Europa do Sul em chamas: um capitalismo piromaníaco. Artigo de Jean Batou

Foto: Sal.mancini | Wikimedia Commons

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11 Agosto 2026

“Até meados da década de 2010, as medidas de prevenção e combate a incêndios florestais conseguiram, em maior ou menor grau, conter a propagação desses incêndios na Europa mediterrânea. Desde então, os freios falharam repentinamente e a parte sul do Velho Continente caminha a passos largos para uma conflagração aterradora. Mas quem é o responsável por essa catástrofe cada vez mais grave? Em primeiro lugar, é claro, a aceleração das mudanças climáticas; em segundo lugar, o planejamento do uso da terra cada vez mais impulsionado pelo lucro privado; e, por fim, as medidas de prevenção e os recursos de combate a incêndios notoriamente insuficientes”. A reflexão é de Jean Batou, em artigo publicado por Viento Sur, 07-08-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Até meados da década de 2010, as medidas de prevenção e combate a incêndios florestais conseguiram, em maior ou menor grau, conter a propagação desses incêndios na Europa mediterrânea. Desde então, os freios falharam repentinamente e a parte sul do Velho Continente caminha a passos largos para uma conflagração aterradora. Mas quem é o responsável por essa catástrofe cada vez mais grave? Em primeiro lugar, é claro, a aceleração das mudanças climáticas; em segundo lugar, o planejamento do uso da terra cada vez mais impulsionado pelo lucro privado; e, por fim, as medidas de prevenção e os recursos de combate a incêndios notoriamente insuficientes.

“Os incêndios florestais estão entre os desastres naturais mais destrutivos do mundo, com sérias repercussões ambientais, econômicas e sociais”, observam Sarah et al. em um artigo publicado na revista Scientific Reports em 26 de julho de 2026. Essa equipe de pesquisa também indica que o sul da Europa, especialmente a Espanha e a Itália, havia experimentado um declínio constante na incidência desses incêndios descontrolados desde o início da década de 1980, graças às medidas de prevenção adotadas, mas que essa tendência se reverteu drasticamente a partir de meados da década de 2010. De fato, todas as medidas implementadas nos últimos 40 anos têm se mostrado cada vez mais ineficazes diante da evolução dos riscos.

Megaincêndios cada vez mais destrutivos

Se nos limitarmos aos cinco países mais expostos – França, Grécia, Itália, Espanha e Portugal – de 2008 a 2014, a extensão das áreas destruídas pelo fogo foi relativamente estável, em torno de 250.000 hectares por ano [no gráfico abaixo, para eliminar as variações anuais, os valores para cada ano são os dos cinco anos mais próximos – por exemplo, o valor para 2008 representa a média dos anos 2006-2010]. Por outro lado, essa extensão tem aumentado constantemente desde 2015. Considerando novamente as médias móveis dos 5 anos, de 2015 a 2020 as áreas queimadas ultrapassaram 300.000 hectares por ano; a área cultivada atinge 360.000 hectares em 2021, 380.000 hectares em 2022, 505.000 hectares em 2023 e 570.000 hectares em 2024… O último dado disponível para o ano de 2025 é de 841.000 hectares e provavelmente será da mesma ordem de grandeza, ou até maior, para 2026.

Do ponto de vista ambiental, um hectare de incêndio libera de 60 a 150 toneladas de CO₂ na atmosfera, dependendo do tipo de vegetação consumida, além de uma certa quantidade de metano e óxido nitroso. Assim, os mais de 1 milhão de hectares queimados na União Europeia até 2025 provavelmente terão produzido de 60 a 150 milhões de toneladas de CO₂, o equivalente a 10 a 25% das emissões de veículos particulares.

Do ponto de vista econômico e social, é preciso, obviamente, somar os custos imediatos do combate ao incêndio, os trabalhos de restauração necessários (edifícios, equipamentos, plantações, etc.), a perda de salários e de receitas turísticas, entre outros. Assim, em 2025, a nível da UE, entre 3 e 8 bilhões de euros foram consumidos pelo fogo, metade do orçamento da cidade de Paris, sem contar os efeitos a longo prazo destes megaincêndios, que são muito difíceis de medir, especialmente em termos da destruição de ecossistemas que demoram muito tempo para se recuperarem (desaparecimento de espécies animais e vegetais, perturbação do ciclo da água, transição de ecossistemas florestais para ecossistemas com menos vegetação, etc.).

Os incêndios florestais também matam pessoas: 13 morreram no megaincêndio de Los Gallardos, na Andaluzia, em 12 de julho (66 morreram no megaincêndio de Pedrógão Grande, em Portugal, em 2017). A isto devem-se acrescentar os ferimentos e as consequências para a saúde a médio e longo prazo. De fato, a fumaça contém partículas finas PM2,5, que penetram nos pulmões e, em alguns casos, entram na corrente sanguínea, juntamente com ozônio, monóxido de carbono e vários compostos orgânicos tóxicos.

As causas dos incêndios e formas de combate

Na França, as estatísticas atribuem 90% dos incêndios à origem humana: 35% estão ligados a atividades econômicas, 25% a atos de vandalismo, 15% a atividades recreativas e 15% a acidentes (transportes, infraestruturas, etc.). A prevenção desempenha um papel crucial neste sentido. Explica, em parte, a diminuição da incidência de incêndios florestais na Europa desde a década de 1980 até meados da década de 2010.

A detecção rápida de focos de incêndio, que permite uma intervenção mais eficaz, é um aspecto fundamental para prevenir a propagação das chamas. Isso depende da observação humana, de redes de câmeras instaladas em áreas de risco e de observações feitas por drones ou satélites. No entanto, a resposta rápida dos bombeiros depende em grande parte do terreno e dos recursos disponíveis, principalmente recursos aéreos e a disponibilidade de reservas hídricas significativas nas proximidades, que diminuem durante os períodos de seca.

Já falamos sobre a prevenção de incêndios, mas o planejamento do uso da terra também desempenha um papel fundamental na contenção da propagação do fogo: criação de faixas de proteção contra incêndios ao redor de casas e infraestruturas, onde a quantidade e a continuidade da vegetação são significativamente reduzidas (exigindo manutenção constante); manutenção de uma paisagem em mosaico (com usos alternados); apoio ao pastoreio extensivo; e manejo florestal que promova a diversidade de espécies e a manutenção de um ecossistema de zonas úmidas. Todas essas medidas contrariam o planejamento do uso da terra orientado pelo lucro privado.

Na França, a Confédération Paysanne denuncia…

Ao longo de várias décadas, parte das florestas francesas tem sido manejada segundo uma lógica de produção industrial. Povoamentos altamente homogêneos, frequentemente compostos por coníferas de crescimento rápido, foram desenvolvidos para atender às necessidades da indústria madeireira.

Hoje, quase metade dos povoamentos florestais franceses é composta por uma única espécie. As plantações florestais cobrem aproximadamente 2,1 milhões de hectares, dos quais quase 80% são de coníferas.

O problema não são as coníferas em si. O pinheiro-bravo, o abeto-de-douglas e o abeto-vermelho têm o seu lugar em determinadas regiões. O problema surge quando florestas diversificadas são substituídas por povoamentos uniformes, por vezes em áreas muito extensas.

Cientistas demonstram que florestas mistas são geralmente mais resistentes a secas, doenças e eventos climáticos extremos. Elas armazenam melhor a água, criam mais sombra e costumam ser mais resilientes a incêndios.

Outra questão que merece sério debate é o desmatamento total.

De acordo com um estudo da associação Canopée, 87% dos projetos financiados pelo plano de recuperação France Relance envolveram desmatamento total, com replantio principalmente em monocultura. Esses resultados são contestados por alguns no setor florestal, mas levantam questões sobre o uso de recursos públicos e o tipo de modelo florestal que queremos promover.

A isso se somam estiagens cada vez mais prolongadas, ondas de calor mais frequentes e ventos violentos. A mudança climática é uma realidade. Mas a forma como gerenciamos nossas florestas também.

Não podemos mais simplesmente dizer: “A culpa é do clima”. A mudança climática aumenta o risco. Nossas escolhas de planejamento do uso da terra podem tanto agravar quanto mitigar o problema.

Quanto aos recursos de combate a incêndios, o equipamento aéreo desempenha um papel crucial. No entanto, as aeronaves (Canadair CL-415 e o novo DHC-515, ainda não em serviço) são produzidas em número limitado pela empresa canadense De Havilland. Os custos de aquisição, manutenção e treinamento da tripulação também são muito altos para um uso essencialmente sazonal. Os helicópteros de combate a incêndios, mais eficazes à noite, também são mais versáteis, mas geralmente transportam menos água (4 toneladas em vez de 6,1 toneladas) e levam mais tempo para reabastecer.

Aumento das temperaturas, El Niño e a corrida para o desastre

A propagação de incêndios florestais depende, em parte, de um fator socioeconômico significativo: a concentração de atividades agrícolas e pastoris nas áreas mais rentáveis e o abandono de zonas marginais. De acordo com um estudo de 2018 do Joint Research Center de la Commission européenne, mais de 20 milhões de hectares de terras agrícolas correm grande risco de serem abandonados até 2030, principalmente na Espanha, Portugal, Grécia e sul da França. Esta tendência reduz a diversidade de campos cultivados, pastagens, olivais, vinhas, pomares, bosques e aldeias – uma paisagem descontínua que não é propícia à propagação de incêndios.

Mas, acima de tudo, desde 2015, o clima tem desempenhado um papel decisivo, principalmente na Europa, um continente que está aquecendo, em média, duas vezes mais depressa do que o resto da superfície terrestre. Segundo Feron et al., citados acima, “em grande parte da Península Ibérica, França, Itália e Grécia, o número de dias de verão com condições extremas propícias a incêndios florestais mais do que duplicou entre 1981 e 2025 […] No sul da Espanha, no sul da França e na maior parte da Itália, as temperaturas foram, em média, até 2 °C mais elevadas entre 2016 e 2025 em comparação com a média de longo prazo”.

No sul da Europa, além do aquecimento climático acelerado, indicadores globais como o El Niño-Oscilação Sul (ENSO), que afeta mais diretamente o Pacífico tropical, mas influencia a circulação atmosférica global, principalmente a Oscilação do Atlântico Norte (NAO), parecem desempenhar um papel agravante. Em sua fase negativa (pressão abaixo do normal no Atlântico Norte central e pressão acima do normal em latitudes mais altas), a NAO geralmente causa verões mais quentes e secos no sul da Europa. A combinação desses fatores coloca a Península Ibérica em uma posição particularmente crítica. De fato, entre 1981 e 2010, a região experimentou, em média, menos de 10 dias de condições climáticas extremas, particularmente propícias a incêndios florestais, em comparação com mais de 25 dias na última década.

Atualmente, a propensão do clima para incêndios florestais excede em muito os recursos disponíveis aos Estados europeus para combatê-los, e isso está acontecendo muito mais rapidamente do que o previsto. De acordo com El Garroussi et al., as projeções climáticas disponíveis para o sul da Europa sugerem uma probabilidade de 50% de incêndios florestais nas áreas mais expostas (em comparação com os 5% atuais). Isso significa que, a curto e médio prazo, a Península Ibérica, o sul da França, a Itália e os Balcãs estão destinados a catástrofes de proporções inimagináveis.

Para lidar com essa situação, devemos, naturalmente, intensificar a luta contra as mudanças climáticas, mesmo que os próximos megaincêndios já estejam previstos. É também urgente romper com o planejamento do uso da terra orientado pelo lucro privado e combater a especulação imobiliária. No curto prazo, é crucial reforçar decididamente os recursos de prevenção e combate a incêndios e tornar isso uma prioridade absoluta nas políticas públicas.

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