"Enfim, quais seriam, hoje, as “pedrinhas” que rolam e que podem abalar o poderio dos grandes impérios? O poder e a força de Vida dos Movimentos Sociais Populares, dos Movimentos dos Direitos Humanos e em Defesa da Vida, pela Paz?", escreve Gilvander Moreira.
Gilvander Moreira é frei e padre da Ordem dos Carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; agente e assessor da CPT/MG, assessor do CEBI e Ocupações Urbanas; prof. de Teologia Bíblica no Serviço de Animação Bíblica, em Belo Horizonte.
Estamos em contexto de grandes impérios, tais como o Império do capital financeiro especulativo transnacional, o Império da tecnologia da (des)informação, o Império do Consumismo, o Império da super-exploração dos bens naturais (Agronegócio exportador e mineradoras patrocinados pelo Governo Federal e sem pagar ICM pelos commodities, pela Lei Kandir), os Impérios bélicos com bombas atômicas, capazes de destruir muitas vezes a humanidade, o Império de fake news (mentiras) na internet, os Impérios de igrejas-empresas que usam e abusam do nome de Deus e de versículos bíblicos para impor a ideologia do domínio, travestida de teologia da prosperidade, o império do capitalismo cada vez mais super-explorador, bárbaro e letal.
Neste contexto de brutal desigualdade socioeconômica e com projetos políticos de extrema-direita rondando toda a humanidade, reabilitando o fascismo e o nazismo em novas roupagens, com emergência climática causada pela idolatria do mercado, que devasta a natureza, sem piedade, impondo-nos eventos extremos cada vez mais frequentes e letais, reler a profecia apocalíptica do livro de Daniel pode nos oferecer inspirações para seguirmos resistindo às investidas dos impérios que, à primeira vista, são invencíveis, mas por serem recheados de contradições e mentiras, como todo império, nascem, crescem e se desmoronam, não por queda natural, mas pela luta coletiva dos povos oprimidos e pelas contradições que vão se esgarçando. Para tanto, torna-se imprescindível a luta dos povos oprimidos, mas organizados, que irrompem como pedrinhas capazes de fazer desmoronar gigantes aparentemente indestrutíveis.
Na Bíblia, o livro de Daniel é um escrito apocalíptico, profecia continuada em outros moldes: simbólica e figurada. Quando o maior inimigo adquire escala internacional e, por isso, torna-se pouco visível aos nossos sentidos e difícil de se decifrar, a profecia muda de tática e de estratégia: prioriza a linguagem simbólica, fica mais compreensiva para as comunidades perseguidas e difícil de ser decifrada pelos exploradores.
O livro de Daniel foi escrito, provavelmente, no século II antes da Era Comum (a.E.C.), época em que o rei Antíoco IV Epífanes impunha, à força, ao povo hebraico-semita a cultura grega. Não era apenas um povo, mas povos diferentes, que se irmanaram na luta pela superação da opressão e da exploração. Para isso, era necessário suprimir a cultura popular, os valores e os costumes ancestrais. Daniel tem como objetivo cultivar a esperança em tempos de grandes projetos transnacionais e busca sustentar a resistência diante das investidas brutais dos opressores.
Os capítulos 1 a 6 do livro de Daniel mostram como Daniel e seus companheiros Ananias, Misael e Azarias resistiram aos poderosos do império e, assim, foram salvos. Daniel carrega uma profunda convicção de fé: o único poder inquestionável e imbatível é o do Deus da vida; somente Ele governa a história. Todos os outros poderes, por maiores e aparentemente inquestionáveis que sejam, podem ser derrubados por aqueles que acreditam na força infinita do Deus da vida, que age nas “minorias abraâmicas”, nos servos sofredores da história, em nós e a partir de nós (Dn 2,31-47).
Manter a identidade camponesa e os valores originários do deserto, tal como "ser vegetariano e não comer carne", alimentar-se da comida de verdade, a dos nossos avós e tataravós, é apontado como caminho para a libertação e salvação. A resistência inicia-se pela comida e se dá, preponderantemente, no terreno da cultura. Recusar a comida do império – “comer carne de porco” - e valorizar a "comida de verdade" – a dos nossos pais, avós, bisavós, nossos ancestrais – é um ato político revolucionário (Cf. Daniel 1).
À época da caminhada dos povos da Bíblia, pelo deserto, em busca da terra prometida, “que corria leite e mel” (Ex 33,3), por causa da escassez de alimentos e de água, várias regras sanitárias de higiene foram propostas ao povo peregrino de esperança, para preservar a saúde. Neste contexto, nasceu a lei da pureza e da impureza, inicialmente como medidas de higiene para garantir a saúde das pessoas, mas com o passar do tempo estas medidas de higiene acabaram recaindo no legalismo, com centenas de leis que discriminavam os pobres, os doentes, as pessoas com alguma deficiência, por serem consideradas impuras. Uma destas leis dizia que, de animais quadrúpedes, só se podia comer os que ruminassem. Por esta lei, podia-se comer carne de gado, mas de porco, não. Em tempos em que não existia geladeira, conservar a carne de porco era mais difícil e, mal conservada, poderia afetar, negativamente, a saúde das pessoas. Por isso, não se comia carne de porco. Entretanto, faz bem recordar que carne de porco era a carne favorita do império grego. Logo, desestimular o povo a não comer carne suína era também um jeito de reservar mais carne de porco para a classe dominante.
Se formos atualizar estas medidas sanitárias que garantem a saúde das pessoas, atualmente, não se poderia ingerir comida produzida com agrotóxicos, nem enlatados. Por outro lado, dever-se-ia comer alimentos produzidos no sistema da agricultura familiar agroecológica. Tomar todas as vacinas prescritas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Preservar o ambiente onde se vive. Estas são medidas que contribuem para a manutenção das condições objetivas para a vida humana, nos dias atuais.
O livro de Daniel reflete a experiência de pessoas que vivem em comunidade, pautando sua convivência e sua luta na fé dos seus antepassados, que lutaram por libertação. Elas sustentam a postura existencial de que apenas o poder do Deus da vida é inquestionável e imbatível. Os outros poderes, sejam políticos, econômicos, religiosos ou culturais, por mais prepotentes que aparentem ser, são todos derrubáveis pela ação de quem acredita que Deus é o único poder absoluto (Dn 2,31-47). É possível que o autor do Evangelho de Lucas tenha se inspirado em Dn 2,31-47 para afirmar, no Cântico de Maria, que "Deus dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche de bens e despede os ricos de mãos vazias" (Lc 1,51-53).
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O livro do profeta Daniel tem a finalidade de animar a esperança, mesmo que esta esteja por um fio, na resistência popular diante dos projetos opressores do grande capital, que atropelam e violentam a dignidade humana e os valores culturais ancestrais e religiosos dos povos das florestas, do campo e da cidade. A profecia de Daniel busca despertar o povo do sono letárgico imposto pela ideologia dominante, que anestesia as consciências e incute subserviência e resignação diante de projetos exploradores. Busca avivar a consciência histórica de um povo que caminha de forma autônoma, com fé no Deus Javé, solidário e libertador (cf. Ex 13,17-15,19), reproduzindo sua identidade sociocultural, permanentemente ameaçada pelas idolatrias disfarçadas de "progresso", "valor cultural do presente" ou "última novidade", mais do mesmo travestido de economia verde ou de liberdade abstrata. Estas são seduções que, de múltiplas formas, armam ciladas para desumanizar e violar a dignidade da pessoa humana e da natureza.
No início do livro de Daniel, narra-se que "no terceiro ano do reinado de Joaquim em Judá, Nabucodonosor, rei da Babilônia, sitiou Jerusalém com seu exército" (Dn 1,1). Após quase dois anos de cerco, Jerusalém foi invadida e devastada e o templo saqueado e destruído. Nabucodonosor levou para o exílio a família real e outras famílias importantes (Dn 1,3), a melhor força de trabalho: "jovens sem nenhum defeito físico, de boa aparência" e preparados para trabalhar em áreas estratégicas, "cientistas" para servir na corte do rei (Dn 1,4). A eles foi ordenado que estudassem a literatura e a língua da Babilônia (Dn 1,4), ou seja, que assimilassem a cultura do império invasor. Deveriam "ter uma ração diária da comida e do vinho da mesa real", isto é, comer e beber da cultura do inimigo. Isso era estratégia para cooptar os escravizados de forma que eles introjetassem e assimilassem, em si mesmos, o modo de ser e de existir dos escravocratas. O pior escravo é o que “lambe as botas” daquele que o golpeia, imaginando que, assim, irá conseguir uma sobrevida.
O profeta Daniel e seus companheiros Ananias, Misael e Azarias, recusaram-se a comer e a beber da comida e da bebida do palácio do rei Nabucodonosor. "Vamos comer só vegetais e beber só água" (Dn 1,12). Eles fazem a opção de não se contaminarem, como sinal de crítica ao imperialismo e resistência cultural e religiosa, preservando sua identidade ancestral. A alimentação saudável era a “espinha dorsal” da cultura de um povo que sofrera a escravidão no Egito devido ao imperialismo dos faraós e que, para conquistar a terra prometida, teve, antes, que marchar "quarenta anos pelo deserto". A mística que anima a resistência popular passa, necessariamente, pela reprodução e valorização dos valores ancestrais camponeses. Preservar os valores culturais é um princípio ético indispensável na luta para resistir e desmoronar os megaprojetos exploradores.
Em contexto de escassez, tornou-se imprescindível cuidar da qualidade dos alimentos. Por isso, as regras alimentares deviam ser levadas a sério (cf. Ez 4,13-14; Os 9,3; Est 4,14; Jt 10,5; 1Mc 1,62-63; 2Mc 6,18-31). Após dez dias, o capataz do império babilônico viu que aqueles que se alimentaram apenas com vegetais e água – ou seja, com a "comida de verdade", a dos Macabeus, protagonistas da resistência popular, diante da opressão do rei Antíoco IV Epífanes, que os obrigava a comer carne de porco – estavam mais saudáveis. No fim de Dn 1, diz-se que "Daniel ficou trabalhando e servindo na casa real até o primeiro ano do reinado de Ciro" (Dn 1,21), cerca de 50 anos.
Na Bíblia, encontramos muitas narrativas de grandes projetos que foram enfrentados por povos injustiçados e marginalizados, entre os quais destacamos seis: 1) A Construção da Torre de Babel (Gênesis 11,1-9); 2) A construção de um bezerro de ouro (Êxodo 32,1-35); 3) A estátua gigante de pés de barro do livro do profeta Daniel (Daniel 2,1-49); 4) O mercado no entorno do templo de Jerusalém (Mateus 21,12-13; João 2,14-16); 5) O comércio ao redor da deusa Ártemis (Atos 19,23-40); 6) O dragão do Apocalipse (Apocalipse 12,1-12).
Detenhamo-nos no grande projeto bíblico da estátua gigante de pés de barro (Daniel 2,1-49), que simboliza todos os sucessivos impérios opressores e exploradores, com seus poderes econômico, político e ideológico, na esperança de que ele nos inspire a assumir posturas e compromissos na militância pela construção de uma sociedade anti-imperialista, justa e solidária, diante dos atuais, grandes e brutais projetos do capitalismo, em sua fase neoliberal, neocolonial.
Segundo o capítulo 2 de Daniel, o rei Nabucodonosor fica profundamente perturbado por um sonho enigmático. Assustado, exige que os sábios – magos, astrólogos, agoureiros e adivinhos – não apenas interpretem, mas adivinhem o sonho que tivera. "O rei nos exige algo sobre-humano", reconhecem eles. Diante da incapacidade dos "sábios", o rei ordena a pena de morte para todos. Condenado à morte, Daniel pede um prazo e, em uma visão, Deus lhe revela o mistério do sonho, deixando Daniel agradecido por uma “brecha” que o faça escapar da execução da sentença de pena de morte (Daniel 2,20-23). Levado diante do rei, Daniel desmascara o pretenso poder dos sábios: "Não são capazes de desvendar o segredo... Mas há no céu um Deus que revela os segredos" (Daniel 2,27-28). Ou seja, pretensos sábios usam, em vão, o nome de Deus e, diante disso, torna-se necessária uma teologia libertadora, que compreenda “os segredos de Deus” nas entranhas da história. “Mas há no céu...” Esse "mas" é uma conjunção adversativa que revela outra força e luz contrastantes. Trata-se da luta pela afirmação do Deus do povo exilado contra os ídolos de todos os impérios. Daniel, então, revela o sonho e sua interpretação, mostrando o que acontecerá "nos últimos dias".
Eis o que o rei viu em seu sonho: uma grande estátua, alta e muito brilhante, de aparência impressionante, composta por metais de valor decrescente (ouro, prata, bronze, ferro, ferro e barro). A cabeça era de ouro maciço; o peito e os braços, de prata; a barriga e as coxas, de bronze; as pernas, de ferro; os pés, de uma mistura de ferro e barro (cf. Daniel 2,31-33). Então, sem que ninguém a tocasse, uma pedra soltou-se de uma montanha, atingiu os pés da gigante estátua e os despedaçou. Imediatamente, toda a estátua desmoronou, transformando-se em pó. Isto recorda a profecia bíblica de Gênesis 3,19: “Tu és pó e ao pó retornarás.” Ninguém e nenhum poder construído será imortal, mas na história será reduzido a pó. A pedra, então, tornou-se uma grande montanha que encheu toda a terra.
Daniel interpretou o sonho do rei da seguinte forma: "Vossa Majestade é a cabeça de ouro. Após o seu reino, surgirá outro, inferior (prata), depois um terceiro (bronze) e um quarto, duro como o ferro. No entanto, este último reino terá pés, parte de ferro e parte de barro: forte por um lado, mas fraco e dividido por outro” (Daniel 2,37-45). Provavelmente, os reinos dizem respeito aos impérios Babilônico, Medo-Pérsico, Grego e Sírio, cujo rei é Antíoco IV. Essa divisão interna e contraditória é sua fraqueza fatal. Então, Deus suscitará um reino que nunca será destruído. Esse reino é simbolizado pela pedra que, “sem auxílio humano”, rolou da montanha e esmiuçou a gigante estátua. “Rolar da montanha” significa que tem origem divina, o que, no mais profundo, não exclui a participação humana, pois não há dicotomia entre divino e humano, duas faces da mesma moeda.
A expressão hebraica dî lā’ ḇîḏayin significa, literalmente, "que não [foi] por mãos". A Bíblia, frequentemente, apresenta uma tensão entre ação divina e ação humana na implementação do reinado divino. A salvação é obra de Deus (Ef 2,8), mas as pessoas cristãs são "cooperadoras de Deus" (1Co 3,9). A pedrinha se desprende da montanha “sem ação humana”, isso para afirmar a origem divina, mas os discípulos e as discípulas de Jesus Cristo são chamados a ser "pedras vivas" (1Pedro 2,5), na construção do reinado divino. Nos Evangelhos, Jesus alerta aos discípulos e discípulas que não podem dar uma de Pilatos e “lavar as mãos” diante das injustiças que deixa o povo faminto e enfatiza: "Dai-lhes vós mesmos de comer!" (Mc 6,34-44). Portanto, não podemos aceitar a postura dualista que insiste em excluir da ação divina toda e qualquer ação humana. Se observarmos o processo mais complexo, mesmo que não tenha tido no imediato ação humana, no processo mais amplo e profundo, com certeza, teve-a e sempre a tem. Divino e humano são “carne e unha”. Acontece que o/s autor/es do livro de Daniel quer/em enfatizar o poder maior da ação divina.
"Os pés e os dedos, parte de ferro e parte de barro, significam um reino dividido" (Dn 2,41-42), podre, pois é contraditório, sustentado por mentiras, exploração e violências sem fim. Assim como numa corrente, o elo mais frágil é, paradoxalmente, o que determina sua força total – pois, se ele se rompe, toda a corrente se parte –; os pés da estátua, em especial os dedos (até o mindinho), são a base que sustenta todo o corpo. Sendo constituídos de materiais incompatíveis – "ferro e barro" não se misturam (Dn 2,43) –, representam o ponto mais frágil. Um golpe nessa base faz desmoronar toda a estrutura.
O capítulo 2 de Daniel termina dizendo que o rei se prostrou diante dele e reconheceu a sua profecia. Tentou cooptá-lo, propondo fazê-lo governador de todas as províncias da Babilônia, mas ele não aceitou. Sugeriu que o poder fosse exercido por outras lideranças da confiança de Daniel. Assim, a profecia seguiu o seu caminho.
Em contextos políticos de poderosos exercendo o poder, pretendendo ser onipotentes, é tremendamente revolucionário afirmar, como o fez o profeta Daniel, que o único poder imbatível é o de Deus e só ele está no “volante” da história. Assim, ele deslegitima os pretensos poderosos e afirma outro poder que não é o exercido por nenhum ser humano.
Entretanto, segundo a Teologia da Libertação, o único poder que Deus tem é o poder do amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8), ou seja, o amor é Deus. Logo, o poder do Deus da vida está em nós, especialmente nos empobrecidos, permeando e perpassando a trama das relações humanas e sociais. O divino está no humano. Sem a participação humana, tecendo novas relações e construindo instituições com o poder democratizado, não é possível fazer desmoronar os podres poderes. Reconhecer a beleza espiritual da profecia de Daniel, a estátua gigante sendo desmoronada por uma pedrinha, é dizer: a última palavra será dos que defendem condições objetivas de vida e de liberdade para todos e todas, e não dos podres poderes. Isso suscita esperança e faz a luta continuar. Assim como o/a ciclista mantém o equilíbrio ao olhar para a frente, cultivar uma utopia revolucionária é vital e imprescindível.
No contexto da resistência dos povos bíblicos explorados, a pedrinha pode ser interpretada como a luta dos povos oprimidos, inspirada por Deus contra o domínio selêucida, que insistia em expandir o império grego sobre uma gama maior de povos.
A interpretação de Daniel desmistifica a aparente solidez do império. A estátua, embora imponente, tem pés frágeis – sinal de que o poder opressor não é invencível. A pedra pequena que destrói a estátua é uma metáfora da resistência dos pequenos que vence a arrogância do poder, assim como a iniciativa de uma criança ao partilhar os cinco pequenos pães e os dois pequenos peixes que possuía interpelou a consciência da multidão, que resolveu partilhar um pouco do que tinha e, assim, aconteceu o milagre da partilha/multiplicação dos pães, superando uma gigantesca injustiça que significava o povo estar passando fome. Foi tão eloquente este acontecimento que foi narrado seis vezes nos quatro evangelhos da Bíblia [1].
O eixo da literatura apocalíptica de caráter histórico é o confronto Império-Povo, por isso a teologia apocalíptica é sempre teologia política. A literatura apocalíptica é também uma literatura de esperança, que alimenta a perseverança dos povos reunidos nas lutas justas e necessárias. Sempre se anuncia o juízo de Deus, que põe fim à situação de opressão e de exploração. O fim será a destruição da estátua gigante e a instauração do Reinado divino, a partir do aqui e do agora.
No capítulo 2 do Livro de Daniel, o reino de Deus, que é um reino de justiça, de paz e de solidariedade, é simbolizado por uma pedra que se desprende da montanha, sem a intervenção imediata da mão humana e destrói a estátua gigantesca que representa os impérios e que, depois de destruí-la, se transforma em uma grande montanha que encheu toda a terra (Dn 2,35). Eis um Projeto de esperança e utopia que aponta para um projeto de sociedade alternativa, baseada na justiça e na soberania de Deus.
A pedra que se desprende da montanha e destrói a estátua representa o povo dos mártires, as minorias abraâmicas, todos os que insistem em andar na contramão “atrapalhando o sábado”, conforme canta Chico Buarque, seguindo por outros caminhos. Enfim, nos lembra todas as conquistas libertárias já vivenciadas na história. É luz não apenas no fim do túnel, mas no meio do túnel.
A estátua de pés de barro é a imagem perfeita dos grandes projetos opressores de hoje. Eles se apresentam com a cabeça de ouro do marketing, com ritmo cada vez mais acelerado na produção, circulação e consumo e do "desenvolvimento" para uma minoria, à custa da exploração da maioria e da devastação dos bens da natureza; o peito de prata do capital financeiro internacional, as coxas de bronze do aparato estatal e militar que os sustenta e as pernas de ferro de uma exploração implacável dos bens naturais e do trabalho precarizado. No entanto, seus pés são de ferro e barro: alicerçados em injustiças, desigualdades, mentiras, destruição ambiental e na negação da dignidade humana e na trituração da natureza, que é sagrada e tem muitos direitos.
Os "novos colonialismos" – seja o extrativismo predatório, a financeirização da natureza, a invasão de territórios tradicionais por grandes empreendimentos ou a imposição cultural e econômica por meio da idolatria do mercado e endividamento dos povos – são impérios modernos com pés de ferro e barro. Eles são intrinsecamente divididos: prometem prosperidade para todos, mas geram exclusão; vendem a imagem de solidez, mas são frágeis, porque sua existência depende da submissão de muitos para o benefício de poucos. A crise climática nos deixando à beira de um brutal colapso climático, as pandemias de desigualdade, as revoltas populares e a resistência dos povos originários são as "pedrinhas" que, vindas da "montanha" da organização e da consciência coletiva dos movimentos populares, começam a golpear essa base frágil.
O capítulo 2 de Daniel termina com o rei Nabucodonosor prostrando-se diante do profeta apocalíptico e reconhecendo o Deus de Daniel. Tentou cooptá-lo, oferecendo-lhe o governo da Babilônia, mas Daniel recusou, indicando outros para os cargos. Assim, a profecia e a resistência seguiram seu curso.
Em contextos políticos onde os poderosos se julgam onipotentes é, tremendamente, revolucionário afirmar, como fez Daniel, que o único poder imbatível é o de Deus e que só Ele está no comando da história. Dessa forma, deslegitimamos os pretensos poderosos e apontamos para um poder que não é exercido por nenhum ser humano.
Enfim, o/s autor/es enfatiza/m que Daniel 2 não é apenas uma profecia sobre reinos que um dia serão desmoronados, mas uma ferramenta de resistência e esperança das comunidades oprimidas e injustiçadas. A interpretação de Daniel revela a fragilidade dos impérios na sua aparente onipotência, a força da fé e da resistência dos humildes e pequenos que, em comunidade e irmanados com os movimentos sociais populares, lutam por direitos e pelo que é justo, a utopia de um reino de justiça, que nasce da ação divina indissociada da luta dos povos injustiçados. Nossa interpretação convida a enxergar, por trás das imagens apocalípticas, um projeto político de libertação.
Em Dn 2,1-49 está, também de forma enfática, o aspecto profético da natureza. A pedrinha e a montanha integram a natureza e o Deus dos povos oprimidos, o Deus de Daniel, que se revela também em ação da natureza. Na Bíblia, há várias passagens que afirmam a Natureza como Profética. A natureza, como criação de Deus, é um instrumento através do qual o divino se comunica, julga e salva. As pragas do Egito (Ex 7-12) são um exemplo clássico. Elas não são meros "desastres naturais". São atos de juízo divino ("maravilhas" ou "sinais"), que desmascaram os deuses do Egito. O Nilo avermelhado como sangue era adorado como uma divindade; Rá, o deus sol, era representado por uma rã; etc. Assim, Deus demonstra seu poder sobre a cosmovisão religiosa egípcia.
As pragas revelam o conflito entre a opressão e a libertação: Jahweh, o Deus dos escravizados hebreus, é mais poderoso que Faraó, o deus encarnado do maior império da época.
As pragas são profundamente políticas, pois confrontam, diretamente, a estrutura econômica e social do Egito, que dependia da exploração do trabalho escravo. Outros exemplos da Natureza sendo profética na Bíblia: O Dilúvio (Gn 6-9): as águas de uma brutal inundação são usadas como juízo e, paradoxalmente, como instrumento de um novo começo. Na Sarça Ardente, em Êxodo 3, um elemento natural, o fogo, torna-se o meio da revelação divina e da missão de Moisés. No terremoto do Monte Sinai (Ex 19), a natureza reage à presença de Deus, estabelecendo um pacto, uma aliança. No Discurso da Montanha (Mt 5-7), Jesus usa elementos da natureza (os lírios do campo, os pássaros) para revelar o caráter e a índole de Deus.
A Estátua de Dn 2, simboliza os Impérios Opressores. Com sua sequência de metais, a estátua representa a sucessão de impérios que, ao longo da história, oprimiram e exploraram os povos. São estruturas de poder idólatras (a estátua é um ídolo), que se consideram absolutas e divinas. A pedra que rola da montanha, aparentemente sem ajuda humana, representa a ação libertadora de Deus. A opção pelos pobres vê, na pedra, a certeza de que a libertação jamais virá do sistema opressor. Não será uma reforma do sistema de ferro e barro, que é frágil, mas sua destruição e superação completas.
A história da América Latina foi profundamente marcada por dois poderosos impérios – português e espanhol -, com um agravante: ambos traziam a marca da Cristandade, a união entre a Cruz e a Espada, exercendo a dominação dos povos, em nome de Deus, distorcendo totalmente a consciência do Deus da liberdade, da justiça e da Vida plena. Onde estão, hoje, suas forças política, militar e econômica? Evaporaram-se no tempo, em pouco tempo, como também o Império Inglês.
Nos séculos de imperialismos nas terras latino-americanas, muitas “pedrinhas” de resistência rolaram sobre os pés dos senhores capachos dos Impérios, minando, aos poucos, o seu pretenso poderio. Mencionar os movimentos de resistência: Tupac Amaru, Resistência das Missões Guaranis no sul do Brasil, Cabanadas, Canudos com Antônio Conselheiro, Quilombo dos Palmares com Zumbi e Dandara, Contestado no sul do Brasil, Ligas Camponesas ... torna-se imprescindível.
A Teologia da Libertação enfatiza que, embora a força e a iniciativa sejam de Deus, os pobres e oprimidos são os agentes privilegiados por meio dos quais Deus age. O "povo da pedra" (a comunidade de fé comprometida) é chamado a participar ativamente no processo de libertação, confiando que a vitória final é do reinado de Deus. Eles não "cortam a pedra", mas são "rolados" por ela na história, sendo instrumentos do Reino.
Deus não é neutro, toma partido pelos escravizados e serve-se da natureza para desestabilizar a ordem injusta. A natureza "profetiza" contra os opressores e anuncia a libertação dos oprimidos.
Devemos compreender Daniel 2 como uma poderosa mensagem de esperança e resistência para os oprimidos: os impérios, por mais sólidos que pareçam, são frágeis e transitórios. A libertação definitiva é sinal do agir de Deus na história, frequentemente, através da organização e da luta dos pobres, por meio dos Movimentos Sociais Populares, para estabelecer seu Reino de justiça. A natureza, assim, não é neutra, mas pode se levantar como sinal profético contra a injustiça.
Enfim, quais seriam, hoje, as “pedrinhas” que rolam e que podem abalar o poderio dos grandes impérios? O poder e a força de vida dos movimentos sociais populares, dos movimentos pelos direitos humanos e em defesa da vida, pela paz?