Mineração de carvão continua a crescer no mundo, apesar dos apelos do clima

Mais Lidos

  • Mineradoras estrangeiras detêm 4 a cada 10 projetos de terras raras no país

    LER MAIS
  • Uma análise psicológica do colapso ambiental. Entrevista com Josep Maria Panés

    LER MAIS
  • O "consumismo egocêntrico" nos separa de todos, até de nós mesmos. Artigo de Franco Arminio

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

21 Agosto 2026

China e Índia lideram planos para aumentar extração deste combustível fóssil de alto poder poluente. Expansão acontece mesmo com estabilização da demanda.

A reportagem é de Priscila Pacheco, publicada por Observatório do Clima, 20-08-2026.

Mesmo com o aquecimento global acelerado e estabilização da demanda, países têm mantido seus planos de expansão do carvão, o mais poluente dos combustíveis fósseis. Relatório publicado na última semana pelo Global Energy Monitor (GEM) mostrou que a capacidade global de mineração de carvão cresceu 11% em 2025, podendo aumentar em 2,5 bilhões de toneladas o total minerado por ano. Atualmente, 9,1 bilhões de toneladas de carvão são mineradas no mundo anualmente.

A capacidade de mineração proposta corresponde à quantidade máxima de carvão que minas poderão extrair por ano caso o projeto seja desenvolvido integralmente. Atualmente, existem 834 projetos. Do total identificado pelo GEM, 51,4% estão em estágio de pré-permissão, 17,5% receberam aprovação, mas ainda não iniciaram a construção, e 31% já entraram em construção ou operação de teste.

Se toda a capacidade proposta for concretizada, as minas poderão liberar anualmente cerca de 17 milhões de toneladas de metano, um gás mais de 28 vezes mais potente do que o CO₂ na retenção de calor. Em 2022, o IPCC afirmou, com alta confiança, que a continuidade dos investimentos em carvão e outras infraestruturas fósseis aumentaria as emissões dos sistemas de energia e dificultaria a limitação do aquecimento global a 1,5°C ou 2°C.

Juliano Bueno de Araújo, diretor técnico do Instituto Internacional Arayara e conselheiro do Fonte (Fórum Nacional de Transição Energética), explica que projetos em fase de pré-licenciamento ainda podem ser barrados por mecanismos legais, como processos de licenciamento ambiental, contestações judiciais e ações civis públicas. “Projetos já em construção são mais difíceis de parar juridicamente, pois envolvem contratos, direitos adquiridos e investimentos realizados”, afirma.

Segundo o GEM, o fato de a maioria dos projetos ainda necessitar de licenças, financiamento e decisões finais de investimento dá oportunidade para que governos, investidores e instituições financeiras desistam do avanço da exploração de carvão. Isto é, ainda dá tempo de evitar o estrago.

A expansão ocorre mesmo diante da projeção da Agência Internacional de Energia (IEA) de que a demanda global por carvão se estabilize nos próximos anos e comece a cair gradualmente até 2030. No ano passado, a demanda cresceu apenas 0,5%.

“A expansão proposta de mineração de carvão em 2025 é um paradoxo perigoso: ocorre exatamente quando a ciência diz que devemos parar, a economia diz que não compensa, e o mercado já está virando para renováveis. O que mantém o pipeline vivo não é necessidade técnica ou viabilidade econômica — é inércia política, subsídios e brechas financeiras”, diz Araújo.

Índia concentra expansão

O aumento registrado pelo GEM em 2025 foi impulsionado principalmente pela Índia, onde a capacidade proposta quase dobrou, de 329 milhões de toneladas por ano (Mtpa) para 638 Mtpa.

“Se construídos, os projetos comprometerão a Índia — um país sem cronograma formal de eliminação gradual do carvão — a anos de expansão do carvão e colocarão uma transição alinhada a 1,5°C longe dos combustíveis fósseis mais distantes do alcance”, diz o relatório do GEM.

Na Índia, quase 16% da capacidade proposta já está em construção, enquanto 23% recebeu licenças e poderá entrar em construção em breve. Aproximadamente 61% ainda está em fase inicial de planejamento e aguarda licenças.

Dorothy Mei, coautora da análise do GEM, explica que, entre os projetos aprovados, a maioria tem previsão de entrar em operação antes de 2030. O movimento está alinhado ao objetivo do governo indiano de elevar a produção de carvão para 1,15 bilhão de toneladas no ano fiscal de 2025-2026. O Ministério do Carvão argumenta que o aumento da produção é necessário para atender ao crescimento econômico, reforçar a segurança energética e responder à maior demanda por energia durante ondas de calor.

As ondas de calor, por sua vez, têm se tornado mais frequentes e intensas em razão das mudanças climáticas, agravadas pelas emissões de gases de efeito estufa provenientes principalmente da queima de combustíveis fósseis, como o carvão.

Cerca de 90% dos 101 milhões de toneladas por ano atualmente em construção na Índia correspondem a minas a céu aberto, que geralmente têm cronogramas de desenvolvimento e construção mais curtos do que as minas subterrâneas. “Isso sugere que uma parcela significativa da capacidade proposta na Índia, em estágio avançado de desenvolvimento, poderá entrar em operação nos próximos anos”, diz Mei.

Cinco países dominam a capacidade de mineração proposta

Quase 92% da capacidade de mineração de carvão proposta em 2025 está concentrada em apenas cinco países — China, Índia, Austrália, Rússia e África do Sul. Em 2024, eles representavam 89%.

Os 10 países com maior capacidade de mineração de carvão proposta

em milhões de toneladas por ano (Mtpa)

O gráfico mostra os 10 países com a maior capacidade proposta de mineração de carvão em milhões de toneladas por ano (Mtpa), liderados destacadamente pela China e pela Índia. (Créditos: Observatório do Clima)

“Ao todo, essas tendências destacam que a persistência global do carvão é cada vez mais impulsionada por um número limitado de países, em vez de uma ampla demanda global”, diz o GEM.

A China apresentou uma capacidade proposta relativamente estável entre 2024 e 2025, mas continua liderando o ranking, com 1,3 bilhão de toneladas por ano em projetos.

“Embora o desenvolvimento das minas de carvão da China mostre sinais de achatamento, permanece massivo e, se construído, compromete a China a anos de expansão do carvão bem no seu Plano Quinquenal (2026-2030), durante o qual o governo diz que o consumo do país atingirá o pico”, afirma o relatório. Em outras palavras: os projetos de expansão da mineração de carvão na China vão na direção contrária ao que o próprio Plano Quinquenal prevê.

A Austrália continua em terceiro lugar em capacidade total de mineração proposta. Segundo o GEM, o crescimento foi modesto e ocorreu principalmente em projetos de carvão metalúrgico para exportação, como o Corvus. Em estágio de pré-permissão, o Corvus tem previsão de encerramento em 2055.

Na Rússia, a capacidade proposta permaneceu estável, provavelmente em grande parte em razão dos impactos da guerra contra a Ucrânia. A África do Sul também apresentou estabilidade. Uma recente mudança na política energética do governo sul-africano, com planos de transição do carvão para uma matriz mais verde, pode continuar limitando a expansão da capacidade.

Atrás desses países aparecem Canadá, Moçambique, Mongólia, Bangladesh e Indonésia.

Enquanto a capacidade proposta cresce, o fechamento de minas avança lentamente. Entre 2026 e 2035, apenas cerca de 1,1 bilhão de toneladas por ano da capacidade atualmente em operação está programada para ser encerrada ou aposentada, o equivalente a cerca de 12% da capacidade ativa atual.

China e Índia, os dois maiores produtores de carvão do mundo, apresentam dados limitados sobre a capacidade operacional programada para ser aposentada antes de 2035. Para o GEM, isso evidencia o ritmo limitado de fechamento das minas planejadas nos países que dominam a produção global.

Quem é o carvão no cenário climático

O carvão foi o combustível que impulsionou a industrialização a partir do século 18 e continua sendo uma das principais fontes de emissões de gases de efeito estufa do setor de energia.

Em 1971, as emissões de gases de efeito estufa relacionadas ao carvão no setor de energia somaram cerca de 5,3 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente, segundo dados da IEA. A base considera CO₂, metano e óxido nitroso provenientes da combustão. Naquele ano, os Estados Unidos lideravam as emissões relacionadas ao carvão, seguidos pela China.

Em 2024, o carvão respondeu por quase 16 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente em emissões relacionadas à energia em todo o planeta, quase três vezes mais que em 1971. Em comparação com 2015, ano da assinatura do Acordo de Paris, as emissões cresceram cerca de 8,4%. Atualmente, China e Índia lideram as emissões relacionadas ao carvão.

Leia mais