A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho da Solenidade da Assunção da Virgem Maria, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de Lucas 1,39-56.
“Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada...” (Lc 1,48).
O dogma da Assunção de Maria abre para toda a humanidade uma mesma experiência pascal, atravessando, com Jesus, a morte. Maria aparece como a primeira cristã completa, pois a vemos em Jesus e por Jesus como primeira dos ressuscitados.
A Assunção deve ser entendida como a plenificação de Maria em Deus; ela é “assumida” plenamente por Aquele de quem tudo procede e tudo retorna. Durante sua vida, Maria já estava realizando esta plenitude e já deixava transparecê-la através de diferentes “sins”, em diversas circunstâncias; mas, ainda não tinha chegado à sua meta; e a meta supõe sempre um caminho, o fruto passa por longo processo de maturação na árvore, a pedra preciosa cristaliza-se lentamente nas profundezas da rocha.
Maria morreu totalmente em Deus e, com sua morte, culminou sua peregrinação: ela se entregou em Deus e Ele a recebeu, no caminho e meta pascal de Jesus Cristo, toda a trajetória de sua vida, a fim de plenificá-la. Por isso, o que ressuscita é a “pessoa inteira” de Maria, tudo o que ela foi, tudo o que ela realizou. Não sobe ao “céu” a “alma separada do corpo” ou dos homens e mulheres da história, senão toda sua pessoa, com aqueles que assumem seu mesmo caminho.
Assim, a Assunção é uma vitória solidária: nela, todos já vislumbramos o lampejo da eternidade.
Inspirados(as) naquela que “desapareceu” em Deus, somos chamados a antecipar a “assunção” durante nossa peregrinação terrestre, prolongando o modo de ser e viver de Maria, tão bem expresso no canto do “Magnificat”. Só seremos “assumidos” por Deus se formos capazes, como Maria, de “descer” ao chão de nossa humanidade, pessoal e coletiva, vivendo o compromisso com os mais pobres e excluídos.
Crer na Assunção de Maria implica crer na exaltação dos pequeninos e humilhados, dos pobres esquecidos, dos injustiçados sem voz, dos sofredores sem vez, dos abandonados sem proteção, dos misericordiosos descartados, dos mansos violentados...
Das “coisas” de Deus (como de tantas coisas humanas…) só podemos falar com linguagem simbólica que, mais que definir e fixar, evoca e provoca nosso olhar numa determinada direção; são como um vitral que nos conta algo da luz que brilha detrás dele.
Podemos trazer algumas “imagens” que ajudam a nos aproximar de Maria, na festa de sua Assunção.
Se a todos nos agrada terminar as coisas que começamos, podemos pensar que com Deus acontece o mesmo, ou seja, não deixa pela metade a obra começada.
Quando alguém inicia uma construção de grande envergadura, normalmente constrói uma maquete do que será a obra e a expõe em um lugar visível para que todos possam ver como vai ser o final e, assim, desculpar os possíveis incômodos e transtornos que a construção vai trazer consigo. Ao olhá-la, contempla-se e imagina-se a obra já terminada. A festa da Assunção de Maria nos coloca diante de uma “maquete” que nos mostra a plenitude da obra de Deus na mulher que não colocou nenhuma resistência à sua ação: “Faça-se em mim...”, disse Maria, a mulher da Nova Criação, acolhendo nela a presença do mesmo Espírito que “pairava sobre as águas” (Gen 1,2) na manhã da primeira criação.
Em Maria vemos a “obra de Deus” terminada; ela não frustrou Seus planos, mas os realizou plenamente.
Podemos, também, buscar outra imagem (agora bíblica) para ilustrar o dogma da Assunção. Quando Moisés, no deserto, não sabia como convencer seu povo cansado, cético e desmotivado para entrar na terra da promessa, teve uma ideia genial: enviou exploradores a Canaã que voltaram carregados com gigantescos cachos de uvas doces, frescas e apetitosas. “Entramos no país ao qual nos enviaste; é uma terra que mana leite e mel; aqui tendes os seus frutos” (Num 13,27).
Algo parecido faz a Igreja quando nos apresenta a Assunção de Maria. É como se dissesse: “Olhai as primícias da nova humanidade; Maria é fruto já maduro da Terra para a qual nos dirigimos! Bem-aventurados somos nós por termos recebido a boa notícia do campo onde finca suas raízes a Árvore da Vida que produz fruto semelhante. Compartilhai em voz alta esse segredo, esse sabor do vinho que enche a todos de alegria”.
A existência já glorificada de Maria e sua alegria são as mediações de que dispomos para proclamar: “É uma terra que corre leite e mel. Vale a pena caminhar em sua direção para conhecê-la”!
A partir de sua plenitude em Deus, Maria nos abençoa e nos motiva a viver em estado de peregrinação, com sentido e inspiração. Essa realidade já estava presente na sua visita à sua prima Isabel quando, cheia de alegria, deixa o seu coração transbordar através do canto do Magnificat.
O mistério da Visitação, indicado para a festa da Assunção, nos revela que Maria é a mulher que “sabe olhar” em profundidade, que deixa aflorar uma intensa “admiração”, que se alegra em seu coração, que ativa uma gratidão transbordante e vive em contínua disponibilidade: estes são os componentes da benção.
De Maria aprendemos a sabedoria do bendizer sempre e a todos. Ela é sempre uma benção para todo(a) aquele(a) que dela se aproxima.
Maria é a mulher plena e, por isso mesmo, em seu “ser mulher” deixa Deus transparecer; ela experimenta Deus no mais profundo de si mesma e vai deixando-se viver – deixando-se fazer – a partir d’Ele. Nela descobrimos a admirável unidade humana-divina: todo o autenticamente humano é já divino e o divino é entranhavelmente humano. Esta é a unidade que nós cristãos reconhecemos e celebramos na encarnação de Jesus: “O Verbo se fez carne”. Deus é humanidade, carne, matéria...
Certamente, a Maria dos Evangelhos nada tem a ver com a imagem que muitas vezes foi apresentada como mulher passiva, silenciosa, submissa, uma imagem que, em lugar de refletir a personalidade de Maria de Nazaré, parecia ser um modelo fixo que se apresentava aos homens como mulher ideal e às mulheres para sua imitação. Como nenhum modelo é “neutro”, este também tinha a clara funcionalidade social numa cultura autoritária, machista, repressiva e patriarcalista.
O que os evangelhos nos oferecem é bem diferente. Na Anunciação, Maria aparece tomando uma decisão pessoal, numa cultura na qual a mulher era totalmente submissa. Na Visitação, encontramos uma mulher de iniciativa e com vontade própria, decidida e empreendedora. É a mulher do caminho e do serviço. Em Caná, ela é a que impulsiona Jesus para sua missão (adiantando inclusive “sua hora”). Junto à Cruz, é a mulher inteira, atravessada pela dor, mas “de pé”, profundamente humana, profundamente fiel. No Cenáculo, é a mulher “líder”, congregando os discípulos e discípulas.
Em resumo, em diferentes momentos da liturgia, Maria é apresentada a nós como uma mulher livre, contemplativa, espiritual, forte, pressurosa, com vontade e fibra, “transgressora” ...; é a mulher que ama, a mulher santa, em comunhão com Deus e cheia do Espírito. E esta é a revelação do evangelho: em todos os momentos e situações, ela deixa “transparecer” em sua vida o verdadeiro rosto misericordioso de Deus; em todos os cenários Maria nos revela que já vivia em permanente “assunção”, pois sentia-se “assumida” por Deus em todos os momentos e circunstâncias.
Nela buscamos inspiração para fazer de nossa vida uma contínua “assunção” em Deus.
Esse é o motivo último da confiança e da alegria: que Deus nos olha, e nos olha com bondade. Assim canta Maria: “... o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva”. Ao se sentir “olhada” carinhosamente por Deus, Maria se revela como a mulher dos “olhos grandes”, ou seja, é a mulher que “põe seus olhos” na realidade e nas pessoas.
Seu hino deixa transparecer nela um júbilo profundo, nascido das profundezas de sua pessoa; hino que expressa bem a vontade oblativa de Maria, como mulher de alegria e de confiança.
- Faça memória das experiências de “assunção” em sua vida: o que mudou? quê movimentos vitais surgiram?
- Deixe emergir das profundezas de seu coração um canto de profunda gratidão por tudo aquilo que Deus já realizou, realiza e ainda realizará em sua vida.