Queda da vegetação nativa deixa Brasil mais vulnerável ao El Niño

Foto: Nilmar Lage/Greenpeace Brasil

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13 Agosto 2026

Vegetação nativa caiu de 79% para 65% do território brasileiro entre 1985 e 2025, enquanto agropecuária avançou de 18% para 32%; áreas naturais ficam mais expostas a secas e chuvas extremas.

A reportagem é de César Fraga, publicada por ExtraClasse, 12-08-2026.

A redução da vegetação nativa tornou o território brasileiro mais exposto aos efeitos de eventos climáticos extremos associados ao El Niño. Em 41 anos, a participação das formações naturais no país caiu de 79% para 65%, enquanto a agropecuária ampliou sua presença de 18% para 32% do território nacional.

Os dados fazem parte da Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil, divulgada pelo MapBiomas nesta quarta-feira, 12. O levantamento mostra que, apesar da redução do desmatamento nos anos mais recentes, as transformações acumuladas desde 1985 alteraram profundamente a paisagem brasileira e a capacidade de diferentes regiões de responder a extremos climáticos, como secas e enchentes.

O cruzamento dos mapas de cobertura e uso da terra com dados de precipitação do MapBiomas Atmosfera também aponta diferenças nos efeitos do El Niño entre áreas de vegetação nativa e áreas ocupadas pela agropecuária, especialmente na Amazônia.

“Ao comparar os últimos episódios de El Niño, vemos uma intensificação clara dos efeitos em termos de chuva e seca. Da mesma forma como as mudanças climáticas estão tornando esses efeitos mais graves, o modo como ocupamos e usamos a terra no Brasil também influi nessa vulnerabilidade aos extremos climáticos”, explica Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas.

Os dados históricos mostram que os biomas brasileiros vêm registrando secas ou chuvas cada vez mais intensas durante eventos de El Niño de maior intensidade. A comparação considera as anomalias de precipitação entre setembro e novembro durante três episódios recentes: 1997/98, 2015/16 e 2023/24. Esse trimestre concentra os extremos mais críticos de precipitação associados ao fenômeno no Brasil.

A Amazônia apresentou o maior déficit de precipitação entre os biomas nos três eventos analisados. No episódio de 2023/24, a maior redução ocorreu justamente nas áreas de agropecuária do bioma, com 178 milímetros de chuva abaixo da média climatológica.

No Cerrado e na porção norte da Mata Atlântica, a seca se intensificou a cada novo episódio de El Niño, principalmente nas áreas de vegetação nativa. No Pantanal, o último evento provocou forte redução das precipitações. Em 2024, o bioma registrou o ano mais seco da série histórica analisada.

No Sul, o comportamento foi diferente. Os episódios de El Niño produziram excesso recorrente de chuva entre setembro e novembro. No Pampa, em dois dos eventos analisados, o excesso de precipitação foi maior nas áreas agropecuárias do que nas áreas de vegetação nativa.

“Esse excesso de chuvas nas áreas agropecuárias provoca, em muitos casos, perdas nas lavouras e erosão dos solos agrícolas, o que é agravado pela redução da vegetação nativa que atua na proteção do solo e na maior infiltração da água da chuva”, explica Eduardo Vélez, da equipe do Pampa no MapBiomas.

Um terço do território passou por mudanças

Ao longo dos 41 anos analisados, cerca de um terço do território brasileiro, 33%, sofreu pelo menos uma mudança de cobertura ou uso da terra. Outros 67% permaneceram estáveis.

Na comparação direta entre 1985 e 2025, 28% do país passou por transições de classe. A diferença em relação ao percentual anterior ocorre porque, nessa segunda análise, uma área é considerada em transição apenas quando a classificação de 2025 é diferente daquela registrada em 1985, independentemente das mudanças ocorridas entre esses dois anos.

As transições abrangem alterações como avanço de usos antrópicos sobre áreas naturais, recuperação de vegetação, mudanças entre diferentes usos da terra e alterações na superfície de água. Ao todo, 241 milhões de hectares passaram por algum tipo de transição entre 1985 e 2025.

Mais da metade dessa área, 136 milhões de hectares, corresponde à conversão de vegetação nativa para agropecuária.

Essa foi a principal transição na Amazônia, com 55 milhões de hectares, equivalentes a 83,6% de todo o território modificado no bioma. No Cerrado, foram 52 milhões de hectares, ou 59,4% das transições. Na Caatinga, 14,1 milhões de hectares, equivalentes a 58,9%, e no Pampa, 4 milhões de hectares, ou 44,1%.

Caatinga e Mata Atlântica também se destacam pela conversão de áreas agropecuárias para vegetação nativa. Foram 4,4 milhões de hectares na Caatinga, correspondentes a 18,2% das transições do bioma, e 6,2 milhões na Mata Atlântica, ou 13,6%.

Na Mata Atlântica ocorreu ainda a maior expansão proporcional da silvicultura, que acrescentou 4,1 milhões de hectares, equivalentes a 9,1% da área que passou por transição no bioma. A conversão de pastagens em agricultura foi mais expressiva no Cerrado, com 8,8 milhões de hectares, e na Mata Atlântica, com 8,5 milhões.

“Olhar para as regiões hidrográficas do Brasil é um tema cada vez mais importante. A região do Tocantins-Araguaia foi a que teve a maior redução proporcional de vegetação nativa, perdendo 37%, muito impulsionada pelo avanço no Matopiba. Além disso, a Bacia do Paraguai, onde fica o Pantanal, teve uma redução drástica de 75% da sua cobertura de água”, alerta o coordenador do MapBiomas.

Florestas perderam 65 milhões de hectares

A Formação Florestal continua sendo a principal cobertura natural do país. Em 2025, ocupava 359,5 milhões de hectares, ou 42,3% do território brasileiro. Também foi a classe que apresentou a maior perda absoluta desde 1985: 65 milhões de hectares.

Mesmo com essa redução, as formações florestais concentram grande parte das áreas que permaneceram com a mesma classificação ao longo de todo o período. Dos 557 milhões de hectares considerados estáveis entre 1985 e 2025, cerca de 335 milhões correspondem à Formação Florestal.

Outros 84 milhões de hectares permanecem classificados como Formação Savânica e aproximadamente 35 milhões como Floresta Alagável.

Entre as demais classes de vegetação nativa, a Formação Savânica teve a segunda maior perda absoluta, com redução de 46 milhões de hectares. Em seguida aparecem Formação Campestre, com menos 6,3 milhões de hectares, e Campos Alagados e Áreas Pantanosas, com redução de 3,2 milhões.

No mesmo período, os principais usos antrópicos avançaram sobre essas áreas. As pastagens incorporaram 61,6 milhões de hectares; a agricultura, 48 milhões; a silvicultura, 8 milhões; e as áreas urbanizadas, 2,5 milhões.

Amazônia e Cerrado concentram perdas

Em números absolutos, Amazônia e Cerrado registraram as maiores perdas acumuladas de vegetação nativa entre 1985 e 2025. Foram 53,9 milhões de hectares a menos na Amazônia e 51,7 milhões no Cerrado.

Na sequência aparecem Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.

Quando considerada a proporção de vegetação nativa dentro de cada bioma, as maiores reduções ocorreram no Cerrado e no Pampa, com perdas de 34% e 32%, respectivamente.

Em 2025, Amazônia e Pantanal continuavam sendo os biomas com maior proporção de vegetação nativa, ambos com mais de 80% de seus territórios ocupados por coberturas naturais.

A Mata Atlântica teve a menor redução proporcional no período, 12%. Ainda assim, continua sendo o bioma com menor proporção de vegetação nativa, 32%, resultado principalmente do processo de ocupação e desmatamento anterior ao período de mapeamento por satélite.

“Quando olhamos o histórico de perda de vegetação nativa, embora a perda acumulada em área tenha sido maior na Amazônia, o bioma que mais perdeu área proporcionalmente foi o Cerrado, com 34%. Mais de um terço da vegetação nativa do Cerrado foi perdida nesse período de 41 anos”, destaca Azevedo.

25 estados e o Distrito Federal perderam vegetação

As mudanças também aparecem na escala estadual. Entre 1985 e 2025, 25 estados e o Distrito Federal reduziram a participação da vegetação nativa em seus territórios. O Rio de Janeiro foi a única exceção, com aumento de 1% na cobertura natural.

Amapá e Amazonas apresentaram, em 2025, a maior proporção de vegetação nativa, ambos com 95% do território. Roraima aparece em seguida, com 92%.

Na outra ponta estão Sergipe, com 22%, e Alagoas e São Paulo, ambos com 21%.

Alguns estados registraram mudanças particularmente acentuadas. Rondônia reduziu a participação da vegetação nativa de 92% para 59% entre 1985 e 2025. Maranhão passou de 91% para 61%; Mato Grosso, de 90% para 61%; e Tocantins, de 90% para 61%.

Em estados onde a ocupação territorial já estava consolidada antes do início da série histórica, como São Paulo e Paraná, as mudanças entre classes naturais e antrópicas foram menores.

Agropecuária ocupa quase um terço do país

A expansão da agropecuária foi uma das principais transformações registradas pelo MapBiomas. Em 1985, a atividade ocupava 150,2 milhões de hectares, equivalentes a 18% do território brasileiro. Em 2025, passou a ocupar 273,3 milhões de hectares, ou 32% do país.

As pastagens respondem por 60,6% dessa área, com 165,6 milhões de hectares. Desde 1985, incorporaram 61,6 milhões de hectares. A partir de 2006, a área de pastagem permaneceu relativamente estável, com crescimento inferior a 1,5 milhão de hectares por ano.

A agricultura passou de 18,6 milhões para 66,5 milhões de hectares. Entre as culturas temporárias, a soja apresentou a maior expansão: de 4,5 milhões para 44,2 milhões de hectares. Em 2025, a cultura respondia por 66,5% da área agrícola do país.

A cana-de-açúcar passou de 2,2 milhões para 11,1 milhões de hectares no mesmo período.

A silvicultura também ampliou sua presença, de 1,9 milhão para 9,9 milhões de hectares entre 1985 e 2025.

A expansão agropecuária alterou também o perfil dos municípios. Em 1985, a atividade era a cobertura ou uso da terra predominante em 46% dos municípios brasileiros. Em 2025, passou a predominar em 59%.

As pastagens são a principal cobertura ou uso da terra em 2.114 municípios, 38% do total. A agricultura predomina em outros 1.092, ou 20%. A Formação Florestal continua sendo a cobertura predominante em 1.104 municípios, também 20%.

Ao longo dos 41 anos, 744 municípios deixaram de ter a vegetação nativa como cobertura predominante.

“Os municípios brasileiros estão passando por uma transformação em que reduz a predominância de vegetação nativa e aumenta a predominância de usos antrópicos. Se você compara o predomínio que tínhamos em 1985 com 2025, tivemos mais de 600 municípios que deixaram de ter a vegetação nativa como sua cobertura principal”, pontua o coordenador do MapBiomas.

Desmatamento diminui, mas pressão acumulada permanece

Os mapas da Coleção 11 indicam que as transições de coberturas naturais para usos antrópicos vêm diminuindo nos últimos anos, tendência já identificada pelo Relatório Anual do Desmatamento de 2025.

“Em 2025, o Brasil registrou menos de um milhão de hectares desmatados pela primeira vez desde o início da série histórica do MapBiomas Alerta, em 2019, resultado de uma redução de 20,6% em relação ao ano anterior”, afirma Tasso.

Segundo ele, a desaceleração reduz o ritmo de transformação da cobertura da terra, mas não elimina os efeitos das mudanças acumuladas nas últimas quatro décadas.

“Muitas regiões do Brasil já passaram por mudanças profundas nas últimas quatro décadas, o que afeta a sua resiliência aos eventos climáticos extremos”, afirma.

No Pantanal, a redução de 4 milhões de hectares de superfícies de água e campos alagados é acompanhada por uma novidade da Coleção 11: a inclusão da classe savana alagada.

A formação é caracterizada por espécies arbóreas distribuídas de forma esparsa entre vegetação arbustiva e herbácea ao longo de cursos d’água e planícies de inundação. Entre 1985 e 2025, essa classe sofreu redução de 84%, passando de 1,1 milhão para 174 mil hectares.

Marismas entram no mapeamento do Pampa

As marismas também passaram a integrar o mapeamento do MapBiomas, ainda em versão beta. Nesta edição, o levantamento está restrito à zona costeira do Pampa, embora essas formações ocorram em outras áreas do litoral brasileiro.

São áreas pantanosas influenciadas por água salobra, localizadas nas margens de estuários, onde ocorre o encontro entre a água doce de rios ou lagunas e a água do mar. A vegetação é predominantemente herbácea, formada por gramíneas e juncos adaptados à água salgada.

Em 2025, foram mapeados 6,9 mil hectares de marismas no Pampa. As formações predominam em climas subtropicais e temperados e, no Brasil, estão concentradas na zona costeira da Região Sul.

O levantamento identifica marismas nas zonas estuarinas das lagoas Tramandaí-Armazém, Lagoa do Peixe, Laguna dos Patos e na foz do Arroio Chuí.

Energia solar e eólica avançam

A expansão de fontes renováveis também aparece na Coleção 11. A área ocupada por usinas fotovoltaicas chegou a 43,3 mil hectares em 2025, 38 vezes mais do que em 2016, primeiro ano em que a classe passou a ser mapeada.

A Caatinga concentrava 63% dessa área, com 27,2 mil hectares. O Cerrado respondia por 32%, com 13,9 mil hectares, e a Mata Atlântica, por 5%, com 2,2 mil hectares.

Minas Gerais reunia 16,3 mil hectares de usinas fotovoltaicas, 37,6% do total nacional. Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte completavam, junto com Minas Gerais, os estados que concentravam 74,8% da área mapeada no país, equivalente a 32,3 mil hectares.

Os parques eólicos ocupavam 28,7 mil hectares em 2025, ante 4,8 mil hectares em 2016, crescimento de seis vezes no período.

A Caatinga concentrava 85% da área mapeada, com 24,4 mil hectares. O Cerrado respondia por 8%, o Pampa por 6% e a Mata Atlântica por 1%.

Rio Grande do Norte e Bahia reuniam 61,7% da área de parques eólicos mapeada em 2025, totalizando 17,7 mil hectares. Nos estados do Nordeste, a área ocupada pelos parques aumentou 5,7 vezes entre 2016 e 2025, passando de 4,7 mil para 26,9 mil hectares.

Nova coleção amplia mapeamento

A Coleção 11 reúne mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil entre 1985 e 2025 e contempla 33 classes, incluindo quatro novas categorias. A classe recifes costeiros está disponível separadamente, em módulo específico.

Os dados, mapas e demais informações podem ser acessados gratuitamente na plataforma do MapBiomas.

O MapBiomas é uma iniciativa que reúne universidades, organizações não governamentais e empresas de tecnologia para mapear transformações na cobertura e no uso da terra. O objetivo é produzir informações que contribuam para a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais e para o enfrentamento das mudanças climáticas.

A rede também produz bases específicas sobre desmatamento, fogo, água, degradação e solo. Além do Brasil, o MapBiomas já ampliou sua atuação para outros 19 países.

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