14 Julho 2026
"O problema torna-se ainda mais grave quando o estudante que rompe regras passa a ocupar uma posição simbólica de liderança. Não se trata de uma liderança construída pelo exemplo, pela competência ou pelo serviço ao grupo, mas de uma liderança baseada na capacidade de desafiar limites e conquistar aplausos".
O artigo é de Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor, formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG), professor e pesquisador.
Eis o artigo.
Em 2015, o escritor e semiólogo italiano Umberto Eco provocou intenso debate ao afirmar que "o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade". Sua frase, frequentemente interpretada como uma crítica elitista, na realidade expressava uma preocupação mais profunda: a substituição da autoridade do conhecimento pela autoridade da visibilidade. Eco não questionava o direito de todos à palavra, mas alertava para o risco de uma sociedade incapaz de distinguir opinião fundamentada de mera exibição, competência de popularidade, verdade de viralização.
Essa reflexão ultrapassa o universo das redes sociais e encontra um terreno fértil na realidade cotidiana das escolas. Em muitos ambientes educativos, observa-se uma preocupante inversão de valores. Aquele estudante que desafia normas de convivência, desrespeita professores, ridiculariza colegas, depreda o patrimônio ou transforma a indisciplina em espetáculo passa, não raramente, a ser admirado por um grupo de seguidores. A transgressão deixa de ser compreendida como um problema ético e passa a ser interpretada como demonstração de coragem, autenticidade ou liderança.
Forma-se, assim, uma lógica semelhante à descrita por Eco. O prestígio deixa de estar associado ao caráter, ao esforço intelectual, à responsabilidade e ao compromisso com o bem comum. Em seu lugar, instala-se uma cultura da visibilidade, na qual quem provoca maior impacto emocional conquista maior reconhecimento. A notoriedade substitui o mérito; a performance supera a virtude.
As redes sociais ampliam esse fenômeno ao recompensar comportamentos que geram repercussão. O algoritmo não distingue virtude de escândalo; apenas mede engajamento. Quando essa lógica penetra no cotidiano escolar, cria-se um ambiente em que a exposição vale mais do que a formação, a irreverência mais do que o respeito e a capacidade de chamar atenção mais do que a capacidade de aprender. Diversos estudos apontam que as redes sociais podem favorecer a amplificação da desinformação, da polarização e de comportamentos voltados à busca incessante por validação pública.
O problema torna-se ainda mais grave quando o estudante que rompe regras passa a ocupar uma posição simbólica de liderança. Não se trata de uma liderança construída pelo exemplo, pela competência ou pelo serviço ao grupo, mas de uma liderança baseada na capacidade de desafiar limites e conquistar aplausos. O grupo, ao validar essas atitudes, transforma a infração em capital social. Quanto maior a ousadia em desrespeitar normas, maior tende a ser o reconhecimento entre aqueles que confundem rebeldia com liberdade.
Essa dinâmica produz consequências profundas para a educação. Os alunos comprometidos com os estudos, respeitosos e colaborativos frequentemente passam a ocupar um lugar de invisibilidade. A dedicação deixa de ser admirada e, em alguns contextos, chega até mesmo a ser motivo de zombaria. A excelência intelectual é caricaturada; a disciplina é confundida com submissão; o respeito é interpretado como fraqueza. A cultura escolar passa a premiar aquilo que deveria corrigir.
Essa inversão revela uma crise mais ampla da autoridade e da formação ética. Quando a escola perde sua capacidade de transmitir referências morais e culturais, abre espaço para que outras formas de influência ocupem esse vazio. Nesse cenário, o grupo de seguidores passa a definir aquilo que merece admiração, independentemente de qualquer critério ético.
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano, identifica uma sociedade em que a visibilidade e a exposição substituem a profundidade das relações humanas. O valor deixa de residir naquilo que alguém é e passa a depender da quantidade de atenção que consegue atrair. A lógica do espetáculo invade as instituições, inclusive a escola, convertendo comportamentos extremos em mecanismos de reconhecimento social.
É importante ressaltar que a crítica não deve ser dirigida à juventude em si. Os estudantes reproduzem valores que encontram na sociedade adulta. Quando influenciadores, celebridades e figuras públicas alcançam notoriedade justamente por atitudes irresponsáveis, agressivas ou escandalosas, transmite-se aos jovens a mensagem de que transgredir é um caminho legítimo para conquistar reconhecimento. A escola apenas reflete, em escala reduzida, uma cultura que frequentemente confunde fama com grandeza.
Diante desse cenário, torna-se urgente recuperar o verdadeiro sentido da liderança. O líder autêntico não é aquele que acumula seguidores, mas aquele que inspira pelo exemplo. Não é quem desafia toda norma, mas quem compreende que a liberdade só existe quando acompanhada da responsabilidade. Não é quem transforma o desrespeito em espetáculo, mas quem promove a convivência, a justiça e o cuidado com o outro.
Educar significa, portanto, restaurar critérios de discernimento. Significa ensinar que nem tudo o que recebe aplausos merece admiração e que nem toda popularidade representa virtude. A missão da escola permanece a mesma: formar pessoas capazes de pensar criticamente, agir com responsabilidade e reconhecer que a verdadeira autoridade nasce da integridade moral e do compromisso com o bem comum.
Talvez a maior atualidade da advertência de Umberto Eco esteja justamente nesse ponto. O verdadeiro perigo não é que existam pessoas que desafiem normas ou expressem opiniões superficiais — isso sempre existiu. O risco aparece quando a sociedade deixa de valorizar o conhecimento, a ética e a responsabilidade e passa a transformar a transgressão em espetáculo e o aplauso em critério de verdade. Quando isso acontece, o "idiota da aldeia" deixa de ser apenas uma figura isolada e passa a representar um modelo de sucesso, influenciando uma geração inteira que aprende a confundir notoriedade com liderança e visibilidade com virtude.
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