Agostinho contemplava a vida humana como uma navegação por um mar em tempestade rumo a um porto firme. Leão XIV leva essa imagem até o nosso presente. E poucas imagens descrevem melhor o nosso tempo.
O artigo é de Rafael Lazcano, publicado por Religión Digital, 28-08-2026.
Rafael Alejandro Lázcano González (Mondreganes, província de Leão, 27 de abril de 1957) é um historiador, bibliógrafo, biógrafo, polímata e editor espanhol. Presidiu o Instituto Histórico Agostiniano (Roma) entre 1994 e 2001.
Santo Agostinho de Hipona | Wikimedia Commons
A cada 28 de agosto, a Igreja volta a Santo Agostinho. Volta ao filho de Santa Mônica, ao retórico e filósofo, ao convertido pela graça, ao teólogo e pastor, ao bispo de Hipona, doutor da Igreja e pai do Ocidente. Mas, sobretudo, volta a um homem que converteu sua própria inquietação em caminho rumo à verdade e descobriu, ao final de uma longa busca, que a verdade tinha um rosto: Cristo.
E talvez seja justamente por isso que Agostinho continua falando conosco. Sua grandeza intelectual não nasceu da fria acumulação de conhecimentos, mas de uma experiência profundamente humana: o coração busca, deseja, se inquieta, ama e só encontra descanso quando alcança aquilo para o qual foi criado.
Agostinho não é memória de museu, mas presença viva nas perguntas essenciais. Enquanto o homem continuar se perguntando quem é, o que busca e para que vive, a voz do africano universal continuará encontrando um lugar em nosso tempo.
Neste 28 de agosto, a figura de Leão XIV, "filho de Santo Agostinho", permite contemplar essa herança sob uma luz particularmente sugestiva. Nele, Agostinho parece encontrar uma voz contemporânea: uma tradição espiritual que não se limita a conservar um legado, mas o transforma em critério para ler o presente.
Interioridade, busca da verdade, amizade, comunhão, serviço e discernimento deixam assim de ser conceitos pertencentes a outra época para se tornarem respostas diante de alguns dos grandes desafios do nosso tempo: a dignidade da pessoa diante da inteligência artificial, a solidão em uma sociedade hiperconectada, as fraturas que ameaçam a unidade e a necessidade de recuperar uma autoridade concebida como serviço e orientada ao bem dos outros.
Agostinho sabia disso: "Noli foras ire, in te ipsum redi, in interiore homine habitat veritas": "Não queiras te derramar para fora; entra dentro de ti mesmo, porque no homem interior reside a verdade" (Da verdadeira religião, XXXIX, 72).
Vivemos voltados para fora, cercados de estímulos que reclamam nossa atenção a cada instante; por isso, essas palavras adquirem uma força quase profética. Dispomos de inúmeros meios para sair de nós mesmos: telas, redes, imagens, dados, algoritmos, comunicação instantânea. E, paradoxalmente, tanta conexão pode nos deixar mais expostos ao ruído, à dispersão e à dificuldade de escutar o essencial.
Imagem de Santo Agostinho de Hipona, na basílica de sua cidade natal argelina, da ordem professada por Leão XIV.
Por isso, a interioridade adquire hoje um significado novo: expressa a capacidade de permanecer no mundo sem nos perdermos nele. O regresso ao homem interior nos conduz ao lugar onde a consciência escuta, a inteligência discerne e a liberdade responde. Dessa profundidade nasce uma resistência silenciosa diante de tudo aquilo que pretende reduzir o ser humano a consumidor de estímulos, executor de instruções ou peça intercambiável de sistemas cada vez mais complexos.
Diante de uma cultura que pode nos indicar continuamente o que olhar, o que comprar, o que pensar e até o que desejar, a interioridade se converte em uma forma de liberdade.
Leão XIV falou de sua própria vocação a partir dessa lógica do discernimento. Em Assis, em 6 de agosto de 2026, lembrava a necessidade de "aprender a se conhecer, a tomar decisões e a se arriscar, ou seja, a responder ao chamado do Senhor". E acrescentava, a partir de sua própria experiência: "O Senhor nunca me abandonou: sempre me acompanhou, presenteando-me até com pessoas com quem caminhar juntos".
Conhecer-se, decidir, responder, caminhar acompanhado: quase uma pequena gramática da vocação. A liberdade alcança sua grandeza não quando é contemplada como autossuficiência, mas quando descobre que a existência é também chamado, dom, responsabilidade e entrega.
Aqui volta a aparecer a grande pergunta agostiniana: "O que o homem deseja mais profundamente do que a verdade?" (Tratado sobre o Evangelho de São João, 26,5).
A pergunta resulta hoje especialmente provocadora. A inteligência artificial multiplica nossa capacidade de processar informação, reconhecer padrões e produzir respostas. As máquinas podem fazer cada vez mais coisas que antes considerávamos exclusivamente humanas. E precisamente por isso, a pergunta decisiva deixa de ser quanto uma máquina pode fazer para se tornar o que o homem deve fazer com tudo aquilo que agora pode fazer.
Aprendemos a produzir respostas em uma velocidade extraordinária. Agora precisamos recuperar a profundidade das perguntas. Porque a inteligência não alcança sua plenitude quando pode fazer tudo, mas quando descobre para que vale a pena fazer aquilo que pode fazer. Aí Agostinho volta a se mostrar surpreendentemente atual: "Porque em Ti está a fonte da vida; em Tua luz vemos a luz" (Confissões, XIII, 16).
O Papa reza diante das relíquias de Santo Agostinho em Pávia | Foto: RD
A inteligência busca uma luz que não pode produzir por si mesma. O conhecimento se sustenta em uma verdade que o precede. A razão alcança sua verdadeira grandeza quando reconhece que a realidade não tem sua origem nela. Por isso, o debate sobre a inteligência artificial acaba remetendo a uma questão muito mais antiga e profunda: o mistério do homem.
O que significa ser humano quando nossas máquinas podem realizar tarefas que, durante séculos, consideramos expressões da nossa inteligência? Onde reside a dignidade? Que lugar ocupa a consciência? O que significa decidir, criar, amar? O que resta de especificamente humano quando uma máquina pode conversar, gerar imagens, analisar informações ou imitar determinadas formas de raciocínio?
A pergunta tecnológica acaba exigindo uma resposta antropológica. E a resposta cristã conduz a Cristo, porque nele aparece revelada a verdade plena do humano. Humanizar a tecnologia exige, antes de mais nada, aprofundar-se no mistério da pessoa.
A pessoa, além disso, não existe isolada, mas é relação. E por isso a amizade ocupa um lugar tão significativo nessa herança. Leão XIV lembrava, em 2 de agosto de 2025: "Quão difícil é encontrar uma amizade autêntica". Evocava o jovem Agostinho, que "não se conformou, não silenciou o clamor de seu coração", porque buscava "a verdade que não decepciona, a beleza que não passa". Encontrou quem já o estava buscando: Jesus Cristo.
Diz o Hiponense que "não há amizade fiel se não for em Cristo", e acrescenta: "Ama verdadeiramente o amigo quem ama a Deus no amigo" (Sermão, 336,2).
Nosso tempo conhece um paradoxo singular: nunca houve tanta conexão e nunca a presença foi tão valiosa. As redes multiplicam os contatos, mas a amizade reclama rosto e encontro. As mensagens percorrem o mundo em segundos, mas o coração continua buscando uma palavra próxima, uma escuta verdadeira, uma presença fiel.
A comunicação transmite informação. A amizade entrega presença. E essa diferença é decisiva. O homem precisa de rosto, reciprocidade, gratuidade e fidelidade. Busca alguém diante de quem possa deixar de se representar, alguém diante de quem não precise construir permanentemente uma versão de si mesmo.
A cultura dos perfis, das imagens e da exposição permanente torna ainda mais valiosa uma amizade capaz de devolver à pessoa algo elementar: o direito de ser conhecida sem ter que se exibir.
A partir daí se compreende também sua insistência na unidade. In Illo uno unum: "Naquele um, somos um". É o lema episcopal de Leão XIV, tomado de Santo Agostinho, e expressa uma das convicções centrais dessa tradição: também nós, mesmo sendo muitos, "naquele um, ou seja, em Cristo, somos um" (Comentário aos Salmos, 127,3). "A unidade sempre foi uma constante em mim", afirmou o papa Prevost.
Ali onde a diferença ameaça se converter em fronteira, essa pequena frase abre uma perspectiva distinta: a unidade cristã não consiste em uniformizar, mas em encontrar na comunhão a plenitude da diversidade. Agostinho não elimina os muitos para fabricar um uno abstrato, mas os conduz até Cristo. Conserva os rostos, as histórias e os dons, e os reúne em um pertencimento mais profundo. Por isso a unidade exige caridade. O próprio Hiponense se pergunta: "Como evitaremos estar nas trevas? Amando os irmãos. Em que se prova que amamos a fraternidade? Em não rasgarmos a unidade, em mantermos a caridade" (Comentário sobre a Primeira Carta de São João, 2,3).
Não rasgar. A expressão merece ficar entre nós. Há palavras que rasgam, julgamentos que rasgam, ambições que rasgam, silêncios que rasgam. Também há trincheiras culturais, ideológicas e pessoais que transformam o outro em inimigo antes mesmo de tê-lo escutado. Diante dessa lógica da fratura, Agostinho propõe a caridade como força de recomposição: "Quem dera", dizia Santo Agostinho, "que todos pensassem somente na caridade: só ela vence tudo, e sem ela de nada vale todo o resto; onde quer que se encontre, atrai tudo para si" (Sermão, 354,6,6).
A caridade não é um adorno da verdade: dá-lhe um rosto. Impede que a verdade se transforme em instrumento de julgamento, exclusão ou confronto, e que a identidade acabe convertida em fronteira. Torna possível uma unidade que não precisa apagar as diferenças para preservar a comunhão. Aí está uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo: aprender a permanecer unidos sem exigir uns dos outros que sejamos iguais. A verdadeira comunhão acolhe as diferenças, reconhece nelas uma riqueza e as coloca a serviço de um vínculo mais profundo, sustentado pela caridade.
A caridade alcança também a autoridade. "Colocam-nos em um cargo e somos servos; temos autoridade, mas só se servirmos" (Santo Agostinho, Sermo Morin Guelferbytanus, 32,3). Poucas frases contêm uma concepção tão exigente do poder. A autoridade cristã nasce de uma responsabilidade recebida. O cargo não pertence a quem o ocupa: reclama seu tempo, sua inteligência e seu coração para o bem daqueles que lhe foram confiados.
O bispo de Hipona o chamou de amoris officium, o ofício do amor. Daí a humildade como fundamento: "Queres ser grande? Começa pelo ínfimo. Pretendes construir um edifício grande e elevado? Pensa primeiro no alicerce da humildade" (Sermão 69,2). Quanto mais alto o edifício, mais fundos devem ser os alicerces.
A autoridade precisa de raízes; a Igreja, de profundidade; e quem recebe uma responsabilidade maior deve lembrar que nenhuma altura dispensa do serviço. Ali onde o poder tende a se medir pela visibilidade, pela influência ou pela capacidade de impor a própria vontade, essa concepção adquire um caráter marcadamente contracultural. Para Agostinho, mandar não significa se elevar acima dos outros, mas carregá-los. A verdadeira autoridade não se mede por quantos obedecem, mas por quantos podem crescer graças a ela.
A partir dessa profundidade se compreende a imagem agostiniana da navegação, retomada por Leão XIV em Salina, Lampedusa (Itália), em 4 de julho de 2026: "Não nos deixemos vencer pelo medo, mas consideremos as dificuldades cotidianas como um tempo de oportunidade e testemunho".
Agostinho contemplava a vida humana como uma navegação por um mar em tempestade rumo a um porto firme. Leão XIV leva essa imagem até o nosso presente. E poucas imagens descrevem melhor o nosso tempo.
Vivemos entre guerras, fraturas, incertezas e transformações vertiginosas. A revolução tecnológica abre possibilidades imensas e riscos igualmente profundos. As sociedades mudam em uma velocidade que dificulta até compreender aquilo que está mudando. O futuro já não aparece simplesmente como algo que chegará: entra continuamente no presente e nos obriga a aprender de novo.
Mas a resposta cristã não precisa negar a tempestade, e sim aprender a navegá-la. A fé oferece direção. A esperança mantém o rumo. A caridade sustenta a travessia. Não se trata de viver sem incerteza, mas de não permitir que a incerteza determine quem somos.
E então irrompe outra frase de Agostinho que parece escrita para um tempo que ainda não conhecemos: "Ama aquilo que serás" (Sermão, 216,8). Nela pulsa uma verdadeira filosofia da esperança. O homem não fica preso àquilo que já foi. A graça trabalha naquilo que ainda pode vir a ser. Também a Igreja recebe o futuro não como uma ameaça, mas como um chamado.
A tradição agostiniana permite olhar para frente sem perder as raízes. Em Leão XIV, a herança de Agostinho se projeta sobre os grandes desafios do presente: uma inteligência capaz de dialogar com a revolução tecnológica, uma espiritualidade capaz de atravessar a solidão contemporânea, uma paixão pela unidade capaz de responder à fragmentação e uma compreensão do poder capaz de devolver ao serviço toda a sua dignidade.
"Exalaste tua fragrância e respirei, e já suspiro por ti; provei de ti, e sinto fome e sede; tocaste-me, e me inflamei em tua paz" (Confissões, X, 27,38). Aqui a arquitetura intelectual de Agostinho alcança seu centro: a verdade pensada se converte em verdade amada; a beleza desperta o desejo; o desejo conduz a Deus; e o encontro transforma a existência. Não há nele uma inteligência separada da vida, nem uma busca da verdade que permaneça à margem do coração. Todo conhecimento autêntico acaba abrindo um caminho rumo ao encontro.
Em Leão XIV, essa herança se faz caminho para o presente: uma inteligência que busca a verdade, uma verdade que conduz a Cristo, um Cristo que conduz ao irmão e uma caridade capaz de reunir aquilo que a história fragmenta. Assim, a tradição agostiniana não olha para trás com nostalgia, mas para frente com esperança.
A grandeza de Agostinho atravessa os séculos porque mantém despertas as perguntas essenciais do coração humano. Sua voz nos convida a olhar nosso tempo com uma inteligência mais profunda, uma liberdade mais consciente e um olhar capaz de colocar cada avanço tecnológico, cada decisão política e cada transformação cultural a serviço da pessoa. As raízes, quando permanecem vivas, não nos prendem ao passado: nos dão a força necessária para abrir o futuro.
Celebrar Santo Agostinho em 28 de agosto significa muito mais do que voltar o olhar para uma figura excepcional do passado. Significa reconhecer uma herança viva e deixar que sua luz alcance nosso presente. Sua inquietação desperta nossa inteligência; sua busca amplia nosso olhar; seu amor à verdade purifica nossos desejos; seu encontro com Cristo fortalece nossos passos.
Que essa herança nos encontre despertos, livres e disponíveis. Que nossa inteligência discirna com profundidade, que nossa palavra construa comunhão, que nossa amizade vença a solidão, e que nossa esperança abra caminhos ali onde outros só percebem incerteza.
Este é o nosso tempo. E esta é também a nossa responsabilidade. Recebamos o mundo que chega com uma inteligência iluminada pela verdade, um coração ampliado pela caridade e uma esperança capaz de olhar mais longe. Façamos da tecnologia um instrumento a serviço da pessoa, da diversidade uma riqueza compartilhada, da responsabilidade uma entrega e da Igreja uma casa onde muitos possam se reconhecer irmãos.
Santo Agostinho nos oferece um olhar que transcende seu tempo. Leão XIV recolhe esse olhar e o projeta em direção ao nosso tempo. Celebremos, pois, uma tradição que não envelhece, porque continua despertando perguntas, gerando encontro e abrindo horizontes.
Que sua voz antiga desperte em nós uma paixão nova: a paixão pela verdade, a alegria do encontro, a força da unidade e a audácia da esperança. Que o nosso tempo encontre nessa herança uma luz para discernir, um caminho para avançar e um motivo para confiar.
A profecia começa quando a verdade desperta a inteligência, a caridade amplia o coração e a esperança abre o futuro. Santo Agostinho continua vivo entre nós quando seu olhar ilumina nosso presente e sua paixão por Cristo dilata nosso horizonte. Com ele, olhemos o mundo que chega com os olhos de Cristo: a inteligência desperta, o coração aberto e a esperança acesa, sempre em marcha.
Feliz dia de Santo Agostinho!