Trump amplia sua influência militar na América Latina

Foto: FlickrCC/NATO

Mais Lidos

  • Imaculada e Assunta: um século de “invenção” da tradição. Artigo de Andrea Grillo

    LER MAIS
  • A Dormição e Assunção de Maria. O dogma que torna o “Ferragosto” sagrado. Artigo de Giovanni Maria Vian

    LER MAIS
  • Com Nossa Senhora da Assunção, caminhamos para o futuro com os olhos e o coração elevados. Artigo de Matteo Zuppi

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

14 Agosto 2026

Hegseth anuncia que não descarta uma opção militar em Havana e propõe operações em solo colombiano. A estratégia de Trump para controlar a região entra em conflito com a resistência do México e a submissão da América Central.

A reportagem é de Luis Doncel Carlos S. Maldonado, publicada por El País, 14-08-2026.

A administração Trump pode ser acusada de muitas coisas, mas não de esconder suas verdadeiras intenções na América Latina, que giram em torno do controle da região. Esses tentáculos dos EUA no que tradicionalmente consideram seu quintal se estendem de várias maneiras, desde governos fantoches como o da Venezuela de Delcy Rodríguez, até alianças políticas extremamente estreitas como a da Argentina de Javier Milei, e até mesmo operações militares para impor seus interesses.

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, deu mais um passo nessa direção, anunciando que o novo governo colombiano de Abelardo de la Espriella, após apenas uma semana no cargo, autorizou a entrada de tropas americanas em solo colombiano. Ele também afirmou não descartar uma intervenção militar em Cuba. Esses são novos nomes na lista de países latino-americanos onde as forças armadas mais poderosas do mundo ameaçam operar impunemente.

Guadalupe González, analista do Colegio de México, vê essa situação como um “ponto de virada”. “O foco central da estratégia dos Estados Unidos é restaurar sua preeminência no Hemisfério Ocidental como prioridade máxima, à frente de outras zonas de conflito como o Oriente Médio, a Europa e até mesmo a Ásia. Este é um desenvolvimento enorme”, acrescenta.

“Todas as opções, incluindo as militares, estão sobre a mesa”, disse Hegseth na quarta-feira no Panamá, quando questionado sobre os planos do governo republicano para Cuba. Ele também aconselhou a ilha a “prestar atenção” à disposição de Trump em “afirmar as prerrogativas estratégicas dos EUA”. Pouco antes, o chefe do Pentágono havia divulgado uma declaração focada na Colômbia.

Após os confrontos entre o governo republicano e o esquerdista Gustavo Petro, a ascensão ao poder de um presidente de extrema-direita anuncia uma nova era de colaboração entre Washington e Bogotá. Essa nova fase começa com um anúncio em duas partes. O Secretário de Defesa — nome oficial do Departamento, embora ele prefira chamá-lo de Departamento da Guerra — declarou, em primeiro lugar, que a Colômbia solicitou a adesão à luta contra o narcoterrorismo, “autorizando operações militares conjuntas para destruir terroristas e redes terroristas”. Em segundo lugar, anunciou que o país sul-americano se juntará ao Escudo das Américas, uma coalizão fundada por Trump que, com essa adesão, passará a incluir 19 países que compartilham métodos para combater as redes de narcotráfico na região.

Todas essas declarações não são nenhuma grande surpresa. A visão do governo republicano sobre a América Latina ficou cristalina com a publicação, em dezembro passado, de sua Estratégia de Segurança Nacional. Nela, afirmou-se inequivocamente que os Estados Unidos buscam "restaurar sua preeminência" no Hemisfério Ocidental. Para esse fim, reviveram a Doutrina Monroe do século XIX, resumida na frase "América para os americanos". Ou, em uma tradução menos literal, porém mais fiel, "América para os Estados Unidos".

“Em outras palavras, afirmaremos e implementaremos um Corolário Trump à Doutrina Monroe”, declarou o documento, delineando uma nova teoria que ficou conhecida como Doutrina Donroe, um jogo de palavras que combina Donald e Monroe. De acordo com o texto que resume as prioridades desta administração, o “Corolário Trump à Doutrina Monroe” constitui “uma restauração do poder e das prioridades dos Estados Unidos, em consonância com os interesses de segurança do país”. O documento acrescentou que Washington deve “reconsiderar” sua presença militar no Hemisfério Ocidental.

Segundo Michael Shifter, pesquisador e ex-presidente do Diálogo Interamericano — um dos centros de análise de políticas hemisféricas mais influentes em Washington, D.C. — "os obstáculos à intervenção militar não estão relacionados a fatores legais ou jurídicos, porque estes não têm peso para esta administração. O que eles estão medindo são os fatores práticos: no caso de Cuba, uma intervenção poderia gerar uma situação totalmente caótica ou uma onda migratória massiva", explica ele.

Shifter afirma que a agenda antes comum de fortalecimento institucional e defesa dos direitos humanos entre os EUA e a América Latina foi completamente marginalizada em favor de uma estratégia agressiva focada na segurança e no combate ao narcotráfico. “Toda a abordagem voltada para o fortalecimento das instituições e a proteção dos direitos humanos foi suplantada, se não totalmente eliminada. Washington essencialmente deu sinal verde para qualquer projeto autoritário que um líder latino-americano possa empreender”, alerta Shifter. “A ideologia importa menos hoje em dia. Há um amplo campo aberto para que regimes de direita ou de esquerda eliminem os mecanismos de controle e equilíbrio e enfraqueçam, se não destruírem, o Estado de Direito”, observa ele.

Resistência do México

A pressão sobre a região intensificou-se em março passado, quando Stephen Miller, chefe de gabinete adjunto de Trump, declarou que os cartéis de drogas são "o ISIS e a Al-Qaeda do Hemisfério Ocidental e devem ser tratados com a mesma brutalidade e crueldade", palavras que insinuavam uma possível intervenção militar direta no México. No gigantesco país vizinho e principal parceiro comercial de Washington, poderosas organizações de narcotráfico, como o Cartel Jalisco Nova Geração, exercem um controle territorial que a Casa Branca considera uma ameaça inaceitável.

A presidente mexicana Claudia Sheinbaum rejeitou categoricamente e repetidamente qualquer proposta ou sugestão de uma incursão militar dos EUA. Ela descreveu tal cenário como algo que "não acontecerá", enfatizando que o México coopera em questões de inteligência e segurança, mas não aceitará subordinação ou violações de sua soberania. " A última vez que os Estados Unidos intervieram no México, tomaram metade do território", lembrou Sheinbaum, demonstrando a determinação de seu governo ao fazer alusão à anexação do Texas, Califórnia, Novo México e Nevada no século XIX.

A resposta de Sheinbaum veio após declarações controversas de Trump, que se recusou a descartar medidas enérgicas para conter o fluxo de fentanil e outras drogas para o norte. "Não vejo problema nisso. [Qualquer coisa] que tenhamos que fazer para deter o tráfico de drogas", afirmou o republicano, acrescentando que, embora não estivesse dizendo que faria isso imediatamente, teria "orgulho de fazê-lo". "Com o México, parece que, não importa o que o governo faça para satisfazer Trump, nunca é o suficiente. Infelizmente, isso está criando uma situação bastante tensa e conflituosa", diz Shifter.

Trump contrastou a situação mexicana com as operações e ataques extrajudiciais contra supostos barcos de narcotráfico no Oceano Pacífico e no Caribe, vangloriando-se de que “quase não chegam mais drogas pelo mar”. Em sua visão, o México falhou em seus compromissos contra o crime organizado: “Perdemos centenas de milhares de pessoas por ano para as drogas, sem falar na destruição de famílias. Grande parte disso vem do México, então não estou nada feliz com isso”.

Os ataques no Caribe e no Pacífico contra embarcações suspeitas de transportar drogas já resultaram na morte de mais de 200 pessoas. Segundo a especialista Guadalupe González, tratam-se de “execuções extrajudiciais, um ato unilateral de uso da força”. Ela compara a situação ao estabelecimento de um “quase-neoprotetorado” na Venezuela. “A diferença no caso de De la Espriella é que esse alinhamento não é imposto, mas sim incentivado”, conclui a especialista, que fala de uma série de fórmulas diferentes para o estabelecimento de “sistemas de controle e disciplina” pelo governo Trump. Por ora, o Brasil permanece fora da ofensiva militar de Washington.

Submissão na América Central

Enquanto a tensão e a resistência caracterizam as relações com o México, a situação ao sul da fronteira é bem diferente. Os países da América Central alinharam-se rapidamente à doutrina de segurança de Trump. Seja por cálculo político ou por um temor bem fundamentado de intervenção direta, a região cedeu às exigências de Washington. Após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em 3 de janeiro, em Caracas, o istmo centro-americano tornou-se novamente o centro nevrálgico da estratégia geopolítica dos EUA, forçando uma mudança drástica na luta regional contra o crime organizado.

Na Guatemala, o presidente Bernardo Arévalo solicitou formalmente, por meio de carta à Casa Branca, maior assistência em treinamento, assessoria operacional e compartilhamento de informações. Essa reaproximação foi consolidada com a visita do comandante do Comando Sul, General Francis L. Donovan, para fortalecer a cooperação bilateral no combate ao narcotráfico.

Por sua vez, Nayib Bukele, de El Salvador, tornou-se o principal guardião militar da estratégia dos EUA no Pacífico. Em março, Bukele participou da cúpula Escudo das Américas, convocada por Trump em Doral, na Flórida, para fortalecer os laços ideológicos com seus aliados.

Em Honduras, o presidente Nasry Asfura, totalmente alinhado com Washington após o apoio recebido durante a campanha eleitoral, prometeu restabelecer o tratado de extradição e integrar-se completamente à Aliança Anticartel. O alinhamento de Asfura não vacilou nem mesmo depois de Trump ter concedido indulto ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, que havia sido condenado pelo sistema judiciário dos EUA por tráfico de drogas.

No extremo oposto do espectro ideológico, os copresidentes autoritários da Nicarágua, Daniel Ortega e Rosario Murillo, temem se tornar o próximo alvo de uma incursão direta. Sob constante pressão do Departamento de Estado, o regime nicaraguense optou por se consolidar como um rígido bastião contra o narcotráfico para desviar os ataques de Washington após a queda de Maduro.

Por fim, Costa Rica e Panamá completam essa estrutura regional. A presidente da Costa Rica, Laura Fernández, apoiou as iniciativas de Miami, mantendo estreita colaboração com a DEA e a Marinha dos EUA no mar. O presidente do Panamá, José Raúl Mulino, por sua vez, teve que lidar com uma relação complexa, especialmente depois que Trump sugeriu retomar o controle do Canal do Panamá, uma proposta que provocou indignação generalizada na região.

Apesar desse atrito, o Panamá lidera o continente em apreensões, com mais de 43 toneladas confiscadas nos primeiros cinco meses de 2026, demonstrando como, sob a ameaça de represálias da Casa Branca, a região acaba se conformando às diretrizes de Washington.

Leia mais