28 Julho 2026
"Uma vez no poder, Milei fez repetidamente comentários ofensivos sobre Lula. Estes só foram atenuados por períodos de silêncio impostos por meio de enormes esforços diplomáticos. Lula, por sua vez, permitiu-se algumas declarações, ainda que discretamente."
O artigo é de Carlos Pagni, historiador, jornalista argentino e analista político, publicado por El País, 28-07-2026.
Eis o artigo.
A interferência de Milei no Brasil não é um simples conflito bilateral, mas parte de um movimento global que ecoa o intervencionismo de Trump.
A relação entre Argentina e Brasil esteve à beira do colapso. Os insultos de Javier Milei dirigidos a Lula da Silva e ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, causaram grande desconforto em Brasília. Esse desconforto se manifestou na convocação do embaixador brasileiro Julio Bitelli para consultas. Bitelli, um conhecido de longa data da Argentina, está servindo no país pela terceira vez. Seu temperamento e profissionalismo o tornaram a figura ideal para gerir uma relação perpetuamente tensa pela antipatia entre os presidentes e pelo temperamento volátil de Milei. Há um precedente para esse conflito: a convocação do embaixador da Espanha em Buenos Aires pelo governo de Pedro Sánchez, que nunca retornou. Isso também se deveu à participação de Milei em eventos de oposição ao governo socialista, onde ele insultou o primeiro-ministro e sua esposa. Presume-se que, dada a proximidade e a estreita rede de interesses em comum, os brasileiros não retirarão seu embaixador.
Governo Milei dobra aposta e debocha da reação do Palácio do Planalto: Mesmo com ampla repercussão negativa dentro e fora da Argentina, o governo de Javier Milei dobrou a aposta e voltou a debochar da reação do Palácio do Planalto diante… https://t.co/fwpoFjksyx #revistafórum
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Um fator que complica ainda mais a resolução desse conflito é o estilo do governo argentino. Ninguém se atreve a moderar os desabafos emocionais de Milei. Nem mesmo sua irmã. O ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, que é mais um defensor da confrontação e da benevolência, também se mostra hesitante. Qual será o papel de Diego Santilli em seu novo cargo? Ele se arriscará a recomendar que as coisas voltem aos trilhos?
Milei viajou ao Brasil para se juntar à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Ele é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso sob a acusação de orquestrar a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. Milei tentou visitar Jair, mas o juiz Moraes restringiu as visitas ao ex-presidente. Discursando no Estádio do Pacaembu, onde a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro estava sendo oficialmente reconhecida, Milei proferiu uma mensagem de raiva, chamando o juiz de "lixo careca". Ele então lembrou que as visitas eram permitidas quando Lula da Silva estava preso, inclusive a do "vergonhoso ex-presidente Alberto Fernández".
Uma série de reações a Milei começou a surgir do Brasil. A mais significativa veio de Luiz Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, que pediu respeito às instituições brasileiras. Edinho Silva, presidente do PT, partido governista, também afirmou ser inaceitável que um presidente estrangeiro visite o país e trate suas autoridades legítimas com desrespeito.
Milei também se manifestou contra Lula, chamando-o de "totalitário", "ladrão" e "presidiário". Ele fez algo talvez ainda mais ofensivo: disse que, assim como existe um "risco kirchnerista" na Argentina, existe um "risco lula" no Brasil, o que é evidente no mercado de ações. Lula está concorrendo à reeleição. Segundo as últimas pesquisas, ele tem 48% das intenções de voto, contra 43% para Bolsonaro Jr.
A controvérsia entre Milei e Lula já dura um longo tempo. A novidade neste caso foi a inclusão de um ministro da Suprema Corte em seus insultos. A contradição começou quando Lula visitou Joe Biden e lhe disse que "a democracia está em perigo na Argentina". Ele não mencionou Milei, mas Milei liderava as pesquisas. Essa situação foi agravada pela adição à campanha de Sergio Massa da equipe que havia gerenciado a própria campanha de Lula. Milei interpretou isso como se Lula tivesse enviado essa equipe.
O presidente brasileiro já havia participado de campanhas na Argentina, principalmente na de Daniel Scioli em 2015. Lula percorreu a região metropolitana de Buenos Aires com o candidato e então presidente Cristina Kirchner, sob o pretexto de que Scioli estava inaugurando unidades de primeiros socorros nos moldes das existentes no Brasil. Mais tarde, Scioli atuou como embaixador no governo Lula e, posteriormente, representou a Argentina no governo Bolsonaro. Fiel ao seu estilo, ele mudava seu círculo de amizades conforme a época. Esses laços com o movimento Kirchner continuaram com a visita de Fernández a Lula na prisão. O ex-presidente argentino juntou-se a uma lista simbólica de advogados de Lula e pressionou o Papa Francisco para que denunciasse uma operação jurídica fraudulenta contra o brasileiro, iniciativa que o Papa acatou.
A quebra de protocolo diplomático por Milei teve ajuda de Tarcísio e Flávio Bolsonaro https://t.co/FUhHoSFYWD
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Uma vez no poder, Milei fez repetidamente comentários ofensivos sobre Lula. Estes só foram atenuados por períodos de silêncio impostos por meio de enormes esforços diplomáticos. Lula, por sua vez, permitiu-se algumas declarações, ainda que discretamente. Durante a campanha de Milei contra Paolo Rocca, ele apareceu ao lado do chefe da Techint, que inaugurava uma das escolas técnicas que a empresa costuma construir, em um bairro operário do Rio de Janeiro.
Seria um erro entender a ação de Milei no Brasil como apenas mais um episódio em uma relação bilateral bastante tensa. Ela faz parte de um movimento internacional mais amplo. Em princípio, ecoa ações semelhantes de Donald Trump, que vem intervindo na política interna brasileira de maneira bastante desinibida. Quando os ministros do Supremo Tribunal Federal estavam prestes a indiciar Bolsonaro, Trump aumentou as tarifas sobre produtos brasileiros importados para os Estados Unidos, explicando que o fazia para vingar seu amigo. Ele também está participando da atual fase da campanha, a começar por ter recebido o candidato Flávio Bolsonaro para uma espécie de pequeno evento de campanha no Salão Oval.
No Brasil, há um debate sobre o custo dessa afinidade. O Partido dos Trabalhadores (PT) argumenta que o apoio de Trump a Bolsonaro acarreta diversas consequências caso a direita retome o poder. A mais significativa é o endurecimento das relações com a China. Outra é uma política altamente favorável ao acesso de empresas americanas à mineração, especialmente de terras raras. Além disso, há a isenção de tarifas para a entrada do etanol americano no mercado brasileiro, o que seria uma concessão muito prejudicial para um setor crucial da economia do país sul-americano.
Na segunda-feira, a situação tomou um rumo significativo: o governo chinês divulgou uma declaração de Xi Jinping em apoio ao Brasil. Ele afirmou o direito da China de não tolerar interferências externas e elogiou o papel do Brasil na manutenção do equilíbrio regional e global. Pequim compreende claramente que esse conflito interno entre dois líderes do Mercosul é uma luta pelo poder e influência entre duas grandes potências da América Latina: os Estados Unidos e a própria China. Vale lembrar que o Brasil é parceiro da China no grupo BRICS, do qual a Argentina de Milei optou por não fazer parte.
Uma questão pragmática diz respeito ao que é melhor para Milei: se o governo brasileiro cair nas mãos da extrema-direita, isso aumentará ou diminuirá seu poder na região? Uma resposta mais ou menos óbvia é que a influência relativa de Milei depende de o gigante brasileiro não ser liderado por um apoiador de Trump como ele.
Milei está se unindo a esse movimento ao estilo Bolsonaro, que faz parte de um plano mais amplo: criar uma liga de governos de direita com uma identidade dupla quase explícita: pró-Trump, anti-Lula. Essa iniciativa, formulada por Santiago Caputo, deve ser colocada em prática nos próximos dias, com a viagem de Milei ao Peru para a posse de Keiko Fujimori na próxima terça-feira. No dia 7 de agosto, ele estará na Colômbia para se encontrar com o recém-eleito presidente, Abelardo de la Espriella. Embora a data ainda não tenha sido definida, Milei também planeja viajar ao Equador para se encontrar com Daniel Noboa.
Advogados acusam presidente argentino de desviar recursos do Estado para participar da convenção do PL no Brasil
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A grande questão a ser respondida é qual o efeito da "importação" da política de outros países para o cenário local. Em outras palavras, quais seriam as consequências para Milei de uma vitória de Lula nas eleições brasileiras em outubro, ou de uma vitória republicana nas eleições de novembro nos Estados Unidos? Ainda mais preocupante é a questão das consequências de uma derrota em qualquer um dos casos, que é o que as pesquisas de opinião vêm prevendo. Um detalhe revelador: Milei tinha duas viagens planejadas para os Estados Unidos para participar de grandes comícios. Uma para o feriado de 4 de julho e outra para a cerimônia de encerramento da Copa do Mundo. Em ambos os casos, ele optou por cancelar, e suspeita-se que isso possa ter sido para evitar vaias devido aos seus laços estreitos com Trump.
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