03 Agosto 2026
Além das ameaças à segurança alimentar e hídrica, as finanças públicas e os sistemas bancários também podem ser afetados por desastres.
A informação é publicada por ClimaInfo, 30-07-2026.
A chegada de um “Super El Niño” pode ampliar o rombo nas contas públicas dos países africanos. O alerta é do principal especialista em clima do Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB), que considera que o continente não tem condições de arcar com os impactos de eventos climáticos extremos com potencial disruptivo nas economias da região.
“[O El Niño] vai reduzir o PIB dos países mais fortemente afetados entre 1% e 2%, em média, o que representa entre US$ 10 bilhões e US$ 20 bilhões em todo o continente”, afirmou Anthony Nyong, diretor de mudanças climáticas e crescimento verde do AfDB, à Reuters.
A estimativa não detalha o impacto potencial por país, mas Nyong ressaltou que dificilmente se tratará de um impacto isolado, dada a intensidade esperada do El Niño e os danos potenciais. Além das ameaças à segurança alimentar e hídrica, o fenômeno pode afetar também as finanças públicas e os sistemas bancários caso desastres danifiquem infraestrutura.
O representante do AfDB reforçou que, sem apoio externo, os governos africanos podem ficar ainda mais pressionados por problemas fiscais e pela dívida externa. “Quando esses choques acontecem, os países dão dois passos para trás. Não queremos que nossos países voltem a mergulhar na pobreza”, disse.
Em geral, a ocorrência de El Niño resulta em condições mais secas em uma faixa equatorial que corta a África abaixo do Saara e no sul do continente. Já no Chifre da África, as condições são mais chuvosas, com ocorrência de fortes tempestades. No El Niño mais recente, entre 2023 e 2024, esses eventos extremos causaram perdas generalizadas de safras, forte alta nos preços dos alimentos e elevação recorde do nível do mar ao longo do litoral.
Os impactos do El Niño não se limitam à África. A Reuters também destacou os potenciais efeitos em mercados emergentes ao redor do mundo, que já lidam com os reflexos da guerra no Golfo Pérsico na inflação doméstica e no custo de vida. Na Ásia, a Índia se prepara para uma temporada de monções mais fracas do que o normal, com a expectativa de um volume de chuvas menor em mais de uma década. Já em países como Indonésia, Filipinas e Paquistão, o desafio é macroeconômico: com as perdas potenciais na agricultura e a perspectiva de novos aumentos nos preços dos alimentos, a taxa de juros deve subir nesses mercados para preservar o valor das moedas nacionais.
Na América Latina, o cenário mais preocupante está na Colômbia e no Peru, países no epicentro do El Niño. No caso colombiano, a dependência do país da geração hidrelétrica pode ser uma fraqueza em um cenário de chuvas abaixo do esperado, com possibilidade de alta no preço da energia. Já no Peru, além do impacto da alta dos alimentos, a situação fiscal também intensifica a preocupação dos analistas.
Entretanto, a combinação do El Niño com as guerras na Ucrânia e no Irã deve pressionar praticamente todas as economias do globo. Como a DW assinalou, essa junção de choques, o da alta nos fertilizantes causada pelas guerras e o dos impactos do El Niño nas lavouras, pode ser a “gota d’água” para uma crise na produção e no abastecimento de alimentos, especialmente nos mercados mais pobres e vulneráveis.
Em tempo 1
As contas da OCDE sobre o financiamento climático para 2024 foram contestadas pela OXFAM. Segundo a entidade, os países desenvolvidos seguem “inflando” os valores destinados à ação climática nos países em desenvolvimento, e a soma real seria bem menor do que a apresentada. Em maio, a OCDE divulgou um relatório apontando que a provisão de financiamento climático das nações ricas para as pobres havia atingido US$ 136,7 bilhões em 2024. Já nos cálculos da OXFAM, o “valor real” do financiamento climático naquele ano seria entre US$ 33 bi e US$ 45 bi, o que representa cerca de 1/3 do total reportado. Desse total, apenas algo entre US$ 15 e US$ 18 bi teria sido destinado à adaptação. A notícia é do Valor.
Em tempo 2
Um estudo do think tank ODI Global revelou que as nações do Caribe sofreram prejuízo de US$ 53,2 bilhões devido a desastres provocados pelas mudanças climáticas entre 2000 e 2024. O valor representa mais de 90% do total de US$ 57 bilhões em danos econômicos causados por inundações, tempestades e secas em 39 países insulares em desenvolvimento no Caribe, Pacífico, Atlântico, Índico e no Mar da China Meridional. A análise também estimou que a crise climática causou mais de 190 mortes por ano ao longo dos 25 anos estudados. O Guardian deu mais detalhes.
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