The Nerd Reich ou como o Vale do Silício virou um projeto de tecnofascismo. Artigo de Henrique Cortez

Foto: Joint Congressional Committee on Inaugural Ceremonies | Wikimedia Commons

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21 Agosto 2026

O Vale do Silício não quer nos ajudar, ele quer nos governar – Resenha de “The Nerd Reich: Silicon Valley Fascism and the War on Democracy”, de Gil Durán

O artigo é de Henrique Cortez, jornalista, ambientalista e editor do portal EcoDebate, publicado por EcoDebate, 20-08-2026.

Eis o artigo. 

Uma leitura que incomoda

O Vale do Silício não quer nos ajudar, ele quer nos governar: resenha de "The Nerd Reich: Silicon Valley Fascism and the War on Democracy", de Gil Durán. Um jornalista que passou anos dentro da política californiana desmonta a ideologia dos bilionários da tecnologia e explica por que ela se parece cada vez menos com inovação e cada vez mais com um projeto de poder.

Título original: The Nerd Reich: Silicon Valley Fascism and the War on Democracy Autor: Gil Durán Editora: Avid Reader Press (Simon & Schuster)

Terminei "The Nerd Reich" com aquela sensação estranha de quem lê algo que confirma um desconforto que a gente já sentia, mas não sabia nomear direito. Há anos acompanho as falas de figuras como Peter Thiel e Elon Musk com apreensão, sem conseguir organizar isso em um argumento preciso e claro. Gil Durán faz exatamente esse trabalho, e faz com uma clareza que só quem já esteve dentro do jogo político consegue ter.

Durán não é um acadêmico distante nem um comentarista de internet. Ele trabalhou por anos como assessor de figuras como Jerry Brown, Dianne Feinstein e Kamala Harris, e antes disso foi jornalista. Essa dupla experiência aparece o tempo todo no livro: ele entende como o poder político funciona por dentro e sabe investigar como poucos. O resultado é um livro que não soa como teoria da conspiração, soa como reportagem séria sobre algo que estava acontecendo bem debaixo do nosso nariz.

O argumento central: de "mover rápido e quebrar coisas" a quebrar a democracia

A ideia que atravessa o livro inteiro é simples: as gigantes da tecnologia deixaram de ser nossas aliadas. Segundo o autor, um grupo de bilionários e investidores de risco concluiu, ao longo de décadas, que a democracia representativa é um obstáculo, e que eles deveriam ocupar o lugar dela.

Foi doloroso compreender que essa não é uma virada recente, motivada só pelo clima político dos últimos anos. Durán mostra que a raiz ideológica remonta a 1997, ao livro "The Sovereign Individual", de James Dale Davidson e Lord William Rees-Mogg, uma obra que previa que o dinheiro digital dissolveria os países como conhecemos. Peter Thiel (Palantir) teria se apaixonado por essa tese ainda jovem, e passou décadas ajudando a transformá-la em projeto político real.

Os "apóstolos" da nova ideologia

Um dos méritos do livro é dar nomes e rostos a essa ideologia que, de fora, parece difusa. Durán apresenta uma espécie de genealogia dos "tecnofascistas": Thiel como financiador e estrategista, Marc Andreessen como propagandista, Elon Musk como o rosto mais público e imprevisível, e Balaji Srinivasan como o teórico das fantasias mais extremas, incluindo a visão bizarra de cidades corporativas onde as pessoas usariam camisetas estampadas com logotipos de empresas para indicar sua "afiliação tecnológica".

Tem também Curtis Yarvin, o blogueiro monarquista que defende algo parecido com uma ditadura corporativa, com um CEO no lugar de presidente. Confesso que já tinha esbarrado no nome dele antes, mas foi lendo Durán que entendi o quanto essas ideias, que pareciam bizarrices de fórum de internet, migraram para dentro de gabinetes de poder de verdade.

Por que chamar isso de fascismo e não de "libertarianismo"?

Esse é o ponto em que o livro é mais corajoso, e também o mais discutível. Durán argumenta que o Vale do Silício se tornou fascista porque abraçou uma ideologia extrema de supremacia tecnológica. A comparação que ele traça entre a extrema direita tradicional e esse "tecnofascismo" é, para mim, o momento mais interessante do livro: enquanto o fascismo clássico promete um retorno a um passado mítico e glorioso, esses novos atores prometem um futuro igualmente mítico e glorioso, um destino nas estrelas, no espaço, alcançado por meio de uma transcendência que exige queimar cada vez mais energia e poder computacional, e que trata quem fica no caminho como descartável.

Li esse trecho mais de uma vez. Não é difícil reconhecer esse discurso: já ouvimos versões dele em conferências de tecnologia, em threads triunfalistas sobre inteligência artificial, em promessas de colonizar Marte como se fosse plano B para um planeta que os próprios bilionários ajudam a degradar. Durán faz esse paralelo sem soar histérico, e isso é raro em livros sobre esse tema.

Pontos fortes (e um pé atrás necessário)

O que funciona muito bem no livro é a pesquisa. Durán conecta nomes, investimentos, discursos e bastidores políticos de um jeito que raramente vemos fora do jornalismo investigativo de fôlego. A escrita é ágil, quase de thriller político, o que ajuda bastante em um livro sobre um tema que poderia facilmente virar um tratado acadêmico ilegível.

Por outro lado, é justo dizer que "fascismo" é uma palavra pesada, e o próprio livro sabe disso. Alguns leitores e críticos vão discordar do enquadramento, achando que o termo simplifica um fenômeno mais heterogêneo, que mistura libertarianismo, aceleracionismo tecnológico e velho e puro interesse financeiro. Eu terminei a leitura pensando que talvez o rótulo importe menos do que o padrão de comportamento que Durán documenta: concentração de poder, desprezo por instituições democráticas e uma narrativa messiânica que justifica qualquer custo humano em nome do "progresso".

Vale a pena ler?

Sim, e diria que vale a pena porque usamos produtos dessas empresas todos os dias, sem parar muito para pensar em quem está por trás das decisões que moldam nossa vida digital, e cada vez mais, nossa vida política.

"The Nerd Reich" não é uma leitura confortável, mas é necessária. Ela nos convida a trocar o encantamento ingênuo com a tecnologia por uma pergunta mais incômoda e mais adulta: a favor de quem, exatamente, essas visões de futuro estão sendo construídas?

Fecho a resenha com uma provocação do próprio Durán, que resume bem o espírito do livro: "estaremos nas estrelas". A pergunta que fica é quem vai ficar para trás, aqui na Terra, pagando a conta dessa promessa.

Ficha técnica

Título original: The Nerd Reich: Silicon Valley Fascism and the War on Democracy
Autor: Gil Durán
Editora: Avid Reader Press (Simon & Schuster)

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