11 Julho 2026
"Diante de propostas diferenciadas e, às vezes, em conflito, auspica-se o momento da integração das diferenças, que seriam discernidas e não suprimidas. Enfim, se deduz que a decisão nunca nasce pronta, de forma imediata e milagrosa, mas é gestada gradualmente num processo comunitário, que, porém, não pode substituir a responsabilidade dos pastores".
O artigo é de Flávio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá, no Maranhão, e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Eis o artigo.
Recentemente, não foram documentos e eventos eclesiais que me obrigaram a refletir novamente sobre a sinodalidade. Efetivamente, foi durante um processo de construção de uma celebração em memória de dois irmãos, testemunhas do Evangelho, que experimentamos imprevistas complicações e tensões. O grupo era formado por alguns padres e por leigas e leigos, pertencentes à diferentes paróquias da diocese. Biografias e caminhos eclesiais diversos, mas inspirados pela profecia martirial de dois irmãos.
Envolvido nesta construção coletiva de um evento, foi somente agora, depois de muitas décadas de caminhada, que, participando do debate, que em algum momento chegava a ser conflituoso, entendi algo que aconteceu em 1987, durante a preparação, no Seminário da América Latina em Verona, para a minha definitiva chegada ao Brasil.
Entre muitas preciosas orientações sugeridas pelos organizadores do curso, foi proposta também uma espécie de psicodrama. Éramos um grupo de poucos padres, muitas freiras e alguns leigos e leigas, cerca de 30 pessoas. Os facilitadores nos convidaram a organizar uma viagem – não lembro para onde – com todos os detalhes organizativos e nos deixaram completamente livres de propor, discutir, traçar estratégias.
O resultado foi a meu ver desastroso: confusão, disputas, desorganização. Não era só ficção; não era só teatro; virou algo real, com responsabilidade, debates, decisões concretas. No começo, todo mundo topa, “vamos organizar um projeto”; tudo parece ser responsável, divertido, criativo.
Mas, rapidamente, surge o conflito real: Quem decide? Quem manda? Aí aparecem: disputas de poder; falta de liderança; posturas irônicas, desistências desinteressadas, resistência passiva; cada um puxa para um lado; ninguém quer ceder; decisões não são implementadas; o grupo trava.
Os facilitadores não acharam oportuno o momento da avaliação e deixaram que cada participante fizesse as suas considerações sozinho. Aquela noite não dormi, mas não consegui decifrar o que tinha acontecido. A angústia passou, porque o tempo cura, mas eu não entendi o que tinha acontecido até hoje.
Quarenta anos atrás não entendi uma lição, que hoje não posso recusar: processos de sinodalidade não são brincadeiras, porque grupos sem estrutura clara, tendem ao caos, testam liderança; expõem conflitos; mostram limites da cooperação espontânea; desmontam a ideia de que basta boa vontade.
E a gente descobre algo que me caracteriza até hoje: a dialética entre uma autêntica postura antiautoritária e a convicção de ter algo de importante a propor. E saber que este desequilíbrio não habilita para encarar conflitos, sem que não sobrem feridas.
O conflito, porém, poderia produzir novidades, com a emergência de competências e papeis diferenciados, que contribuem a processos menos desarmônicos, sem recorrer a votações democráticas, que autorizam o papel decisório da maioria ou a confirmação do poder de governo de hierarquias preestabelecidas.
O documento da Comissão Teológica Internacional A Sinodalidade na Vida e na Missão da Igreja (2018) nos apresenta o processo de desenvolvimento de uma decisão na sinodalidade, indicando o método a ser seguido.
Primeiro a desarmada e respeitosa escuta recíproca: todos se expressam e todos são ouvidos.
Em seguida, o Ver, a leitura dos sinais dos tempos: as conjunturas sociopolíticas, o contexto cultural, as cruzes e as esperanças dos povos, as crises da Igreja...
Segue o Julgar, o confronto para o discernimento espiritual: escuta da Palavra de Deus, silêncio, oração, propostas teológico-pastorais.
Diante de propostas diferenciadas e, às vezes, em conflito, auspica-se o momento da integração das diferenças, que seriam discernidas e não suprimidas. Enfim, se deduz que a decisão nunca nasce pronta, de forma imediata e milagrosa, mas é gestada gradualmente num processo comunitário, que, porém, não pode substituir a responsabilidade dos pastores.
Concluindo, temos a tomada de decisão. O Agir. Quem decide? Segundo a CTI: o povo participa do discernimento; os pastores decidem; o bispo confirma e assume a responsabilidade final. O processo sinodal envolve escuta, diálogo, participação dos fiéis, discernimento comunitário, mas a decisão final cabe ao ministério ordenado, não ao conjunto dos participantes. Ou seja, todos participam do caminho, mas não todos decidem. Em suma, sinodalidade não é democracia interna, mas um modo de caminhar juntos sem alterar a estrutura hierárquica da autoridade.
Papa Francisco também não elimina a autoridade episcopal, mas redefine como ela deve funcionar: autoridade exercida em escuta, não em comando; decisões tomadas em comunhão, não em isolamento; bispos como garantes do discernimento, não donos da verdade; o papa como servo da unidade, não chefe administrativo. Ele, numa perspectiva anticlerical, mantém a estrutura hierárquica, mas muda o estilo de exercício da autoridade.
Na verdade, a minha impressão é que somente a redistribuição do poder decisório possa alterar o processo e alcançar um efetiva sinodalidade. O que temos parece ser uma conciliação impossível entre caminhar juntos e sinédrioi, sentar juntos para deliberar.
Não é nova esta tensão; ela é central na Lumen Gentium, a Constituição Dogmática sobre a Igreja do Concílio Vaticano II (1964), que procurou integrar tradições diversas sem conseguir eliminar completamente a polaridade entre a Igreja, como Povo de Deus (cap. II) e a sua constituição hierárquica (cap. III). O Concílio enfatiza a dignidade comum de todos os batizados, mas também reafirma o ministério específico dos bispos e do Papa.
Esta polaridade parece não ter solução teológica. Junto com o monge amigo Marcelo Barros, parece-me lícito afirmar que, diante das crises da nossa Igreja, só temos dois caminhos possíveis: o do cisma e da heresia, escolha recente também dos Lefebvrianos e o da profecia, como humilde tentativa da sequela de Jesus, da sua Palavra e ortopráxis.
Encontramos confirmação da inviabilidade de soluções parciais e reformistas, quando pensamos nas dificuldades de quem fazia oposição ao primeiros passos da Cristandade, no IV século. A solução foi profeticamente silenciosa. Quem, imediatamente, reagiu a traição constantiniana foram os monges da Tebaida, os Padres e as Madres do deserto, eremitas e cenobitas, que reagiram pacificamente, mas contundentemente, à liquidação da radicalidade dos mártires; silenciosa profecia, contestação radical do kurios imperial. Dedo apontando o verdadeiro kurios, o Senhor crucificado e ressuscitado. O filho do homem, que é o Senhor kenótico não somente da história, mas também do Universo inteiro.
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