Anime-se, sou eu, não tenha medo! Comentário de Tomás Muro Ugalde

Foto: CharlVera | Pixabay

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06 Agosto 2026

Deus está no horizonte, no sentido mais humilde da vida. Deus ordena a Abraão que olhe para as estrelas (Gênesis 15,5).

O comentário é de Tomás Muro Ugalde, teólogo basco, publicado por Religión Digital, 03-08-2026.

Eis o artigo. 

Deus está no horizonte, no sentido mais humilde da vida. Deus ordena a Abraão que olhe para as estrelas (Gênesis 15,5)

01. O silêncio de Deus

A rainha Jezabel [1] (1 Reis) prostrou-se diante das divindades fenícias (Baal e Astarte) e as impôs a Israel. Era uma questão religiosa e cultural. Deus "não está mais em seu povo", ele não permeia mais a vida de Israel. É a ausência, o silêncio de Deus em suas vidas.

Diante dessa situação, o profeta Elias foge, desanimado, tentando encontrar Deus. Ele o procura na força do furacão, no fogo, no terremoto; finalmente, encontra Deus na brisa suave do cotidiano...

A ausência de Deus

Hoje podemos vivenciar essa ausência de Deus sob três perspectivas:

A. Assim como nos tempos de Elias, a sociedade se prostrou e adora outras divindades. Estamos vivendo uma profunda convulsão cultural (com suas variações e repercussões políticas e eclesiásticas). É a pós-modernidade, o niilismo.

Deus é o grande ausente em nossa sociedade.

O problema não é que não acreditamos em Deus, mas sim que não acreditamos em nada. Somos devotos fervorosos da irmandade do nada.

Isso gera um profundo ceticismo e "desconfiança" e, a longo prazo, grande inquietação e angústia interior.

Deus está ausente da nossa sociedade. "Deus está morto." (Nietzsche)

B. A tempestade que Jesus acalma são os vendavais eclesiais e eclesiásticos.

As três vezes em que o simbolismo do barco e da tempestade no lago aparece no Evangelho de Mateus (Mt 14,22-36; 16,5-12; Mc 4,36) são relatos eclesiais de dificuldades e tempestades na Igreja nascente e em todos os momentos históricos da Igreja, incluindo o nosso.

Foto: Religión Digital

Quando Jesus Cristo não está presente na Igreja, o barco afunda.

C. Às vezes, seja por conta de jornadas e crises pessoais, seja diante de problemas sociais e políticos, nos perguntamos: "Onde está Deus? Onde está Deus nas profundezas da depressão? Onde está Deus diante da fome, das guerras e das injustiças no mundo? Onde está Deus em Ceuta?", etc.

Atahualpa Yupanqui cantou esta questão de forma comovente:

Um dia, eu perguntei
Vovô, onde está Deus?
Meu avô ficou triste.
E ele não me respondeu de jeito nenhum.
Meu avô morreu nos campos,
sem orações, nem confissão,
e os índios o enterraram
com flauta de junco e tambor.

02. Onde está Deus? Deus ex machina. Deus não é o "tio americano" nem a "farmácia 24 horas"

Assim como Elias, nós também buscamos a Deus e tentamos encontrá-lo em meio a grandes manifestações e aglomerações, na força do furacão, do fogo, do terremoto, mas Deus está na brisa da vida: nas coisas mais humildes.

Mas Deus não é tanto um senhor poderoso quanto alguém arbitrário, que age como bem entende.

No dia a dia, nos viramos sozinhos: no trabalho, em situações sociais, com doenças "normais" e assim por diante. Mas aí, um dia, recebemos o diagnóstico de câncer e, de repente, não conseguimos mais nos virar sozinhos. E quando a medicina não resolve mais nada, recorremos a um curandeiro local, talvez para conseguir algumas ervas, mas nada funciona... Então, nos voltamos para Deus, que é como o "tio da América", uma figura poderosa que poderia nos curar, mas não cura, pelo menos não para todos, e não regularmente.

Onde está Deus e o que ele está fazendo?

03. Deus está na brisa suave de cada dia

Deus não está na arrogância da ciência, nem na política, nem na economia, nem nas armas, nem nos números das grandes concentrações.

Deus está na brisa suave da vida: no amor daqueles que cuidam de você, que o acompanham pela vida; Deus está na oração humilde da senhora idosa que intercede por nós; Deus está no trabalho dos pais, na serena contemplação da freira e do monge no claustro; Deus está no trabalho diário do operário, no estudo; Deus está no silêncio.

A escuridão (ausência e silêncio) de Deus e de sua Palavra (Apocalipse) é desvendada pelo amor de Deus. Amor é "o modo pelo qual Ele entra em contato e se comunica com os seres humanos. Deus é amor" (1 João 4,7-9). Encontramos Deus no amor, em gestos de amor. Deus é amor pelos seres humanos na escuridão de nossa consciência.

Onde há amor, aí está Deus.

Deus está no horizonte, no sentido mais humilde da vida. Deus ordena a Abraão que olhe para as estrelas (Gênesis 15,5).

04. Anime-se, sou eu!

Além disso, ninguém viu a Deus, a não ser o Filho, Jesus Cristo (João 1,18-20).

Agora, quem me vê vê o Pai (Jo 14,9). Jesus, o Senhor, é sacramento, sinal e presença de Deus Pai.

E quando te veremos, Senhor e Deus Pai?

Toda vez que vocês me veem, estou em uma dessas situações, meus irmãos mais novos: entre os doentes, os famintos, os presos, os oprimidos da vida.

Nosso próximo é um sacramento de Jesus Cristo e de Deus Pai.

E quando o vendaval e a tempestade rugirem, busquemos e escutemos a Cristo que se aproxima de nós.

Não tenha medo, anime-se, sou eu!

Notas

[1] Jezabel era a rainha consorte do rei Acabe, o sétimo monarca do Reino de Israel (874-853 a.C.). 

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