Decapitados sem intérprete. Será que são todos iguais?

Mais Lidos

  • Após uma catástrofe, existem três caminhos, explica um dos criadores do termo resiliência: continuar como antes, votar em um ditador que promete segurança ou evoluir e renascer

    “Não se pode debater com fanáticos como Trump. Se você não pensa como ele, você é um idiota”. Entrevista com Boris Cyrulnik, neuropsiquiatra

    LER MAIS
  • Sobre a possibilidade de um golpe de Estado. Artigo de Jean Marc von der Weid

    LER MAIS
  • Os preparativos de Trump para o controle do Brasil. Artigo de Luís Nassif

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

19 Agosto 2026

Migrantes etíopes que trabalham na Arábia Saudita estão sendo condenados e executados em julgamentos sem advogados ou tradutores.

O artigo é de Manuela Carmena, publicado por El País, 19-08-2026.

Manuela Carmena foi juíza, membro da CGPJ (1996-2001) e prefeita de Madrid (2015-2019).

Eis o artigo.

Talvez você ainda não tenha lido um conto maravilhoso de Jack London. Chama-se "O Chinês" e está incluído em seu livro Os Mares do Sul. Por favor, se ainda não o leu, leia. Eu o tornaria leitura obrigatória no primeiro ano da faculdade de direito. A história se passa no contexto da emigração chinesa para a Polinésia. Os franceses estão levando Ah Cho para a guilhotina. O juiz o considerou culpado de um assassinato ocorrido no campo de trabalhos forçados. Ele não entende nada; não entende esses homens brancos. Ele não é o culpado. É inocente. Quando o guarda que o acompanha lhe mostra a ordem de execução, ele percebe que há um erro na transcrição do nome da pessoa realmente condenada. Desesperado, e da melhor maneira que consegue, explica ao guarda que não é Ah Chow, mas sim Ah Cho. Ele vê que o juiz cometeu um erro ao escrever seu nome em vez do nome do verdadeiro condenado, Ah Chow. A ordem de execução está errada. O juiz escreveu o nome do culpado incorretamente.

Ah Cho argumenta enfaticamente: Ah Chow é muito alto e ele é baixo. Ele não é Ah Chow, insiste desesperadamente. Tanto que o policial aceita o que Ah Cho diz. É verdade, houve um engano. No entanto, pensa ele, é tarde demais. Além disso, quem é ele para culpar o juiz por um erro… a guilhotina acaba de ser posicionada e a execução é iminente. Ele não quer correr nenhum risco. Afinal, justifica-se, todos são iguais.

Ao ler o apelo desesperado de Dawit Tesfay no El País no último sábado, 15 de agosto, meu coração se partiu. Sim, eu sei que temos sido bombardeados há meses com notícias que nos deixam atordoados, mas esta, de repente, causa uma dor insuportável. Lembrei-me daquela história maravilhosa de Jack London. Dawit Tesfay é o pseudônimo de um migrante etíope de 24 anos, um dos muitos que trabalham na Arábia Saudita. Ele foi condenado à morte. Será decapitado se não impedirmos isso. Ele, como muitos outros migrantes etíopes que trabalham na Arábia Saudita, está sendo condenado e executado em julgamentos não apenas sem advogados, mas sequer sem intérpretes. Os julgamentos são baseados em relatórios e documentos em árabe que eles não entendem. A Human Rights Watch e a Anistia Internacional confirmaram e denunciaram isso.

Talvez ainda tenhamos tempo de encontrar uma solução para impedir esse ato de injustiça brutal e cruel.

Leia mais