Porto Alegre tem 36 crianças em situação de rua; 13 são menores de 6 anos

Viaduto Otávio Rocha, no Centro Histórico (Foto: Tonico Alvares/CMPA)

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25 Agosto 2026

Levantamento inédito com base em dados do CadÚnico quantifica o número de crianças que estão nas ruas. 

A reportagem é de João Neto, publicada por Matinal, 25-08-2026.

É nos primeiros anos de vida que ocorrem etapas fundamentais para o desenvolvimento cognitivo de um indivíduo. Em Porto Alegre, 36 crianças vivem este período crucial nas ruas.

Conforme levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/POLOS-UFMG), em parceria com a Rede Nacional Criança Não é de Rua, a partir de dados do CadÚnico, 43% das crianças e adolescentes em situação de rua no Rio Grande do Sul estão na capital gaúcha, são 84 em todo o estado. Dentre as 36 submetidas à situação em Porto Alegre, 13 têm entre zero e seis anos de idade, e 23 possuem entre sete e 17 anos.

O montante registrado no Rio Grande do Sul para o período de vida em questão equivale a menos de 1% do total de 18.070 pessoas em situação de rua no estado, conforme dados de julho de 2026.

Em documento ao qual a Matinal teve acesso, o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua destaca que a proteção das crianças expostas a vulnerabilidades no Brasil deve estar integrada à proteção de suas mães, pais ou demais responsáveis. "Grande parte das crianças em situação de rua está acompanhando suas famílias, que vivem em extrema pobreza, enfrentam insegurança alimentar, desemprego, ausência ou precarização de moradias, violência, discriminação e dificuldades de acesso às políticas públicas", diz um dos trechos.

RS lidera na região

Entre as capitais da região Sul, Porto Alegre aparece atrás de Florianópolis, onde 53 crianças e adolescentes vivem em situação de rua, 63% do total registrado em Santa Catarina (22 na primeira infância e 34 entre sete e 17 anos). Curitiba, no Paraná, enfrenta cenário de subnotificação, sem registros do contingente no CadÚnico, cadastro do governo federal para famílias de baixa renda.

Em comparação aos demais estados sulistas, o RS lidera, com 84 pessoas nas duas faixas etárias. Apesar da ausência de registros na capital Curitiba, o Paraná aparece com 83, e Santa Catarina, com 19. Ao todo, a Região Sul possui 260 crianças e adolescentes em situação de rua, sendo 127 na primeira infância (equivalente a 49%).

No país, das 394.863 pessoas em condição de rua, 9.976 são crianças e adolescentes, destas, 4.381 (44%) estão na primeira infância e 5.595 (56%) possuem entre sete e 17 anos. O maior número absoluto das faixas etárias em território brasileiro está no Sudeste (4.372), com 4.096 dos registros em São Paulo, dos quais 3.890 estão na capital do estado. Na sequência aparece o Norte (3.564), sendo quase a totalidade em Boa Vista, Roraima (3.357), devido aos fluxos migratórios.

A partir de definição de 2016 estabelecida pelos conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e de Assistência Social (CNAS), crianças e adolescentes em situação de rua são "sujeitos em desenvolvimento com direitos violados, que utilizam logradouros públicos, áreas degradadas como espaço de moradia ou sobrevivência, de forma permanente e/ou intermitente, em situação de vulnerabilidade e/ou risco pessoal e social pelo rompimento ou fragilidade do cuidado e dos vínculos familiares e comunitários, prioritariamente situação de pobreza e/ou pobreza extrema, dificuldade de acesso e/ou permanência nas políticas públicas".

Nos recortes do CadÚnico, não há especificação étnico-racial ou de gênero. Também não há informações sobre motivos para a ausência de um lar, relação com a família ou principais riscos aos quais estão submetidos. Perguntas como essas questões estavam presentes em relatório elaborado em 2016 com crianças e adolescentes entre sete e 17 anos pelo projeto Conhecer Para Cuidar, desenvolvido pela Associação Beneficente O Pequeno Nazareno e pelo Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (CIESPI/PUC-Rio).

Após investigar 17 cidades brasileiras com mais de 1 milhão de habitantes, o relatório mostrou que 85% dos jovens eram negros e pardos. O trabalho precoce, informal e precarizado estava presente na realidade de 72% dos entrevistados, e 67% afirmou sofrer violência física mesmo diante de acolhimento institucional.

Mesmo sem considerar o contexto de crianças expostas aos desafios do espaço urbano, o painel Primeira Infância em Dados aponta mais de 50 mil casos de violência contra indivíduos entre 0 e quatro anos no Brasil. De acordo com o estudo A Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua, também elaborado pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, entre 2014 e 2023, 150 mil episódios de violência contra moradores de rua foram registrados oficialmente no país.

A educadora popular e doutoranda em Educação pela UFRGS Paulina dos Santos Gonçalves reconhece a dificuldade em contabilizar o número de crianças em vulnerabilidade em Porto Alegre. Gonçalves lembra de um episódio em que, após produzir um relatório para o Serviço Especializado de Abordagem Social (Seas), vinculado à Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), foi questionada por incluir um bebê de seis meses entre a população em situação de rua. "Uma pessoa da gestão perguntou 'o que um bebê faria na rua?' Respondi que está existindo, sendo maternado ali. Conto isso para dizer que não dá para desvincular a primeira infância nessa condição de outras questões, como o déficit de estabelecimentos de educação infantil, temos um déficit histórico em Porto Alegre, e que há famílias inteiras indo para a rua, então vai ter crianças ali."

A noção do cuidado com as famílias também é compartilhada por Lilith Neiman, que acompanhou crianças e adolescentes nas ruas de São Paulo, em sua pesquisa de doutorado. "Não vejo um caminho de cuidado com as crianças em situação de rua que não passe por assegurar às suas famílias os direitos sociais da moradia, da alimentação, do trabalho não precarizado, do lazer… O que minha pesquisa mostra é que essas crianças participam de contextos, a infância não existe isolada. É preciso então conhecer de fato esses contextos, os cotidianos das famílias", explica.

Questionada, a prefeitura de Porto Alegre não respondeu se possui ou pretende implementar ações e programas destinados a proteger crianças e adolescentes na capital. Também não informou se reconhece o cenário apontado pela UFMG.

Em junho, ao Correio do Povo, o município afirmou que "os dados sobre a população em situação de rua divulgados a partir do Cadastro Único (CadÚnico) não representam, necessariamente, o cenário atual observado nas ruas da Capital".

Por meio de parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Executivo municipal está desenvolvendo o Censo da População em Situação de Rua. O prazo para a divulgação dos dados preliminares estava previsto para julho, mas não ocorreu. Nem a UFRGS, nem a prefeitura deram retorno até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto.

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