidade pela falta de conversão, visto que falou de acordo com a sua missão.

Existe, portanto, uma relação entre o profeta e o povo. O profeta é responsável. Ele não é responsável pela resposta, mas é responsável por decidir se deve ou não advertir. “Advertir” é um termo frequente em Ezequiel. O verbo relaciona-se à “interpretação” do profeta (cf. Êxodo 18,20; 2 Reis 6,10; 2 Crônicas 19,10), que o transforma de um mero “porta-voz” em um intérprete da vontade de Deus na história conflituosa do seu povo.

Discernir a vontade de Deus e expressá-la claramente ao povo é a tarefa do profeta, mesmo sabendo com certeza que não será ouvido e que, portanto, "o ímpio" não mudará seu comportamento.

Leitura da carta de São Paulo aos cristãos de Roma 13,8-10

Resumo: Em um contexto prático, Paulo resume toda a carta – na qual ele confrontou a lei – afirmando que tudo se completa no amor ao próximo, no qual toda a lei atinge sua plenitude.

Paulo — como já mencionamos em dias anteriores — apresenta uma série de convites para vivermos de maneira coerente com a pregação do Evangelho. Com algumas exceções, ele o faz recorrendo a elementos que desenvolveu em outras cartas (já que parece não estar muito familiarizado com a realidade da comunidade em Roma, Igreja que ele não fundou).

O imperativo (“dever”) aborda o “amor mútuo” (ver 1 Ts 3,12; 4,9; Gl 5,13), dirigindo-se, portanto, claramente a uma comunidade (e não a um indivíduo). A unidade começa (v. 8) e termina (v. 10) com uma referência ao cumprimento (plêroô / plêrôma) da “lei” (nomos, Gl 5,14; Rm 8,4). Em sua essência, isso é exemplificado pela apresentação de alguns preceitos dessa lei (não cometer adultério, não matar, não roubar, não cobiçar), que se aplicam a todos (e aos outros).

Esse “amor” ao qual somos convidados — seguindo a tradição que remonta a Jesus (cf. Mc 12,28-31) — não se refere aqui ao amor “a Deus”, mas ao “próximo” (v. 9). O termo “próximo” (plêsíon) na Bíblia Hebraica refere-se a um membro da comunidade de Israel (cf. Lv 19). Paulo usa o termo muito raramente (4 vezes, das quais 3 vezes são encontradas neste contexto [Rm 13,9-10; Gl 5,14], a vez restante [15:2] é encontrada no contexto de “edificação” mútua).

Visto que na Bíblia Hebraica “próximo” é sinônimo de “irmão”, é útil examinar em que sentido Paulo usa esse termo, que de fato é frequente em seus escritos (x118). O “irmão” é “aquele por quem Cristo morreu” (Rm 14,13-15). E ele já havia indicado (5,6) que “morreu pelos ímpios”, pelos “pecadores” (5,8), “pelos nossos pecados” (1 Co 15,3), “por todos” (2 Co 5,14). Este próximo, então, refere-se a toda a humanidade e não a um grupo específico.

Este não é o momento para perguntar por que Paulo — o fariseu! — parece omitir o amor a Deus, que certamente não ignora (embora prefira falar do amor “de Deus”, cf. 5,5; 8,39). Para Paulo, a resposta a Deus se manifesta visivelmente no amor ao próximo, no qual toda a lei se cumpre. Em todo caso, observemos: Paulo é mais “cristológico” do que “teológico”; Deus, como um bom judeu, é descoberto e amado na história (tanto humana quanto salvífica). E embora o “amor a Deus” não seja um tema paulino proeminente (mas cf. 1 Coríntios 8,3; Gálatas 4,9) — insistimos, como um bom judeu —, que “conhecer a Deus” o é (conhecer não é algo racional, mas “existencial” e é frequentemente comparado ao “amor”; cf. Romanos 1,21; 10,2; 1 Coríntios 1:21; 2 Coríntios 10,5; Gálatas 4,8…).

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+ Evangelho segundo São Mateus 18:15-20

Resumo: Mateus destaca dois elementos da vida comunitária: um relacionado ao irmão que peca e à atitude que se deve tomar para com ele, buscando "ganhá-lo como irmão"; e o outro, o do pequeno grupo que se reúne "em meu nome", com a presença de Jesus em seu meio.

O capítulo 18 de Mateus é muito importante: apresenta o que poderíamos chamar de “prática eclesiástica”. Convida-nos a refletir sobre como agir dentro da comunidade eclesial. Uma série de passagens destaca isso: ter a atitude de crianças, não causar escândalo, buscar a “ovelha perdida”, etc. Os termos-chave a esse respeito são “pequeninos” (ou “pequenino que crê em mim”): vv. 6, 10, 14 e “irmão” (= membro da comunidade de fé): vv. 15, 21, 35. Ou seja, refere-se à maneira de agir (especialmente por parte daqueles que têm responsabilidade) com os membros da comunidade.

No texto litúrgico encontramos dois textos curtos que aludem a esse comportamento:

A atitude em relação ao “irmão” que “peca” (contra você?, muitos manuscritos importantes dizem isso, mas parece influenciado por Lc 17,4) [vv.15-18].

A oração da comunidade [vv.19-20]

1. A atitude em relação ao pecador parece contradizer a atitude do pastor que deve buscar a ovelha perdida (vv. 12-14). Talvez Mateus queira salientar que ambas as atitudes são necessárias. Em todo caso, a contradição não é absoluta, visto que tanto a ovelha quanto o irmão devem ser buscados.

O tema é característico da Bíblia: visto que o que importa é o “irmão”, ele não deve ser humilhado, sendo necessária, portanto, uma correção pessoal (cf. Levítico 19,17). Se ele persistir, as testemunhas (Deuteronômio 19,15 é citado) atestarão a veracidade do “pecado”. Finalmente, a “igreja” deve atestar o fato [note que aqui e em 16,16 encontramos o termo “igreja” apenas uma vez nos Evangelhos; o contexto é semelhante]. Se ele “chegar a” desafiar a igreja, será considerado “um gentio ou um publicano”.

Observemos, no entanto, alguns elementos importantes:

Mateus não apresenta um “manual metodológico de disciplina”, mas sim os critérios a serem seguidos dentro da comunidade. A ênfase está em “ganhar o teu irmão” (v. 15). O pecado põe em risco a fraternidade, destrói-a. “Ganhar” um irmão significa possibilitar a restauração do relacionamento que constitui o grupo de Jesus (o pedido de perdão continua na unidade seguinte, e reitera-se que o perdão deve sempre ser concedido, vv. 21-35). Com o pecado, o membro da Igreja estava prestes a abandoná-la, e ao “ganhá-lo”, ele é reconduzido a ela.

Reconhecer o “pecador” como um “gentio ou publicano” implica, sem dúvida, saber que tal pessoa está “fora” da comunidade, mas é alguém que deve ser procurado para “entrar” (eles não são membros da comunidade, cf. 5,46.47; mas cf. 9,10; 10,3; 11,19; 21,31; 24,14; 25,32; 28,19).

Com algumas diferenças, os textos encontrados em Qumran são semelhantes a este (embora não incluam "repreensões" privadas):

“Toda transgressão que um homem cometer contra a Lei, e o seu próximo a vir e ele estiver sozinho: se for uma questão capital, a testemunha a relatará na presença do transgressor ao vigia, com repreensão, e o vigia a registrará de próprio punho, até que ele a cometa novamente na presença de apenas uma pessoa [= sem testemunhas], e esta a relate ao vigia; se ele cair pela terceira vez e for flagrado na presença de apenas uma pessoa, seu julgamento estará completo; mas se houver duas testemunhas sobre uma questão, o culpado será separado do alimento puro, contanto que as testemunhas sejam fiéis e que cada uma o relate ao vigia no mesmo dia em que presenciou o ocorrido” (Documento de Damasco 9,17-23).

“O homem deve repreender o seu próximo com verdade, humildade e amor misericordioso pelo homem. Que não fale com o seu irmão com raiva, nem com fofoca, nem com insubordinação, nem com inveja provocada pelo espírito maligno; que não o odeie no seu coração; mas que o repreenda no próprio dia e não incorra em culpa por causa dele. E, além disso, que ninguém apresente uma acusação contra o seu próximo perante a Comunidade, a menos que seja acompanhada de uma repreensão perante testemunhas” (Regra da Comunidade 5,24-6,1).

É importante observar a conclusão (que é paralela ao que foi dito a Pedro sobre "ligar e desligar", neste caso referindo-se à "igreja"). A decisão tomada pela Igreja a respeito do "irmão que peca" é uma decisão que Deus (= céu) confirma.

Contudo, ao contrário de Qumran, é a comunidade (e não "os líderes") e o cuidado atencioso e afetuoso do irmão que devem guiar constantemente a todos.

2. O texto aparentemente passa para a oração, para o pedido comum, mesmo que seja um grupo “pequeno” [é importante lembrar que a comunidade de Mateus parece ser um grupo “pequeno” entre os judeus de Antioquia, com o qual – mais uma vez – Mateus quer reforçar o espírito do seu povo].

O tema central, também frequente em Mateus, é que Jesus, uma vez ressuscitado, não se distanciou de sua comunidade: ele é “Deus conosco” (1,23), permanece entre os seus “até o fim do mundo” (28,20) e deve ser visto entre os discípulos (10,40) e entre os pobres (25,40)... Na oração do pequeno grupo, o ressuscitado também está presente.

Esse tema também é encontrado em escritos judaicos:

Rabino Ananias disse… se dois estão juntos, e a palavra da Torá está entre eles, a Shekinah (= a presença de Deus) está no meio deles” (Mishná, Avot 3,2)

Contudo, o contexto e certas semelhanças gramaticais convidam-nos a ler o texto em continuidade com o que foi dito anteriormente: a expressão "em verdade vos digo" repete-se (vv. 18 e 19), os "dois" são novamente mencionados (vv. 16, 19) e a "terra" e o "céu" são referidos novamente (vv. 18, 19). Assim, Jesus confirma à comunidade, por menor que seja, que está no meio dela e que qualquer decisão tomada (ligar ou desligar) é ratificada pelo próprio Jesus, que está presente. A oração, portanto, seria uma atitude de confiança na presença de Jesus nas decisões disciplinares da comunidade.

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