O novo relatório da Cepal abre caminho para uma grande transformação na América Latina e no Caribe. Artigo de Ramón Casilda Béjar

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18 Agosto 2026

Aproveitar a fragmentação geoeconômica multipolar para transformá-la em oportunidades de diversificação e inovação produtiva é o caminho mais consistente para a América Latina superar o ciclo de dependência.

O artigo é de Ramón Casilda Béjar, publicado por El País, 18-08-2026.

Ramón Casilda Béjar é professor e pesquisador do departamento de economia do IELAT-Universidade de Alcalá.

Eis o artigo.

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) elaborou o relatório "Rupturas e Oportunidades: Propostas para a América Latina e o Caribe Prosperarem na Nova Era Geopolítica". Este relatório foi liderado por José Manuel Salazar-Xirinachs, Secretário Executivo da Cepal, e copresidido por Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, e Iván Duque, ex-presidente da Colômbia. Estes dois, juntamente com outras dez figuras de alto nível, formaram um grupo de trabalho de alto nível, tornando o relatório uma ferramenta indispensável para interpretar tanto as vulnerabilidades quanto o potencial da América Latina e do Caribe.

Considerando que o cenário internacional contemporâneo está passando por uma profunda transformação — a globalização hiperconectada está dando lugar à fragmentação geoeconômica multipolar — o relatório defende a necessidade de adotar um “não alinhamento ativo” — ou seja, evitar alinhamentos rígidos — e de fortalecer a cooperação e a integração regionais diante da crescente fragmentação multipolar. Ressalta também a importância de alavancar os ativos estratégicos da região, como os minerais ligados à transição energética e à digitalização, incorporando valor agregado em vez de utilizar os modelos tradicionais de exportação primária.

Essa perspectiva alinha-se à tradição estruturalista defendida por Raúl Prebisch, arquiteto e líder intelectual da Cepal, que advogava pela transformação da estrutura produtiva da América Latina, pela redução da dependência externa e pela implementação de políticas macroeconômicas capazes de mitigar os ciclos econômicos internacionais. Essa linha de pensamento foi posteriormente enriquecida por Enrique V. Iglesias e José Antonio Ocampo a partir de perspectivas institucionais e neoestruturalistas.

O diagnóstico do relatório revive a tradição estruturalista ao nos lembrar que os desafios do século XXI não podem ser enfrentados sem a compreensão das assimetrias históricas do sistema internacional. Seu objetivo é mostrar como a região pode transformar a instabilidade atual em uma oportunidade para construir seu próprio modelo de desenvolvimento, baseado em seus recursos, capacidades produtivas e posição estratégica dentro do novo contexto geoeconômico e geopolítico.

Para compreender plenamente este tema, é útil começar pelas teorias de Raúl Prebisch, que revolucionou a teoria econômica em meados do século XX ao demonstrar que o comércio internacional não tendia necessariamente ao equilíbrio, mas sim à polarização através do modelo centro-periferia. Seu alerta sobre a deterioração dos termos de troca explicava por que as nações exportadoras de matérias-primas estavam ficando para trás em relação aos centros industrializados.

Hoje, a Cepal revisita essa perspectiva, alertando que a transição energética e a revolução digital podem reproduzir a antiga divisão internacional do trabalho. A América Latina possui recursos críticos — lítio, cobre, hidrogênio verde e biodiversidade —, mas a mera posse de recursos naturais não garante o desenvolvimento se estes forem exportados sem agregação de valor. Nesse sentido, a contribuição de Celso Furtado assume relevância crucial. Para Furtado, o subdesenvolvimento não era um estágio anterior ao desenvolvimento, mas sim uma estrutura ramificada e autossustentável, alimentada pela dependência tecnológica e pela concentração de renda. O relatório ecoa essa preocupação, alertando para as rupturas nas cadeias de suprimentos globais: se a região se limitar a fornecer minerais estratégicos a potências concorrentes, aprofundará o dualismo estrutural identificado por Furtado.

A resposta do relatório a esse risco é a adoção de um "não alinhamento ativo". Essa postura não equivale à neutralidade passiva, mas sim a uma estratégia pragmática voltada para a diversificação produtiva, a soberania tecnológica e a ampliação da margem de manobra internacional. Em termos prebischianos, implica reinterpretar a industrialização e a transformação produtiva para adaptá-las à era da inteligência artificial, dos mercados verdes e da fragmentação geoeconômica multipolar.

Essa nova situação levou a uma arquitetura tripartite marcada pelas esferas de influência dos Estados Unidos e da China, enquanto a União Europeia busca se consolidar como um terceiro bloco. Essa competição está redefinindo os fluxos globais de comércio e investimento e exige que a América Latina fortaleça suas instituições para negociar com maior autonomia.

Neste ponto, as contribuições de Enrique V. Iglesias recuperam seu valor estratégico. Durante seus mandatos na Cepal e no Banco Interamericano de Desenvolvimento, Iglesias defendeu que o desenvolvimento econômico requer instituições fortes, transparentes e resilientes, capazes de resistir a choques externos. Na atual fragmentação geoeconômica, essas instituições não devem apenas ser eficientes, mas também capazes de evitar a subordinação a interesses financeiros.

Diante das pressões financeiras, da volatilidade cambial, da inflação importada e das crises da dívida associadas à reestruturação das taxas de juros globais, a abordagem macroeconômica de José Antonio Ocampo torna-se indispensável. Historicamente, Ocampo defendeu a implementação de políticas anticíclicas e a regulação das contas de capital para proteger as economias periféricas das flutuações especulativas internacionais.

Atualmente, a aplicação das teorias de Ocampo implica ir além das políticas ortodoxas de ajustamento pró-cíclicas e adotar mecanismos de estabilização macroeconômica. O relatório alinha-se a essa visão ao enfatizar a necessidade urgente de criar fundos de estabilização e redes de segurança financeira regionais para mitigar os choques externos decorrentes da disputa comercial e tecnológica entre Washington e Pequim.

Consequentemente, o confronto entre os Estados Unidos e a China obriga a América Latina a elaborar uma estratégia de integração internacional inteligente e pragmática. Os Estados Unidos buscam assegurar as cadeias produtivas e conter o avanço tecnológico chinês em sua esfera de influência histórica. A China, por sua vez, continua a expandir-se por meio de investimentos em infraestrutura e comércio. A União Europeia, enquanto isso, tenta atuar como uma força de equilíbrio por meio de padrões de sustentabilidade ambiental e digitalização, embora com menor poderio financeiro e militar.

Diante dessa polarização, como destacou Josep Borrell, ex-Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança e ex-Vice-Presidente da Comissão Europeia, a resposta regional exige avançar rumo a uma maior integração, embora não possa depender exclusivamente do consenso político entre os governos no poder, que muitas vezes são frágeis ou divergentes, mas deva basear-se em projetos concretos e em atores capazes de implementá-los.

Hoje, no mundo corporativo onde as regras tradicionais da globalização foram substituídas pela relocalização das cadeias produtivas, afinidades políticas e segurança nacional como critérios centrais para o comércio e o investimento, as multilatinas desempenham um papel decisivo. Sua presença em diversos países da região, bem como na Espanha e na Europa, lhes confere a flexibilidade operacional necessária para liderar cadeias de valor regionais em setores como agronegócio, manufatura avançada, energias renováveis, produtos farmacêuticos, aeroespacial, eletrônica, fintech e startups unicórnio de tecnologia.

Trabalhando em coordenação com o setor público, essas empresas podem se tornar implementadoras práticas de um “desalinhamento ativo”. Sua capacidade de operar simultaneamente nos mercados americano e europeu, atrair investimentos chineses e incorporar os requisitos ambientais e digitais da União Europeia amplia a margem de manobra da região, reduz o risco de uma renovada dependência e aumenta a viabilidade de propostas de desenvolvimento soberano. Essa viabilidade dependerá não apenas da qualidade do diagnóstico, mas também da capacidade dos governos de traduzi-lo em uma agenda concreta, coordenada e sustentável.

Como o relatório demonstra claramente, a região possui ativos estratégicos que se valorizaram devido ao novo contexto geopolítico — energia, alimentos, minerais críticos, biodiversidade, capacidade produtiva e talentos —, mas esses ativos só se traduzirão em desenvolvimento se houver estratégias claras, instituições sólidas e mecanismos eficazes de governança regional baseados em três pilares:

  • Integração pragmática: a integração regional não exige unanimidade política, mas sim acordos funcionais entre países que compartilham interesses concretos em áreas como energia, infraestrutura, digitalização, ciência, inovação e cadeias de valor regionais.
  • Destaque empresarial: as multilatinas e o conjunto de empresas inovadoras nos setores de manufatura, agroindústria, farmacêutico, aeronáutico, eletrônico, fintech e unicórnios tecnológicos podem atuar como motores práticos de integração produtiva.
  • Não alinhamento ativo: Diante das pressões de influência opostas dos Estados Unidos, da China e da União Europeia, essa estratégia deixa de ser uma formulação retórica e se torna uma necessidade para a sobrevivência econômica, a autonomia tecnológica e o poder de negociação internacional.

Em suma, de acordo com as conclusões do relatório, aproveitar a fragmentação geoeconômica multipolar para transformá-la em oportunidades de diversificação e inovação produtiva, fortalecimento institucional e integração digital é o caminho mais consistente para a América Latina superar seu ciclo histórico de dependência. Somente por meio de uma combinação de visão estratégica, integração inteligente, dinamismo empresarial, cooperação público-privada e alianças internacionais equilibradas, a região poderá avançar rumo a um desenvolvimento mais equitativo, competitivo e verdadeiramente sustentável, que gere bem-estar social.

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