29 Julho 2026
"Não tenho a pretensão de resolver a crise climática com um texto no EcoDebate. Mas percebi que, quanto mais eu entendia os dados, menos eu conseguia tratar o calor como "só mais um dia quente" ou a chuva forte como "azar do destino". Existe uma engrenagem por trás disso, ela tem nome, tem causa e, em boa parte, tem solução."
O artigo é de Henrique Cortez, jornalista e ambientalista, publicado por EcoDebate, 28-07-2026.
Eis o artigo.
Entre ônibus lotados, escolas sem ventilação e trabalhadores desmaiando nas ruas, o Brasil vive uma "epidemia de calor" que ainda trata como exceção.
Um relato sobre viver e sobreviver em um país onde 92% dos municípios já enfrentaram desastres climáticos, e sobre por que essa crise não é mais sobre o futuro do planeta, mas sobre o presente de quem pega o ônibus lotado, trabalha na rua ou estuda numa sala sem ventilador.
Faz tempo que percebi que alguma coisa mudou. Não foi um dia específico, nem uma manchete que me fez virar a chave. Foi um acúmulo de pequenas cenas: o suor escorrendo dentro do ônibus às oito da manhã, o vizinho comentando que "esse ano o verão chegou cedo demais", a notícia de mais uma enchente, mais um deslizamento, mais uma cidade em estado de emergência.
O clima deixou de ser assunto de conversa fiada sobre o tempo "lá fora" e passou a ser algo que sinto no corpo, no bolso e na cabeça.
Se você também tem essa sensação, não é impressão sua. É a realidade.
Um país que já vive o "novo normal" do clima
Um levantamento recente, o relatório Brasil em Transformação, mostra algo que deveria estar estampado em qualquer conversa sobre o futuro do país: 92% dos municípios brasileiros já registraram algum tipo de desastre climático entre 1991 e 2023. Não é uma minoria de cidades no litoral ou no semiárido. É praticamente o Brasil inteiro.
E o preço disso é medido em números que doem: para cada 0,1°C a mais na temperatura média global, o país perde cerca de R$ 5,6 bilhões. Isso sem contar que nenhuma planilha consegue registrar o luto, o medo, a insônia, a ansiedade de quem perdeu a casa ou o sustento.
A tragédia do Rio Grande do Sul, em maio de 2024, ainda está viva na memória de quem acompanhou, mais de 2,34 milhões de pessoas atingidas, vidas interrompidas, cidades inteiras debaixo d'água. Na mesma época em que o Sul enfrentava enchentes históricas, a Amazônia secava sob uma estiagem severa. Dois extremos, um só país, um só sistema climático em desequilíbrio.
E o alerta não é só retrospectivo porque os especialistas do Cemaden, diante do potencial de um "super" El Niño, já vêm chamando 2026 de um possível "desastre térmico", com risco real do Brasil bater novos recordes de calor no segundo semestre.
Calor é uma ameaça além da previsão do tempo
Se enchentes e deslizamentos aparecem no noticiário com imagens fortes, o calor extremo age de um jeito bem mais silencioso e por isso, talvez, mais perigoso.
Estudos apontam que, em cerca de três décadas, aproximadamente 5 bilhões de pessoas no mundo estarão expostas a pelo menos um mês por ano de calor prejudicial à saúde. Hoje, o calor excessivo já é responsável por cerca de meio milhão de mortes por ano no planeta.
O que isso significa na prática? Mais gente com doenças cardíacas, mais crises de exaustão térmica, mais desidratação, mais pressão alta. E também mais sofrimento psíquico. Pesquisas mostram que a exposição contínua ao calor está associada a mais estresse, irritabilidade, fadiga e distúrbios do sono.
Um dado que me marcou especialmente foi que 62% das pessoas entrevistadas em um estudo relataram sentir medo só de saber que vai chover forte. Isso é a crise climática entrando na saúde mental de um jeito que a gente ainda mal nomeia.
E o pior porque calor, enchente e poluição do ar não vêm mais separados. Cada vez mais, esses eventos se sobrepõem, criando riscos compostos que os sistemas de saúde tradicionais não estão preparados para enfrentar.
Trabalhar sob 40°C ou quando o emprego vira risco de vida
Uma das partes que mais me tocou ao me aprofundar nesse tema foi entender o que o calor extremo faz com quem trabalha.
A Organização Internacional do Trabalho estima que 70,9% da força de trabalho mundial, cerca de 2,4 bilhões de pessoas, já convive com risco de calor excessivo na rotina profissional. E o impacto é objetivo porque acima de 34°C, a produtividade do trabalho pode cair pela metade.
No Brasil, mais de 20 milhões de pessoas trabalham ao ar livre na agropecuária, na limpeza urbana, na reciclagem, no transporte, etc. Só em 2024, o Ministério Público do Trabalho registrou um aumento de 35% nas denúncias sobre más condições térmicas em ambientes de trabalho.
Pensa no motorista de ônibus, dentro de um veículo sem climatização, com a cabine funcionando como uma verdadeira câmara de calor, passando dos 40°C internamente. Ou no cobrador, exposto horas a fio à radiação solar. Há relatos de trabalhadores passando mal, desmaiando, vomitando e tudo isso enquanto cumprem uma jornada que, para muitos passageiros, é só "mais um ônibus atrasado".
Chegar exausto ao trabalho por causa do calor do trajeto não é frescura. É um fator real de risco à segurança, ao rendimento e à saúde de milhões de trabalhadores.
O clima não afeta todo mundo do mesmo jeito
Talvez a parte mais dura de entender essa crise seja perceber que ela não é distribuída de forma justa. O calor tende a bater com mais força exatamente em quem já tem menos recursos para se proteger.
- Países mais pobres: estima-se que 80% da população mundial afetada pelo calor extremo esteja em regiões como o Sul da Ásia e a África Subsaariana, que são locais com menos acesso a saúde de qualidade e climatização.
- Trabalhadores informais e terceirizados: muitas vezes sem água potável disponível, sem áreas de descanso, sem pausas regulares, sem equipamentos de proteção e sem qualquer garantia de afastamento remunerado caso adoeçam por causa do calor.
- Bairros periféricos: com menos árvores e infraestrutura inadequada, esses territórios sofrem mais com as chamadas ilhas de calor urbanas, áreas onde o concreto e o asfalto elevam a temperatura muito acima da média da cidade.
- Estudantes de escolas públicas: apenas 34% das salas de aula em escolas públicas brasileiras têm climatização. Isso significa que boa parte dos(as) professores(as) e das crianças e adolescentes do país estuda em ambientes que prejudicam concentração, aprendizagem e saúde, enquanto quem pode pagar por uma escola particular climatizada segue estudando em outra realidade.
- Populações em áreas de risco: a ausência histórica de políticas habitacionais empurra famílias para ocupações irregulares em encostas e margens de rios, tornando-as as principais vítimas de deslizamentos e enchentes.
Como resumiu bem um especialista sobre o cenário brasileiro: a verdadeira tragédia não é só o clima, é ser pobre e, ao mesmo tempo, invisível para quem decide as políticas públicas.
O que isso tem a ver com o seu bolso e o pequeno negócio da esquina
A gente costuma pensar em mudanças climáticas como algo distante das contas do fim do mês, mas não é bem assim.
Embora as fontes não detalhem especificamente os "pequenos negócios", os prejuízos econômicos diretos e indiretos dos desastres climáticos são significativos e generalizados.
A perda da "forma produtiva das pessoas" e a necessidade de redirecionar recursos públicos para a reconstrução, em vez de investimentos em educação e saúde, impactam a economia como um todo e, por consequência, a capacidade de subsistência de indivíduos e a resiliência de pequenos empreendimentos.
A agricultura sente isso na pele: menos água disponível e mais estresse térmico nas plantações aumentam o risco de perda de safra, o que pressiona preços de alimentos e ameaça a segurança alimentar. Comunidades que vivem da pesca ou do turismo também sofrem diretamente quando o clima muda o ritmo dos rios, do mar e das estações.
Não é exagero dizer que, para muita gente, o clima virou sócio invisível e nada generoso do próprio sustento.
O que dá para fazer e por que não é só sobre desespero
Reconheço que até aqui este texto pode parecer pesado. Mas acredito que entender a dimensão do problema é o primeiro passo para cobrar e construir soluções. Algumas medidas que especialistas defendem como urgentes:
Climatização de espaços públicos essenciais: tratar ar-condicionado em escolas, postos de saúde e transporte público como infraestrutura básica, não como luxo.
Mais infraestrutura verde nas cidades: arborização, telhados verdes, calçadas permeáveis e praças com sombra para reduzir as ilhas de calor.
Regras claras para o trabalho sob calor extremo: limites de temperatura para atividades ao ar livre, pausas obrigatórias, acesso garantido à água e proibição de trabalho externo em condições extremas.
Educação climática de verdade: campanhas que ajudem a população a reconhecer os sinais de risco e saber como agir.
Participação das comunidades locais: planos municipais de adaptação construídos com quem vive o problema todos os dias, não só nos gabinetes.
Por que continuo escrevendo sobre isso?
Não tenho a pretensão de resolver a crise climática com um texto no EcoDebate. Mas percebi que, quanto mais eu entendia os dados, menos eu conseguia tratar o calor como "só mais um dia quente" ou a chuva forte como "azar do destino". Existe uma engrenagem por trás disso, ela tem nome, tem causa e, em boa parte, tem solução.
Se este texto te fez lembrar do calor dentro do ônibus, da escola sem ventilador ou de alguém que você conhece trabalhando sob sol forte sem parar, talvez seja hora de a gente parar de tratar isso como exceção.
Porque, goste-se ou não, essa já é a nossa nova normalidade, e quanto antes encararmos assim, antes conseguimos, coletivamente, mudar o rumo dela.
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