"Só na harmonia entre inteligência cerebral e cordial há futuro para a magnífica humanidade", escreve Eduardo Hoornaert, historiador, ex-professor e membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA).
Estamos habituados/as a atribuir nossa faculdade de pensar ao cérebro e nossa faculdade de amar ao coração. Assim, dizemos que o cérebro é ‘frio’ e o coração ‘quente’. Essa bipolaridade constitui um desafio, pois o coração, não raramente, surpreende e nos faz ‘pensar’. Como escreveu Blaise Pascal: o coração tem razões que a razão desconhece.
Temos, por conseguinte, dois ‘modos’ de pensar: um, que metaforicamente, atribuímos à cabeça, e outro, que atribuímos ao coração. Esse recurso à bipolaridade no pensamento é típico da cultura ocidental, pois nem todas as culturas recorrem a ela. Uma antiga sabedoria chinesa, por exemplo, ensina que a razão nasce no coração. E sabemos que as culturas dos povos originários da América Latina e dos povos africanos explicam de modo bem diverso a faculdade humana de pensar e sentir. Mas aqui, neste texto, sugiro que recorramos ao imaginário da cultura ocidental e atribuamos simplesmente o pensamento à ‘cabeça’ e o sentimento ao ‘coração’, partindo da bipolaridade ‘cérebro-coração’ nas considerações que se seguem.
Este texto, que se inicia parafraseando o título da recente Encíclica do Papa Leão XIV ao falar em magnífica cordialidade, defende a ideia que a governança dos dois últimos papas se caracteriza por uma procura de uma maior harmonização entre ‘cerebralidade’ e ‘cordialidade’. Cheguei a pensar assim a partir da famosa declaração do Papa Francisco: Quem sou eu...?, que comento adiante. Pode ser que você ache que estou exagerando em traçar uma linha divisória tão clara entre posicionamentos clássicos do papado e determinadas atitudes dos dois últimos papas. Essa divergência é salutar, pois o provérbio diz: do choque das ideias nasce a luz. Ao assumir recentemente, talvez sem o querer, uma postura anti-Trump, o atual papa expõe uma tensão milenar entre ‘pensamento cordial’ e ‘pensamento cerebral’, que atravessa a história do Ocidente desde os antigos gregos. Pode-se dizer que ele, sem o explicitar e talvez sem o intencionar, se distancia do pensamento de ‘pais da modernidade’, como Descartes e Bacon, pois não segue o paradigma da modernidade cerebral, ou seja, não se mostra colaborador incondicional no tipo de sociedade que a modernidade pretende construir por meio da tecnociência e da consequente marginalização do ‘pensamento do coração’, ou seja, de uma empatia básica que nos é inata. O Dalai-Lama conta que, em Tibete, circula um provérbio que fala da ‘incapacidade humana de suportar a visão do sofrimento do outro’. Mesmo assim, há muita insensibilidade e há mesmo quem tem a ousadia de dizer, com o Sr. Elon Musk, que a empatia atrapalha ‘os negócios’. Trata-se, pois, de refletir sobre um desequilíbrio que vem de longe e se revela típico na nossa cultura.
Vou pedir sua licença, amigo/a, e regredir a um passado bastante longínquo. Espero que você me acompanhe nessa breve caminhada, pois estou convencido que determinados posicionamentos, universalmente aceitos hoje, na realidade se enraízam em tempos muito remotos, e só poderão ser resolvidos por meio de uma reflexão que cave fundo no nosso passado. Enfim, nossos comuns modos de pensar repousam sobre uma milenar prepotência da cabeça e opino que, até hoje, as tentativas de harmonização pelo coração foram largamente insuficientes.
Na antiga cultura grega, o ‘logos’ se torna modelo do humano. Trata-se de uma ‘lógica do eu’ que se basta, desconsidera o ‘outro’ e a complexidade dos relacionamentos humanos. Um exemplo bem conhecido nos é dado na filosofia aristotélica, que se caracteriza por uma cerebralidade exclusivista.
Quando, no ano 338 aC, esse Aristóteles, filho do médico da Casa Real da Macedônia, se torna preceptor de Alexandre, filho do rei Filipe II, que tem apenas quinze anos, ele lhe ensina, resumindo, que ‘conhecer’ consiste em formar conceitos cerebrais. Ele simplifica realidades complexas a partir de um só olhar e, com isso, responde a um velho sonho da filosofia grega, já acalentado por Heráclito (ca. 540-470 aC), que consiste em tentar ‘agarrar’ ou ‘definir’, tanto o mundo que nos rodeia quanto o que está dentro de nós, ou seja, reduzir tudo a um só registro: o designativo ou indicativo. Eis uma simplificação que tem enorme sucesso ao longo da história: o mundo é feito por confronto entre conceitos e a guerra das armas é consequência e expressão disso. O mesmo Heráclito promulga Polemos patèr pantôn: ‘a guerra é mãe de tudo’. Da guerra tudo emana.
Aristóteles rejeita a ‘cordialidade’ de Homero. Para ele, os grandes feitos de Áquiles e Heitor são devaneios ‘inúteis’, pois não ajudam na educação das crianças. A coisa é simples: o ‘logos’ grego é uma luz que tem de brilhar na escuridão das nações. O Egito, o Império Persa, as nações em torno do Mar Cáspio, todo esse vasto mundo que se estende do sudeste da Europa até a Índia (Rio Ganges), vive na escuridão da ignorância.
Eis o que o príncipe Alexandre aprende com seu preceptor Aristóteles e esse conceito, na realidade uma grosseira simplificação, constituirá a arma mais letal do exército que ele está planejando formar. Mais que convencido, Alexandre cruzará 16 países, atravessará desertos e montanhas, fundará mais de 70 cidades, formará um gigantesco império e ‘helenizará’ meio mundo, com consequências que perduram até hoje. Guiado por conceitos preestabelecidos, ele se mostrará mestre em surpreender, improvisar, desviar, esperar, enganar, fingir, artimanhas da razão guerreira, estratégias. Tudo deriva do conceito, que tem de penetrar num universo de ignorância e de ‘caos’.
O conceito aristotélico despreza a sensibilidade diante do fraco. Compaixão é fraqueza. Alexandre mata milhares, passa por cima de sangue inocente derramado e, após um percurso fulgurante, morre aos 33 anos.
Vale a pena refletir um pouco mais sobre a razão aristotélica. Como escrevi acima, trata-se de uma filosofia que simplifica as coisas, reveste tudo com a mesma farda, que nem soldados em marcha. Para Aristóteles, a razão é designativa, ou seja, tudo pode ser ‘captado’ pela inteligência cerebral, que ‘agarra’ as coisas e as mantém ‘na mão’. O verbo latim ‘concipere’ (captar, tomar em mão), donde deriva o substantivo ‘conceptus’ (conceito), expressa bem o processo. O vocábulo alemão ‘Begriff’, derivado do verbo ‘greifen’ (agarrar por meio do polegar, órgão tipicamente humano, que falta na maioria dos animais e nos permite agarrar algo para segurá-lo em mão) é ainda mais claro. O conceito aristotélico é bélico, agressivo, invasor. É ele que, séculos depois, produz o colonizador perfeito, como bem observou o poeta indiano Rabindranath Tagore nos anos 1940:
Já pensaram quanto de conquistador,
para não dizer de ladrão ou assaltante,
há na expressão ‘conceito’?
Ora, é com essa atitude que o Ocidente se dirige ao mundo.
(Citado em Jung, Civilização e Transição, Petrópolis: Vozes, 1993, p. 226-227).
Por meio de conceitos, o Ocidente conquistador e colonizador ‘capta’, de antemão, um mundo do qual, afinal, não sabe nada. Ele recorre a conceitos designativos como ‘pagão’, ‘primitivo’, ‘subdesenvolvido’, ‘atrasado’, ‘ignorante’, ‘infiel’, ‘hostil’ para conseguir ‘agarrar’, ‘abraçar’, ‘compreender’ e ‘indicar’ um mundo por ele desconhecido. A palavra aristotélica ‘agarra’ palavras retiradas de um mundo que ela considera caótico e tenta ordená-las num mundo compreensível.
A extrema definição da palavra aristotélica serve para contar e calcular, investigar, organizar, ordenar, dominar, mas não para amar, sonhar, viver com prazer, respeitar, dar a mão, mostrar empatia ou compaixão. Uma primeira crítica à epistemologia aristotélica consiste, pois, em observar que essa filosofia passa ao lado de uma questão fundamental na comunicação entre humanos/as.
Hoje, constatamos que a conceituação aristotélica marcou o pensamento ocidental durante longos séculos e continua a influenciá-la em muitos aspectos. Aliás, como explicar a história da Igreja, com suas Cruzadas, sua Inquisição, a Queima de hereges e ‘bruxas’, o Índice de ‘livros proibidos’, as campanhas anticomunistas, as atuais campanhas contra a Teologia da Libertação, para só mencionar alguns dados entre muitos, sem o recurso de conceitos e o consequente predomínio de uma razão domadora da comunicação?
Alguns primeiros sinais de uma problematização filosófica acerca da relação cérebro/coração aparecem nos tempos da Renascença, nos séculos XV-XVI. Antes, ao longo da história ocidental, as razões cordiais frequentemente foram apresentadas como cantos de sereia a nos ‘seduzir’ e desviar de roteiros traçados pela reta razão cerebral. Uma discussão explícita só aparece no século XVII, por ocasião de uma divergência entre o filósofo ‘cerebral’ René Descartes (1596-1650) e o ‘cordial’ Baruch Spinoza (1633-1677).
O filósofo francês cunha a expressão idées claires et distinctes, ‘ideias claras e distintas’. Nisso manifesta sua adesão à tradição aristotélica. Ele não deixa margem para sonhos e emoções, sentimentos e impressões. Sua meta consiste em conseguir que as pessoas interajam por meio de uma linguagem executiva, direta, enxuta, útil, proveitosa, asséptica, empírica, planejada, competente, enfim, uma linguagem que combine com a cultura que ele considera correta. Ele tem outra frase impactante: Cogito, ergo sum: ‘Je pense, donc je suis’, ‘penso, logo sou’, ‘sou porque penso’. A cognição ‘clara e distinta’ é a condição sine qua non da epistemologia cartesiana. Quanto mais o mundo é investigado, descrito e conhecido, tanto mais a humanidade se ‘desenvolve’. O importante é a cognição, o conhecimento da assim chamada ‘realidade’. Eis a base da ideia ‘desenvolvimentista’, até hoje predominante na política das potências ocidentais. O mundo vira um universo de informática. O importante mesmo consiste na observação empírica, através da qual seja possível identificar com exatidão as coisas para poder agir sobre elas por meio de conceitos. O ‘conhecimento’ impera, a ‘ignorância’ tem de ser combatida.
Pois o ignorante não participa verdadeiramente da vida. Ele é cego, não sabe das coisas, não pode participar das discussões.
O contraponto vem da Holanda. Bento (Baruch, Benedito) Spinoza de tal modo tem consciência de remar contra a corrente que toma providências para que seu texto principal, a Ética, de 1670, (tradução pela Editora Martin Claret, 2003), só seja publicado depois de sua morte. Só um século mais tarde, na Alemanha do final do século XVIII, artistas e intelectuais como Goethe, Lessing, Herder, Schelling e Hegel começam a perceber o valor de sua filosofia. Hoje dispomos de excelentes trabalhos na linha spinozista, como o ‘best-seller’ Inteligência Emocional (‘the Feeling Brain’) de Daniel Goleman (Objetiva, 1995), O mistério da consciência de Antônio Damásio (Companhia das Letras, 2002) e Como a mente funciona, de Steven Pinker (Companhia das Letras, 1998). Aqui no Brasil temos os trabalhos da filósofa Marilena Chaui, que escreveu A nervura do real: imanência e liberdade em Espinosa (Companhia das Letras, 1999), Política em Espinosa (Companhia das Letras, 2003) e Baruch Espinosa (Revista Cult 109, dezembro 2006, pp. 53 ss.).
Para Spinoza, o coração é o principal canal da cognição humana. Dele emana a emoção, que nos acompanha dia e noite e se manifesta no rosto, nos gestos, nas mais variadas expressões. Nossas emoções constituem os fundamentos dos sentimentos que formamos na nossa mente, elas os antecedem e têm aspectos visíveis e aspectos invisíveis. Há, pois, uma distinção entre emoção e sentimento. A emoção atua no cenário do corpo (choro, riso), enquanto o sentimento aparece no cenário da mente. Ela constitui uma reumanização do mundo, após os assaltos cerebrais, pois não serve para captar e segurar, contar e calcular, aproveitar e dominar (como faz o conceito), mas nos leva ao universo de uma nova compreensão respeitosa e fraterna. Os neurocientistas nos informam que os atos de ‘sentir’ as coisas compõem uma complexa atividade integrada, ou seja, que a emoção faz parte integrante da elaboração da consciência e do pensamento.
Acontece que, até hoje, a filosofia spinozista é pouco conhecida e insuficientemente valorizada. Pois ela leva a árduas lutas a favor da ética. Quando alguém, numa encruzilhada do trânsito, me diz ‘tenho fome!’ (o que não é nenhuma designação indicativa!), ele não me informa nada, mas apela para meu coração. Um ‘conceitualista’ não gosta de aprofundar o que significam essas duas palavras ‘tenho fome’. Ele não sabe o que fazer com esses estranhos agentes que constituem a melodia que nos acompanha vinte e quatro horas por dia e nem nos abandona no sono. Pois sentimentos são indefinidos e imprevisíveis. Sentimo-nos ora alegres ora tristes, com vontade de rir ou de chorar, com mal-estar ou bem-estar, animados/as ou deprimidos/as go para a vida e que a sabedoria consiste num equilíbrio entre pensamento e sentimento. Se, de um lado, é praticamente impossível que a pessoa humana alcance o completo domínio da razão cerebral sobre seu agir, de outro lado, é preciso ouvir as razões do coração. Há amplas possibilidades de progresso no balanceamento entre a sã razão e os ditames do coração.
Um filósofo do século XX, o francês Henri Bergson (1859-1941), recorre à imagem de ‘duas fontes’ para defender o equilíbrio entre cérebro e coração. Em seu livro Les deux Sources de la Morale et de la Religion (‘As duas fontes da moral e da religião’), de 1932, ele lamenta o predomínio de uma razão desprovida de coração e constata que a civilização ocidental carece de um supplément d’âme (‘suplemento de alma’). Necessita-se de recursos espirituais e morais firmes e dinâmicos, para que se consiga reconquistar o domínio sobre os impressionantes desenvolvimentos técnicos de nossos tempos e fazer com que eles possam concorrer aos bens superiores da humanidade: o desabrochar de vida, a liberdade, a paz, a felicidade de todos/as. Bergson apela para que, além das tecnociências, se estudem e valorizem as ‘ciências do corpo’, como a biologia, a psicologia e a sociologia. Acho feliz a expressão ‘suplemento d’alma’ do mestre francês. Afinal, ela indica o mesmo que a expressão ‘cordialidade’ neste meu texto.
Quando indagado – numa entrevista durante um voo de avião, uns anos atrás – como se posicionava diante da homossexualidade, o Papa Francisco deu uma resposta tão inesperada, que repercute até hoje e pode ser considerada a mais clara afirmação de uma guinada a favor de uma ‘magnífica cordialidade’: quem sou eu para julgar um homossexual? O contraste com a defesa da verdade, que marcou os pontificados anteriores, não podia ser maior. Eis o ‘suplemento d’alma’ do Papa Francisco, que não segue um ‘script’, não defende uma ‘tese’, não consulta seus assessores, mas deixa simplesmente seu coração falar. A repercussão extraordinária dessa breve resposta, até hoje, nos é motivo para refletir acerca dos temas e das abordagens dos dois últimos papas.
Vale a pena revisitar brevemente as quatro encíclicas de Francisco. Na primeira, de 2013, intitulada Lumen Fidei, ele ainda não demonstra originalidade. Trata-se de complementar um texto que seu antecessor Bento XVI deixou inacabado. Mas a segunda, de 2015, intitulada Laudato Si', revela uma impressionante originalidade. Ela aborda um tema inusitado em Roma e parte em defesa da natureza, tão indefesa diante dos ataques mortíferos da inteligência cerebral e tão negligenciada em documentos papais. Segue-se, em 2020, a encíclica Fratelli Tutti, em que o papa defende uma fraternidade humana acima de todas as fronteiras. Trata-se de outro tema nevrálgico, num momento em que as nações se armam uma contra a outra. E finalmente, em 2024, o Dilexit Nos vem lembrar o mandamento incondicional de uma ‘cordialidade’ tão pouco praticada nas relações internacionais nos dias que correm.
Ao lado dessas encíclicas, o Papa Francisco lança o tema da sinodalidade, que continua sendo o maior desafio que seu pontificado nos legou. A atitude ‘sinodal’ é o contrário de uma atitude ‘autocentralizada’. Ele consiste em saber escutar, ou seja, desfazer-se da predominância do ‘ego’ cerebral e enfrentar um processo lento e progressivo em busca do respeito por pluralidades e complexidades, não se desvendam com facilidade. A arte de escutar conduz a verdades decerto parciais, encarnadas, provisórias e discutíveis, mas esse parece ser o caminho da inteligência humana.
Nos relativamente poucos textos do Papa Leão XIV até hoje disponíveis se destaca a encíclica Magnífica Humanidade, em que se recorre a uma linguagem explicitamente metafórica. Isso me parece particularmente importante, pois não constitui o modo costumeiro de documentos papais. É uma linguagem que herdamos ao nascer, mas é pouco valorizada nas sociedades em que vivemos. Todos/as nascemos com uma admirável capacidade comparativa, imaginativa, poética, sonhadora. Além de estarmos no mundo por meio de nossos cinco sentidos físicos, desde a primeira infância conseguimos reordenar ditos esparsos e desconexos, ouvidos da mãe, numa ‘gramática cordial’, que posteriormente será aperfeiçoada na escola. Por meio dessa capacidade imaginativa, metafórica, contemplativa, poética, simbólica, alegórica, nossas palavras ganham significados novos e voam longe, para terras além das informações fornecidas pelos cinco sentidos de nosso corpo. Como indica o verbo grego metaferô, que significa ‘transferir’, a linguagem metafórica é uma transferência. Ela nos faz ‘voar’. Por meio dela, ultrapassamos a percepção sensorial por meio de uma poética, criativa e construtiva capacidade de fazer com que palavras adquirem novos sentidos e novos poderes. Aqui não me refiro a um simples recurso a palavras metafóricas, muitas delas costumeiramente integradas na nossa linguagem comum (‘ele é um gigante, ela é preciosa’), mas à deliberada escolha de um tipo de linguagem mais sugestiva que expositiva, mais insinuante que explicativa. A expressão Magnífica Humanidade, por exemplo, não é definição nem conceito indicativo, mas expressão de um sentimento que brota do coração, com leveza poética e imaginativa.
Eis as primeiras palavras da Encíclica: A magnífica humanidade, criada por Deus, se encontra hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova Torre de Babel ou construir a Cidade em que Deus e a humanidade habitam juntos. Elas resumem admiravelmente nossa história humana, que oscila entre Babel e Jerusalém, beligerância e amor. Elas nos levam diretamente ao Evangelho Q, ou seja, à primeira expressão escrita do projeto de Jesus, que trata de uma escolha decisiva. Essa coletânea de 21 Ditos de Jesus, que já circulou nos anos 50 e que parece ter sustentado a pregação da primeira geração de missionários, trata explicitamente dessa escolha: Amem seus inimigos, trate bem quem o trata mal. Se alguém lhe bater numa face, ofereça a outra. Se alguém lhe arrancar o manto, deixe que leve também a túnica. Se alguém tomar o que é seu, não peça de volta. Eis um comportamento que contrasta com o elementar bom senso. Nas areias do Egito foram encontradas tiras de papiro que contêm algum desses Ditos e que aqueles primeiros missionários provavelmente costuravam na parte interna de seus mantos para não esquecer frases tão diferentes e tão provocativas.
A estranheza diante dos Ditos de Jesus continua até hoje e repercute nessa primeira frase da Encíclica do papa: a humanidade está diante de uma escolha. Exatamente como Jesus pensava. Ela pode continuar na ilusão de construir algo novo sem que construtores/as se entendam mutuamente, portanto, continuar se hostilizando e beligerando sem fim, ou pode resolver construir a Cidade em que Deus e a humanidade habitam juntos. Para tanto, ela terá de escutar a fala do coração, que pulsa forte no Evangelho Q. Só na harmonia enttre inteligência cerebral e cordial há futuro para a magnífica humanidade.
Assim, Leão XIV traça os contornos de um papado como coração de um mundo sem coração. Nesse sentido, vale a pena ler com atenção as seguintes palavras dele: Onde a humanidade corre o perigo de perder a sua identidade, nós, cristãos, erguemos os olhos para o Deus feito carne, sabendo que ‘o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente’. Em Jesus Cristo, esta magnífica humanidade torna-se o Caminho, a Verdade e a Vida, abrindo a cada um de nós a via para crescermos até à plenitude.
Para terminar, comento brevemente o que penso ser a postura de Leão XIV a respeito da tão falada Inteligência Artificial. Ela é magnífica, produto avançado da inteligência cerebral e, por conseguinte, pode ser útil quando instrumentalizada pelo ser humano. Mas se o homem lhe entregar as rédeas, será um desastre. Pois a IA não tem coração.