A Cobra Coral que circula pelos gabinetes. Artigo de Sérgio Ricardo Gonçalves Dusilek

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21 Agosto 2026

"Preocupa que nos rendamos cada vez mais, como sociedade, à lógica pragmática que apregoa a defesa do que dá certo, com consequente esmaecimento da ética, dos valores. Por esta lógica, não mais importa o que é certo, mas sim o que dá certo. A requerida laicidade do Estado, muito bem lembrada nos dias atuais especialmente devido à volúpia e ao projeto de poder dominionista de certos setores evangélicos, deveria ser igualmente audível na denúncia da contratação de Cacique-Pajé (ou seria Pajé-Cacique)? Afinal, não deixa de ser o Estado despendendo o erário com uma expressão, tradição religiosa."

O artigo é de Sérgio Ricardo Gonçalves Dusilek, mestre e doutor em Ciência da Religião pela UFJF/MG, pesquisador, professor e pastor batista, enviado ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU, 20-08-2026.

Sérgio Ricardo Gonçalves Dusilek, mestre e doutor em Ciência da Religião pela UFJF/MG, com estágio pós-doutoral concluído em 2025 pelo PPG Letras da UEMS com bolsa CAPES; pesquisador, professor e pastor batista. Autor de Bíblia e Modernidade: A contribuição de Erich Auerbach para sua recepção; Evangelistão: provocações democráticas ao movimento evangélico e co-organizador de: Fundamentalismo Religioso Cristão: Olhares transdisciplinares; O Oásis e o Deserto: Uma reflexão sobre a História, Identidade e os Princípios Batistas; e A Noiva sob o Véu: Novos Olhares sobre a participação dos evangélicos nas eleições de 2022; Um olhar sobre o movimento evangélico no Brasil.

Eis o artigo.

Novamente estamos envoltos com a pajelança do Cacique Cobra Coral. É de se estranhar que a pajelança venha pelo cacique e não pelo pajé, mas o mundo espiritual anda tão confuso ultimamente (vide os evangélicos fazendo "arminha" nas igrejas) que nem se pode cobrar pureza conceitual de uma entidade originária. Afinal, o método científico não lhe pertence, assim como não se pode cobrar a precisão no uso dos termos.

Confesso, eis os limites deste autor, que pouco sei sobre a suposta entidade, assim como sobre a médium e a fundação que leva o nome de Cobra Coral. Por vezes me peguei pensando na médium como a personagem Storm, dos X-Men: uma mutante com habilidades para manusear as condições climáticas. Penso, inclusive, que este formato faria mais sentido para mim... e para você?

Entretanto, não é isto que está dado. O que temos em fartos registros na grande mídia são sucessivos sucessos atribuídos às intervenções da Fundação, através da pessoa que mantém uma provável e fina sintonia com o que seria um líder indígena há muito desencarnado. Como não lembrar da esquadra estadunidense que, navegando para a Venezuela, teve que dar meia-volta por ameaça de furacão no mar do Caribe, ação atribuída à Fundação Cobra Coral após ter sido contratada (segundo a mídia) pelo governo de Nicolás Maduro? Ou ainda das viradas de ano no Réveillon de Copacabana com céu de brigadeiro?

Pari passu à exposição dos fatos-bem-feitos, parece haver uma enorme discrição da "Brazilian Storm". Em um tempo de proliferação, em proporção geométrica, de diretores de cinema e de arte bastando para tanto ter um celular em mãos, não instagramar tais atmosféricos e reivindicados feitos é uma virtude. É preciso reconhecer que há um decoro na direção da Fundação Cacique Cobra Coral.

Todavia, algumas coisas me preocupam.

Em primeiro lugar, o que seria o caráter desviante da ação sobre as condições climáticas. A partir da expressão jornalística, estaria sob o poder do Cacique Cobra Coral desviar a intempérie. Ora, bom mesmo é que uma catástrofe climática deixe de ocorrer não somente na minha vizinhança, cidade, mas em todo lugar. Que valor há em manter o tempo firme aqui na capital carioca, se a baixada fluminense se torna, por exemplo, o local do deságue do "Rio desviado"?

Outra questão preocupante é assistir o poder público operando pela "lógica" do místico, do mágico. É mais fácil contar com uma varinha de condão, com um estalar dos dedos do gênio para resolver os problemas, do que trabalhar para que eles não aconteçam, ou mesmo para que, na eventual ocorrência, suas indesejáveis consequências sejam minoradas ou dirimidas pelas políticas públicas implementadas ao longo do tempo. São tempos diferentes; há o que deveria ser da esfera do estamento estatal (tempo como processo, como período) e o que cabe à citada Fundação (neste caso, tempo como condição climática). Por esta razão, governos que procuram a solução mágica assumem sua crônica incapacidade de gestão. Gestores mapeiam os potenciais problemas ou gargalos. Gestores procuram estabelecer fluxos processuais para resolvê-los atacando a causa, ao invés de se fazer presente somente na hora da tragédia, da desgraça.

Um terceiro e preocupante fator é o reducionismo pragmático. Não mais se avalia se há uma explicação científica para o desvio ocorrido da severa condição climática prenunciada; tampouco se cientificamente poder-se-ia cravar que a única explicação para aquele céu de brigadeiro no Réveillon de Copacabana, diante da outrora previsão do tempo, seria o "shakespeariano" dito que assevera que "há mais coisas entre o céu e a terra do que possa imaginar a nossa vã filosofia", esse limitado conhecimento que temos.

Preocupa que nos rendamos cada vez mais, como sociedade, à lógica pragmática que apregoa a defesa do que dá certo, com consequente esmaecimento da ética, dos valores. Por esta lógica, não mais importa o que é certo, mas sim o que dá certo. A requerida laicidade do Estado, muito bem lembrada nos dias atuais especialmente devido à volúpia e ao projeto de poder dominionista de certos setores evangélicos, deveria ser igualmente audível na denúncia da contratação de Cacique-Pajé (ou seria Pajé-Cacique)? Afinal, não deixa de ser o Estado despendendo o erário com uma expressão, tradição religiosa.

Por fim, e falo como pastor batista que sou, é de se estranhar que diante de uma anunciada adversidade climática e sendo o Rio de Janeiro um dos estados com maior presença evangélica no Brasil, que os muitos pastores que seguem ecoando a fórmula joanina de que "maior é o que está em nós, do que o que está no mundo" (I João 4.4b), não consigam se reunir para interceder pela capital, pelo Estado, a fim de que Deus dissipe (não desvie!) a severa e prenunciada intempérie. Não há um Elias sequer entre nós, a ponto de orar e a chuva cessar; e orar novamente e a chuva cair de modo abundante (I Reis 18.41-45; Tg. 5.17,18)? Ou os profetas desta geração são bravateiros ocos, vazios do poder do Espírito? Será que o nome de Jesus seguirá sendo insuficiente para uma concordância ecumênica? Será que a distância da realidade mais miserável, o chamado racismo ambiental, seguirá secando a misericórdia pastoral? E pior: será que somente Jair Bolsonaro é capaz de reunir as mais diferentes "autoridades" religiosas-espirituais?

Tem algo de muito errado que não tem como estar certo.

Termino dizendo que antes de ser uma crítica à espiritualidade alheia, à uma outra tradição religiosa, este texto é uma crítica à ambiência que, não só possibilita como estimula a existência dessa excrescência, a saber, a parceria do Poder Público com uma "entidade espiritual" oriunda de povos originários. Isso sim me parece ser neurotóxico para um Estado que pretende ser laico.

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