IA está superaquecendo cidades dos EUA

Foto: Gerard Altmann | Domínio Público

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11 Agosto 2026

Mais de 1.500 instalações em construção consomem energia de cidades inteiras e elevam a temperatura em um raio de até 10 km, enquanto moradores pressionam por moratórias.

A reportagem é publicada por EcoDebate, 10-08-2026.

Enquanto gigantes da tecnologia correm para expandir a infraestrutura de inteligência artificial, comunidades nos Estados Unidos enfrentam contas de luz mais caras, risco de apagões em ondas de calor e bairros inteiros transformados em ilhas de calor, formando um retrato do custo invisível do boom da IA.

Por trás de cada resposta gerada por um chatbot, de cada imagem criada em segundos por um modelo de inteligência artificial, existe uma estrutura física devorando eletricidade em algum lugar dos Estados Unidos. E essa estrutura está, literalmente, esquentando o país.

Os data centers (os galpões repletos de servidores que processam e treinam os sistemas de IA) deixaram de ser um detalhe técnico da economia digital para se tornar um problema de infraestrutura elétrica, de saúde pública e de justiça climática. O crescimento é tão acelerado que já divide opinião em cidades norte-americanas, onde moradores organizam campanhas e pedem moratórias para frear novas construções.

O apetite elétrico da inteligência artificial

Hoje, os data centers já respondem por cerca de 4,5% de todo o consumo de eletricidade nos Estados Unidos. A projeção é que essa fatia dobre ou mais até 2030, podendo ultrapassar 10% da matriz elétrica americana. Para se ter ideia da escala, uma única instalação de grande porte pode consumir tanta energia quanto 100 mil residências somadas.

O ritmo de expansão impressiona: projeções apontam que a demanda mundial por energia em data centers deve atingir 132 gigawatts em 2026, ante 104 gigawatts em 2025, com estimativa de avanço para 290 gigawatts até 2030.

Nos Estados Unidos, já existem mais de 1.500 data centers em desenvolvimento para atender à corrida da IA e o estado da Virgínia concentra sozinha mais de 600 dessas instalações, a maior densidade do país, justamente em uma região que vem batendo recordes de temperatura.

Energia extra justo quando a rede menos aguenta

O problema não é só o volume de energia consumido, mas o momento em que essa energia é exigida. Os servidores de IA precisam de refrigeração constante para não superaquecer, e esse resfriamento já representa cerca de 40% do consumo elétrico de um data center em condições normais.

Quando as temperaturas externas sobem, os sistemas de resfriamento trabalham ainda mais e puxam ainda mais energia da rede, exatamente no momento em que ares-condicionados residenciais e comerciais também estão no limite.

É um efeito cascata perigoso: o pico de consumo dos data centers coincide com o pico de consumo das cidades durante ondas de calor, pressionando uma rede elétrica que, em muitos estados americanos, já opera perto da capacidade máxima.

O risco real de apagões

Essa sobreposição de demandas eleva o risco de blackouts justamente nos dias mais quentes do ano, quando faltar energia é mais perigoso. Estudos sobre o tema mostram que apagões durante ondas de calor podem mais do que dobrar a taxa de mortalidade relacionada ao clima, já que a perda de refrigeração em residências, hospitais e comércios se torna uma ameaça direta à vida, especialmente para idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.

Não é um cenário hipotético. Reportagens recentes mostram que a disputa pela capacidade da rede elétrica já afeta outros setores da economia americana: indústrias tradicionais, da siderurgia ao vidro, relatam que o avanço da infraestrutura de IA pressiona tarifas e disputa espaço com investimentos que antes seriam destinados a outros segmentos.

Ilhas de calor: o efeito colateral que se espalha pela cidade

Além da pressão sobre a rede elétrica, os data centers alteram o microclima ao seu redor. O calor liberado pelos servidores e pelos sistemas de refrigeração cria as chamadas “ilhas de calor”, áreas onde a temperatura local fica visivelmente mais alta do que nos arredores por causa da atividade humana e da infraestrutura concentrada.

Cientistas identificaram que esse efeito de aquecimento pode se estender por mais de 9,6 quilômetros ao redor de uma única instalação. Isso significa que bairros inteiros, distantes do próprio data center, sentem na pele o calor extra, gerado por uma tecnologia que, para o usuário final, parece completamente intangível.

Some-se a isso o consumo intensivo de água usada para resfriar os equipamentos, e o resultado é uma pressão ambiental que vai muito além da conta de luz, porque afeta o abastecimento hídrico e o conforto térmico de comunidades inteiras.

Comunidades dizem “chega” e moratórias entram no debate

Diante desse conjunto de riscos, contas mais caras, maior chance de apagão em dias críticos e bairros mais quentes, cresce nos Estados Unidos um movimento de resistência à instalação de novos data centers de hiperescala. Grupos comunitários, ambientalistas e até setores industriais tradicionais vêm pressionando autoridades locais por moratórias, isto é, pausas temporárias na aprovação de novos projetos até que existam garantias mais claras sobre o impacto na rede elétrica e no meio ambiente.

O debate expõe uma tensão que tende a se repetir em outros países à medida que a corrida pela inteligência artificial avança: como equilibrar o apetite quase ilimitado por poder computacional com a capacidade real e os limites físicos da infraestrutura elétrica, hídrica e climática que sustenta a vida nas cidades.

De um lado, big techs e provedores de nuvem correm para não ficar para trás na disputa global por IA. De outro, moradores e especialistas alertam que o custo dessa corrida pode ser pago, literalmente, em calor e em falta de luz.

No entanto, como tudo que envolve o grande capital, as big techs e provedores de nuvem estão, com grande apoio político, impondo seus interesses sobre os interesses e direitos das comunidades impactadas, direta ou indiretamente.

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