24 Julho 2026
Os Estados Unidos ajudarão a Arábia Saudita a estabelecer um programa nuclear para fins civis, mas os críticos acreditam que isso poderá permitir que o país enriqueça urânio e desencadeie uma corrida armamentista na região.
A reportagem é de Jonathan Yerushalmy, publicada por The Guardian, e reproduzida por El Diario, 23-07-2026.
Os Estados Unidos e a Arábia Saudita assinaram um acordo histórico que permitirá o uso de tecnologia e conhecimento técnico americanos para criar um programa nuclear civil no país do Golfo Pérsico. A decisão causou alarme em todo o Oriente Médio e nos corredores do poder em Washington.
Os termos do acordo não são conhecidos em detalhes, mas existem dúvidas quanto à possibilidade de a Arábia Saudita enriquecer urânio dentro do país e às consequências que isso poderia ter para a proliferação nuclear.
Do que trata o acordo nuclear?
O documento busca atender às “necessidades energéticas” da Arábia Saudita, um país rico em petróleo, de acordo com uma declaração do secretário de Energia dos EUA, Chris Wright.
O plano econômico do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman prevê que o país utilize energia nuclear para gerar eletricidade, liberando assim reservas de petróleo para impulsionar as exportações. O acordo concede às empresas americanas um papel central no desenvolvimento da infraestrutura, ao mesmo tempo que impede que concorrentes como a Rússia e a China ganhem maior influência no país.
Estima-se que o acordo valha mais de 10 bilhões de dólares. Seus termos seguem uma estrutura anterior desenvolvida durante o governo de Joe Biden, na qual a cooperação nuclear dos EUA estava condicionada ao estabelecimento de relações diplomáticas formais entre a Arábia Saudita e Israel.
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— Estadão 🗞️ (@Estadao) July 24, 2026
A normalização das relações diplomáticas entre Tel Aviv e Riad foi interrompida após a violenta resposta de Israel aos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023. O presidente dos EUA afirmou que o pacto depende da adesão de Riad aos Acordos de Abraão para a normalização das relações com Israel.
Será que a Arábia Saudita conseguirá enriquecer urânio em seu território?
As informações disponíveis indicam que o acordo abre caminho para a construção de uma instalação de enriquecimento de urânio na Arábia Saudita, desde que um estudo conjunto elaborado pelos dois países determine que tal seja necessário.
O estudo em questão seria elaborado ao longo de dois anos, o que, teoricamente, permitiria ao sucessor de Trump na Casa Branca decidir se autorizaria ou não tal enriquecimento.
Muitos países com indústrias de energia nuclear não enriquecem urânio internamente, um processo que, teoricamente, lhes permitiria obter o urânio altamente enriquecido usado em armas nucleares. Em vez disso, importam combustível para seus reatores.
Os EUA justificam parcialmente a decisão de prosseguir com o acordo afirmando que Washington supervisionaria o urânio enriquecido e o material irradiado dos reatores, garantindo assim que não pudessem ser usados para construir bombas.
Por que isso é controverso?
Organizações contra a proliferação nuclear vêm alertando há anos que esse tipo de acordo permitiria à Arábia Saudita desenvolver armas nucleares. Riad já declarou em outras ocasiões que precisaria delas caso o Irã, seu rival regional, as adquirisse.
Os Estados Unidos estão em guerra com o Irã, em parte, para impedir que Teerã obtenha a bomba atômica ou enriqueça urânio ao nível que lhe permita usá-lo para criar armas.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, minimizou as preocupações. "Os EUA não firmarão nenhum acordo com nenhum país do mundo que coloque o mundo em risco de proliferação", afirmou.
O acordo de cooperação nuclear foi assinado em conjunto com um "acordo bilateral de salvaguardas", que inclui medidas para uma supervisão adequada.
Mas os especialistas estão alarmados porque o documento anunciado na quarta-feira não inclui as medidas de controle ou salvaguardas presentes em acordos nucleares anteriores. A Arábia Saudita não estará sujeita à supervisão rigorosa da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU, de acordo com o que foi revelado sobre o pacto.
O "protocolo adicional" da AIEA foi implementado por dezenas de países e era um dos requisitos incluídos no acordo nuclear dos EUA com o Irã durante o governo Obama, do qual Trump se retirou em 2018. A cláusula trata da inspeção e verificação para garantir que os países usem material nuclear apenas para fins pacíficos.
Os EUA chegaram a um acordo semelhante com os Emirados Árabes Unidos, mas, nesse caso, o país se comprometeu a não prosseguir com o enriquecimento ou o processamento de combustível nuclear usado, uma garantia considerada o "padrão ouro" para países com ambições nucleares. O acordo com a Arábia Saudita não inclui essa cláusula, segundo informações disponíveis.
O acordo pode ser bloqueado?
Os opositores argumentam há muito tempo que equipar a Arábia Saudita com um programa nuclear doméstico desencadeará uma corrida entre os países do Oriente Médio para adquirir capacidades semelhantes. Israel — que possui um programa nuclear secreto — também alertou para esse risco, segundo relatos.
Os democratas no Congresso dos EUA expressam preocupações semelhantes. O senador Chris Murphy alertou que o acordo "desencadeará uma corrida armamentista nuclear na região e desencorajará ainda mais o Irã de limitar seu próprio programa".
Murphy e seus aliados no Congresso terão dificuldades para bloquear o acordo. Está previsto que ele seja enviado ao Congresso para aprovação nos próximos dias, mas para impedir sua aprovação, seria necessária uma resolução conjunta das duas casas, além de uma maioria de dois terços para derrubar o veto presidencial.
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