01 Agosto 2026
"A distopia de Gilead é fictícia, mas a defesa dos direitos que ela ameaça continua sendo uma tarefa real e permanente", escreve Jennifer Rodrigues, sobre o livro de Margaret Atwood, em artigo publicado por A Terra é Redonda, 28-07-2026.
Jennifer Rodrigues é mestranda em direito na Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP).
Eis o artigo.
1.
Alguns livros descrevem o mundo em que foram escritos; outros revelam os perigos dos mundos que ainda podem surgir. O conto da aia, publicado por Margaret Atwood em 1985, pertence a essa segunda categoria. Sua força não está em prever um futuro inevitável, mas em revelar mecanismos de poder que atravessam a história humana.
O romance permanece atual porque compreende que a liberdade raramente desaparece de uma única vez. Ela é enfraquecida aos poucos, por meio de discursos que prometem ordem, moralidade e segurança, até que restrições antes inimagináveis passam a parecer aceitáveis.
A República de Gilead, criada por Margaret Atwood, não nasce de uma violência completamente nova. Ela é construída a partir de elementos conhecidos da história: o controle dos corpos femininos, a exclusão das mulheres dos espaços de decisão, a instrumentalização da religião e a transformação das leis em ferramentas de dominação. A autora não cria apenas uma distopia; ela reorganiza experiências históricas reais e demonstra como desigualdades podem ser convertidas em estruturas políticas.
Livro "O Conto da Aia", de Margaret Atwood (Editora Rocco, 2017).
É justamente por isso que O conto da aia ultrapassa a literatura distópica e se aproxima de uma reflexão constitucional. A obra questiona o que acontece quando o direito deixa de funcionar como limite ao poder e passa a servir à sua manutenção. Gilead possui normas, instituições e rituais, mas sua característica mais assustadora é que a própria legalidade é utilizada para justificar a retirada de direitos.
A trajetória de Offred revela esse processo. O detalhe mais simbólico da personagem está em seu próprio nome. Ela não é identificada por aquilo que é, mas pela relação de pertencimento ao Comandante: Offred significa “de Fred”. A mudança do nome representa o apagamento da identidade. Antes de retirar sua liberdade física, Gilead retira sua condição de sujeito.
Margaret Atwood demonstra que regimes autoritários não começam necessariamente destruindo corpos; muitas vezes começam destruindo identidades. Quando alguém deixa de ser reconhecido como indivíduo e passa a ser visto apenas pela função que exerce, rompe-se a própria ideia de cidadania.
Essa reflexão dialoga com Hannah Arendt e sua análise sobre a perda do “direito a ter direitos”. O indivíduo precisa ser reconhecido como membro pleno da comunidade política para possuir proteção efetiva. Quando determinados grupos deixam de ser vistos como sujeitos, abre-se espaço para sua exclusão jurídica e social.
2.
Em Gilead, o principal território de disputa é o corpo feminino. A fertilidade das mulheres deixa de ser uma característica pessoal e passa a ser tratada como recurso do Estado. A maternidade deixa de pertencer ao campo da escolha e transforma-se em obrigação política. Atwood revela uma das formas mais antigas de dominação: o controle sobre os corpos como forma de controle sobre o futuro.
As roupas das Aias reforçam essa mensagem. O vermelho que cobre seus corpos não é apenas um uniforme; é uma marca política. A cor remete ao sangue, à fertilidade e ao sacrifício, transformando mulheres em símbolos de uma função definida pelo regime. O corpo deixa de representar autonomia e passa a representar uma finalidade imposta pelo poder.
A linguagem também é controlada em Gilead. Mulheres são proibidas de ler e escrever, e expressões religiosas são repetidas como forma de disciplina. Atwood mostra que controlar palavras é controlar pensamentos. Uma sociedade que perde a capacidade de nomear suas injustiças torna-se mais vulnerável à permanência da opressão.
Essa dimensão do romance estabelece uma ligação profunda com o constitucionalismo contemporâneo. A Constituição não existe apenas para organizar instituições, mas para limitar o poder e proteger a dignidade humana. No Brasil, a Constituição Federal de 1988 estabelece a dignidade da pessoa humana como fundamento da República e garante direitos como igualdade, liberdade e autonomia.
A realidade de Gilead representa justamente a negação desses princípios. As mulheres deixam de ser reconhecidas como sujeitos autônomos e passam a existir conforme uma função determinada pelo Estado. A mensagem de Atwood é clara: direitos fundamentais não são apenas normas escritas; dependem de uma cultura política comprometida com a proteção da pessoa humana.
A igualdade entre homens e mulheres também exige uma reflexão além da igualdade formal. A existência de direitos previstos na lei não significa que eles sejam automaticamente realizados na prática. A história demonstra que conquistas democráticas precisam ser continuamente defendidas.
3.
No Brasil, avanços importantes foram alcançados com a ampliação da participação feminina na sociedade, a proteção contra a violência doméstica e a criminalização do feminicídio. Entretanto, a permanência da violência de gênero, da desigualdade política e da sub-representação feminina demonstra que a igualdade constitucional ainda enfrenta desafios concretos.
Nesse ponto, o romance de Margaret Atwood permanece atual: a exclusão política frequentemente antecede a exclusão jurídica. Antes de perder direitos formalmente, grupos vulneráveis podem perder espaço de participação, voz pública e capacidade de influenciar decisões.
O cenário contemporâneo acrescenta novos desafios. A circulação de discursos misóginos nas redes sociais, a formação de comunidades digitais baseadas na inferiorização das mulheres e a transformação do preconceito em identidade política mostram que antigas formas de desigualdade podem encontrar novas formas de propagação.
A tecnologia não criou a misoginia, mas ampliou sua capacidade de alcance. Algoritmos que privilegiam conteúdos extremos podem favorecer discursos de ódio e tornar normal aquilo que deveria provocar rejeição social. A defesa da liberdade de expressão, princípio essencial da democracia, não significa aceitar discursos que negam a própria igualdade entre cidadãos.
É justamente essa naturalização que torna O conto da aia tão necessário. Gilead não começa quando todos os direitos são eliminados. Ela começa antes, quando pequenas restrições são justificadas, quando a desigualdade é apresentada como tradição e quando a sociedade deixa de perceber os sinais de retrocesso.
O romance também provoca uma reflexão sobre memória. Nas “Notas Históricas”, capítulo final da obra, o relato de Offred é analisado por pesquisadores décadas depois da queda de Gilead. O sofrimento de uma mulher transforma-se em objeto acadêmico, revelando que até mesmo a lembrança da violência pode ser atravessada por relações de poder.
Margaret Atwood questiona não apenas como regimes autoritários surgem, mas também como as sociedades escolhem lembrar seus próprios fracassos. Conhecer a história não basta; é necessário transformar memória em responsabilidade.
Por isso, O conto da aia continua sendo uma das obras mais importantes da literatura contemporânea. O romance não afirma que Gilead inevitavelmente existirá, mas alerta que nenhuma democracia está completamente protegida contra processos de erosão.
A maior contribuição de Margaret Atwood é mostrar que a liberdade não desaparece apenas quando uma lei é revogada. Ela começa a desaparecer quando a sociedade aceita pequenas perdas como inevitáveis. A distopia de Gilead é fictícia, mas a defesa dos direitos que ela ameaça continua sendo uma tarefa real e permanente.
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