Quando o discurso do sucesso despreza a formação. Artigo de Robson Ribeiro

Foto: Rut miit/Unsplash

Mais Lidos

  • Provocações sobre teologia contextual. Artigo do Cardeal Víctor Manuel Fernández

    LER MAIS
  • Roteiro de Dark Horse: Bolsonaro ganha aura divina em filme estrelado por ator de A Paixão de Cristo

    LER MAIS
  • Uma reflexão teológica sobre a Ascensão de Cristo. Artigo de Fabian Brand

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

16 Mai 2026

"Quando o sucesso passa a ser percebido como produto de visibilidade e não de construção; quando a autoridade passa a ser confundida com alcance; quando a imagem substitui substância; e quando a educação é tratada como obstáculo, o que se forma não é uma cultura de emancipação, mas uma cultura de fragilidade intelectual", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor. É formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).

Eis o artigo.

Há uma inversão cultural em curso que precisa ser nomeada com clareza: passamos a admirar os resultados enquanto desprezamos os processos que os tornam possíveis. A sociedade contemporânea, profundamente capturada pela lógica da visibilidade, da performance e da validação instantânea, construiu uma narrativa sedutora segundo a qual sucesso, reconhecimento e influência podem ser alcançados independentemente da formação, da disciplina, do compromisso e do esforço intelectual. Não se trata apenas de uma mudança comportamental; trata-se de uma deformação antropológica que afeta diretamente a maneira como compreendemos educação, trabalho, autoridade e mérito.

A gravidade dessa distorção se intensifica quando discursos dessa natureza emergem justamente de pessoas inseridas em universos altamente competitivos, nos quais excelência, consistência e estratégia não são opcionais, mas pressupostos elementares de sobrevivência profissional. Quando encontramos profissionais vinculados ao marketing e à comunicação na área esporte relativizando o valor da educação formal, do compromisso e da responsabilidade, o problema deixa de ser mera opinião pessoal para se tornar sintoma de um fenômeno mais amplo: a glamourização da superficialidade e a romantização do improviso como se fossem virtudes profissionais.

O aspecto mais contraditório dessa narrativa é sua fragilidade diante da realidade concreta. O esporte, frequentemente exaltado como espaço de superação, meritocracia e performance, desmonta imediatamente qualquer tentativa de desprezar o valor do processo. Nenhum atleta de alto rendimento constrói trajetória relevante à base de espontaneidade ou conveniência. Não há excelência atlética sem rotina exaustiva, sem repetição disciplinada, sem correções permanentes, sem renúncias concretas e sem uma ética rigorosa do esforço. O pódio, tão celebrado publicamente, representa apenas a superfície visível de uma estrutura profundamente marcada por trabalho silencioso, desgaste emocional e perseverança cotidiana.

Essa mesma lógica vale para qualquer campo profissional sério, inclusive aqueles fortemente associados à imagem pública. O marketing, área de amplitude e grande alcance, não opera por improvisação emocional, mas por leitura estratégica, compreensão de comportamento, posicionamento institucional, coerência comunicacional e inteligência relacional. A credibilidade, nesse ambiente, não é um ornamento; é um ativo construído lentamente. A autoridade profissional não emerge da aparência, mas da consistência entre discurso, competência e entrega. Defender o contrário equivale a vender uma ficção perigosa para aqueles que ainda estão construindo sua percepção sobre sucesso e realização.

O problema pedagógico desse discurso é profundo porque ele produz uma pedagogia implícita da desresponsabilização. Ao sugerir que educação, esforço e compromisso seriam dimensões supervalorizadas ou secundárias, transmite-se às novas gerações a ilusão de que o reconhecimento pode ser conquistado sem preparo, de que a visibilidade pode substituir competência e de que a performance pública basta para legitimar trajetórias. Trata-se de uma mensagem particularmente nociva num tempo em que já se observa crescente dificuldade de concentração, baixa tolerância à frustração e enfraquecimento da disciplina intelectual.

A cultura digital intensificou essa crise ao produzir a ilusão de instantaneidade em praticamente todas as dimensões da vida. O consumo fragmentado de conteúdos, a aceleração das interações e a lógica algorítmica da recompensa imediata alteraram profundamente a percepção coletiva sobre tempo, esforço e aprendizagem. Tudo parece rápido quando editado. Tudo parece espontâneo quando cuidadosamente roteirizado. Tudo parece acessível quando o percurso permanece oculto. Essa estética da facilidade, contudo, não altera a estrutura da realidade. O conhecimento continua exigindo tempo. A maturidade continua exigindo travessia. A excelência continua exigindo repetição, erro, revisão e persistência.

É precisamente aqui que a educação se torna incômoda para a mentalidade contemporânea, porque ela impõe limites à fantasia do imediatismo. Aprender seriamente exige aceitar a lentidão do processo formativo. Exige suportar o desconforto de não compreender imediatamente. Exige disciplina diante da repetição. Exige humildade intelectual diante da correção. Exige permanência quando a cultura ensina fuga. A escola, em seu melhor sentido, não oferece apenas conteúdos; oferece formação de caráter cognitivo e moral. Ensina a lidar com frustração, complexidade, responsabilidade e continuidade.

Por isso é intelectualmente desonesto reduzir a educação a uma formalidade dispensável ou a um ritual sem relevância diante das novas formas de comunicação e mercado. A história concreta das profissões demonstra exatamente o contrário. O médico sem formação compromete vidas. O advogado despreparado compromete direitos. O educador sem repertório compromete consciências. O comunicador irresponsável compromete a verdade pública. Não há qualquer racionalidade séria que permita sustentar que justamente no universo da comunicação, da imagem e do esporte as exigências de competência poderiam ser menores.

A contradição mais aguda talvez esteja no fato de que até mesmo aqueles que constroem marcas públicas dependem profundamente das estruturas que certos discursos tentam desqualificar. Não existe identidade profissional consistente sem reflexão. Não existe reflexão sem repertório. Não existe repertório sem estudo. Não existe autoridade sem preparo. Não existe credibilidade duradoura sem coerência ética. O que frequentemente se vende como espontaneidade é, muitas vezes, o resultado final de processos altamente estruturados — ainda que invisíveis ao público.

A crítica, portanto, não é dirigida aos novos meios de comunicação nem às transformações legítimas do mercado contemporâneo. O problema está na irresponsabilidade intelectual de converter exceções aparentes em regra pedagógica e de oferecer às novas gerações uma caricatura do sucesso baseada na negação dos próprios fundamentos que sustentam qualquer realização duradoura. Uma sociedade que passa a ridicularizar esforço, educação e responsabilidade não está se tornando mais livre ou mais inovadora; está apenas empobrecendo seus critérios de excelência.

O verdadeiro risco dessa mentalidade não é apenas individual, mas civilizacional. Quando o sucesso passa a ser percebido como produto de visibilidade e não de construção; quando a autoridade passa a ser confundida com alcance; quando a imagem substitui substância; e quando a educação é tratada como obstáculo, o que se forma não é uma cultura de emancipação, mas uma cultura de fragilidade intelectual. E sociedades intelectualmente frágeis são particularmente vulneráveis à manipulação, ao superficialismo e à erosão de qualquer compromisso sério com a verdade, com o trabalho e com a formação humana.

Leia mais