Violência de gênero. Monstruosamente normal. Artigo de Marta Fraile

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

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17 Agosto 2026

Tratar a violência de gênero como uma sucessão de tragédias individuais é o que permitiu que ela continuasse sendo uma epidemia que afeta principalmente as mulheres.

O artigo é de Marta Fraile, publicado por El País, 17-08-2026.

Marta Fraile é professora pesquisadora no Instituto de Bens e Políticas Públicas do CSIC.

Eis o artigo.

Tratar a violência de gênero como uma sucessão de tragédias individuais é o que permitiu que ela continuasse sendo uma epidemia que afeta principalmente as mulheres.

A violência de gênero contra as mulheres é uma epidemia global. De acordo com o relatório mais recente das Nações Unidas sobre feminicídios, ela vitima, em média, 140 mulheres por dia em todo o mundo, um número equivalente ao desaparecimento diário de uma pequena aldeia de mulheres. Na Espanha, a última pesquisa nacional sobre violência de gênero (2024) mostra que 9,2% das mulheres com 16 anos ou mais residentes no país sofreram violência física por parte de seus parceiros em algum momento de suas vidas (o que representa aproximadamente dois milhões de mulheres), 3% (629.994) nos quatro anos anteriores às entrevistas e 1,5% (326.298) no último ano. Esses números descrevem uma violação vergonhosa dos direitos humanos em escala planetária. E, no entanto, ela continua a crescer: um fluxo constante e feroz que corrói nossas sociedades, sem que a indignação imediata provocada por cada novo caso se traduza em mudanças estruturais duradouras.

O recente assassinato de Laura Cruz pelas mãos de seu ex-companheiro ilustra de forma contundente o mecanismo que perpetua essa violência em todos os cantos do mundo. A jovem indiana casada prematuramente; a sul-africana agredida na rua; a dona de casa abusada durante décadas pelo marido; ou, neste caso, uma agente da Guarda Civil assassinada por seu ex-companheiro, também agente da Guarda Civil. Todas compartilham a mesma perda fundamental vivenciada por todas as vítimas de violência de gênero: a perda do controle sobre suas próprias vidas.

A violência de gênero é diferente de qualquer outro crime violento. Ela ocorre dentro da família, justamente o lugar onde todos deveríamos nos sentir seguros. A violência é perpetrada por alguém não apenas conhecido da vítima, mas com quem ela compartilha afeto, intimidade, planos de vida e até mesmo filhos. Alguém que alega amar sua vítima. Esse tipo de violência é corrosivo e insidioso: muitas vezes permanece oculto até mesmo dos parentes mais próximos, porque as lesões físicas mais visíveis são frequentemente precedidas por feridas igualmente devastadoras: o abuso verbal e emocional.

Essa violência se alastra por meio de mecanismos psicológicos tóxicos baseados no controle obsessivo do agressor, que emprega uma ampla gama de estratégias para limitar, monitorar e dirigir a vida da mulher que afirma amar, minando progressivamente sua capacidade de tomar decisões e sua independência. Um argumento recorrente entre os agressores é que o amor intenso que sentem por suas parceiras domina completamente sua vontade, a ponto de levá-los a cometer atos de violência e crueldade inaceitáveis. A ideia de que amor e violência têm a mesma origem não é apenas enganosa: é aterradora. E é também uma ideia que nossa cultura tem alimentado por gerações por meio de narrativas românticas onde o ciúme é disfarçado de paixão e o controle é confundido com cuidado.

Em seu livro "Marcas Invisíveis", a jornalista Sandra Susany retrata agressores marcados por um narcisismo exacerbado, propensos ao engano e à duplicidade, com vícios (principalmente álcool) que são mais ou menos visíveis e tolerados. Estudos acadêmicos acrescentam outros fatores associados a esse perfil: exposição à violência na infância, falta de apoio social, pobreza ou abuso de substâncias. Mas essas evidências provêm principalmente da análise de casos de violência que terminam em feminicídio, e o feminicídio é apenas o desfecho final de uma longa trajetória de abuso e agressão que muitas vezes permanece silenciada pelos inúmeros obstáculos que as vítimas enfrentam ao tentar denunciá-la.

A produção cultural dos últimos anos nos aproxima desse caminho, povoado por fantasmas, silêncios, medos e desolação absoluta. Séries como Querer retratam a rejeição social e familiar que uma mulher pode sofrer ao ousar denunciar décadas de violência doméstica. Muitas vítimas não denunciam porque sabem de antemão o calvário que as aguarda: tanto a polícia quanto o sistema judiciário oferecem ferramentas limitadas para protegê-las. Há lacunas particularmente difíceis de preencher, como os recursos financeiros das mulheres para reconstruir suas vidas, ou a lentidão e ineficácia dos intermináveis ​​protocolos judiciais que obrigam a vítima a reviver seu trauma repetidamente perante autoridades, peritos e juízes. Frequentemente, os homens acusados ​​encontram maneiras de se esquivar das obrigações financeiras e das penas criminais, enquanto o processo se arrasta por anos e a mulher permanece presa em um limbo jurídico que a mantém, de fato, vinculada ao seu agressor.

O caso de Laura Cruz é mais uma ilustração trágica dessa longa jornada, e também das limitações das instituições que deveriam proteger as vítimas. Ela tentou ativamente escapar, passo a passo, utilizando as ferramentas e os recursos que o sistema vigente lhe disponibilizava, sempre vigilante, fazendo tudo ao seu alcance para sair da situação em que estava presa. O pior é que o caso dela não é isolado: muitas mulheres que ousam denunciar o abuso acabam presas em um pesadelo sem fim, incapazes de se libertar completamente da experiência de maus-tratos.

Muitas mulheres que conseguem escapar de seus agressores ainda são obrigadas a manter contato com eles se compartilharem a guarda dos filhos. E mesmo sem filhos envolvidos, muitas vítimas continuam a viver em constante medo muito tempo depois de escaparem de uma situação de abuso, especialmente quando o processo legal termina com a prisão do agressor. Nesses casos, as idas e vindas da casa da vítima se tornam particularmente perigosas.

Tudo isso deveria nos levar a repensar a natureza complexa da violência de gênero. Embora ocorra na esfera privada e familiar, ela tem consequências muito graves para a saúde pública de milhões de pessoas em todo o mundo. Não é apenas um problema de Laura; ela teve o azar de escolher o parceiro errado. Se aconteceu com ela, pode acontecer com qualquer uma de nós. Tratá-la como uma série de tragédias individuais e distantes é justamente o que permitiu que a violência masculina permanecesse, ano após ano, uma das principais causas de morte violenta entre mulheres em todo o mundo.

Há quase três anos, a irmã de outra vítima de feminicídio, a estudante universitária italiana Giulia Cecchettin, assassinada pelo ex-companheiro, expressou sua dor com uma mensagem poderosa, com aquela clareza que só a dor às vezes proporciona. Elena Cecchettin lembrou a todos que seu luto não era privado, mas público e político, e que o assassino de sua irmã não era um "monstro" ou uma pessoa "depravada", mas um indivíduo "monstruosamente normal". As mulheres que tomaram as ruas de diversas cidades italianas naquela onda de manifestações carregavam as chaves de casa nas mãos, bem visíveis: uma forma de dizer que a violência de gênero não é algo que acontece apenas com outras mulheres. Esses homens comuns vivem em nossas casas, sentam-se às nossas mesas e, muitas vezes, nem sequer se dão conta de que estão reproduzindo um padrão que a sociedade os ensinou a confundir com amor. Reconhecer isso não é um exercício de culpa coletiva, mas o primeiro passo necessário para desmantelá-la.

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