A Assunção, os emigrantes e o céu sem fronteiras. Artigo de José Luis Pinilla

Fotos: Carlos Torres/Unsplash

15 Agosto 2026

"Talvez neste mês de agosto, a Virgem esteja nos perguntando algo muito simples: Quem você deixou de fora? Quem está chamando? Quem não tem onde ficar? Quem está esperando atrás de uma fronteira? Quem foi deixado sem nome?"

O artigo é de José Luis Pinilla, jesuíta e assistente social, publicado por Religión Digital, 14-08-2026.

Eis o artigo.

Agosto tem cheiro de festa, de cidades que voltam a encher-se, de sinos que repicam com uma alegria ancestral, de ruas decoradas, de procissões, de reencontros, de longas mesas onde alguém pergunta pelos que estão desaparecidos. Porque agosto é também o mês dos que regressam. E talvez seja por isso que a Virgem da Assunção, em pleno verão, tenha algo a dizer-nos sobre os emigrantes.

Maria ascende aos céus. Migrantes atravessam mares. E nós, enquanto isso, erguemos fronteiras. Que estranha contradição.

A Assunção celebra o fato de Maria não estar presa à morte, de que a vida tem a palavra final, de que o corpo humano — tão frágil, tão ferido, tão vulnerável — é chamado à plenitude. A Igreja proclama em Maria uma promessa: nenhum corpo humano deve ser descartado. Nenhum. Nem mesmo o corpo molhado de alguém que chega exausto a uma praia, abandonando pneus e acreditando que suas mágoas irão com ele. Nem descarta o corpo de um adolescente que treme após cruzar uma fronteira, nem o corpo sem nome que o Mediterrâneo devolve quando não pode mais receber.

E nestes dias, por volta das celebrações da Virgem de Agosto, as notícias da fronteira voltam a nos atingir. Ceuta em sofrimento. Ceuta de novo.

Uma fronteira que parece pequena no mapa e gigantesca quando vista da água. Uma fronteira onde muitas coisas se encaixam: medos, interesses políticos, estratégias internacionais, controles, acordos, estatísticas. Mas, acima de tudo, onde se encaixam as pessoas? As pessoas que querem viver. Essa é a primeira coisa. Antes de qualquer estatística, antes de qualquer debate, até mesmo antes de nossas legítimas preocupações sobre como gerenciar os fluxos migratórios, há uma pessoa fugindo que não começa se perguntando qual partido governa a Europa. Ela começa se perguntando se ainda estará viva amanhã.

É o velho instinto. O instinto de viver. E junto com ele, o anseio por liberdade.

Escrevi isso há algum tempo, recordando aquela imagem quixotesca de Goytisolo: o cavaleiro andante aproximando-se das fronteiras para auxiliar aqueles que, aos nossos olhos complacentes, parecem ter cometido o crime de querer viver. Ainda acho que esse “crime” é hoje um dos grandes escândalos do nosso tempo.

Porque conseguimos transformar o desespero alheio em um problema administrativo. Aprendemos a falar de "pressão migratória" com uma facilidade surpreendente. Pressão. Como se fossem números empurrando uma porta. Como se por trás de cada número não houvesse uma mãe, um filho, um irmão, uma história, um medo, uma esperança. Como se o mar não conseguisse distinguir entre uma ficha e uma vida.

Enquanto isso, em agosto, nossas imagens de Maria percorrem as ruas. A Virgem ascende. Ela ascende carregando consigo a carne da humanidade. Ela não ascende deixando para trás aqueles que sofrem. Ela não vai para o céu para esquecer a terra. Precisamente por essa razão, pergunto-me se nossas procissões seriam verdadeiramente marianas se não fossem capazes de parar diante daqueles que batem às nossas portas.

Maria conhece jornadas. Ela conhece o deslocamento. Ela conhece fronteiras. Ela sabe o que significa partir quando a vida a obriga. Ela também sabe o que significa buscar refúgio. É por isso que talvez, no dia 15 de agosto, devamos olhar para os migrantes de forma diferente: não como uma ameaça iminente, mas como uma humanidade que clama por ajuda.

Não por ingenuidade. Não para negar a necessidade de regulamentar a migração. Não para transformar a política em sentimentalismo. Um Estado tem o direito — e a obrigação — de organizar suas fronteiras e estabelecer vias legais e seguras. Mas uma fronteira jamais poderá servir de desculpa para esquecer a dignidade. Nem um acordo internacional poderá comprar nossa indiferença. Nem uma estatística poderá ocultar um rosto. Porque a compaixão não pode permanecer apenas um desejo: ela exige decisões realistas, vias seguras e responsabilidades compartilhadas. Por exemplo, ampliar os canais legais para aqueles que buscam proteção ou trabalho, fortalecer a cooperação com os países de origem e de trânsito e distribuir o ônus de acolher os imigrantes de forma mais equitativa, tanto dentro quanto fora dos países — neste caso, os europeus, mas não apenas.

Hoje em dia, muito se fala de Ceuta. Fala-se de chegadas, segurança, Marrocos, pressão e respostas políticas. E é bom falar sobre tudo isso. Mas eu gostaria que, em meio a tantas palavras, conseguíssemos pronunciar uma mais simples: irmão. Irmã. Porque é aí que o Evangelho começa. E talvez seja aí também que a verdadeira política comece: aquela que sabe governar sem desumanizar, que sabe proteger fronteiras sem fechar corações, que sabe dizer "há limites" sem dizer "você não importa", que sabe buscar vias legais porque sabe que, quando todos os caminhos seguros estão fechados, o desespero abre outros.

E esses outros caminhos muitas vezes levam pelo deserto, pelas máfias, por barcos de migrantes, pelo medo, pela fome. Ou por Ceuta.

Portanto, neste mês de agosto, gostaria de lançar um pequeno desafio. Enquanto elevamos os olhos para contemplar Maria assunta ao céu, elevemos também o olhar para aqueles que ainda não conseguiram alcançar a terra firme. Pois a Assunção não pode ser uma festa de escapismo. É uma festa de esperança. E a esperança cristã não consiste em olhar para o céu para esquecer a terra, mas em olhar para o céu para aprender a transformar a terra.

Talvez neste mês de agosto, a Virgem Maria esteja nos perguntando algo muito simples: Quem você deixou de fora? Quem está chamando? Quem não tem onde ficar? Quem espera além de uma fronteira? Quem foi deixado sem nome?

Em muitas cidades espanholas, hoje em dia, os emigrantes de ontem voltam para casa. Chegam com os filhos, nascidos longe. Trazem novos sotaques. Recordam fotografias antigas. Abraçam as mesmas fachadas que outrora deixaram para trás em busca de trabalho, dignidade, um futuro. Porque nós também fomos emigrantes. E talvez essa memória nos torne mais humildes.

Nenhuma nação pode escrever sua história apenas com aqueles que ficaram. Ela também foi escrita por aqueles que partiram. E hoje, outros estão chegando. Eles trazem suas próprias malas, suas próprias fotografias, seus mortos, suas canções, seus deuses, seus sonhos. Eles trazem, em última análise, a mesma coisa que carregávamos quando partimos: o desejo de viver.

No dia 15 de agosto, quando os sinos tocarem, talvez possamos pedir a Maria que nos ensine a ver. A ver sem medo, a ver sem perceber o outro como uma ameaça antes mesmo de saber seu nome, a ver com esse instinto de vida que Deus colocou em todos nós e com esse anseio de liberdade que nenhuma fronteira jamais deveria ser capaz de apagar.

Porque se Maria está no céu, não é para que possamos construir nossos próprios paraísos particulares na Terra. É para nos lembrar que o céu de Deus não tem fronteiras. E talvez o verdadeiro milagre da Assunção não seja simplesmente o fato de Maria ter alcançado o céu, mas sim que finalmente aprendamos a tornar a Terra um lugar um pouco mais habitável.

Para todos. Incluindo os que chegam. Incluindo os que esperam. Incluindo os que ainda atravessam o mar. Esquecemos rapidamente as precauções necessárias e as respostas e recursos adequados (promover o desenvolvimento nos seus países de origem, por exemplo) antes de terem passado tantos dias e anos a tentar ultrapassar a cerca. De lugares muito além de Tarajal e da Europa.

Feliz Festa da Assunção.

E que a Virgem nos encontre, ao menos desta vez, olhando para o lado certo da história. Sem manipulação.

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