22 Julho 2026
"O taoísmo não leva à inação mas desperta o sujeito para as cores do mundo. Quando somos capazes de acolher o mundo com a arte de nossas mãos, o tao jamais nos abandona (TTK 28)", escreve Faustino Teixeira, teólogo, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
“O mestre observa o mundo, mas confia em sua visão interior" (TTK 12)
Uma das dádivas mais significativas deixadas pela China no âmbito da religiosidade e mística é o taoísmo. Para os que entram em contato com esse campo específico, há a grata surpresa de encontrarem algo de fascinante, misterioso e poético. Trata-se do “testemunho de um modo de vida que se perde no profundo oceano do tempo e que forma parte do legado cultural da China” [1]. O taoísmo é um patrimônio universal, que traz em seu bojo passos de ensinamentos que reúnem dimensões singulares de poesia, filosofia, arte, folclore e mística, tudo resultando no que se pode chamar de “Sabedoria Perene”.
Além de um taoísmo religioso, podemos indicar a presença de um taoísmo filosófico (daojia), cujos representantes mais importantes são Lao Tsé, Chuang Tzu e Lié Tzu. Eles conseguiram traduzir de forma viva e profunda uma reflexão mística e espiritual centradas no Tao ou Dao (caminho ou curso) e no instigante wu wei (o caminho do não atuar). Em clássica passagem da Via de Chuang Tzu, o mestre diz:
“Quando um arqueiro atira sem alvo nem mira
Está com toda a sua habilidade.
Se atira para ganhar uma fivela de metal
Já fica nervoso (...).
Sua habilidade não mudou. Mas o prêmio
Cria nele divisões. Preocupa-se
Pensa mais em ganhar
Do que em atirar –
E a necessidade de vencer
Esgota-lhe a força” [2].
A obra fundamental desta tradição, na qual nos apoiaremos, é o Tao Te King (TTK), que pode ser identificado como o livro do Tao e de sua Virtude. É sobretudo “uma introdução à Via da Simplicidade Original, à qual se tem acesso criando em si mesmo, pela abnegação e pelo desapego, um vazio que preenche a Virtude do Tao” [3].
Um dos requisitos fundamentais para que nós, ocidentais, possamos nos adentrar nesse universo filosófico e espiritual é deixar em suspenso, ainda que provisoriamente, as nossas prerrogativas ocidentais. Trata-se de se deixar habitar por um universo distinto, marcado por traços diferenciais e provocadores. Há em todos nós uma tendência, como indicam eminentes orientalistas, a certo “provincianismo intelectual que nos induz a não conceder valor ao que está fora dos limites do mundo cultural em que fomos educados e no qual crescemos” [4].
Na base desta tradição está o Tao, que vem envolvido por grande mistério. Não há como defini-lo de forma precisa, já que guarda em si uma incognoscibilidade e inefabilidade. Não há como acessar o seu conteúdo, uma vez que não tem forma ou limites [5]. Como lemos no Tao Te King 1 [6], do Tao eterno não podemos falar. O eternamente real é inominável e está na origem de todas as coisas (TTK 1 e 41). O Tao está distante do alcance do olhar e dos outros sentidos, e “retorna sempre ao reino do nada” (wu) (TTK 14). Mesmo não podendo ser designado, o Tao está presente em tudo. Ele se desvela velando, e se faz presente quando nos desapegamos, libertando-nos de nomes, formas e atributos. O que permanece é o Nada, o vazio, “que no entanto é pleno de potencialidade eterna” [7]. Como mostra o TTK,
“o Tao é como um poço de água
que nunca se extingue por mais que se preenche.
É como um vazio eterno
pleno de infinitas possibilidades” (TTK 4).
Nas pegadas dos grandes mestres do taoísmo, descobrimos que o esvaziamento da mente, diante da plenitude do nada, reverbera em nossas raízes fundamentais, facultando o verdadeiro repouso, que é a raiz de todo movimento (TTK 26). É quando nos damos conta do múnus de onde proviemos, e assim nos tornamos, de modo natural, tolerantes, desinteressados e divertidos (TTK 16). O taoísmo não leva à inação mas desperta o sujeito para as cores do mundo. Quando somos capazes de acolher o mundo com a arte de nossas mãos, o tao jamais nos abandona (TTK 28). Com o sopro do Tao, tornamo-nos também simples e flexíveis, suaves, ternos e brandos. Somos, assim, capazes de reconhecer que os rígidos não têm um futuro alvissareiro, e que os suaves e flexíveis são os que prevalecerão (TTK 76). Os grandes valores indicados no Tao Te King são a simplicidade, a paciência e a compaixão (TTK 67).
Na autoria do Tao Te King temos Lao Tsé, o velho mestre, do qual temos pouca notícia. Sabemos por aproximação que ele viveu um pouco antes de Confúcio (551-479 AEC [8]). Era de família nobre, e teria nascido por volta de 570 AEC, na aldeia de Hai, no reino de Chen. É o mestre que abre caminho para tantos outros, dentre os quais destaca-se também Chuang Tzu, que pudemos conhecer aqui no Brasil pela preciosa obra de Thomas Merton sobre o tema [9].
Dentre as leis fundamentais presentes no universo do Tal, encontramos o wu wei, que é o caminho do não atuar. Não se trata, porém, de uma inação ou passividade, mas de um procedimento tocado pela dinâmica da quietação, da naturalidade e da espontaneidade. Trata-se, sobretudo, de um processo de integração ao princípio de todas as coisas. É um fazer não fazendo. Com o registro essencial do repouso, o wu wei contraria qualquer dinâmica que visa acumulação, virtude ou mérito. Não se move pela busca desenfreada de fins, mesmo que seja a felicidade. A passividade de que trata o wu wei é semelhante à de místicos como João da Cruz. Não é um estado de inatividade, mas de abertura singela ao ritmo do cotidiano e aos dons de um mistério que nos envolve e ao mesmo tempo nos escapa. Trata-se mais de receptividade, ou seja, da adequação do espírito ao dom da acolhida.
O wu wei contraria todo e qualquer ritmo de ambição, avidez e busca de mérito ou riqueza. Tudo isso não passa de teias que aprisionam o voo livre das pessoas. Como diz o TTK:
“Se miras aos outros em busca de plenitude
nunca alcançará a autêntica plenitude.
Se tua felicidade depende de posses
nunca estarás feliz contigo mesmo.
Contente com o que tens” (TTK 44).
O desapego é condição fundamental para o caminho sereno e calmo que envolve a união com o Tao [10]. Em sintonia com uma das nobres verdades do budismo, o wu wei aponta para a necessária supressão dos desejos (TTK 1) [11]. Trata-se da condição para a inserção no caminho da contemplação (TTK 45). O wu wei requer relaxamento, sossego, mas simultaneamente “um poderoso movimento da alma” [12]. Volto a insistir aqui no recurso essencial à flexibilidade. Na China, o wu wei veio
“comparado aos galhos esguios das árvores que cobertos de neve curvam-se até o chão. Em vez de se oporem ao peso que os oprime, cedem à pressão para não se partirem. Depositada junto à raiz, a neve liberta os galhos. Assim também, o homem que busca a iluminação não deve resistir às dificuldades intelectuais e à imaginação” [13].
O “não-agir” que acompanha o wu wei é mais uma entrega ao ritmo do Tao, à serenidade que preside sua realidade. Aquele que capta isso é dotado de um potencial de olhar diferencial, de uma naturalidade na dinâmica do viver. Assim como o ar e a luz, aquele que vem animado pelo wu wei procede de forma distinta no tempo. É alguém que admira a paisagem, que se maravilha com todo o entorno, que capta o outro lado das montanhas e se deixa tocar pelo movimento das águas [14]. É alguém que vive profundamente uma irmandade com todas as coisas.
Na perspectiva aberta pelo wu wei, identificamos o traço de um modo de viver sereno, que lida cuidadosamente com a naturalidade da vida. A satisfação está nas pequenas coisas, no tranquilo ritmo do cotidiano. Como diz o TTK, “quem sabe contentar-se não conhece a humilhação” (TTK 44). Há que reconciliar-se com o Tao, viver em harmonia com ele, deixar-se tocar por seu vazio primordial. O grande místico trapista, Thomas Merton, define tudo isso como um estado de “baixa definição”. Com base em Heidegger e Mestre Echart, ele recorre ao termo gelassenheit, identificando-o de forma singela, como um “deixar rolar, largar-se”. Isso significa não se deixar enredar ou ser estorvado por sistemas, palavras e projetos. Sobretudo viver a experiência profunda de uma liberdade renovadora [15]. O estado de contentamento vem acompanhado de quietação (jing), de quietude da mente, de equilíbrio interior. Tal estado significa um retorno à própria natureza, um acalmar-se junto ao Uno (TTK 16). É o passo que propicia o caminho da sabedoria [16]. Não deixa de ser um elogio à “fragilidade".
Aqui no Brasil, um de nossos maiores compositores e letristas, Gilberto Gil, é um entusiasta defensor do wu wei. Toda a sua experiência de vida, os momentos que passou na prisão, nos tempos da ditadura militar, acionaram ricas experiências de meditação firmadas no yoga, no taoísmo e no budismo zen. Em recentes reflexões, Gil evoca a questão da quietação, do relaxamento e do sossego. Sublinha que antes estava voltado para a busca, hoje vive uma liberdade diferencial. Como indica, “se a graça quiser, a graça vem e me dá. Se eu tiver que relaxar, eu relaxo” [17]. São momentos particulares, marcados por um sadio esvaziamento. Ele relata que, hoje em dia, quando pensa em meditar, o que lhe vem à cabeça é “não pensar em nada”. O que busca é simplesmente “pertencer à natureza, ao natural”. Foi o que a maturidade lhe trouxe [18]. Hoje, reage tranquilamente às cobranças e determinações: “'Faça! Faça isso e faça aquilo outro. Ganhe mais reconhecimento. Olha lá, ocupe o seu espaço e conquista a sua estátua'. Agora não tem mais nada disso” [19].
Para Gil, trata-se agora de romper com o “caminho esperto” e alcançar “o caminho desperto”. Trata-se de um caminho que podemos identificar com o wu wei, que, aliás, foi tema de uma canção sua: Pop Wu Wei, do CD duplo Quanta, de 1995. Agora, para Gil, o movimento é o movimento da vida. Em outra canção, Ok, Ok, Ok, manifestou-se igualmente contra as cobranças que vêm de toda parte. Aos que querem dele um “papo reto”, um comprometimento que envolve “certezas e fins”, ele reage com sua alma tropicalista: “Meu papo reto sai sobre patins, a deslizar sobre os alvos e metas” [20]. Em programa na GNT, de 26 de junho de 2026, ao ser entrevistado por sua filha, ele comentou que sua mulher, Flora, perguntou-lhe se ele ainda queria hoje alguma coisa da vida. E ele, tranquilamente, respondeu: sossego. Tudo num estilo profundamente wu wei.
Notas
[1] Maria Teresa Román. Presentación. In: Iñaki Preciado Idoeta (Ed.). Los libros del Tao. Tao Te Ching. Madrid: Trotta, 4 ed. 2018, p. 11.
[2] Thomas Merton. A via de Chuang Tzu. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1977.
[3] Lao Tsé. Tao Te King. 3 ed. São Paulo: Attar, 2018, p. 25.
[4] Maria Teresa Román. Presentación. In: Iñaki Preciado Idoeta (Ed.). Los libros del Tao, p. 14.
[5] Iñaki Preciado Idoeta (Ed.). Los libros del Tao, p. 69 e 75.
[6] Vamos sempre siglar o Tao Te King com TTK, seguindo sobretudo duas traduções da obra: de Iñaki Preciado Idoeta (Los libros del Tao) e Stephen Mitchel: Lao Tzu. Tao Te Ching. Madrid: Gaya.1999. Recorreremos ainda à tradução de Marcos Martinho dos Santos: Lao Tsé. Tao Te King. 3 ed. São Paulo: Attar, 2018.
[7] Henri Borel. Wu wei. A sabedoria do não agir. São Paulo: Attar, 2020, p. 30.
[8] AEC – Antes da Era Comum.
[9] Thomas Merton. A via de Chuang Tzu. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 1977.
[10] Iñaki Preciado Idoeta (Ed.). Los libros del Tao, p. 103.
[11] Ibidem, p. 101.
[12] Lao Tsé. Tao Te King. 3 ed. São Paulo: Attar, 2018, p. 91.
[13] Henri Borel. Wu wei. A sabedoria do não agir, p. 17.
[14] Ibidem, p. 33.
[15] Patrick Hart & Jonathan Montaldo. Merton na intimidade. Rio de Janeiro: Fisus, 2001, p. 347.
[16] Iñaki Preciado Idoeta (Ed.). Los libros del Tao, p. 105.
[17] Bené Fonteles. Giluminoso. Gilberto Gil por Bené Fonteles. Brasília/São Paulo: Editora Universidade de Brasília/SESC, 1999, p. 249.
[18] Ibidem, p. 248 e 250.
[19] Ibidem, p. 247.
[20] CD Ok, OK, OK, de 2018, pela Biscoito Fino.
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