15 Agosto 2026
A tripulação do USS Lincoln está há nove meses no mar e passou 250 dias consecutivos sem pisar em terra firme, o que representa um recorde para um porta-aviões na era moderna.
A reportagem é de Ed Pilkington, publicada por elDiario.es, 13-08-2026.
Famílias de militares e membros do Congresso estão soando o alarme diante do agravamento da crise de saúde mental a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, enquanto seus 5 mil marinheiros e fuzileiros navais suportam uma operação no mar sem precedentes relacionada à guerra contra o Irã.
Dois dos principais jornais especializados em temas militares, o Navy Times e o Stars and Stripes, informam que houve múltiplas tentativas por parte de marinheiros de se jogar ao mar, já que as más condições e a tensão psicológica a bordo do Lincoln chegaram a um ponto crítico. A tripulação está há nove meses no mar e passou 250 dias consecutivos sem pisar em terra firme, o que representa um recorde para um porta-aviões na era moderna.
Famílias preocupadas expressaram sua inquietação por seus entes queridos a bordo do Lincoln em uma emotiva reunião pública com os comandantes da Marinha realizada na última quinta-feira em San Diego, segundo informou o Stars and Stripes. Uma das esposas, entre os cerca de 200 familiares presentes, contou que seu marido lhe havia enviado uma mensagem de texto naquele mesmo dia, na qual dizia: "Espero não acordar amanhã."
As preocupações das famílias foram transmitidas diretamente aos comandantes da Marinha, representados na reunião pública pelo secretário interino da Marinha, Hung Cao, e outros altos funcionários.
Segundo informou o jornal, uma mulher presente na reunião disse a Cao que a Marinha havia "quebrado a confiança com a liderança".
O Navy Times deu detalhes sobre as tentativas de suicídio frustradas a bordo do porta-aviões durante a atual operação. Annabelle Loma declarou ao veículo que seu marido havia tentado se jogar ao mar depois que sua estadia no mar foi sendo prorrogada repetidamente.
"Ele está com medo. Acredita que vão dar baixa desonrosa a ele e que, só por ter sofrido um esgotamento, sua carreira de 13 anos vai ser jogada fora, assim, sem mais", disse ela.
O jornal citava a esposa de outro marinheiro que se viu envolvido em outro incidente a bordo do Lincoln, no qual impediu que um colega de tripulação pulasse ao mar, segurando-o e levando-o de volta ao convés.
Mike Levin, congressista democrata pela Califórnia, soou o alarme sobre as condições a bordo do navio de guerra, que está em seu quinto mês de operações de combate contra o Irã. Ele descreveu a situação da tripulação no X como "duchas com mofo, banheiros quebrados, lavanderia fora de serviço há semanas, longos períodos sem água quente e uma comida que se reduzia a meia xícara de arroz e duas tortilhas. Sem sabonete, desodorante nem pasta de dente."
Jason Crow, congressista democrata pelo Colorado e ex-ranger do Exército que serviu no Afeganistão e no Iraque, alertou que a pressão à qual estão submetidos os militares e suas famílias a bordo do Lincoln "vai aumentando semana após semana".
A crise atual vem se gestando há meses. O navio de guerra zarpou de San Diego em 21 de novembro e, embora inicialmente tivesse como destino o Pacífico, foi redirecionado ao Oriente Médio assim que começou a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Desde então, segundo revelou a MS Now, a tripulação, composta por mais de 5 mil pessoas, só passou dois dias em terra, em Guam, em dezembro, e em Omã, em julho. Estava previsto que a operação terminasse em maio, mas foi prorrogada duas vezes por causa da guerra em curso.
Em abril, houve uma onda de críticas públicas sobre as péssimas condições a bordo do porta-aviões. Vieram à tona fotos de comida de má qualidade e racionada, e houve denúncias de falta de água, duchas com mofo e máquinas de lavar quebradas.
Pete Hegseth, o secretário de Defesa, descartou essas informações, classificando-as como "mais notícias falsas".
Levin respondeu esta semana às declarações de Hegseth. Disse: "Esses homens e mulheres se alistaram para servir seu país. O mínimo que seu país lhes deve é água quente, um banheiro que funcione e uma comida de verdade. Hegseth nem sequer consegue garantir isso, e tem a cara de pau de olhar nos olhos das famílias deles e chamá-las de mentirosas."
O The Guardian entrou em contato com a Marinha dos Estados Unidos para obter sua resposta às notícias sobre tentativas de pular ao mar. Após a publicação deste artigo, um responsável da Marinha respondeu afirmando que estavam cientes de que "operações prolongadas representam uma carga considerável para os militares e suas famílias". "Somos gratos pela força e pelos sacrifícios que eles fazem."
O responsável afirmou que a saúde e o bem-estar de todos os marinheiros do Lincoln são uma prioridade: "Segundo as informações de que o comando dispõe, não detectamos um aumento no número de casos relatados de ideação suicida ou tentativas de suicídio a bordo do navio."
Conta-se com profissionais religiosos, médicos e de saúde mental como parte de uma "rede de apoio integral" que inclui "conselheiros especializados em resiliência diante de operações prolongadas e capelães a bordo". O responsável reconheceu que a guerra havia interrompido os centros de abastecimento tradicionais, mas acrescentou que "os relatórios atuais provenientes do navio confirmam o acesso contínuo à água potável, ar-condicionado em bom estado e opções de refeições saudáveis".
Os problemas de saúde mental enfrentados pelo pessoal em serviço ativo da Marinha dos Estados Unidos são bem conhecidos. Um estudo do ano passado analisou os fatores de estresse específicos que os marinheiros enfrentam durante as operações e concluiu que os mais comuns eram os ruídos altos, a falta de descanso e uma atenção sanitária física e mental inadequada.
Os pesquisadores realizaram uma pesquisa entre os marinheiros em operação e descobriram que quase a metade se queixava de não receber a ajuda adequada para lidar com o estresse no mar. O estudo concluiu que "dadas as elevadas taxas de suicídio entre os militares, inclusive na Marinha, é urgente tomar medidas para melhorar o acesso à assistência sanitária a bordo dos navios".
Este é um tema sensível. Se você ou alguém que você conhece está passando por dificuldades emocionais, o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, a qualquer hora, todos os dias.
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