A geração mais conectada de todos os tempos nunca esteve tão sozinha. Artigo de Josiane Tonelotto

Foto: Pixabay | Peter Lowy

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28 Julho 2026

Há um ambiente de comparação permanente, pressões aceleradas e vínculos cada vez mais frágeis. A responsabilidade é coletiva: é preciso validar emoções em vez de minimizá-las e criar espaços reais de escuta.

O artigo é de Josiane Tonelotto, Doutora em neurociências (Unicamp), é especialista em saúde mental e bem-estar; superintendente acadêmica do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, publicado por, publicado por Folha de S. Paulo, 26-07-2026.

Eis o artigo.

Nunca uma geração teve tanto acesso à informação, entretenimento e conexão com qualquer parte do planeta. Basta um toque para falar com alguém do outro lado do mundo ou acompanhar a vida de milhares de pessoas. Ao mesmo tempo, nunca se relatou tamanha sensação de vazio. Esse paradoxo é um dado que merece muita atenção.

Já em 2019, antes da pandemia, a Organização Mundial da Saúde registrou que cerca de 14% dos adolescentes no mundo tinham algum transtorno mental. O suicídio respondia por mais de uma em cada cem mortes nessa faixa etária. A Covid-19 não criou o problema, mas o tornou visível e de forma brutal. No Brasil, estudo da Fiocruz publicado em dezembro de 2025 com dados do SUS mostrou que jovens de 15 a 29 anos têm o maior risco de suicídio do país: 31,2 por 100 mil habitantes, acima da taxa geral de 24,7.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024, do IBGE, com mais de 118 mil estudantes de 13 a 17 anos, divulgada em março de 2026, revela que 3 em cada 10 adolescentes se sentem tristes sempre ou na maior parte do tempo. Quase um em cada cinco diz que a vida não vale a pena.

São números dolorosos que, mais do que conhecer, precisamos compreender.

O sofrimento dessa geração não é fraqueza nem modismo. Tem causas concretas, que se sobrepõem no período mais delicado do desenvolvimento humano: a adolescência e início da vida adulta. Do ponto de vista biológico, neste momento o cérebro ainda está em plena reorganização. O córtex pré-frontal, responsável pelo controle emocional e pela tomada de decisões, só atinge maturidade por volta dos 25 anos. É também o período em que cada jovem busca responder, as vezes sem apoio suficiente, às perguntas mais difíceis da vida: quem sou, o que valorizo, onde me encaixo. Essas perguntas sempre existiram. O que mudou profundamente foi o ambiente em que precisam ser respondidas: um ambiente de comparação permanente, pressões aceleradas e vínculos cada vez mais frágeis.

Esse período de vulnerabilidade biológica coincide com transformações tecnológicas, culturais, familiares e institucionais mais rápidas do que nossa capacidade coletiva de resposta. Os jovens não estão piores do que os de gerações anteriores: enfrentam condições mais complexas, com menos suporte do que precisam e uma profusão de estímulos informacionais, justamente no momento do desenvolvimento em que são mais vulneráveis.

Esse é um terreno fértil para o adoecimento. Ansiedade e depressão são hoje os transtornos mentais mais comuns entre jovens, com crescimento expressivo no consumo de antidepressivos, inclusive por automedicação. O sinal de alerta está aceso. A pergunta que se impõe não é apenas o que está acontecendo com os nossos jovens, mas sim o que estamos fazendo, ou deixando de fazer, para mudar esse quadro.

Cuidar da saúde mental dos jovens não é tarefa exclusiva de especialistas. É uma responsabilidade coletiva: validar emoções em vez de minimizá-las, criar espaços reais de escuta, permitir que a frustração faça parte da vida, porque ela faz, e compreender que resiliência não é ausência de sofrimento, mas a capacidade de atravessá-lo e seguir. Uma geração que não aprende a lidar com o que sente não encontrará, no futuro, recursos para lidar com o que viver.

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