Tarifas sobre trabalho forçado: a mais recente manobra de Trump. Artigo de Juan Torres López

Foto: Pedro Henrique Santo/ Unsplash

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27 Julho 2026

Após a Suprema Corte ter anulado tarifas anteriores, os EUA, principal importador de produtos ligados ao trabalho forçado, anunciam um plano para salvaguardar os direitos trabalhistas.

O artigo é de Juan Torres López, economista e professor aposentado de Economia Aplicada, publicado por Ctxt, 24-07-2026.

Eis o artigo.

Os Estados Unidos acabam de anunciar uma nova rodada de tarifas sobre 60 economias, desta vez apresentadas como uma ação internacional relacionada aos direitos trabalhistas. Especificamente, "por não proibirem ou não aplicarem efetivamente a proibição da importação de bens produzidos com trabalho forçado".

Dá vontade de aplaudir. O trabalho forçado existe, é uma atrocidade e afeta cerca de 27 milhões de pessoas em todo o mundo atualmente, segundo a Organização Internacional do Trabalho. Se a maior potência mundial finalmente decidisse usar seu poderio comercial para combatê-lo, certamente pareceria uma notícia maravilhosa. Mas há vários detalhes a serem considerados que indicam claramente que se trata de mais uma farsa.

Primeiro, há o momento em que essa preocupação aparentemente humanitária e honrosa nasceu: exatamente no mesmo instante (00h01 de sexta-feira, 24 de julho de 2026), nem um minuto depois, das tarifas que Trump fora forçado a estabelecer “em caráter temporário”, após a Suprema Corte ter anulado aquelas que ele havia imposto por razões de emergência nacional.

A indignação moral da Casa Branca em relação à escravidão é uma nova roupagem legal para o mesmo problema antigo, costurada às pressas porque a anterior havia se desfeito nos tribunais.

A melhor prova de que isso é mais uma farsa dos EUA é que o trabalho forçado é um flagelo real naquele país. Se o governo americano realmente quisesse puni-lo e erradicá-lo, começaria por combatê-lo internamente.

Segundo o Índice Global de Escravidão, aproximadamente 1,09 milhão de pessoas vivem em condições de escravidão moderna nos Estados Unidos, o maior número absoluto nas Américas. O próprio relatório indica que o que mais prejudica a resposta do governo americano é o trabalho forçado imposto pelo Estado em seu sistema prisional.

Outro estudo realizado pela ACLU e pela Universidade de Chicago em 2022 estimou que cerca de 800 mil dos 1,2 milhão de presos trabalham, e que 76% dos entrevistados relataram enfrentar punições — como isolamento, perda do direito a visitas familiares ou redução de pena — caso se recusassem a trabalhar. Eles recebem entre 13 e 52 centavos de dólar por hora (cerca de € 0,11 e € 0,44), com retenções de até 80%, ou nada em sete estados, produzindo bens no valor de pelo menos US$ 11 bilhões.

A própria administração dos EUA fornece dados que mostram a extensão e a gravidade do trabalho forçado nos Estados Unidos e o quão pouco está sendo feito para eliminá-lo.

A primeira recomendação do relatório de 2025 sobre tráfico de seres humanos, publicado anualmente pelo Departamento de Estado, é precisamente a necessidade de ampliar a capacidade de investigação do trabalho forçado no país.

De acordo com uma análise incluída no próprio relatório, dos 167 casos criminais federais por tráfico de pessoas para fins de trabalho forçado instaurados entre 2000 e 2022, nenhum foi movido contra qualquer empresa. O relatório também observa que, em todo o ano fiscal de 2024, o Departamento de Segurança Interna emitiu apenas uma ordem de detenção por suspeita de trabalho forçado, razão pela qual o relatório recomenda a emissão de mais ordens.

As áreas onde o trabalho forçado é mais provável de ocorrer nos Estados Unidos também são amplamente desprovidas de fiscalização. O Escritório de Supervisão e Gestão do Congresso (Congressional Oversight and Management Office) examinou o programa de vistos agrícolas H-2A, que vincula trabalhadores a empregadores específicos, e constatou que, entre 2018 e 2023, 84% das inspeções detectaram violações de direitos, principalmente falta de pagamento e retenção de salários; no entanto, um empregador nesse programa tinha apenas 3% de chance de ser inspecionado. Impunidade total. Algo semelhante acontece com o trabalho infantil. Em 2024, o Departamento do Trabalho encerrou mais de 700 investigações sobre violações que afetaram 4.030 crianças. O Instituto de Política Econômica (Economic Policy Institute) relata que 28 estados apresentaram projetos de lei para enfraquecer as leis trabalhistas infantis desde 2021, e 12 os aprovaram.

Em janeiro de 2025, segundo o mesmo relatório do Departamento de Estado, o governo eliminou a exigência de que seus agentes buscassem ativamente evidências de que um estrangeiro detido pudesse ser vítima de um crime e desmantelou o programa que protegia denunciantes de represálias por parte das autoridades de imigração; dois meses depois, cancelou o financiamento para assistência jurídica a menores desacompanhados. Uma sequência de atos vergonhosos: primeiro, desmantelar os mecanismos que permitem a identificação de vítimas de trabalho forçado em seu próprio país e, dezoito meses depois, taxar o resto do mundo por não identificá-las adequadamente.

Os Estados Unidos são, de longe, o maior importador mundial de produtos com risco de serem fabricados com trabalho forçado: US$ 169,6 bilhões anualmente, mais do que qualquer outro país do G20. E este é um valor mínimo, pois o índice contabiliza apenas os cinco produtos de maior valor de cada economia. Apesar desse volume, o relatório do Departamento de Estado mencionado anteriormente reconhece que, em 2024, a alfândega americana negou a entrada de mercadorias no valor de US$ 183 milhões sob suspeita de trabalho forçado, uma proporção de quase uma em mil.

Em resumo, o engano tem mais duas reviravoltas.

A aparente preocupação humanitária desaparece quando se trata de proteger os interesses estratégicos dos EUA. Assim, matérias-primas cujos aumentos de preço poderiam prejudicar a indústria americana, produtos que poderiam causar perturbações na economia dos EUA e aqueles que não podem ser obtidos nos Estados Unidos em quantidades suficientes ou a preços razoáveis ​​são excluídos das novas tarifas. Em outras palavras: o trabalho forçado é intolerável, a menos que o produto seja essencial ou barato.

E o mais curioso de tudo é que os Estados Unidos se vangloriam, na nota que anuncia as novas tarifas, de serem "o único país do mundo" que adota e aplica efetivamente uma proibição à importação de mercadorias fabricadas com trabalho forçado, quando não ratificaram a Convenção 29 da OIT sobre trabalho forçado.

É tudo mentira. Aquilo que Washington critica em sessenta países é precisamente o que os Estados Unidos fazem numa escala muito maior do que qualquer outro. Contudo, se a sua dissimulação é vil, o silêncio dos outros é ainda mais indecente.

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