Um rinoceronte na sala de estar: atopia, poder e formação religiosa

Foto: Aaron Burden/ Unsplash

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07 Agosto 2026

"À guisa disso, ouvi inúmeros relatos de formandos(as) se queixando porque seus/suas formadores(as) se aborreciam ao ouvirem elogios às ações adotadas por esses(as) religiosos(as) em formação, seja na pastoral, seja na convivência com o povo, seja nas partilhas ou, simplesmente, por serem quem são. Ademais, percebi, por meio de uma escuta profissional, que muitos formadores e formadoras, à semelhança de rinocerontes ameaçados, zangavam-se em vileza, inveja e ciúmes ao perceberem que seus “pupilos” eram agradáveis aos olhos da comunidade e isso, muitas vezes, despertava nesses padres e freiras um sentimento de incômodo, o que, posteriormente, criaria episódios de perseguição e punições injustificáveis."

O artigo é de Gustavo Mendes, psicanalista, mestre em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE).

Eis o artigo.

Eu nunca viajei para uma savana, no entanto, assistindo a diversos programas sobre a vida animal e depois de ter estudado sobre os mamíferos em Ciências Biológicas, pude perceber o quanto os rinocerontes são territorialistas. Basta aproximar-se desse animal e “puf”, a ira desse grande vertebrado se aplaca e irrompe-se uma violenta perseguição à vítima.

Nesse sentido, há imagens que, por si sós, desestabilizam o pensamento, isto posto, para mais da percepção violenta das reações de um rinoceronte, imaginemos, por um instante, esse animal no centro de uma sala de estar. Certamente, somos confrontados com a ideia segundo a qual há um perigoso desconforto em meio às ameaças de um animal, em um cômodo pequeno, o qual ao perceber seu espaço em risco, vale-se da brutalidade, a fim de continuar com o domínio de seu território e, consequentemente, de seu poder.

À luz dessa analogia, em muitos casos, no universo da formação religiosa católica, é precisamente essa lógica a qual, por vezes, teima em constituir as relações de autoridade entre formadores e formandos. Partindo dessa conjuntura, por meio deste ensaio, somos provocados para refletirmos acerca dessa disputa simbólica de territórios nos seminários católicos.

A princípio, é necessário esclarecer que não se trata, evidentemente, de postular que todo seminário e casa de formação buscam reproduzir a lógica supracitada, tampouco visa-se a insurgir contra a indispensável autoridade dos(as) formadores(as). Assim, o que se pretende é fazer oxigenar a palavra e o debate, refletindo sobre uma dinâmica formativa a qual, quando presente, desidrata, silenciosamente, todo o processo de formação, corroendo-o e alijando a própria finalidade da autoridade cristã, a qual existe para fazer com que o/a outro(a) cresça na intimidade e no relacionamento com Deus.

Dessa sorte, o/a leitor(a) ao ler rapidamente o título, talvez tenha pensado ser um erro de digitação, quiçá imaginou que a palavra correta seria “utopia”, tão conhecida entre nós e tão presente em nossos debates. Entretanto, adianto-me explicando: o termo está correto, ou seja, atopia. Diante disso, tal substantivo mimetiza a ideia de que existe a ausência de um lugar; etimologicamente, temos: “a”, um prefixo privativo que indica negação, seguido de “tópos”, o qual significa “espaço” ou “lugar”; assim, literalmente, estabelece-se um sentido de “ausência de lugar” ou, refinando os sentidos, a não existência de um território.

Dado o exposto, recuperando a figura dos territorialistas rinocerontes, durante meu longo contato com seminaristas e religiosos(as), como psicanalista, e também tendo convivido com muitos deles e delas na instituição em que cursei meu mestrado, pude perceber, com límpida clareza, que, em muitos casos na formação religiosa, formadores e formadoras atuam não como autênticos companheiros(as) na condução do seguimento a Jesus Cristo, mas, miseravelmente, arvoram-se na abominável figura de rinocerontes, prontos para o ataque quando se sentem invadidos na “suposta” perda de território.

À guisa disso, ouvi inúmeros relatos de formandos(as) se queixando porque seus/suas formadores(as) se aborreciam ao ouvirem elogios às ações adotadas por esses(as) religiosos(as) em formação, seja na pastoral, seja na convivência com o povo, seja nas partilhas ou, simplesmente, por serem quem são. Ademais, percebi, por meio de uma escuta profissional, que muitos formadores e formadoras, à semelhança de rinocerontes ameaçados, zangavam-se em vileza, inveja e ciúmes ao perceberem que seus “pupilos” eram agradáveis aos olhos da comunidade e isso, muitas vezes, despertava nesses padres e freiras um sentimento de incômodo, o que, posteriormente, criaria episódios de perseguição e punições injustificáveis.

À luz do exposto, esse preocupante cenário poderia ser inicialmente mitigado se alguns padres e freiras lessem, com mais atenção e esmero, Michel Foucault, o algoz dos conservadores cristãos. Desse modo, é precisamente neste ponto que emerge o “rinoceronte na sala”, dado que ao ecoar as palavras do aludido filósofo, entende-se que o desgaste nem sempre decorre das divergências doutrinais ou de um visível mal testemunho da fé, no entanto, origina-se a partir da percepção de que um território simbólico está sendo invadido. Na esteira dessa premissa, as vívidas matizes do servir, que são as bases do poder, tornam-se opacas, transmutando-se, pois, em um mecanismo de autopreservação. Logo, a autoridade perde seu caráter pedagógico, lançando-se para a manutenção de centralidades, reconhecimentos e prestígios ao arrepio de todo fundamento da vida religiosa.

Em outras palavras, o ego fragilizado de muitos(as) religiosos(as) fenece diante da irremediável constatação de que há pessoas mais agradáveis, mais acessíveis, mais queridas, mais inteligentes e, até mesmo, que se parecem mais com Cristo que tais religiosos. Assim, ao perceberem que seus “espaços” foram invadidos e que suas seguranças não dispõem mais das garantias que os clericalismos oferecem, voltam-se, como ferozes rinocerontes, para atacarem e perseguirem rapazes e moças que, voluntariamente, decidiram pelo Reino de Deus, pelos pobres e pela Igreja.

Além disso, cumpre também examinar que, na verdade, o(a) verdadeiro(a) cristão(ã) reconhece que o Reino de Deus não pode ser resumido às espacialidades, simbólicas ou estruturais, da fé, ou seja, esse reino é atópico. Assim, estou convencido de que o clericalismo pode atuar como uma espécie de triste demência ao juízo e à razão de religiosos e religiosas, impedindo-os(as), pois, de perceberem, com lucidez cristã, que não há geografias verticalizadas nesse Reino, o qual é aberto a todos e todas.

Diante disso, percebemos que o Evangelho trabalha para o rompimento contínuo das lógicas da posse, haja vista que o Reino não é propriedade do(a) formador(a), superior(a), madre, sacerdote ou instituição, todos e todas pertencem a esse Reino. Isto posto, tal inversão altera radicalmente a compreensão de autoridade, tendo em vista que os(as) servidores(as) do Evangelho não administram territórios, tampouco tomam para si espaços, mas cuidam de uma realidade que nunca lhes pertenceu, pois Cristo é o governador desse Reino.

Consequentemente, é deplorável constatar tantos rinocerontes, fragilizados por problemas de autoestima ou adoecidos pelos vírus do carreirismo e da autorreferiação, que na esteira do autoritarismo, metamorfoseiam as relações formativas, fazendo com que o(a) outro(a) deixe de ser discípulo(a) e passe a ser visto como invasor(a). Destarte, o(a) formando(a) ao demonstrar maturidade espiritual, intelectual, liderança ou, simplesmente, ser reconhecido(a), sofre um embotamento e distorção de sua imagem, deixando de ser visto como fruto da missão formativa e passando a ser considerado, em certos contextos, como um indivíduo cuja figura desarticula o equilíbrio institucional estabelecido previamente.

Posto isso, a ideia de atopia surge como um conceito central ao clarificar a compreensão desse fenômeno, haja vista que o Reino de Deus, como se pode ler nas páginas do Evangelho, conf. S. Lucas 17, 20-21, não pode se apresentar e se localizar segundo as categorias espaciais e territoriais dos interesses humanos, tendo em vista que esse reinado, diferente de todos os demais, está dentro de nós e, por conseguinte, é vivido mediante a horizontalização das relações humanas e não pode ser vivenciado partindo dos pressupostos da competição, da disputa e dos ciúmes.

Possivelmente, tal situação seja o reflexo de um dos maiores paradoxos da formação cristã, dado que justamente os ambientes incumbidos de formar discípulos e discípulas para a liberdade apresentada no Evangelho, tornam-se, em certas circunstâncias, arenas marcadas pela vigilância, pelo medo e pela competição. Infelizmente, sabemos que quando isso ocorre, não há apenas um problema institucional, mas uma falha profundamente espiritual.

Por fim, resta-nos a sonora pergunta: “há soluções?” Há e, com urgência, devem começar a ser tomadas e adotadas entre as mais plurais fileiras de congregações, dioceses, ordens e institutos religiosos masculinos e femininos. Dado o exposto, é razoável pensar que o primeiro passo a ser tomado é, por meio do diálogo franco e da humildade, oportunizar espaços saudáveis de escuta nos ambientes formativos, a fim de que se perceba a letalidade vocacional da figura desses(as) rinocerontes, levando os(as) formadores(as) a uma madura reflexão segundo a qual, na verdade, há a figura de um outro animal, a qual precisa ser trazida à tona, a saber, a ovelha. Assim, esses homens e mulheres devem entender que formandos e formandas nunca foram ameaças, mas são moças e rapazes sedentos(as) por dar respostas às inquietações vocacionais de seus corações.

Além disso, embora, infelizmente, ainda haja forte resistência à terapia entre algumas casas de formação e seminários, faz-se necessário que não somente formandos e formandas tenham sua saúde mental acompanhada, mas é imperioso que seus/suas formadores(as) também insiram, em suas agendas, essa responsabilidade. Possivelmente, a partir desses e de outros caminhos, os seminários, conventos e casas formativas não mais passarão a ser regidos conforme a “lei da selva”; doravante serão transformados no desejado aprisco de Jesus, pois toda ovelha merece um pastor que a conduza, e nunca um predador que a vigie.

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