04 Agosto 2026
Pierre Vermeren: "Aqueles jovens desesperados não conseguiriam chegar lá sozinhos: para a monarquia, os dois enclaves são meramente fruto do colonialismo."
"Foram as autoridades marroquinas que removeram os controles na fronteira com Ceuta e, conscientemente, permitiram que aquela onda de migrantes entrasse no enclave espanhol de Ceuta." Pierre Vermeren, professor de história contemporânea na Sorbonne e um dos maiores especialistas em Marrocos, está convencido disso. Ele vai além: talvez tenham sido elas que organizaram o transporte daqueles jovens desesperados até lá.
A entrevista é de Leonardo Martinelli, publicada por La Repubblica, 03-08-2026.
Eis a entrevista.
O que aconteceu em Ceuta?
De repente, as fiscalizações policiais na fronteira cessaram. E, de repente, dezenas de milhares de jovens a atravessaram. Ceuta é isolada, a pelo menos sessenta quilômetros das cidades mais próximas. Esses jovens não poderiam ter chegado lá sozinhos. Havia caminhões que os transportavam. Estava tudo organizado.
De quem, do Estado marroquino?
Não há provas irrefutáveis. Mas é muito provável.
Por que eles fizeram isso?
Para enviar um aviso aos espanhóis. A Espanha aproximou-se recentemente da Argélia, inimiga de Marrocos. Em 2022, ocorreu o oposto: Madri reconheceu a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental (80% ocupado por Marrocos) e alinhou-se com Rabat. No entanto, em 20 de agosto, Pedro Sánchez visitou Argel (que apoia as reivindicações de independência dos saarauís) com uma grande delegação, dando a impressão de recuar um pouco. Os marroquinos queriam dizer aos espanhóis: se persistirem, é isto que pode acontecer. Mas não é só isso.
O que mais existe?
Rabat quis enfatizar que os dois enclaves espanhóis, Ceuta e Melilla, são ilegítimos; representam um resquício do colonialismo. E que a sua situação é frágil: basta suspender o controle policial marroquino e é isso que correm o risco de acontecer.
A ordem para suspendê-los partiu diretamente de Muhammad VI?
A polícia desempenha um papel importante no Estado marroquino. E é altamente eficaz e organizada. Responde a uma cadeia de comando que chega até o rei, especialmente em assuntos tão sensíveis. Ou devemos supor que essa cadeia foi alterada e alguém resolveu agir por conta própria. Mas isso me parece muito improvável.
Será que Marrocos também queria dar um "pequeno presente" a Trump, um inimigo da Espanha de Sánchez?
Não creio. Dois elementos-chave da política externa de Marrocos sempre foram o Saara Ocidental, que consideram seu incondicionalmente, e a Argélia, que consideram extremamente hostil e perigosa. Todo o resto é secundário para eles.
Quem são os rapazes que vimos desembarcar em Ceuta há algumas horas?
Eles vieram principalmente do Rif, uma região montanhosa banhada pelo Mar do Norte, em Marrocos, que sempre foi muito pobre. Durante o período colonial na Argélia, seus habitantes emigraram para lá para trabalhar nos vinhedos. Após o fim da colonização, foram para o norte da França para trabalhar nas minas. E depois para a Bélgica, Holanda, Espanha e até mesmo Itália. Três milhões de pessoas vivem hoje no Rif, e outros três milhões na Europa. Atualmente, porém, não podem mais emigrar: vistos não são mais emitidos pela União Europeia, e as travessias marítimas clandestinas entre Marrocos e Espanha estão praticamente bloqueadas.
Entretanto, Marrocos se desenvolveu nesse meio tempo...
Muhammad VI apela por investimentos e progresso no Rif. Mas isso não basta para combater o desemprego. No Norte, centenas de milhares de jovens permanecem desempregados. Não podem casar, ter filhos ou viver a sua sexualidade: ficam em casa com os pais. Muitas vezes, mesmo com uma formação decente, não têm perspectivas de futuro.
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