Mil dias de genocídio em Gaza: até quando o mundo vai medir em números uma dor que já deveria ter parado? O que os líderes da extrema-direita têm em comum além da ideologia? Uma forma de governar que transformou o grotesco em método. Calor recorde na Europa, supertufões e as marcas que a enchente do Rio Grande do Sul ainda deixa dois anos depois: estamos preparados para o próximo desastre climático?
Diante de tanta guerra, desigualdade e destruição ambiental, ainda é possível acreditar na humanidade? Pensadores apontam pistas para não perder a esperança: será que o caos também pode ser o começo de algo novo?
Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.
Na medicina, os pediatras apontam que os primeiros mil dias de vida de uma criança são fundamentais para o seu desenvolvimento. É um período crítico, que define bases biológicas e sociais ao longo da vida e afeta até mesmo processo de envelhecer.
Em Gaza, o último dia 3 de julho marcou os mil dias desde o início do genocídio israelense. Autoridades palestinas estimam que mais de 73 mil pessoas foram mortas pelo regime sionista liderado por Benjamin Netanyahu. Destas, são cerca de vinte e uma mil crianças e mil e vinte e dois bebês, que tiveram o seu futuro ceifado.
São vinte e quatro mil horas de um imenso sofrimento que continua até hoje. Conforme reportagem publicada por El Salto, durante esse período, 223 mil toneladas de explosivos foram lançadas sobre a Faixa de Gaza, o que representa três vezes mais a quantidade lançada sobre Berlim, Dresden e Londres juntas durante a Segunda Guerra Mundial.
Em artigo publicado pelo site Contexto Y Acción, o jornalista Diego Delgado, aponta esse triste marco como a representação de algo muito maior. “Mil dias de genocídio. Quatro palavras que resumem muitas décadas de apartheid mais ou menos silencioso, um conflito como resposta à resistência de um povo que não quer ser aniquilado e, acima de tudo, uma forma de se relacionar com o mundo muito em sintonia com aqueles que hoje apagam mil velas para cada noite que adormeceram plenamente conscientes de que a limpeza étnica está sendo cometida com sua cumplicidade”.
Existe algo que aproxima Donald Trump, Javier Milei, Benjamin Netanyahu e outras lideranças da extrema-direita mundial. Não é apenas uma agenda econômica ou um posicionamento ideológico. É uma forma de governar baseada no espetáculo, na humilhação e na transformação do absurdo em rotina. O grotesco deixou de ser exceção. Tornou-se método de governo.
O jornalista Jorge Zepeda Patterson chama esse fenômeno de "o triunfo do infame". Segundo ele, aquilo que antes desmoralizava um governante hoje fortalece sua imagem pública. O insulto virou autenticidade. A mentira passou a ser interpretada como coragem. A crueldade é celebrada como demonstração de força. O que deveria provocar vergonha passou a produzir aplausos.
Talvez seja por isso que a guerra também tenha se transformado em espetáculo. Em junho de 2026, Donald Trump anunciou um cessar-fogo entre Israel e Irã. Essa semana, o acordo desmoronou e os ataques voltaram. Em seguida, Trump voltou às redes sociais para cobrar publicamente que Israel interrompesse os bombardeios e afirmou estar "descontente" com os dois lados. A diplomacia passou a acontecer diante das câmeras. Enquanto isso, quem continua morrendo são civis que jamais participaram dessas decisões.
O Irã respondeu aos bombardeios americanos atacando bases militares no Golfo Pérsico. Ao mesmo tempo, reforçou que manterá o controle do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no planeta.
O resultado é um mundo cada vez mais militarizado. Quanto maior a tensão geopolítica, maiores os investimentos em armamentos. Quanto maiores os investimentos em armamentos, menores parecem ser os recursos destinados ao combate à fome, às mudanças climáticas e às desigualdades.
Nunca se investiu tanto em guerra. E nunca convivemos com tantos milhões de pessoas em situação de fome, deslocamento forçado e insegurança alimentar. A humanidade demonstra possuir recursos quase ilimitados para destruir. Mas continua alegando falta de recursos para proteger a vida.
De certa forma, o planeta Terra foi forçado pela humanidade a conviver com o grotesco em sua rotina. As mudanças climáticas, provocadas principalmente pela queima de combustíveis fósseis, mineração, agronegócio e desmatamento, já fazem parte do nosso cotidiano.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a Europa deve ser preparar para a possibilidade do continente enfrentar “semanas mais mortais” com a disparada dos termômetros. Uma reportagem do ClimaInfo indica que já são mais de 9 mil mortes associadas às altas temperaturas na última onda de calor, no fim de junho de 2026, sendo 5 mil somente na Alemanha.
A onda de calor de 20 a 28 de junho foi a mais severa já registrada na Europa, de acordo com especialistas. As altas temperaturas interromperam a geração de energia elétrica, danificaram a infraestrutura e sobrecarregaram os sistemas de saúde.
Com o aumento das temperaturas do oceano Pacífico, a chegada de um Super El Niño se mostra cada vez mais iminente e alguns sinais do seu impacto já podem ser sentidos.
Depois de tantas histórias marcadas pela guerra, pela desigualdade, pela destruição ambiental e pela precarização da vida, resta uma pergunta inevitável. Como continuar acreditando na humanidade quando tantas notícias parecem apontar justamente para o contrário? Talvez a esperança não seja negar o sofrimento. Talvez ela comece justamente quando olhamos para ele sem desviar os olhos.
O filósofo italiano Roberto Esposito convida a abandonar uma visão simplista do caos. Ele lembra que a história da humanidade nunca avançou por caminhos lineares. As grandes transformações nasceram justamente de períodos de profunda instabilidade.
O caos pode significar perda, insegurança e ruptura. Mas também representa o momento em que antigas estruturas deixam de fazer sentido e novas possibilidades começam a surgir. Toda ordem verdadeiramente nova nasce de uma desordem anterior.
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