Há momentos em que a filosofia deixa de perguntar apenas o que é o poder para interrogar como a liberdade ainda pode ser praticada em seu interior. É precisamente esse deslocamento que torna o pensamento de Michel Foucault uma das referências incontornáveis para compreender os desafios políticos do século XXI. Se as sociedades contemporâneas aperfeiçoaram técnicas cada vez mais sofisticadas de gestão das condutas, a questão decisiva já não consiste apenas em identificar os dispositivos que nos governam, mas em investigar de que maneira é possível abrir, no interior dessas mesmas relações, espaços de criação, dissenso e transformação. A resistência, nesse horizonte, deixa de ser compreendida como um gesto exclusivamente negativo para tornar-se uma prática de invenção de outras formas de vida.
É nesse campo de problemas que se situa a conferência de encerramento do Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos: pensar o presente, redefinir a política, organizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU com o apoio do PPG Filosofia Unisinos. Ao abordar "Foucault, a subjetividade e as contracondutas feministas", a historiadora e filósofa Margareth Rago propõe um diálogo entre a genealogia foucaultiana e as experiências políticas dos feminismos contemporâneos, mostrando como elas ampliam a compreensão das práticas de liberdade elaboradas pelo filósofo francês em seus últimos anos de pesquisa. Mais do que revisitar um conceito, sua reflexão convida a pensar a política a partir da constituição ética do sujeito, evidenciando que a transformação do mundo permanece inseparável da capacidade de reinventar as maneiras de existir, de relacionar-se e de recusar as formas pelas quais somos conduzidos.
A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do IHU.
Há uma questão que atravessa toda a obra tardia de Michel Foucault e permanece decisiva para compreender os impasses do presente: de que modo resistir às formas de poder sem apenas inverter seus mecanismos? Em vez de buscar um sujeito originariamente livre ou uma emancipação definitiva, o filósofo francês deslocou a reflexão para os processos pelos quais os indivíduos são historicamente constituídos e, ao mesmo tempo, podem transformar-se. É nesse horizonte que se inscreve a conferência de encerramento do Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos: pensar o presente, redefinir a política, reunindo uma das mais importantes intérpretes brasileiras do pensamento foucaultiano.
Na quarta-feira, 29 de julho, das 10h às 11h30, a historiadora e filósofa Profa. Dra. Margareth Rago (Unicamp) ministrará a conferência "Foucault, a subjetividade e as contracondutas feministas", com transmissão ao vivo pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU), com apoio do PPG Filosofia Unisinos. Reconhecida por suas pesquisas sobre feminismos, história das mulheres, anarquismo, escrita de si e processos de subjetivação, Rago consolidou, ao longo de décadas, uma leitura que aproxima a genealogia foucaultiana das experiências políticas feministas sem reduzir uma à outra. Sua trajetória acadêmica, desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tornou-se referência para os estudos que articulam história, filosofia e crítica das relações de poder.
A escolha do tema sintetiza uma das contribuições mais originais da pesquisadora. Em seus trabalhos, Rago mostra que o diálogo entre Foucault e os feminismos não deve ser compreendido apenas como uma crítica às estruturas de dominação masculina, mas sobretudo como uma investigação das formas pelas quais novas subjetividades podem ser produzidas. Se o poder moderno fabrica identidades, normaliza comportamentos e administra os corpos, as práticas feministas revelam-se espaços privilegiados de experimentação ética, nos quais a liberdade deixa de ser um estado previamente dado para tornar-se uma prática incessante de criação de si.
Essa perspectiva encontra respaldo na noção foucaultiana de contraconduta, desenvolvida principalmente nos cursos do Collège de France dedicados à governamentalidade. Longe de significar mera desobediência ou oposição frontal ao poder, as contracondutas designam modos de existência que recusam determinadas formas de governo da vida ao inventarem outras maneiras de viver, pensar e relacionar-se. O interesse de Rago consiste precisamente em evidenciar como muitas experiências feministas contemporâneas podem ser compreendidas como práticas de contraconduta: elas não reivindicam apenas novos direitos, mas interrogam criticamente os próprios dispositivos que produzem as identidades de gênero, os regimes de verdade e as normas que organizam a vida social.
As contracondutas ocupam um lugar estratégico na genealogia da governamentalidade porque revelam que toda forma de governo encontra, em seu próprio exercício, possibilidades de deslocamento e resistência. Nos cursos Segurança, território, população (1977-1978) e Nascimento da biopolítica (1978-1979), Foucault demonstra que governar não significa apenas impor leis ou disciplinar corpos, mas orientar as maneiras pelas quais os indivíduos conduzem a si mesmos e aos outros. É nesse contexto que emerge a noção de contraconduta: não como uma exterioridade absoluta ao poder, mas como práticas que recusam determinados modos de ser governado e experimentam outras formas de condução da existência. Trata-se, portanto, de uma categoria que permite compreender a resistência como uma dinâmica imanente às relações de poder, e não como sua simples negação.
Esse deslocamento conceitual representa um momento decisivo no percurso filosófico de Foucault. Se suas investigações anteriores haviam privilegiado a análise das instituições disciplinares e dos dispositivos de normalização, a reflexão sobre as contracondutas amplia o foco para as práticas por meio das quais os sujeitos transformam sua relação com as formas de governo. Não por acaso, esse conceito prepara o terreno para os estudos finais sobre a ética do cuidado de si (epimeleia heautou) e a parresia. As contracondutas constituem, assim, uma mediação entre a crítica da governamentalidade e a elaboração das práticas de liberdade: elas evidenciam que a resistência não consiste apenas em denunciar mecanismos de dominação, mas em inventar modos de vida capazes de interromper, deslocar ou reconfigurar as racionalidades políticas que pretendem determinar a conduta dos indivíduos.
Ao privilegiar a categoria da subjetividade, a conferência também recupera um dos deslocamentos fundamentais da obra de Foucault. Depois de analisar as instituições disciplinares, os dispositivos de sexualidade e a biopolítica, o filósofo dirige sua atenção às práticas pelas quais os sujeitos trabalham sobre si mesmos. Esse movimento não representa um abandono da política em favor da ética, mas a ampliação do próprio conceito de resistência. A transformação política passa igualmente pelas formas de constituição do sujeito, pelas relações consigo mesmo e pela coragem de produzir modos de vida que escapem às racionalidades normalizadoras.
É justamente nesse ponto que a leitura proposta por Margareth Rago adquire especial relevância para os desafios contemporâneos. Em um cenário marcado pela intensificação das tecnologias de vigilância, pela racionalidade neoliberal e pela multiplicação de dispositivos de controle sobre os corpos e as condutas, pensar os feminismos como experiências de invenção da subjetividade significa recolocar a liberdade no interior das práticas cotidianas. Não se trata apenas de denunciar formas de opressão, mas de investigar como se tornam possíveis novas experiências éticas, novas relações consigo, com os outros e com o comum.
Ao encerrar o Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos: pensar o presente, redefinir a política, a conferência de Margareth Rago retoma uma das perguntas mais persistentes do filósofo francês: como não ser governado desta maneira? A resposta, longe de oferecer um programa político acabado, aponta para a necessidade de reinventar continuamente as formas de existência. Entre genealogia, ética e feminismos, a reflexão promete demonstrar que a crítica filosófica permanece inseparável da criação de novos modos de viver, talvez a dimensão mais radical do legado foucaultiano para pensar o presente e redefinir a política.
Historiadora, filósofa e professora titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Margareth Rago é uma das principais intelectuais brasileiras dedicadas aos estudos sobre Michel Foucault, história das mulheres, feminismos, gênero, subjetividade e anarquismo. Graduada em História pela Universidade de São Paulo (USP), com mestrado e doutorado na mesma instituição, desenvolveu uma trajetória acadêmica marcada pela interlocução entre a história social, a filosofia política e a genealogia foucaultiana. Ao longo de mais de quatro décadas de pesquisa, consolidou-se como referência nacional e internacional na investigação das relações entre poder, práticas de liberdade e processos de constituição do sujeito.
Sua produção intelectual renovou os estudos sobre a história das mulheres e dos feminismos no Brasil ao incorporar as contribuições de Michel Foucault para a compreensão das tecnologias de poder, dos dispositivos de sexualidade e das formas de subjetivação. Em vez de interpretar o feminismo exclusivamente como uma luta por reconhecimento jurídico ou igualdade formal, Rago enfatiza sua potência como prática ética e política de invenção de novos modos de existência. Em seus trabalhos, as experiências feministas aparecem como espaços privilegiados de resistência às racionalidades disciplinares e biopolíticas, articulando crítica social, cuidado de si e experimentação da liberdade.
Entre suas obras mais conhecidas destacamos Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar – Brasil (1890-1930) (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014), referência para os estudos sobre gênero e disciplinamento social; Entre a história e a liberdade: Luce Fabbri e o anarquismo contemporâneo (São Paulo: Unesp, 2001); As marcas da pantera: percursos de uma historiadora (São Paulo: Intermeios, 2021); Foucault, história e anarquismo (Rio de Janeiro: Rizoma Editorial, 2015). Em diferentes momentos de sua produção, Rago também se dedicou ao estudo da escrita autobiográfica, das práticas libertárias e das experiências feministas como formas de produção de subjetividades dissidentes, aproximando história, filosofia e ética.
Ao longo de sua carreira, participou de redes nacionais e internacionais de pesquisa, orientou dezenas de mestres e doutores e recebeu importantes distinções acadêmicas por sua contribuição aos estudos de gênero e à historiografia brasileira. Sua leitura de Michel Foucault tornou-se particularmente influente por evidenciar que a crítica das relações de poder permanece inseparável da criação de novas formas de vida. É justamente essa interlocução entre genealogia, feminismos e práticas de liberdade que faz de Margareth Rago uma das vozes mais importantes para pensar, a partir de Foucault, os desafios éticos e políticos do século XXI.
Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos. Pensar o presente, redefinir a política
Foucault, a subjetividade e as contracondutas feministas
📍 Profa. Dra. Margareth Rago – Unicamp
⏰ 29/07 | 10h às 11h30min
🎥 Transmissão ao vivo
YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=d8vlTHq7MmU
Facebook: https://www.facebook.com/InstitutoHumanitasUnisinos/events
📌 A atividade é gratuita. Será fornecido certificado a quem se inscrever e, no dia do evento, assinar a presença por meio do formulário disponibilizado durante a transmissão.
📌 O evento ficará gravado no YouTube e Facebook e pode ser acessado a qualquer momento.
Inscrições e mais informações: https://www.ihu.unisinos.br/evento/michel-foucault
