15 Fevereiro 2021
"Sujar as mãos intelectualmente implica correr riscos, estar sujeito a resistências e rechaços, às vezes do próprio grupo ou da comunidade eclesial. Assumir posições incômodas pode resultar no isolamento por parte dos pares, o que pode ser mais difícil do que reações externas. Um lugar doloroso e indesejável. Jesus não foi compreendido pelos seus pais quando sentiu que precisava de uma imersão entre os doutores do Templo (Lc 2, 48). Parece que eles tomaram a referida atitude como um ataque pessoal, quando a intenção de Jesus era outra. Talvez o tenham julgado rebelde ou até irresponsável por ter se lançado em terreno desconhecido e fronteiriço".
O artigo é de Gabriel dos Anjos Vilardi, jesuíta, mestre em Direito pela Unisinos, bacharel em Direito pela PUC-SP e em Filosofia pela FAJE. É autor do livro Os Povos Indígenas e a defesa da Natureza como titular de direitos na Constituição Federal: uma análise descolonial a partir de Ellacuria.
Eis o artigo.
É verdade que “só se aprende a falar, aprendendo a calar com o Povo”. Afinal, “o Verbo se faz carne no silêncio sofrido”, ensina o bispo-poeta Pedro Casaldáliga (1982, p. 36). Por muito tempo, inúmeros intelectuais e instituições acadêmicas desenvolveram – e essa continua sendo a realidade em alguns lugares – um tipo de conhecimento elitista e inacessível à grande parte da sociedade. Também as universidades católicas e os intelectuais cristãos não estiveram – e não estão – isentos dessa tentação perigosa. Todavia, nos tempos atuais houve uma deriva para o campo oposto, o do anti-intelectualismo. Vive-se, pois, uma falsa dicotomia entre a fidelidade obediente à Igreja e a questionadora profundidade intelectual.
Em muitos ambientes, o apostolado intelectual sempre foi sinônimo de eruditismo estéril e de alienação da vida ordinária do Povo de Deus. Ao longo do tempo, os intelectuais foram comumente caracterizados por uma combinação de adjetivos duros, que podem ir do esnobismo blasé, passando pela vaidade exagerada, até a arrogância pura e afetada. Não se pode negar que tais qualificativos, em muitos casos, são acertados e justos, ao descreverem personalidades narcísicas e autorreferenciais.
Com o advento da renovação trazida pelo Concílio Vaticano II e o fortalecimento de uma teologia contextual e crítica, a compreensão da figura do intelectual se alargou. Se o catedrático trancado no seu gabinete não deixou de ser realidade – mais ou menos majoritária dependendo do ambiente –, passou a ser mais comum encontrar tantos outros engajados em comunidades eclesiais, movimentos e pastorais sociais. Aquilo que Antonio Gramsci vai definir como “intelectual orgânico” e outros autores como “intelectual público”, que, com suas nuances e diferenças, referem-se a atores conscientes e comprometidos com o papel que desempenham nas transformações sociais.
Afinal, como reconheceu o grande pensador jesuíta João Batista Libânio (2012, p. 28), se é verdade que “a vida intelectual pede uma dose de solidão”, isso “não significa nem isolamento nem alienação, mas concentração, convívio com o mistério”. Nesse mesmo sentido pontua o teólogo asiático Peter Phan:
“Teologia não é uma empreitada solitária realizada na proverbial torre de marfim. Claro que, algumas vezes, os teólogos precisam se retirar para a biblioteca ou para sala privada de estudo, mas o ato de teologizar não acontece no esplêndido isolamento. Ao contrário, é essencialmente um ato eclesial, enraizado na Bíblia e na Tradição Cristã, alimentado pelas celebrações litúrgicas e sacramentais da Igreja, pontuadas pelas orações pessoais, dando voz aos sem voz e agindo em solidariedade com e lutando pelos últimos e menores” (Phan, 2025, p. 6).
Aqui não se trata apenas, apesar de ser extremamente necessário, de produzir uma Teologia encarnada e conectada com a vida das comunidades eclesiais. Antes, é preciso assumir uma postura de cristãos e cristãs conscientes do significado do seu batismo, chamados a ser um povo real, sacerdotal e profético. Verdadeiros templos do Espírito Santo e membros de comunidades de fé protagonistas no seguimento de Jesus, não meros receptáculos passivos, tão somente preocupados em se desincumbir dos “preceitos religiosos”.
O Deus de Jesus nos libertou para a liberdade (Gal 5,1), fundamental na caminhada cristã. Não somos mais servos, mas amigos do Senhor do Sábado (Jo 15,15). Por isso, uma fé profunda demanda a coragem de questionar a lei e as estruturas. Afinal, Jesus deu um novo significado a ambas. Ele afirma que quem não se converter e se tornar como uma criança não entrará no Reino de Deus (Mt 18, 3). Ora, as crianças têm toda a liberdade para formular perguntas e dificilmente se pode controlar a sua curiosidade que parece infinita. Querem saber o porquê das coisas e não se contentam com explicações abruptas.
Parafraseando o poeta, questionar é preciso. Questionar as respostas prontas dadas autoritariamente, as normas que envelheceram mal e pervertem a Tradição, os gestos superficiais repetidos mecanicamente. Questionar significa escavar mais fundo no valioso e sempre novo depósito da fé, carregado no coração do Povo de Deus. De acordo com Phan, esse processo faz parte da vida de fé:
“Pessoas de fé, mesmo em assuntos mundanos, precisam perguntar o que elas creem, por que creem, se as razões para crer são suficientemente persuasivas e como elas passaram a crer, especialmente se há provas empíricas que derrubam suas crenças” (Phan, 2025, p. 5).
Fazer perguntas não é fácil, tampouco agradável. Muito mais simples e cômodo seria aceitar aquilo que já vem de cima, sem aprofundar nem sequer raciocinar. Infelizmente, salvo raras exceções, volta a crescer nas paróquias e dioceses Brasil afora um modelo formativo dogmático, com pouquíssima abertura a questionamentos. Discordar em alguns espaços eclesiais é interpretado como um desafio direto à autoridade eclesiástica, o que pode levar à marginalização ou até à exclusão daqueles que o ousam fazer.
Quem tem medo do senso crítico? Tal rechaço à crítica embasada fala mais do crítico ou daqueles que não toleram uma atitude crítica? Ensinar a pensar e a ler a realidade de forma crítica não faz parte da vocação cristã? Não foi Jesus um questionador por excelência? Ou Jesus foi mais um superficial e amorfo em seus ensinamentos, apenas reproduzindo acriticamente sua formação prévia?
A inabilidade de lidar com a crítica muitas vezes advém das fragilidades e inseguranças próprias de quem quer interditar a discussão. A posição defensiva geralmente está atrelada à dificuldade de sustentar uma posição com argumentos sólidos e bem fundamentados. Assim, o caminho mais evidente é se evadir do debate ou ainda rejeitar aqueles que se propõem a refletir. Resultado, o empobrecimento das relações e experiências de mundo.
Libânio fala da importância do senso crítico, “como atitude fundamental”, que “quer ser um esforço para superar as primeiras impressões, o óbvio, o imediato, o visivelmente aparente, indo às raízes da realidade” (Libânio, 2012, p. 90). Nesses termos assevera o teólogo mineiro:
“A abertura para o novo só é possível na liberdade. E não há liberdade lá onde atuam o medo e a insegurança inconscientes. O medo da liberdade leva o sujeito a submeter-se a uma realidade, a uma ‘verdade’, a tal ponto que renuncia à liberdade e por isso já não tem condições de abrir-se a um diferente. A liberdade implica que o sujeito se coloque diante do diferente e do novo sem medo, crítico-analiticamente, para, num segundo momento, tomar posição diante dele” (Libânio, 2012, p. 83).
Na era da Inteligência Artificial, a rapidez, o imediatismo e as bolhas criadas pelos algoritmos podem contribuir para o definhamento do pensamento. Um pensamento que corre o risco de se cristalizar diante da pouca exposição à divergência. Como se não bastasse, para gerar engajamento e aumentar o tempo gasto nas plataformas digitais, a velha estratégia de manipulação pelo medo vem sendo largamente utilizada pelas Big Techs e toda a cadeia que lucra com esse negócio.
Diante desse cenário, um dos desafios da Igreja é ajudar a formar consciências contraculturais, enraizadas na melhor tradição cristã, que vai muito além de um conjunto de preceitos ritualísticos ou moralistas pré-estabelecidos sobre o que se pode ou não fazer. Como recorda o Papa Leão, a tecnologia “não é uma solução para os problemas da humanidade, assim como não é, em si mesma, um mal; todavia, na prática, não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam” (Magnifica Humanitas, nº 9).
Renunciar ao raciocínio crítico ou terceirizá-lo em troca de respostas fornecidas pela Inteligência Artificial pode acarretar consequências desastrosas. Assim destaca o pontífice estadunidense:
“(...) edificar no bem significa aceitar os limites e a fragilidade da humanidade, sem os considerar um erro a corrigir. Hoje, o desejo de plenitude do ser humano corre o risco de ser desviado para objetivos enganadores: a ilusão duma técnica que promete libertar-nos de toda fragilidade ou modelos de bem-estar que ‘deixam para trás’ povos inteiros. Não raro, depositamos a esperança num aperfeiçoamento sem limites, em formas de progresso que podem exacerbar as desigualdades, em soluções imediatas incapazes de curar as feridas dos povos. Então, enquanto alguns perseguem a quimera de uma autoafirmação ilimitada, muitos continuam sem o essencial” (Magnífica Humanitas, nº 12).
Instigada à permanente conexão virtual e sob tão profusos estímulos, a humanidade parece que nunca esteve tão desconectada de si e da Natureza. No Capitaloceno, a ordem é produzir lucro com a triste ilusão de uma efetiva melhoria da vida, quando, na verdade, apenas uma restrita elite transnacional concentra grande parte da riqueza econômica. O mundo já tem seu primeiro trilionário, ao passo que apenas os doze bilionários mais ricos detêm mais dinheiro do que a metade da população mais pobre, ou seja, quatro bilhões de pessoas.
“Desde 2020, a riqueza dos bilionários aumentou 81%, enquanto uma em cada quatro pessoas não tem regularmente o suficiente para comer e quase metade da população mundial vive na pobreza” (Ofxam, 2026). Ainda assim, propagam-se desinformações e compreensões distorcidas da realidade, como o negacionismo científico e a oposição às políticas sociais em nome de uma falsa e desigual ideologia meritocrática.
Por isso, é imperioso retomar o essencial a partir de um olhar profundo sobre si, sobre a sociedade e sobre a própria experiência de fé. Para ir mais além, precisa-se enfrentar a pandemia de distrações que ameaça dominar a sociedade hiperconectada. Nesses termos alertou o então Superior-Geral da Companhia de Jesus, Padre Adolfo Nicolás, ao comentar sobre Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier, São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila:
“E depois perguntei-me: o que é estava tão presente neles e que parece termos perdido? Creio que é o seu centramento total. Tinham sido apanhados pelo Espírito, o fogo, a vida e o estilo de Cristo, e aí permaneceram, totalmente centrados, explorando as suas profundidades, reconstruindo toda a sua vida em torno a este novo centro. Tocaram profundamente esta experiência, viveram tudo a partir dela, queimando-se com ela, partilhando o fogo e a luz com os outros. Tornaram-se luminosos para gerações de pessoas que buscavam as mesmas profundidades ou se surpreendiam pela existência de tais profundidades. Estes ‘clássicos’ (à falta de um termo melhor) estavam totalmente centrados. Ao lado destes santos, parecemos estar enormemente – se me permitem a expressão – estupidamente ‘distraídos’” (Nicolás, 2023).
Como lidar com tais “estúpidas distrações”, sem recair na mesma pressão por desempenho e sem se entregar à tal aceleração superficial que a muitos parece submeter? Não se trata de adicionar mais uma tarefa à longa e exaustiva lista de atividades a vencer. Mas, sim, mudar a perspectiva, e aqui a espiritualidade inaciana, bem como o modo de proceder dos jesuítas, podem ajudar.
Ao longo dos Exercícios Espirituais, Inácio de Loyola orienta aqueles que se propõem a viver essa experiência a “refletir para tirar proveito”. Ou seja, deve-se debruçar sobre aquilo que o Senhor suscitou durante a oração, sejam moções, apelos e resistências. Com pressa não se pode rezar, mas é fundamental “gastar tempo” nesse diálogo, demorando-se ali onde Deus irrompe irreverentemente. Essa atitude reflexiva demanda tomar consciência e saborear, com reverência, o vivenciado de forma gratuita.
Também com o exame de consciência, o fundador da Companhia de Jesus indicava a importância de estar atento aos processos experimentados ao longo do dia. A vida não pode ser encarada simplesmente como uma sucessão de eventos e atividades cumpridas. O Espírito que conduziu as primeiras comunidades continua falando à Igreja e inspirando os cristãos e cristãs do século XXI.
Em sua “Carta sobre o papel da literatura na formação”, o Papa Francisco com a sua provocante e vívida profundidade de quem não se conforma com as análises insossas e as explicações preguiçosas, dirigiu um apelo ao Povo de Deus, imerso na sociedade performática do TikTok. Nesse necessário documento que merece ser lido e retomado com vagar, o papa jesuíta critica o “eficienticismo” ao destacar que “o próprio serviço – cultual, pastoral, caritativo – pode tornar-se um imperativo que orienta as nossas forças e a nossa atenção apenas para os objetivos a alcançar”:
“Na verdade, a nossa visão ordinária do mundo é como que ‘reduzida’ e limitada pela pressão que os objetivos operacionais e imediatos do nosso agir exercem sobre nós. [...] Mas, como nos recorda Jesus, na parábola do semeador, a semente precisa de cair em terra profunda para amadurecer frutuosamente ao longo do tempo, sem ser sufocada pela superficialidade ou pelos espinhos (cf. Mt 13, 18-23). Assim, o risco passa a ser o cair na busca duma eficiência que banaliza o discernimento, empobrece a sensibilidade e reduz a complexidade. Por isso, é necessário e urgente contrabalançar esta inevitável aceleração e simplificação da nossa vida quotidiana, aprendendo a distanciarmo-nos do imediato, a reduzir a velocidade, a contemplar e a escutar. Isto pode acontecer quando, de modo desinteressado, uma pessoa se detém para ler um livro” (Francisco, 2024, nº 31).
Para buscar viver com fidelidade o chamado de Cristo, é imprescindível que as comunidades de fé sejam espaços criativos e cheios de densa imaginação. Comunidades vivas e fecundas para as novidades do Criador. Acolher o Reino de Deus significa ter abertura para conceber realidades diversas e totalmente outras dos padronizados e dominantes modelos político-econômicos e, inclusive, das estruturas eclesiais já ultrapassadas. A capacidade de sonhar e criar precisa ser exercitada e desenvolvida, do contrário, atrofia-se nos limites da opaca mesmice e da modorrenta uniformização.
Os bons livros, clássicos ou contemporâneos, longos ou curtos, em prosa ou poesia, são valiosos aliados nessa empreitada de aprofundamento do pensar. E aqui não se trata de manuais, compêndios e códigos com suas normas e tecnicidades, mas o Papa recomenda que se leiam romances. Segundo Bergoglio (nº 6), “a literatura tem a ver com o que cada um de nós deseja da vida, uma vez que entra numa relação íntima com a nossa existência concreta, com as suas tensões essenciais, com os seus desejos e os seus significados”.
“Além disso”, relembra o papa argentino (nº 8), “para um crente que deseja sinceramente entrar em diálogo com a cultura do seu tempo ou, simplesmente, com a vida de pessoas concretas, a literatura torna-se indispensável”. De outro modo, para ser uma Igreja que, sendo ou não cada vez mais minoritária, queira manter a sua relevância, o diálogo com a cultura jamais pode ser desprezado ou negligenciado. E, para cumprir a sua missão, seus membros não podem se ausentar desses espaços.
Tampouco é possível participar, contribuir e influenciar os debates mais candentes e relevantes da sociedade, oferecendo uma perspectiva cristã crítica e ousada, sem a devida preparação prévia, que permita uma presença mais do que meramente figurativa. Nessa esteira, o “ministério instruído”, uma das características do modo de proceder da Companhia de Jesus, pode iluminar o caminho de uma Igreja pensante. Assim resumiram os jesuítas em sua 34ª Congregação Geral, no Decreto 26:
“Ao atuar assim hoje em dia, respeitamos e apreciamos o bem que está presente na cultura contemporânea e, no entanto, propomos criticamente alternativas para os aspectos negativos desta cultura. Para fazê-lo bem, perante os desafios complexos e as oportunidades do nosso mundo contemporâneo, requer-se toda a instrução e inteligência, toda a imaginação e perspicácia, todos os estudos sólidos e análises rigorosas que possamos acumular. Superar a ignorância e os preconceitos, através dos estudos e do ensino, fazer do Evangelho verdadeiramente uma Boa Nova num mundo confundido e turbulento, através da reflexão teológica, é característica tipicamente jesuíta do nosso modo de proceder” (Congregação Geral 34, Dec. 26, nº 20).
Todos os longos anos de formação que os jesuítas enfrentam têm sempre como critério a missão. Ou seja, aqui não se trata de uma formação voltada ao mero deleite pessoal ou à simples erudição, a fim de se distinguir dos demais. O fim deveria ser, única e exclusivamente, apostólico. Por isso, o “ministério instruído” é um desdobramento concreto do magis, tão central para aqueles que vivem a espiritualidade dos Exercícios Espirituais. Conceito que se refere ao mais e ao melhor, tendo em vista uma excelência orientada para a “maior glória de Deus”.
“Permitimos que os meios definam uma nova ortodoxia, um novo cânone de verdade, que já não é a verdade, mas uma opinião pública intencionalmente construída e acrítica”, continua o Padre Adolfo Nicolás, SJ, na sua ponderação contra a cultura das distrações. Como cristãos e cristãs conscientes de seu chamado a ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5, 13-14), não se pode viver uma fé compartimentada, sem imbricações profundas com todas as demais esferas da vida.
Encontrar alguém que vive a vocação cristã com intensidade deixa marcas evidentes em quem cruza seu caminho. Seu testemunho atrai, suas atitudes desinstalam, sua presença encanta. Cláudio Perani, jesuíta italiano radicado no Brasil, nos seus profícuos anos missionários, impactou a caminhada de muitas pessoas, tanto no Nordeste quanto no Norte do país. Soube conjugar a inserção profética nos meios populares, deixando-se tocar de modo pessoal pelos marginalizados, com uma reflexão provocadora sobre as injustiças sociais, que nunca pôde aceitar passivamente. Certa vez, escreveu com a sabedoria que soube cultivar no seu frutuoso ministério:
“Deve-se pensar em ritmo lento e em perspectivas de longo prazo mesmo quando certas situações não podem esperar. Acima de tudo, temos diante de nós o desafio difícil e complexo de articular experiências específicas e localizadas com visões e projetos mais globais. Pode-se viver experiências que ficam ilhadas e não contribuem para a mudança da sociedade toda” (Perani, 1994, p. 53).
Não se pode ignorar a relevância de contribuir na busca daquilo que Santo Inácio chama de “bem mais universal”. Quer dizer, a partir da incidência local, devem articular-se propostas e análises com impactos mais generalizados. De outro modo, se estar enraizado nos territórios confere legitimidade, um olhar amplo e conectado ao contexto sociopolítico-econômico é imprescindível. A reflexão teórica, seja nos espaços formais da academia ou noutros meios culturais, está em permanente disputa por ideologias e projetos de morte e, portanto, não pode ser desprezada.
A rica tradição cristã tem muito a contribuir, com uma visão que rejeita relações fundadas na exploração dos seres humanos e da Natureza, por exemplo. A imprescindível história dos Direitos Humanos possui forte influência cristã, remontando ao início do Ensino Social da Igreja, com a Encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII (1891). Alicerçada nessa Tradição viva, “a atitude de abertura é” pressuposta e necessária, exigindo uma “capacidade de assumir uma autocrítica da própria tradição de dentro dela” (Libânio, 2012, p. 80).
Antes de tudo, entretanto, “é necessário tomar a decisão de querer pensar” (Libânio, 2012, p. 38). Uma atividade que, por sua natureza intrínseca, possui um caráter transgressor. Um processo que demanda coragem e ousadia. Segundo o grande pensador jesuíta, um pensar interdisciplinar “é buscar um saber plural, organizado, estruturado, mas sempre aberto às novidades”. Trata-se de ser “capaz de refazer seu ‘sistema’ a cada momento que novos elementos o exijam” (Libânio, 2012, p. 45).
Ser uma Igreja pensante implica ter cristãos pensantes, ambos na tensão do Deus sempre maior que nossos próprios conceitos e esquemas. Libânio fala que a vocação à vida intelectual está fundada em um realismo humano que exige “uma pitada de utopia e criatividade”:
“Depois que pensamos os objetivos, os meios e os organizamos em programas, tudo pareceria estar pronto. Não. É o sábado. Mas o homem é maior que o sábado, disse o Senhor. Este maior que nossos programas são a esperança, a utopia, nossos sonhos, nossa capacidade criativa. Eles não cabem em nenhum programa. Todo programa deve permanecer aberto a possíveis superações por essa força espiritual que habita em nós. Sem esse olhar maior, ficaremos escravos, pequenos, presos à camisa de força de nossos planos. Perdemos a asa da águia, ficando com o bico de galinha, virado para o solo. Esse ser inquieto que somos necessita de projetos, programas, horários, do contrário vive na irrealidade vazia de voos sem rumo. No entanto, não cabe na pequenez de nenhuma organização que pretenda esgotar-lhe as possibilidades. Somos morada da Transcendência” (Libânio, 2012, p. 63).
Uma Transcendência que convida a cada um e cada uma a assumir a sua própria história e a fazer História. De acordo com o Vaticano II, em sua Constituição Dei Verbum, no número 23, “o sagrado Concílio encoraja os filhos da Igreja que cultivam as ciências bíblicas para que continuem a realizar com todo o empenho, segundo o sentir da Igreja, a empresa felizmente começada, renovando constantemente as suas forças”. Por isso, toda forma de fundamentalismo, que aposta em leituras rasas e equivocadas das Escrituras, precisa ser constantemente rejeitada e denunciada como uma distorção do Verbo que se fez carne.
Para o teólogo jesuíta (Libânio, 2012, p. 23), “a vocação intelectual participa da construção do universo”, uma vez que “o espírito é o último elo de uma evolução”. Por consequência, também os cristãos e as cristãs pensantes constroem a Igreja. Uma Igreja em saída das certezas autoritárias e que não teme ser interpelada, interna ou externamente. Uma Igreja-Povo de Deus que peregrina em busca do Jesus que nunca temeu o saudável confronto de ideias.
Inquieto e sedento de aprofundar a sua compreensão, Jesus vai até os doutores do templo (Lc 2, 41-52). Para isso, deixa a sua zona de conforto e o já conhecido, sua família e amigos (LC 2, 43-44). No templo, o jovem Jesus dedica tempo a esse mergulho no conhecimento de Deus e de si mesmo. Ali, no meio de estudiosos de uma tradição antiga, Ele não se intimida, mas abre-se para o inesperado. Escuta e formula questões, sem medo de ser tomado por inconveniente ou inapropriado (Lc 2, 46). Mas não só, sua presença é muito mais do que mera passividade ou receptáculo estático daquilo que lhe é ensinado. Ele expressa suas perspectivas pessoais e sua releitura das Escrituras, sem precauções nem receio de ser original (Lc 2, 47).
Em seu discurso para os membros da Federação Internacional das Universidades Católicas, o Papa Francisco enfatizou que o medo não pode paralisar a missão dos espaços onde se pensa e se ensina a pensar:
“Não podemos confiar a gestão de nossas universidades ao medo; infelizmente isso acontece mais frequentemente do que se pensa. A tentação de se fechar atrás dos muros, em uma bolha social de segurança, evitando os riscos e desafios culturais e virando as costas para a complexidade da realidade pode parecer o caminho mais confiável. Mas, isso é apenas uma ilusão! Porque o medo devora a alma. Nunca cerquem a universidade com os muros do medo. Não permitam que uma universidade católica se limite a replicar os muros típicos da sociedade em que vivemos: aqueles da desigualdade, da desumanização, da intolerância e da indiferença, de tantos modelos que buscam reforçar o individualismo e não investem na fraternidade” (Francisco, 19/01/2024).
Para aquelas pessoas e instituições que assumem a profundidade intelectual como missão, trata-se de habitar uma fronteira-margem, desafiadora e exigente. Tantas vezes, significa ser incompreendido, perseguido, censurado, punido. Como instituição, a Igreja nem sempre lida bem com a crítica, a novidade e a discordância. Muitos cristãos e cristãs sofreram penas extremas, pagando com a própria vida pela fidelidade ao Deus que se encarna na consciência humana.
Se as fogueiras já não existem, em períodos recentes da história, inúmeros teólogos e teólogas tiveram obras condenadas, foram proibidos de ensinar em instituições católicas e relegados ao ostracismo do violento silêncio. Aqueles e aquelas que se atreveram a pensar com liberdade e irreverência uma Teologia vibrante amargaram a repressão disciplinar das normas eclesiásticas.
Contudo, o Bispo de Roma que veio das margens latino-americanas foi claro em seu magistério: “pensem e falem com parresia”. Ou seja, expressar-se com coragem e franqueza. Tendo presente que o modelo cristão de parresia é Jesus, o Logos que problematizou a História. Mais uma vez na sua alocução para as universidades católicas, Francisco dirige intuições que devem ser alargadas para todos os cristãos que se engajam em um pensamento destemido e assertivo:
“Uma universidade que se protege dentro dos muros do medo talvez possa alcançar um nível de prestígio, reconhecimento e apreciação, ocupando os primeiros lugares no ranking de produção acadêmica. Mas, como dizia o pensador Miguel de Unamuno, ‘Saber por saber! […] Isso é desumano’. Devemos sempre nos perguntar: para que serve nossa ciência? Qual é o potencial transformador do conhecimento que produzimos? A quem e a quê servimos? A neutralidade é uma ilusão. Por isso, uma universidade católica precisa tomar decisões, e estas devem refletir o Evangelho. Deve assumir uma postura e demonstrá-la com suas ações de forma transparente, ‘sujar as mãos’ evangelicamente na transformação do mundo e a serviço da pessoa humana” (Francisco, 19/01/2024).
Sujar as mãos intelectualmente implica correr riscos, estar sujeito a resistências e rechaços, às vezes do próprio grupo ou da comunidade eclesial. Assumir posições incômodas pode resultar no isolamento por parte dos pares, o que pode ser mais difícil do que reações externas. Um lugar doloroso e indesejável. Jesus não foi compreendido pelos seus pais quando sentiu que precisava de uma imersão entre os doutores do Templo (Lc 2, 48). Parece que eles tomaram a referida atitude como um ataque pessoal, quando a intenção de Jesus era outra. Talvez o tenham julgado rebelde ou até irresponsável por ter se lançado em terreno desconhecido e fronteiriço.
Todavia, Jesus é firme na sua resposta, pois está ancorado em um discernimento profundo do caminho percorrido. “Por que procuravam por mim?”, pergunta a Maria (Lc 2, 49). Seu desejo por encarar a missão com profundidade não será cerceado. Seu pensamento livre não será interrompido. Ele sabe que é preciso seguir em frente apesar dos protestos dos seus, experimentar e ir além dos limites conhecidos, tensionar as estruturas epistemológicas para alargar os horizontes reflexivos. E Ele o faz apesar das reações contrárias daqueles que lhes são mais próximos. Não por rebeldia ou para chamar a atenção, mas para ser fiel ao chamado do Pai.
Conforme pontua Padre Libânio, SJ, a vocação intelectual do cristão foi ressignificada e potencializada com o advento do Concílio Ecumênico, concluído há pouco mais de 60 anos:
“Experimentamos frequentemente nossa pobreza, renunciamos a devaneios da afetividade, submetemo-nos a vontades e planos alheios em vista de uma formação mais completa. Praticamos também a fé na Verdade Primeira presente em toda migalha de verdade, a esperança da construção de nós e de uma sociedade fraterna e o serviço de nossa inteligência. O Concílio Vaticano II, na constituição Gaudium et spes, abre-nos perspectivas maravilhosas para nossa vida intelectual, ao tratar do fomento sadio do progresso cultural. Enfim, a dedicação à vida intelectual leva-nos a realizar uma tarefa humana e cristã que merece nosso empenho” (Libânio, 2012, p. 30).
O concílio, convocado pelo Papa São João XXIII e levado a cabo pelo Papa São Paulo VI, foi um marco na história do cristianismo. Esse verdadeiro kairós em que viveu a Igreja no século XX, infelizmente, nunca deixou de ser contestado, negado e atacado nas décadas seguintes. Recentemente, o grupo tradicionalista São Pio X – um dos maiores detratores do Vaticano II – ordenou bispos sem a autorização do Papa Leão XIV, incorrendo em cisma e em excomunhão.
“Redescubramos o Concílio para devolver a primazia a Deus, ao essencial: a uma Igreja que seja louca de amor pelo seu Senhor e por todos os seres humanos, por Ele amados; a uma Igreja que seja rica de Jesus e pobre de meios; a uma Igreja que seja livre e libertadora”, insistiu o Papa Francisco (2022), na homilia proferida durante a celebração do 60º aniversário do início da assembleia conciliar. Como disse a revista Civiltà Cattolica, “as resistências a Francisco são as resistências ao Concílio”. A mesma afirmação pode ser estendida ao seu sucessor, Papa Leão.
Foi nesse esforço de implementar, aprofundar e atualizar o Concílio que o Papa Bergoglio provocou a Igreja a se debruçar sobre o Sínodo sobre Sinodalidade:
“Todo o caminho sinodal, enraizado na Tradição da Igreja, realizou-se à luz do magistério conciliar. O Concílio Vaticano II foi, de facto, como uma semente lançada no campo do mundo e da Igreja. A vida quotidiana dos crentes, a experiência das Igrejas em cada povo e cultura, os numerosos testemunhos de santidade e a reflexão dos teólogos foram o terreno onde germinou e cresceu. O Sínodo 2021-2024 continua a aproveitar a energia dessa semente e a desenvolver as suas potencialidades. De fato, o caminho sinodal está a pôr em prática aquilo que o Concílio ensinou sobre a Igreja como Mistério e Povo de Deus, chamamento à santidade através de uma conversão contínua que vem da escuta do Evangelho. Neste sentido, constitui um ato de ulterior recepção do Concílio, prolongando a sua inspiração e relançando a sua força profética para o mundo de hoje” (DFSS, 2021, nº 5).
Assim, no centro das reflexões teológicas do cristão e da cristã do século XXI deve estar a Tradição reinterpretada pelo Concílio Vaticano II. Do contrário, há o risco de incorrer em desonestidade intelectual e em identitarismo reacionário, presos a ideias fixas e a um rigorismo intolerante. Talvez, como nunca e em consonância com os papados de Francisco e Leão, esse seja o momento mais oportuno para redescobrir a riqueza conciliar, com frescor e vivacidade.
Embora Jesus tenha sido franco e transparente com os seus pais (Lc 2, 50), sem se escorar em meias verdades ou subterfúgios obscuros, mesmo assim eles não entenderam a especificidade do seu modo de proceder. Seus pais achavam que sabiam o que era melhor para Ele, queriam condicioná-lo no mais seguro, no caminho da reprodução de um modelo que dominavam. A forte probabilidade de não ser compreendido não O paralisa previamente. Ele corre riscos, expõe-se diante dos doutores da Lei, exerce com liberdade a sua capacidade de reflexão.
Essa também deve ser a inspiração de todos aqueles e aquelas que acolhem a missão de ser um cristão crítico e comprometido com a liberdade de sonhar novas respostas e futuros ainda por serem descobertos. O Espírito de Sabedoria não pode ser contido, pois continua suscitando pensadores e pensadoras lúcidos em tempos de globalização do algoritmo tendencioso e de bolhas redundantes. Na preparação dessa Igreja vibrante e criativa, a formação das atuais e futuras gerações de batizados deve ser priorizada e acompanhada com atenção.
Nos últimos anos, o Papa do “fim da censura” debruçou-se repetidas vezes sobre o tema e introduziu algumas medidas, sempre com o objetivo de sacudir as estruturas resistentes às mudanças. Pode-se citar, por exemplo, a alteração no programa da Pontifícia Academia Eclesiástica, com o estabelecimento, para os diplomatas da Santa Sé, de um ano missionário junto a uma Igreja local.
Além da robusta formação teórico-acadêmica, a profundidade intelectual também se desenvolve, como apontou o jesuíta, com “uma experiência pessoal de missão fora da diocese de origem, compartilhando com as Igrejas missionárias um período de caminho junto a suas comunidades, participando de sua cotidiana atividade evangelizadora”. De outro modo, o conhecimento acadêmico precisa se conectar às realidades desafiadoras e marginais em que os cristãos são chamados a testemunhar Cristo.
Do contrário, trata-se apenas de repetição estéril de um saber que não ilumina, nem liberta a vida concreta das pessoas. Torna-se mais um símbolo de poder, usado para controle das comunidades e pastorais em benefício próprio e não do Reino de Deus. O Papa foi claro no seu desejo de que, a formação oferecida pela Igreja, avance com mais ousadia:
“Isto leva-me a avaliar muito positivamente o fato de, pelo menos em alguns Seminários, se ultrapassar a obsessão das telas – e das venenosas, superficiais e violentas fake news –, dedicando-se tempo à literatura, a momentos de leitura serena e livre, a falar dos livros que, novos ou antigos, continuam a dizer-nos tanto. Mas, em geral, é preciso constatar, com pesar, a falta de um lugar adequado da literatura na formação daqueles que se destinam ao ministério ordenado. Efetivamente, esta é muitas vezes considerada como uma forma de passatempo, ou seja, como uma expressão menor de cultura que não faria parte do caminho de preparação e, portanto, da experiência pastoral concreta dos futuros sacerdotes. Com poucas exceções, a atenção à literatura é considerada como algo não essencial. A este respeito, gostaria de afirmar que tal perspetiva não é boa. Ela está na origem de uma forma de grave empobrecimento intelectual e espiritual dos futuros sacerdotes, que ficam assim privados de um acesso privilegiado, precisamente através da literatura, ao coração da cultura humana e, mais especificamente, ao coração do ser humano” (Francisco, 2024, nº 4).
Infelizmente, não se constata somente o desprezo pela literatura, mas também a rejeição de tudo o que não está ligado a uma compreensão dogmática e ritualista da fé. Por isso, raramente há espaço no currículo das faculdades eclesiásticas de Filosofia e Teologia ou, se há, é de forma muito limitada e precária, para disciplinas que ajudem a ler a realidade nas entrelinhas de sua complexidade. É inconcebível que se siga ignorando a importância das Ciências Sociais, da Antropologia, da Economia, da Psicologia, das Artes e do Cinema, sem considerar o quanto esses saberes podem aportar a uma formação cristã crítica, que ofereça ferramentas para uma atuação relevante em uma sociedade com muitos desafios e questões diversas.
Como já foi reafirmado recorrentemente nos últimos anos, há necessidade de uma profunda reforma da formação de padres e bispos. Os intentos produzidos até agora nessa direção falharam ou não foram suficientes. Por isso, é imprescindível que se promova uma avaliação do caminho percorrido até então, identificando com lucidez as razões desse fracasso retumbante. Falta criatividade, propostas robustas ou intuições consistentes? Ou há uma carência de formadores capacitados e disponíveis para levar tais transformações adiante? Ou será que o real problema está na falta de efetiva vontade dos bispos, bem como dos reitores dos seminários e das direções das instituições acadêmicas?
Apesar de ser um tópico relevante, essa não é a única questão que deve ser priorizada. Se a Igreja realmente acredita na mesma dignidade batismal de todos os cristãos e cristãs, como proclama, há uma distorção inadiável que precisa ser enfrentada com urgência. Trata-se de promover a formação dos leigos e leigas, com especial atenção às mulheres – a principal coluna da Igreja-Povo de Deus. Os leigos, as leigas e as religiosas não podem continuar sendo tratados como seguidores de Jesus de segunda categoria. Afinal, pode existir uma comunidade de fé sem presbítero, mas não faz sentido a existência de um presbítero sem uma comunidade eclesial.
Para que a Igreja realmente assuma a sua vocação sinodal, vencendo a chaga do clericalismo, não basta reformular o itinerário formativo dos futuros padres; é primordial investir vigorosamente na preparação dos leigos e leigas, com elementos que os capacitem a assumir responsabilidades sem dependências castradoras. Mesmo que essa mudança já venha desde o Vaticano II, as faculdades de Teologia não podem continuar sendo um espaço eminentemente para homens que serão ordenados. Ademais, o Sínodo sobre Sinodalidade reconheceu a importância dos teólogos e teólogas na missão da Igreja:
“Entre os numerosos serviços eclesiais, a Assembleia reconheceu a contribuição para a compreensão da fé e o discernimento oferecido pela teologia na variedade das suas expressões. Os teólogos e teólogas ajudam o Povo de Deus a desenvolver uma compreensão da realidade iluminada pela Revelação e a elaborar respostas idôneas e linguagens apropriadas para a missão. Na Igreja sinodal e missionária ‘o carisma da teologia é chamado a prestar um serviço específico [...]. Juntamente com a experiência de fé e a contemplação da verdade do povo fiel e com a pregação dos Pastores, contribui para a penetração cada vez mais profunda do Evangelho. Além disso, 'como qualquer outra vocação cristã, o ministério do teólogo, além de pessoal, é também comunitário e colegial'’ (CTI, n. 75), sobretudo quando se realiza sob a forma de ensino confiado com uma missão canônica nas instituições acadêmicas eclesiásticas. ‘A sinodalidade eclesial compromete, portanto, os teólogos a fazer teologia de forma sinodal, promovendo entre si a capacidade de escutar, dialogar, discernir e integrar a multiplicidade e variedade das instâncias e das contribuições’ (ibid.). Nesta linha, é urgente favorecer, através de formas institucionais oportunas, o diálogo entre os Pastores e aqueles que estão empenhados na investigação teológica” (DFSS, 2021, nº 67).
Para que o ministério dos teólogos e teólogas seja profícuo e sinodal, o acesso à capacitação teológica necessita ser alargado de forma considerável, para incluir significativas parcelas do Povo de Deus, excluídas historicamente. Que teologia é essa produzida em ambientes de pouca diversidade? Os ministros ordenados que ocupam tais cátedras têm sido capazes de refletir sobre uma Ecoteologia não antropocêntrica e suas relações interculturais? É possível oferecer uma contribuição relevante sobre novos modelos eclesiológicos, sem se limitar às estruturas ditadas pelo Direito Canônico? Não há nada a ser dito, segundo a perspectiva teológica, sobre o genocídio em Gaza, o terrorismo perpetrado contra os palestinos na Cisjordânia e a destruição do sul do Líbano pelo governo de extrema-direita de Israel?
A missão de refletir sobre a teologia do terceiro milênio não pode mais ser uma tarefa exclusiva de um grupo seleto de homens, atrelado ao sacramento da ordem, com raras, mas valiosas exceções. Quer dizer, os leigos, as leigas e as religiosas não podem ser uma “minoria eterna”, se são a larga maioria dos sujeitos eclesiais. Ou quando muito, permanecer marginalizados nas estruturas internas dos cursos de Teologia, ministrando disciplinas secundárias e eletivas. Quantas teólogas e mulheres da Igreja foram agraciadas com prestigiosos títulos de doutor honoris causa e merecidas homenagens por tanto terem contribuído na formação do Povo de Deus? Quais são as teólogas convidadas e, em quais instituições, para proferir aulas magnas nas aberturas dos semestres acadêmicos ou para as conferências de destaque dos principais Congressos de Teologia?
Outro ponto a ser destacado é que o enfrentamento do fundamentalismo e do neofascismo autoritário, que cresce em todo o mundo e também no Brasil, passa pelo engajamento de cristãos que não temem o pensamento crítico. Investir na formação dos leigos e das leigas significa impedir que sigam reféns da extrema-direita cristã. Isso precisa se tornar uma prioridade para a Igreja, em seus mais diversos níveis de articulação, até chegar às comunidades eclesiais locais.
Quantas vocações cristãs à vida intelectual não foram abafadas pela insegurança e pelo autoritarismo de párocos, bispos e superiores religiosos? Quantas vezes se confundiram a liberdade de pensamento e a crítica com a desobediência e a falta de comunhão com a instituição? Imprescindível pois retomar essa sempre atual lição do mestre Libânio:
“Aceitar e assumir a vocação intelectual significa empenhar-se responsavelmente na construção de si, dos irmãos, da sociedade, de um relacionamento novo e diferente com o cosmo e, sobretudo, realizar a vocação de fé. De todos esses lados, impõe-se uma atividade responsável. E tanto maior quanto mais clarividência se tem. E buscar tal clareza de mente é próprio do intelectual, chamado, pois, a conjugar, não sem sofrimento, uma percepção mais ampla da realidade, das ações humanas e uma responsabilidade em assumir as que conduzem a um fim digno da sua vocação humana. E, se alguém é uma pessoa de fé, é dentro dela que realiza sua missão de intelectual” (Libânio, 2012, p. 119-120).
Uma verdadeiro intelectual, livre, irreverente e ousado nas décadas de pesquisa e ensino, Libânio provavelmente ficaria chocado com o ressurgimento não só de posições anti-intelectuais e negacionistas, mas também do arrefecimento de uma Igreja pensante. Muitos jovens, mais do que seguidores de Jesus, são cada vez mais seguidores de influenciadores digitais pseudocristãos. Mais perigoso ainda é o fato de que há toda uma nova geração de presbíteros e, inclusive, da vida religiosa consagrada, que parece ter desistido do desafio de pensar e questionar. Assim, a lógica do anti-pensamento se retroalimenta e parece encarnar-se em um modo de proceder apático e subserviente.
Conectar as Faculdades de Teologia às margens missionárias pode ser um caminho privilegiado para retomar a vocação pensante do cristão. Como recorda o jesuíta que sucedeu a Pedro Arrupe, as instituições católicas devem produzir um pensamento crítico comprometido com a justiça social. Nesse sentido testemunharam os jesuítas da UCA, a Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas de El Salvador. Sua missão não ficou a meio caminho, barrada pelo medo medíocre infecundo ou condicionada pela falsa prudência da mesmice daqueles que só buscam concordar. Assim observou Padre Peter Hans-Kolvenbach, SJ:
“Essa missão tem produzido mártires [como em El Salvador] o que comprova que ‘uma instituição de alto nível de conhecimento e pesquisa pode se tornar um instrumento de justiça em nome do Evangelho. Mas implementar o Decreto 4 não é algo que uma universidade jesuíta possa fazer de uma vez por todas. Mas é um ideal para ser continuamente assumido e trabalhado. Uma conversão pela qual seguir rezando’. As belas palavras da GC 32 mostram-nos um longo caminho a seguir: ‘o caminho da fé e o caminho da justiça são caminhos inseparáveis. É por essa indivisível estrada, por essa estrada íngreme, que a Igreja Peregrina [...] precisa seguir e trabalhar arduamente” (Grogan, 2022, p. 42).
O Papa Francisco convidou a Igreja para sair de sua letargia acrítica. Convocou inúmeros sínodos, consultou o Povo de Deus, viajou às periferias, produziu um magistério profético. Ainda assim, tantas vezes pareceu falar sozinho ou para públicos bastante resistentes à sua mensagem, nada mais do que a Boa Nova que inquieta e desconcerta. Leão parece trilhar a mesma senda, aquela inaugurada pelo Vaticano II. Seguirá o pontífice falando para cristãos que não querem ouvi-lo e preferem as certezas fáceis dos manuais escolásticos do século retrasado?
De acordo com uma das máximas inacianas, “não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma”. Não é, pois, uma questão de quantidade de títulos, fama ou livros publicados. “Mas sentir e saborear as coisas internamente”. Ou seja, trata-se da profundidade com que a vida é vivida e o impacto que uma visão crítica pode trazer em tempos de retrocesso. Posicionar-se com lucidez e assertividade em meio às ameaças às causas da vida é um imperativo evangélico, não uma mera opção pela polêmica espalhafatosa.
Encarar a vida com robustez e uma perspectiva crítica não implica ser excepcional. Não se necessita de cristãos e cristãs extraordinários, mas de pessoas abertas ao discernimento permanente e a um pensamento-sempre-em-tensão, nunca domesticado no conformismo interesseiro. Assim já compreendia Arrupe ao se referir aos jesuítas:
“Nós somos normais no sentido de que não somos gênios. Talvez haja alguns poucos gênios na Companhia, mas bem poucos. Há anos, disse-se que o grande poder que a Companhia possui é sua bem-treinada mediocridade. A verdadeira excelência consiste no compromisso com Cristo. Tudo precisa ser feito com grande discernimento” (Grogan, 2022, p. 165).
Não se trata, de forma alguma, de querer impor fardos pesados sobre os demais. A vocação cristã é ampla e há muitas possibilidades de encarná-la. Não será todo o Povo de Deus que se dedicará à missão intelectual, por falta de aptidões e de oportunidades. Entretanto, todo o batizado é chamado a dar testemunho de Jesus para além da superficialidade identitária e algorítmica. Deus fala ao coração da humanidade no mais profundo do ser.
É preciso deixar-se tensionar pela Sabedoria de Deus, sair dos lugares comuns e das conclusões de IA. Afinal, o Jesus que se encarnou nas margens, assumiu posições contestatórias e interpelou os pensamentos fixos. Ainda que pareça exigente demais, pode-se começar com o pedido de graça, totalmente confiante na generosidade do Criador: Senhor, ajuda-nos a sermos tua Igreja pensante com a profundidade do Teu amor. Santo Inácio de Loyola ensinou que basta o “desejo de desejar”!
No poema “Deus nos Livre”, o bispo-profeta do Araguaia resume com a profundidade que lhe era peculiar: “Deus nos livre de leigos com batina no espírito/ Deus nos livre de padres sem Espírito Santo/ Deus nos livre de espíritos sem a carne da vida” (Casaldáliga, 1982, p. 36). Que as trevas do obscurantismo e do anti-pensamento crítico não prevaleçam sobre o Logos que dá vida. Às certezas bolorentas e superficiais, as questões que libertam e dão espaço ao único Absoluto, o Deus de Jesus de Nazaré, Aquele que não deixou de pensar!
Referências
CASALDÁLIGA, Pedro. A cuia de Gedeão. Petrópolis: Vozes, 1982.
CONGREGAÇÃO Geral 34. Lisboa: Cúria da Província Portuguesa, 1995.
Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão. Roma: Santa Sé, 2024.
FRANCISCO. Carta sobre o papel da literatura na educação. Roma: Santa Sé, 2024.
FRANCISCO. Discurso à Federação Internacional das Universidades Católicas. Roma: Santa Sé, 19 jan. 2024.
FRANCISCO. Homilia proferida na celebração do 60° aniversário do início do Concílio Ecumênico Vaticano II. Roma: Santa Sé, 11 out. 2022.
GROGAN, Brian. Pedro Arrupe: a heart larger than the world. Chicago: Loyola Press, 2022.
LEÃO XIV. Carta encíclica Magnifica Humanitas. Vaticano: 2026.
LIBÂNIO, João Batista. Introdução à vida intelectual. São Paulo: Edições Loyola, 2012.
NICOLÁS, Adolfo. Da distração à concentração: Para uma vida cristã com o coração em Deus. Disponível em: https://www.snpcultura.org/da_distracao_a_concentracao _para_uma_vida_crista_com_o_coracao_em_Deus.html Acesso em: 8 ago. 2026.
PERANI, Cláudio. Sobre as eficácias. Cadernos do CEAS n.º 150, mar./abr. 1994, p. 48-54.
PHAN, Peter C. Christianity and Migration: a Christian Theology of Migration for Our Age. New York: Oxford University Press, 2025.
RIQUEZA de bilionários aumenta três vezes mais rápido em 2025 e atinge pico histórico, afirma a Oxfam. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/riqueza-de-bilionarios-aumenta-tres-vezes-mais-rapido-em-2025-e-atinge-pico-historico-afirma-a-oxfam/. Acesso em: 8 ago. 2026.
VATICANO. Constituição dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina. Roma: Santa Sé, 1965. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_deiverbum_po.html. Acesso em: 9 ago. 2026
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