Uma Igreja em sua totalidade, e não um "Papa solista". Sínodo sobre a sinodalidade, catolicidade e o ministério do Bispo de Roma. Artigo de Klara Csiszar

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14 Julho 2026

"Leão XIV pode, assim, tornar-se o 'tradutor institucional' do legado sinodal de Francisco — não imitando seu estilo, mas traduzindo suas intuições em formas institucionais e de direito canônico que sejam vinculantes também para futuros pontificados."

O artigo é de Klara Csiszar, publicado por 12-07-2026. A tradução de Luisa Rabolini.

Klara Csiszar é professora de Teologia Pastoral na Universidade Católica Privada de Linz desde 2019. Atua como vice-reitora da universidade e decana da Faculdade de Teologia, além de ser membro do grupo sinodal da Conferência Episcopal Austríaca. Participou do Sínodo sobre a Sinodalidade como consultora.

Eis o artigo. 

O Papa Francisco abriu caminho para a sinodalidade. Agora, cabe ao seu sucessor tornar essa transição mais concreta, isto é, criar estruturas juridicamente vinculantes. Isso determinará a natureza da catolicidade no século XXI.

Quando me pediram para opinar sobre o próximo Papa, nos dias que antecederam o conclave, meus pensamentos voltaram-se instintivamente não para o poder ou para um nome, mas para o perfil, a experiência e a atitude. Parecia-me essencial que o bispo tivesse "o cheiro das ovelhas", que tivesse vivido tempo suficiente "na linha de frente" em vez de apenas atrás de uma escrivaninha; um bispo que se sentisse familiarizado com vários idiomas e tivesse amadurecido em meio a culturas diversas; alguém que não se limitasse a gerir conflitos, mas os visse como oportunidades de crescimento e tivesse aprendido a discernir por meio deles. Nenhum Papa cai do céu. Ele cresce no seio de Igrejas locais concretas, repletas de divisões e de trajetórias de busca e aprendizado, e, nesse aspecto, nossa Igreja oferece uma escola de experiência decididamente exigente. Pensei que o futuro Papa precisava ser católico — no sentido literal da palavra.

Atualmente, encontramo-nos na fase de implementação dos resultados do Sínodo sobre a Sinodalidade (2021–2024). Portanto, quem reflete hoje sobre o ministério petrino não pode mais conceber a pessoa que o exerce como um guardião solitário da unidade. Ao contrário, deve vê-la em meio a um Povo de Deus de múltiplas vozes — um povo que caminha junto, escuta a realidade, discerne e assume responsabilidades; um povo que reflete sobre o Concílio Vaticano II até a sua aplicação prática e incentiva a tradução desse Concílio para as diversas culturas do mundo. Nessa perspectiva, também se delineia uma nova maneira a colegialidade episcopal: não como um organismo acima do Povo de Deus, mas como responsabilidade de orientação ligada à comunhão de todos os batizados — especificamente no sentido do significado original de hierarquia como ordenação dos ministérios para o benefício de toda a Igreja.

Nesse contexto, o pontificado do Papa Francisco adquire grande relevância. Com o Sínodo sobre a Sinodalidade, ele iniciou um dos processos consultivos mais abrangentes da história da Igreja e transformou a sinodalidade de um tema marginal em um fio condutor central que define a própria identidade da Igreja. Um fator determinante foi sua decisão de integrar o documento final do Sínodo sobre a Sinodalidade ao seu magistério ordinário sem emitir uma carta pós-sinodal separada. Assim, a sinodalidade não é apenas recomendada, mas se torna a estrutura dentro da qual podem ser compreendidos o ministério papal e suas futuras margens de ação sub Petro et cum Petro.

Francisco – profeta da sinodalidade, não seu aperfeiçoador

O Sínodo sobre a Sinodalidade, inaugurado por Francisco, foi muito mais do que apenas mais uma assembleia episcopal. Foi um processo espiritual para a Igreja universal, com o objetivo de conduzi-la para fora da introspecção voltada para si mesma, para um caminho compartilhado com todos os homens e todas as mulheres. Em seu cerne não havia um pacote de reformas já prontas, mas a missão evangelizadora e, consequentemente, a escuta conjunta, o encontro mútuo e a prática do discernimento espiritual. A sinodalidade não surgiu como um procedimento técnico, mas como uma forma de vida comunitária orientada para os sinais dos tempos, para a Sagrada Escritura e para a missão realizada no cerne das mais disparatadas culturas do mundo.

Francisco vinculou estreitamente esse conceito de sinodalidade ao seu estilo pessoal e político. Seus gestos de proximidade, sua clara opção pelas periferias e sua maneira de falar que levava a sério os sofrimentos do mundo, conferiram ao processo sinodal seu caráter distintivo.

A imagem do "cheiro das ovelhas" expressava um estilo de liderança concebido sobre a ideia de proximidade e não de distância. Um papa que busca agir sinodalmente escuta antes de falar e viabiliza processos antes de tomar decisões.

O pontificado de Francisco pode ser definido como profundamente profético, mas apenas em certa medida como estruturalmente sinodal. Empregando um estilo de trabalho muitas vezes quase experimental — caracterizado pelo uso frequente do motu proprio — Francisco modificou rapidamente leis, introduziu novos procedimentos e redefiniu papéis. Ao fazer isso, abriu portas antes consideradas fechadas, em especial para os leigos, para as mulheres e para novas formas de participação. Ao mesmo tempo, muitas coisas continuaram sendo provisórias. Ainda falta a consolidação jurídica e institucional dessas aberturas; sem ela, correm o risco de se tornarem meros trajetos extraordinários de um único pontificado. É precisamente aqui que, após a morte de Francisco, surgiram muitos temores. Uma questão recorrente era se o novo Pontífice daria continuidade ao caminho trilhado por seu antecessor ou se o pontificado subsequente retornaria a modelos anteriores.

Nesse sentido, Francisco lançou as bases que indicam uma direção difícil de ignorar, sem, contudo, ter delineado todos os trajetos. Assim, embora tenha colocado a sinodalidade no centro como um "estilo de vida" para a Igreja e lhe tenha conferido sanção magisterial, também lhe legou uma tarefa imensa. De fato, a mudança cultural que iniciou deve ser traduzida em estruturas, direitos e procedimentos, para que a sinodalidade não dependa do carisma de um Papa, mas possa se tornar a forma normal da vida eclesial.

Leão XIV teve que começar precisamente por esse ponto no início de seu pontificado. Não partiu do zero, mas sim de um terreno sinodal que Francisco já havia preparado: o Sínodo sobre a Sinodalidade havia sido concluído, seu documento final havia sido reconhecido e um roteiro para a fase de implementação já estava disponível. Contudo, o terreno sinodal existia primordialmente como impulso cultural, e não como estrutura juridicamente consolidada. Portanto, Leão não se limitou a assumir um projeto já pronto, mas sim um grande canteiro de obra.

O Papa agora se movimenta num contexto repleto de tensões: por um lado, há quem nutra grandes expectativas em relação ao Sínodo sobre a Sinodalidade, encarando-o como uma oportunidade para mudanças duradouras rumo à participação, à igualdade de gênero e à descentralização. Por outro lado, crescem as preocupações de que o ministério papal possa perder seus contornos distintos devido às exigências de participação e às dinâmicas de processo. Leão XIV deve, portanto, tanto proteger quanto fortalecer os processos sinodais e refinar o perfil específico do ministério petrino, por meio do qual é chamado a garantir a unidade para além das igrejas locais. Essa dupla tarefa resulta particularmente evidente onde Francisco realizou passos corajosos, mas ainda não totalmente consolidados do ponto de vista jurídico. A nomeação de mulheres e leigos para cargos de liderança, novos modelos de órgãos consultivos e um maior recurso às conferências episcopais e aos órgãos continentais apontam para uma primazia definida não tanto pela centralização curial, mas pela interação entre sinodalidade e colegialidade. Leão XIV enfrenta agora a tarefa de levar esse desenvolvimento além de sua fase provisória e dar-lhe uma forma que não dependa de sua própria pessoa.

Dessa forma, as estruturas duradouras tornam-se a marca central para o futuro do papado. A linguagem sinodal e os novos protagonistas, por si sós, não bastam. É crucial que o ordenamento da Igreja seja reelaborado para que a participação dos batizados, a corresponsabilidade dos bispos e os processos consolidados de discernimento espiritual se tornem uma normalidade confiável.

Leão XIV pode, assim, tornar-se o "tradutor institucional" do legado sinodal de Francisco — não imitando seu estilo, mas traduzindo suas intuições em formas institucionais e de direito canônico que sejam vinculantes também para futuros pontificados.

Nessa fase de transição se insere a decisão de Leão XIV de reunir novamente o Colégio dos Cardeais em um consistório extraordinário. Enquanto Bento XVI e Francisco fizeram uso mínimo desse órgão como instrumento de consulta, Leão já realizou um consistório e tem outro agendado. Resta saber se isso levará à transformação do círculo até aqui exclusivo do Conselho de Cardeais em um instrumento consultivo mais amplo, ou seja, como mudará o Colégio como um todo. É possível que, mais cedo ou mais tarde (mais cedo do que tarde...), vejamos mulheres cardeais em suas fileiras, assim como em outros lugares se encontram diáconas? Nomes como Simona Brambilla ou Raffaella Petrini certamente são imediatamente lembrados.

É precisamente nesse ponto que está ocorrendo uma mudança silenciosa, porém profunda, no ministério papal: o Papa continua sendo a instância da decisão final, mas as decisões não são mais vistas principalmente como atos de uma liderança isolada, mas, sim, como síntese de um processo espiritual prévio compartilhado. O ministério adquire consistência ao ancorar-se mais firmemente à vocação batismal compartilhada por todos, à colegialidade dos bispos e à prática — muitas vezes exigente — dos órgãos sinodais em nível local.

O que, à primeira vista, pode parecer uma perda de poder revela-se, sob um olhar mais atento, como um aprofundamento do ministério petrino. Poderíamos resumir assim: Leão XIV pensa de forma estratégica, estrutural e sustentável; conhece as tensões inerentes a uma Igreja multiforme — e é capaz de exercer o papado de uma maneira realmente católica.

Isso volta a apresenta a questão da catolicidade. Tradicionalmente, o Papa representa a unidade da Igreja. Em um mundo globalmente interconectado e, ao mesmo tempo, fragmentado, o Papa representa o fato de a Igreja ter que reaprender o que significa ser "católica". Não entendida como forma única que se sobrepõe a todas as outras, mas sim como uma unidade na qual a diversidade de línguas, culturas, carismas e estilos de vida — doada pelo Espírito —, e suas respectivas expressões de fé, não sejam sufocadas, mas libertadas.

Eu mesmo sonho com uma Igreja do futuro onde a resposta para a pergunta "o que significa ser católico?" seja: a capacidade de gerir a pluralidade, de forma que possa transparecer sua beleza, e onde a pluralidade seja vivenciada não como uma ameaça, mas como um dom. A unidade na missão pressupõe — no espírito do Concílio — a promoção da diversidade. O Evangelho só pode encontrar ressonância em toda parte se tomar forma nas muitas línguas do mundo: tanto em contextos indígenas quanto nas grandes cidades secularizadas da Europa, tanto nas democracias frágeis quanto nas regiões politicamente instáveis. Uma Igreja que aprende a escutar de modo sinodal aprende, ao mesmo tempo, a ser católica no sentido literal do termo: aberta, de ampla visão e disposta a aprender.

A lógica da encarnação confere uma profundidade teológica a esse processo de aprendizado. Deus não se torna homem "em geral", mas dentro de uma história, uma língua e uma cultura concretas. É precisamente essa particularidade radical que abre o horizonte universal. A encarnação é, portanto, sempre também um enaltecimento da diversidade, do concreto e do histórico. Aqueles que pensam de maneira católica não fugirão para um universalismo abstrato nem permanecerão presos a identidades particulares; em vez disso, manterão ambas as posturas unidas: o enraizamento no mundo que habitam e a disponibilidade para reconhecer Cristo nas diversas formas de sua humanidade e se deixarem cativar por essa diversidade.

O "cheiro das ovelhas" deve ser mantido

Aqui, o ministério papal assume um novo perfil. O Papa não é o guardião de uma uniformidade, mas o servidor de uma unidade que abraça a diversidade, a põe à prova e faz com que brilhe. Sua tarefa é marcar os limites além dos quais a diversidade perderia seu centro interior — Cristo e o Evangelho — e, ao mesmo tempo, proteger os espaços onde diferentes formas de viver a fé e o cuidado pastoral podem ser experimentadas. A catolicidade vivida de maneira sinodal não significa que "vale tudo"; pelo contrário, significa que muito é permitido e algumas coisas devem ser expressamente incentivadas, para que o katholon — o universal — não se torne uma casca vazia.

Nessa perspectiva, o "cheiro das ovelhas" de que falava Francisco torna-se outro nome para a catolicidade vivida. Um Papa não aprende esse cheiro estudando documentos, mas sim quando se expõe à pluralidade de vozes dos batizados, escuta suas histórias, interpreta com eles a fé e os envolve seriamente na missão da Igreja. Leão XIV traz consigo uma familiaridade com a diversidade nascida de sua história de vida, e possui a capacidade de liderar em sentido católico, caminhando junto com o Povo de Deus — em toda a sua diversidade, suas lutas e sua criatividade muitas vezes surpreendente. Assim, fica a questão de como o ministério papal poderá evoluir sob e após Leão XIV, e onde se situam os seus limites. Os processos sinodais dos últimos anos não aboliram o ministério papal, mas o colocaram em um novo contexto relacional.

Sinodalidade, colegialidade e primazia estão entrelaçadas. Nenhum elemento pode substituir o outro. Um Papa sem o Povo de Deus agiria no vazio; um colégio sem primazia correria o risco de fragmentar-se facilmente em facções regionais, um Povo de Deus sem serviços de liderança confiável cairia na arbitrariedade ou no esgotamento. Precisamente por isso, a sinodalidade torna-se o parâmetro de referência permanente para o futuro do ministério papal. No futuro, um Papa que se considere sucessor de Pedro deverá se mensurar com base no quanto leva a sério o sensus fidei do Povo de Deus, com quanta transparência e espírito de diálogo prepara as decisões junto com o Colégio episcopal, e com quanta clareza, ao mesmo tempo, assume a responsabilidade nas questões decisivas e garante a continuidade. O limite do desenvolvimento sinodal encontra-se naquele ponto em que o serviço à unidade seria abandonado. O potencial de desenvolvimento reside, ao contrário, onde a primazia já não se opõe mais à participação de todos os batizados, mas se perfila expressamente a favor dela.

Francisco abriu esse caminho de maneira profética — e, por vezes, impetuosa; Leão tem a tarefa de aprofundá-lo institucionalmente e estabilizá-lo juridicamente. Os futuros pontificados não poderão simplesmente retornar ao estado de coisas anterior ao Sínodo sobre a Sinodalidade. A consciência sobre o tema cresceu demais para que se possa correr o risco de voltar atrás — no que diz respeito à vocação batismal de todos, aos carismas das mulheres, às responsabilidades das Igrejas locais e à necessidade de uma verdadeira consulta e de um discernimento realizado em comum. Um pontificado que ignorasse esses desenvolvimentos ou tentasse revertê-los não apenas encontraria uma notável resistência, mas também mergulharia o próprio ministério papal em uma profunda crise de confiança.

Transmitir um pouco de céu

A sinodalidade não é, portanto, uma questão marginal, mas um ponto de virada para a configuração do ministério papal no século XXI. Ela não priva o Papa de nenhuma parte de sua indispensável responsabilidade, mas dissipa a ilusão de que tal responsabilidade possa ser exercida apenas "de cima".

Se o papado viesse assim a ser repensado em chave sinodal, um velho ditado poderia ganhar nova relevância: nenhum Papa cai do céu; contudo, talvez ele possa trazer um pouco de céu para a diversidade da Igreja, confiando na capacidade dela de ser verdadeiramente católica. Isso propõe uma profunda mudança cultural. Espera-se que o Papa Leão XIV ainda tenha tempo suficiente para moldar essa mudança de forma duradoura e tornar visível o que hoje significa ser católico.

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