Feminismo, antirracismo e urgência climática. Artigo de Cidinha Santos

Foto: Markus Spiske/Unplash

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22 Agosto 2026

O machismo, o racismo e a devastação climática compartilham a mesma raiz colonial e capitalista; combatê-los exige alianças práticas entre gêneros e raças, pois o inimigo é a estrutura, não o indivíduo.

O artigo é de Cidinha Santos, jornalista, publicado por A Terra é Redonda, 20-08-2026.

Eis o artigo.

Vivemos um momento histórico de urgências e contradições. Nas trincheiras das lutas sociais, um dos maiores desafios é compreender como combater opressões seculares sem cair na armadilha de essencializar o “outro” como o inimigo final. Como mulheres, negras e brancas, lutamos diariamente contra a engrenagem letal do machismo e do racismo.

No entanto, se o nosso objetivo é a transformação real da sociedade, precisamos de um diagnóstico preciso: nosso inimigo não é o homem ou a pessoa branca enquanto indivíduos, mas sim o patriarcado, o racismo estrutural e o capitalismo colonial.

A fragmentação das pautas é a maior vitória do sistema que nos oprime. Para virar esse jogo, precisamos olhar para as nossas lutas não como ilhas, mas como um continente interligado que deságua em uma única e urgente causa: a defesa e a sustentabilidade da vida.

O inimigo é estrutural, não essencial

Como nos ensina a jurista e professora Carol Proner (2022) em suas reflexões sobre direitos humanos, soberania e justiça social, as estruturas de dominação jurídicas e políticas não são meras falhas morais individuais, mas engrenagens institucionais que perpetuam as desigualdades de classe, raça e gênero. Da mesma forma, juristas e intelectuais como Adilson Moreira (2021) e Dora Bertúlio (2019) destacam que a opressão racista e machista opera institucional e sistematicamente.

O racismo não é uma patologia individual ou um desvio moral, mas uma estrutura que organiza as relações políticas, econômicas e jurídicas da sociedade. Da mesma forma, o machismo estrutura a nossa sociabilidade.

Quando compreendemos a natureza estrutural dessas opressões, o papel das pessoas brancas e dos homens cisgêneros muda de figura. O objetivo do movimento negro e do feminismo não é a eliminação do “homem branco”, mas a abolição dos privilégios que essa categoria histórica acumulou.

Pessoas brancas não precisam ser tratadas como inimigas, mas devem ser cobradas a assumir sua responsabilidade histórica, atuando ativamente como aliadas antirracistas, abdicando de pactos de branquitude em prol de uma sociedade equânime. A culpa paralisa; a consciência política mobiliza.

A escritora e feminista negra bell hooks (2021), em sua obra O desejo de mudar: homens, masculinidade e amor”, é cirúrgica ao afirmar que o patriarcado não tem gênero. Ele é um sistema que violenta as mulheres de forma brutal (e muitas vezes fatal), mas que também mutila emocionalmente os homens, exigindo deles dominação, violência e a repressão dos próprios sentimentos.

Romper com o machismo exige trazer os homens para a roda. O movimento recente de homens que começam a discutir criticamente as masculinidades hegemônicas é um passo fundamental. Eles estão percebendo que o modelo tradicional de “homem provedor e inabalável” é uma máquina de adoecimento.

Para nós, mulheres, essa mudança não é apenas bem-vinda, é urgente no campo material: ela deságua diretamente na política de cuidados. Enquanto o trabalho reprodutivo, doméstico e de cuidado (a famosa jornada 7×7) for empurrado exclusivamente para as costas das mulheres, não haverá emancipação. Homens que desconstroem o machismo precisam assumir, na prática, a divisão igualitária do trabalho de cuidado, reconhecendo que a sustentação da vida humana é uma responsabilidade coletiva.

Mas como unir a luta contra o racismo e o machismo à urgência das mudanças climáticas? A resposta está na raiz de como o nosso sistema econômico funciona.

A teórica política Nancy Fraser (2022) argumenta brilhantemente que o capitalismo se baseia na expropriação gratuita de três frentes: o trabalho de cuidado das mulheres, os corpos racializados (historicamente escravizados e hoje precarizados) e a natureza. A lógica que explora o corpo da mulher no ambiente doméstico e que encarcera ou precariza o corpo negro nas periferias, é a mesmíssima lógica extrativista que desmata a Amazônia e polui os oceanos.

Como aponta Nancy Fraser, a crise do cuidado e a crise climática são duas faces da mesma moeda: a recusa sistemática do modelo econômico em investir na reprodução e na sustentabilidade da própria vida.

Não existe crise climática separada do racismo ambiental. Quando ocorrem grandes tragédias climáticas, como enchentes e deslizamentos, quem perde a vida e a casa nas áreas de risco? A população negra e periférica. E quem lidera a reconstrução comunitária, cuidando dos feridos, dos idosos e das crianças em meio ao caos? As mulheres.

Como nos alerta o pensador indígena Ailton Krenak (2019) em Ideias para adiar o fim do mundo, a humanidade se divorciou da natureza, passando a tratá-la como um mero “recurso”. Essa é a base do pensamento colonial, racista e patriarcal, que divide o mundo entre sujeitos (o homem branco e rico) e objetos a serem explorados (mulheres, pessoas negras, povos indígenas e a própria Terra).

O “bem viver”

A pensadora negra e brasileira Lélia Gonzalez (2020) já nos mostrava, por meio do conceito de “Amefricanidade”, que não se pode entender o Brasil sem cruzar raça, classe e gênero. A interseccionalidade não é apenas uma teoria acadêmica; é o mapa para a nossa sobrevivência.

Reunir tudo isso numa só causa significa entender que a luta por justiça climática é, obrigatoriamente, uma luta antirracista e feminista.

Não podemos salvar o clima sem derrubar o modelo de produção que destrói florestas. Não podemos mudar esse modelo econômico sem redistribuir a riqueza e o trabalho de cuidado. E não podemos ter justiça social sem implodir o racismo estrutural que define quem tem direito à vida e quem é descartável.

Homens dispostos a se reinventar e pessoas brancas dispostas a abrir mão de privilégios não são nossos inimigos; são co-construtores necessários de um novo paradigma civilizatório. O nosso inimigo comum é o sistema de morte. A nossa causa única e indivisível é a radical defesa da vida.

Aos homens, às pessoas brancas, às mulheres e a todas as forças emancipatórias:

Não haverá futuro em um planeta exausto, assim como não haverá justiça em uma sociedade erguida sobre o esgotamento das mulheres e a opressão racial. Entendemos que nossas lutas não são fragmentadas; elas são as ramificações de uma mesma árvore. Por isso, manifestamos e convocamos:

Contra o capitalismo extrativista e patriarcal: Exigimos o fim do modelo que trata a natureza como mercadoria e os corpos das mulheres e pessoas negras como infraestrutura invisível e gratuita.

Pela democratização do cuidado: Declaramos que o trabalho doméstico e comunitário é responsabilidade de toda a sociedade. Exigimos que os homens assumam integralmente a ética do cuidado e que o Estado garanta políticas públicas universais para a infância, a velhice e a saúde mental.

Por uma aliança antirracista real: Conclamamos as pessoas brancas a ultrapassarem a culpa que paralisa e a atuarem ativamente na destruição do racismo estrutural e do racismo ambiental que afeta as periferias e territórios tradicionais.

Por justiça climática interseccional: Defendemos que as soluções para a emergência climática venham da sabedoria ancestral, do bem-viver e da centralidade das comunidades mais atingidas.

Nossos inimigos não são os indivíduos, mas o sistema de expropriação.

A nossa causa é única: colocar a sustentabilidade da vida no centro do mundo.

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