Em céu de brigadeiro? (Parte 2). Artigo de Jean Marc Von Der Weid

Foto: Divulgação/reprodução IHU

Mais Lidos

  • Republicanos lançam uma caçada ao Dr. Fauci, o rosto da luta dos EUA contra a Covid

    LER MAIS
  • Papa Francisco convidou Anthony Fauci ao Vaticano. Os apoiadores de Trump querem prendê-lo

    LER MAIS
  • Musk planeja investir milhões de dólares para ajudar os republicanos de Trump nas eleições de meio de mandato

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

04 Agosto 2026

O enfraquecimento das propostas e o fantasma do Congresso ultraconservador desafiam a corrida de 2026: enquanto a direita hesita sobre o clã Bolsonaro, a estratégia lulista corre o risco de vencer o pleito sem conquistar o poder de governar.

O artigo é de Jean Marc von der Weid publicado por A Terra é Redonda, 04-08-2026.

Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969-1971) e fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA).

A primeira parte do artigo, intitulada Em céu de brigadeiro?, foi publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível aqui.

Eis o artigo.

1.

A direita desarvorada torce para que o patriarca da “famiglia”, do fundo de sua prisão domiciliar, acorde para a realidade de sua má escolha para a corrida eleitoral e retire Flávio Bolsonaro da disputa. Apesar de seus discursos de apoio ao candidato de Jair Bolsonaro e do PL, o manda chuva do partido, Valdemar Costa Neto, reza todo dia por esta solução e por uma aliança em torno de Ronaldo Caiado e, sobretudo, ocupa-se das eleições parlamentares para ampliar suas bancadas no Congresso.

Esta saída representaria uma capitulação do patriarca que teria como consequência uma entrega da liderança da direita para um outsider, não controlado pelo bolsonarismo e pela “famiglia”. Isto foi o que ele não quis fazer ao recusar o apoio à candidatura de Tarcísio de Freitas. O preço do abandono do protagonismo da “família” com a eventual retirada da candidatura de Flávio Bolsonaro é elevado, mas Jair Bolsonaro tem hoje uma única preocupação: eleger alguém que o livre da cadeia.

Ele está muito longe da inteireza política de Lula, que preferiu perder com Fernando Haddad do que ganhar com Ciro Gomes, em 2018. Com este sacrifício, Lula manteve o controle da esquerda e a hegemonia do PT e a reviravolta de 2022 mostrou que a sua estratégia estava justa, pelo menos no que concerne os seus objetivos (se isto foi o melhor para o país é uma outra discussão).

O tempo joga contra uma estratégia de substituição do candidato, já que estamos às portas das convenções partidárias. Por outro lado, apesar de estar derretendo nas pesquisas de voto para o primeiro turno, Flávio Bolsonaro é ainda e de longe, a preferência da direita bolsonarista ou não bolsonarista e seus adversários no mesmo campo não decolam.

Esta é uma situação não explicada pelas pesquisas, mas que se mantém firme até agora: apesar de Ronaldo Caiado ter uma perspectiva melhor do que Flávio Bolsonaro no embate com Lula no segundo turno em várias pesquisas, inclusive na Quaest de maio, isto não se traduz em um aumento de sua votação no primeiro turno. Talvez seja um cálculo do tipo “seria bom se ele pudesse ser o candidato, mas isto não tem chance de ocorrer”. Ou o peso da liderança do patriarca da “famíglia” é maior do que a preferência da sua base, que insiste em apoiar Flávio Bolsonaro enquanto seu mestre mandar.

2.

Tudo parece apontar para uma candidatura de “pato manco” do bolsonarismo e uma virtual “cristianização” de Flávio Bolsonaro pelos partidos da direita não bolsonarista e até pelo próprio PL. Para quem não conhece a história, esta expressão foi cunhada nas eleições de 1950, quando o candidato Cristiano Machado, do PSD, foi abandonado pelo seu partido em benefício de Getúlio Vargas, do PTB. O mesmo ocorreu com a candidatura de Ulisses Guimarães em 1989, com o seu partido, PMDB, passando a apoiar Fernando Collor ao longo da campanha.

Desde logo, há hoje uma mudança radical no comportamento de todos os partidos nas eleições. Com o aumento do poder do Congresso sobre o Orçamento Federal através das emendas parlamentares e a enxurrada de dinheiro destinada ao financiamento dos partidos, os capos de cada um dos partidos visam mais o aumento de suas bancadas do que a eleição do presidente. Só os partidos ditos de esquerda apostam mais em crescer com Lula e entubam acordos que favorecem seus adversários nas proporcionais para dar palanques fortes ao presidente.

Tudo isso favorece a perspectiva de uma eleição em que a vitória de Lula pode ser garantida com o sacrifício da eleição de uma base de “esquerda” no Congresso. Se a composição do novo congresso for ainda pior do que a atual, o “pato manco” passará a ser o próximo presidente que pode ganhar, mas não levar para o Planalto o poder de orientar suas opções de política pública, problema já vivido neste mandato e que pode se agravar.

Imaginemos o resultado desta nova armadilha na relação entre os três poderes, com um Congresso de ultradireita impondo a Lula, entre outras coisas a anistia para Jair Bolsonaro e os golpistas do 8 de janeiro, a nomeação dos quatro novos ministros do Supremo e até a destituição dos atuais indesejáveis. Com um STF sob controle, a direita vai impor um parlamentarismo abastardado, onde o presidente dito de esquerda vai virar uma rainha da Inglaterra, que reina, mas não governa. Vai ser a pá de cal nas instituições da República e um fator de crise permanente entre os poderes.

Temos ainda que avaliar, antes de decretar a vitória de Lula, os eventuais percalços na sua campanha. Apesar das múltiplas vantagens conseguidas, mais pelos erros de seus adversários do que pelos seus acertos, Lula tem dado mostras de um comportamento arriscado na campanha. O “abraço de afogado” de Lula em Jacques Wagner em ato político na Bahia foi um típico ato de atravessar a rua para sapatear na casca de banana.

Além disso, a acusação contra Lulinha no caso da corrupção do INSS voltou às manchetes com novas iniciativas de André Mendonça e da PF. E novas denúncias do caso Master podem aparecer comprometendo figuras importantes do governo, como Rui Costa. Lula e o PT continuam desprezando o impacto do tema da corrupção no comportamento do eleitorado e o candidato pode pagar um preço alto quando as urnas se abrirem.

3.

Um terceiro risco é o modo de tratar os tarifaços renovados por Trump. Até agora Lula tem feito algumas bravatas e ameaças de retaliação cujo efeito pode ser um tiro no pé. O governo tem lidado com as taxações de forma correta, mas os discursos de Lula contradizem a abordagem cautelosa de Geraldo Alckmin. Se esta política for transformada em enfrentamento com o americano, o efeito de uma provável tréplica vai se voltar contra o presidente.

E, para terminar esta avaliação de riscos para a candidatura de Lula, temos que levar em conta os efeitos da crise internacional provocada por Donald Trump no Irã, que tem levado ao aumento dos custos de produção de alimentos (pelo preço crescente dos fertilizantes, que já subiram mais de 100%) e dos preços dos combustíveis (pelo aumento dos preços do petróleo, já alcançando hoje a marca dos 100 USD/barril e subindo dia a dia).

Um recrudescimento nos preços da alimentação é esperado para o segundo semestre e pode ser ainda mais elevado com o também esperado impacto do El Niño sobre a produção agropecuária. Uma eleição ocorrendo em pleno disparar dos preços de transportes e alimentos pode arrancar votos importantes na boca da urna.

É consenso entre os analistas a polarização do eleitorado entre lulistas e antilulistas e entre bolsonaristas e antibolsonaristas, anulando o surgimento de terceiras vias, sejam na esquerda, direita ou centro. Outros consideram que o eleitorado se distribui entre esquerda (30%), direita (30%) e centro (40%), sendo que as eleições se decidem com a capacidade dos candidatos em atrair este centro.

A pesquisa da Quaest trabalha com uma distribuição mais detalhada, com cinco categorias de autodefinição política: bolsonaristas (12%), direita não bolsonarista (21%), independentes (32%), esquerda não lulista (14%) e esquerda lulista (19%). Em um quadro de polarização entre lulistas e bolsonaristas ou antilulistas e antibolsonaristas os dois primeiros e os dois últimos grupos se aglutinam por falta de opções eleitorais, somando, nesta eleição 33% de lulistas e antibolsonaristas e 33% de bolsonaristas e antilulistas.

Os independentes se dividem entre os dois polos com 40% para Lula e 26% para Flávio e o não voto (abstenção, nulo e branco) com 27%. É neste grupo que vem crescendo o apoio significativo a Lula. Em junho os números eram 27%, 32% e 36%, ou seja, nesta última pesquisa Lula ganha 13%, Flávio perde 6% e o não voto cai 9%.

E tudo isto se traduz nos promissores 45%x37% no match entre Lula e Flávio no segundo turno.

4.

Em um debate virtual no programa Faixa Livre me perguntaram como foi que as nossas eleições passaram a se reduzir a um enfrentamento raso de candidatos sem programas definidos para o eleitorado poder escolher conscientemente o que melhor pode conduzir o futuro do país.

De fato, esta escolha futebolística centrada mais em impressões subjetivas do que em conteúdo nos levou, desde 2018, a uma exacerbação dos antagonismos, marcados mais pela negação do que pela afirmação. Hoje o eleitorado vota para barrar o fascismo do filhote do energúmeno ou para barrar o “comunismo” de Lula. O que nos orienta não é o que eles pretendem fazer, mas o que fizeram nos respectivos governos.

A esquerda não lulista sabe muito bem que o presidente não tem identidade com esta ideologia (dito por ele mesmo) e que ele não fez mais no seu governo do que um leve reformismo populista, sem tocar nem de longe nas mazelas profundas da nossa sociedade e sem enfrentar os desafios de um planeta em crise terminal. Mas no quadro atual Lula é o escudo para o pior, a ameaça fascista do bolsonarismo e vamos todos com ele, mesmo sabendo de suas notórias limitações.

O fato é que não temos tradição de debates eleitorais programáticos. Houve um tempo em que o PT elaborou programas de governo com ampla participação da sociedade civil, mas a crescente força eleitoral do partido e a ambição de chegar ao governo (com a ilusão de que isso se traduz em chegar ao poder) levou o PT a ir moldando seus programas em função do objetivo maior de ganhar as eleições, deixando de lado temas ou posições com baixa aceitação pelo eleitorado.

Esta prática lamentável deixa de buscar a conscientização do eleitorado para enfrentar os problemas de fundo da sociedade, apenas se ajustando ao sentido comum do eleitorado. O resultado foi levar o PT e aliados ao governo, mas sem apoio social e parlamentar para assumir reformas mais radicais. A esquerda virou a gestora do nosso capitalismo caboclo e servidora das classes dominantes, apenas buscando distribuir benesses que garantissem os votos na próxima eleição.

E este eterno rebaixar das expectativas de mundança foi transformando o PT em um partido como os outros, cada vez mais centrado em manter e ampliar espaços no executivo para os seus partidários, mesmo no sacrifício da sua estratégia inicial de transformaçào social.

Neste quadro, a esquerda não lulista/petista foi se isolando, atolada em seus debates doutrinários e suas frequentes divisões, sem conseguir marcar um espaço distinto ao do PT. Os debates programáticos ficaram por conta das inúmeras entidades da sociedade civil, muitas altamente capacitadas para elaborar propostas necessárias a cada um dos seus temas, mas sem conseguir sair das suas bolhas. Falta uma força capaz de atrair esta capacidade dispersa de militância temática e articulá-la em programas governamentais coerentes e viáveis.

A sociedade civil acabou a reboque dos governos de Lula/Dilma, esforçando-se em trazer propostas nos muitos conselhos criados por quase todos os ministérios e que tiveram um papel único: neutralizar a capacidade de mobilização disponível na sociedade civil para produzir montes de textos, alguns muito bons, mas que nunca foram efetivamente considerados pelos detentores do poder executivo. E continuamos órfãos.

Leia mais