22 Julho 2026
“Esse modelo perpetua não só salários de miséria, mas também condições de trabalho precárias em toda a cadeia de suprimentos, desde a oficina rudimentar com poucos trabalhadores em algum canto remoto da Ásia até a força de trabalho formidável de gigantescas fábricas em zonas de livre comércio, onde praticamente não pagam impostos e não estão vinculados a nenhum tipo de acordo sindical”. A reflexão é de Sergio Ferrari, em artigo publicado por Rebelión, 21-07-2026. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.
Cerca de 90 milhões de pessoas, em sua maioria mulheres, trabalham na indústria têxtil em todo o mundo com salários que não cobrem nem mesmo suas necessidades mais básicas, porque as gigantes importadoras pagam apenas um pouco mais por uma camiseta básica de algodão do que pagavam há vinte anos. Em termos reais, porém, o que essas gigantes pagam é ainda menos quando se leva em conta o impacto da inflação. Claramente, essa tendência de queda foi alcançada às custas da mão de obra e da própria viabilidade econômica dos fabricantes. Esse problema afeta particularmente o continente asiático, já que dois terços dessa indústria estão concentrados nessa região.
Camisetas a US$ 13 o quilo
Os importadores que abastecem as lojas europeias pagam aos fabricantes na Ásia entre US$ 2 e US$ 3 por unidade, e às vezes apenas US$ 1. Se calcularmos em quilogramas em vez de unidades, o preço médio que esses importadores pagaram em 2025 foi de US$ 16 por quilo, e apenas US$ 13 por camisetas fabricadas em Bangladesh, seu principal fornecedor.
No entanto, os preços mais baixos dessas mesmas camisetas em grandes lojas na Suíça, França, Espanha e no resto da Europa Ocidental variam de US$ 10 a US$ 20 por unidade. Em outras palavras, com a venda de uma única camiseta, as lojas europeias praticamente pagam por um quilo de camisetas. Como podemos explicar uma diferença tão grande entre o que os fabricantes recebem e o que as pessoas que usam essas camisetas pagam?
Uma investigação conjunta da organização não governamental Public Eye e da Clean Clothes Campaign – uma rede de ativistas que defendem melhores condições de trabalho nas indústrias globais de vestuário e artigos esportivos – fornece uma resposta convincente e reveladora. Seu relatório publicado recentemente, intitulado Squeezed Dry (Exauridos até a última gota), conclui que, longe de ser uma mera anomalia de mercado, o custo de fabricação extremamente baixo dessas camisetas – ou seja, o que os importadores estão dispostos a pagar aos fabricantes – constitui o mecanismo fundamental pelo qual as principais marcas de roupas preservam e reproduzem o modelo de lucro tão questionado da indústria têxtil.
Esse modelo perpetua não só salários de miséria, mas também condições de trabalho precárias em toda a cadeia de suprimentos, desde a oficina rudimentar com poucos trabalhadores em algum canto remoto da Ásia até a força de trabalho formidável de gigantescas fábricas em zonas de livre comércio, onde praticamente não pagam impostos e não estão vinculados a nenhum tipo de acordo sindical.
Entre 2001 e 2025, conforme documentado pela pesquisa da Public Eye, a economia global cresceu aproximadamente 3% ao ano, enquanto a inflação mais que dobrou o custo de vida. No entanto, no setor têxtil, os preços de importação de uma camiseta praticamente não mudaram. Na União Europeia, por exemplo, embora a variação anual nominal tenha sido de +0,9%, a inflação a reduziu para -1,4% em termos reais. Grandes marcas europeias usam esses percentuais de forma enganosa para justificar seus preços exorbitantes no varejo. De fato, elas alegam que, nos últimos 25 anos, o preço das camisetas aumentou 25%, quando na realidade o custo de produção diminuiu 30%.
Essa situação poderia ser ainda mais problemática se incluíssemos a complexa rede do setor altamente lucrativo de camisetas de marcas esportivas vendidas exclusivamente com o logotipo “oficial”, como aquelas que estão experimentando um crescimento expressivo com a Copa do Mundo da FIFA de 2026 e em todo o setor esportivo em geral.
Tudo para alcançar preços mais baixos
Nas últimas décadas, as principais marcas de vestuário têm transferido gradualmente sua produção para países onde os custos de fabricação são mais baixos, como Bangladesh, o principal fornecedor de camisetas para a União Europeia e o Reino Unido, e o segundo maior fornecedor mundial, atrás apenas da China.
A crescente concentração do setor têxtil em países ou regiões com custos de produção mais baixos intensificou a dependência entre a indústria local e as empresas comerciais do resto do mundo, com resultados extremamente prejudiciais para a primeira. Isso se deve principalmente à enorme pressão para reduzir os preços ao máximo. Essa é uma das principais conclusões da Public Eye após investigar minuciosamente o comportamento dos gigantes do setor
Entre as empresas com os preços de venda mais altos – considerando sempre os casos estudados – estão a japonesa Fast Retailing, dona da marca Uniqlo (que ficou famosa graças à sua associação com o tenista suíço Roger Federer), e o grupo dinamarquês Bestseller, dono das marcas Jack & Jones e Vero Moda. No entanto, essas empresas raramente pagam a seus fornecedores em Bangladesh mais de US$ 18 por quilo (aproximadamente US$ 3 por camiseta). No outro extremo, redes de desconto como a Primark e o grupo polonês LPP pagam cerca de US$ 10 por quilo. A gigante espanhola de fast-fashion Inditex, dona da marca Zara, e a sueca H&M se situam em um segmento intermediário.
Quando a Public Eye confrontou essas empresas com essas informações, várias argumentaram que a diferença gritante entre os preços de produção e de varejo não levava em consideração fatores-chave como a variedade de produtos, o aumento da eficiência, as flutuações nos custos de matéria-prima e as tarifas, entre outros. Elas também não consideraram os custos associados às obrigações sindicais e salariais em Bangladesh, que alegavam cumprir integralmente. No entanto, como afirma a Public Eye, “nenhuma [dessas empresas] forneceu seus próprios dados”, o que significa que não foram além da mera retórica para apresentar números de custo-benefício.
Pressões sobre o Sul Global
As entrevistas realizadas pela Public Eye em Bangladesh com gerentes de fábrica e agentes de compras das empresas examinadas revelam a magnitude da pressão que essas empresas exercem sobre os fabricantes, exigindo preços extremamente baixos e praticamente não negociáveis. Às vezes, elas chegam a exigir reduções de preço adicionais após o acordo inicial. De uma forma ou de outra, as margens de lucro para os fabricantes acabam sendo inexistentes.
Para evitar a paralisação das linhas de produção, preservar o fluxo de caixa e continuar pagando salários, muitos fabricantes chegam a aceitar encomendas a preço de custo, ou até mesmo com prejuízo, especialmente durante a baixa temporada. Diante da estagnação dos preços nominais e do aumento dos custos, os fabricantes recorrem à única ferramenta flexível que lhes resta: a mão de obra. Isso resulta em trabalho intensificado, com jornadas mais longas e pressão constante sobre os salários para reduzi-los ainda mais.
Dessa forma, os preços de venda extremamente baixos das camisetas contribuem para a manutenção de salários de miséria, ao mesmo tempo que enfraquecem a capacidade das fábricas de absorver as flutuações da demanda e limitam os investimentos sociais e ambientais.
Imperativo: preços mais justos
Na indústria têxtil, duas décadas de normas voluntárias, códigos de conduta e iniciativas em prol de preços mais justos não conseguiram deter o declínio do setor. Portanto, como argumenta a Public Eye, a definição conjunta de preços para os fabricantes deve se tornar a pedra angular do fornecimento responsável. Em outras palavras, esses preços devem refletir os custos reais de produção, aderir aos padrões da indústria e respeitar os direitos humanos e o meio ambiente. Eles não devem, de forma alguma, ser ditados pelas metas de vendas e lucratividade dos gigantes do setor.
O relatório da Public Eye identifica metas de preço mínimo como uma estrutura para negociações e como uma ferramenta concreta para integrar o fornecimento responsável às práticas comerciais. Um limite de US$ 30 por quilograma, por exemplo, permitiria o financiamento de salários dignos, condições de trabalho seguras e livres de estresse e práticas ambientais confiáveis. Esse valor equivaleria a US$ 5 por camiseta, um preço que parece totalmente razoável.
Paralelamente a essas demandas, diversos atores sociais europeus estão empregando diferentes métodos para exigir maior justiça e equidade na indústria têxtil e nas relações comerciais Norte-Sul. Uma abordagem original é, por exemplo, o Fair Fashion Award, promovido na Suíça. Ele oferece uma plataforma para pioneiros da sustentabilidade no setor têxtil, inspira a produção e o marketing responsáveis e representa credibilidade, relevância e viabilidade futura. É apoiado pela Swiss Fairtrade Network, a plataforma que reúne todas as iniciativas de comércio justo no país. www.swissfairtrade.ch
Camisetas de algodão: um símbolo emblemático do comércio estruturalmente injusto e um grito de guerra para um setor ativo da sociedade civil internacional que confronta os gigantes têxteis enquanto exige, simultaneamente, reformas justas.
Leia mais
- A batalha pelas roupas usadas: proteger empregos ou evitar que o lixo acabe em aterros sanitários no Sul Global?
- Relatório aponta larga dependência da indústria da moda dos combustíveis fósseis
- “A moda gera resíduos, consome recursos naturais e afeta quem a produz e utiliza”. Entrevista com Jessica Pullo
- O preço social da roupa
- Roupas gastas e inúteis: assim o fast fashion “mata” a caridade
- “Nossos guarda-roupas produzem o inferno na terra”. Entrevista com Matteo Ward
- Multinacionais têxteis responsáveis pela tragédia em Bangladesh seguem sem pagar indenização
- H&M e Zara apoiam acordo em Bangladesh
- Fábricas de Bangladesh têm "terceirizados dos terceirizados"
- Indústria Têxtil: Tragédia de Bangladesh também poderia acontecer no Brasil
- De Bangladesh às lojas, roupas baratas que custaram vidas
- O futuro da moda sustentável
- Roupas são um grave problema ambiental. Artigo de Vivaldo José Breternitz
- Por que você deve pensar duas vezes antes de comprar roupas novas
- Como entender (e diminuir) o impacto dos seus hábitos no meio ambiente, de roupas a comida
- Deserto do Atacama: O novo cemitério do fast fashion
- Os monstros no seu armário. Entrevista especial com Luiz Jacques Saldanha
- Produção Fast Fashion de vestuário causa danos ambientais e trabalho escravo
- A moda que mata mais rápido o planeta
- Produção Fast Fashion de vestuário causa danos ambientais e trabalho escravo
- O consumismo consumidor. Artigo de Matias Soares