11 Julho 2026
"Acredito que inconscientemente os homens nutrem uma mistura de inveja e ódio pelo corpo feminino: objeto de desejo legítimo e natural, se assim não fosse a espécie humana certamente não teria sobrevivido, instrumento de prazer e, ao mesmo tempo, laboratório fantástico onde é gerada a vida humana; um corpo capaz de se transformar, durante a gestação, no berço da vida", escreve Rosa Matteucci, escritora italiana, em artigo publicado por Donne Chiesa Mondo, 09-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O “dmônio” que sempre insidia a figura feminina é aquele que escolheu o corpo das mulheres, forma e substância imprescindível do ato de estar vivo. A aparência feminina nunca está certa, nunca esteve certa; por um decreto sádico-demente, o corpo da mulher deve ser modificado, humilhado e exaltado conforme os ditames do meretrício, transformado para satisfazer padrões fora de qualquer lógica, padrões inconcebíveis servilmente aceitos buscados com afinco e dedicação. Desde o início dos tempos, as mulheres perseguem uma quimera, um ideal de beleza que acompanha os tempos e significa aceitação social e status. Para alcançá-lo, sempre consentiram que seus corpos fossem torturados, avaliados, criticados, escrutinados, seccionados e, acima de tudo, julgados; para atingir o objetivo, a beleza definida por padrões de cada época que sempre significaram uma sombria conformação, as mulheres não hesitaram em forçar seus corpos em gaiolas e modeladores: instrumentos punitivos como os espartilhos, melhor ainda se reforçados por barbatanas de baleia, que geraram gerações de mulheres pálidas e ressecadas.
Junto com o corpete, concebido para comprimir os órgãos internos, surgiram calçados que ignoravam a morfologia natural do pé humano; sapatos desenhados para a anatomia de uma linguiça, ou seja, elevados sobre plataformas que propiciavam luxações de quadril e, na melhor das hipóteses, o advento da temporada dos joanetes. Um corpo perpetuamente aviltado, humilhado e condenado à morte: eis o que o destino nos reservou. Além disso, como auxiliar diabólica do demônio das mulheres, não podemos esquecer a moda, concebida e imposta pelos homens, os estilistas.
Acredito que inconscientemente os homens nutrem uma mistura de inveja e ódio pelo corpo feminino: objeto de desejo legítimo e natural, se assim não fosse a espécie humana certamente não teria sobrevivido, instrumento de prazer e, ao mesmo tempo, laboratório fantástico onde é gerada a vida humana; um corpo capaz de se transformar, durante a gestação, no berço da vida. As mulheres começaram a usar espartilhos no século XVI; sufocadas por múltiplas camadas de saias, por vezes se locomoviam com dificuldade em rudimentares sapatos de plataforma. No entanto, foi apenas no século XIX que ocorreu o fatídico salto de qualidade, a moda tornava-se instrumento de compressão e tortura, prejudicando o corpo feminino e abrindo caminho para as patologias mais disparatadas - privilégio exclusivo das mulheres foram as doenças gastrointestinais e psicossomáticas.
Foi com a febre da moda da "cinturinha de vespa", que explodiu em 1800, que as mulheres inconscientemente sacrificaram seus corpos e sua saúde a um plano de extermínio; pouco mais de um século - temperado por guerras mundiais - separa a era da cinturinha de vespa da era da anorexia. Já na segunda metade do século XX, a estratégia de morte acabou se impondo. Como mulher, mesmo munida de ferramentas de análise crítica, não fui imune aos ditames da moda e aos seus perniciosos efeitos sobre a saúde; durante minha adolescência entrou em cena a "mulher-palito", fenótipo de futuras legiões de agonizantes anoréxicas, personificada pela modelo britânica Twiggy.
Com seu ar travesso, ela nos encarava com seus grandes olhos arregalados das páginas das revistas femininas, vestindo uma minúscula saia que deixava entrever as nádegas, exibindo pernas finas como gravetos e uma pequena boina xadrez; ela encarnava um modelo feminino de eterna adolescente, uma superlolita com todos os atributos sexuais já presentes, embora ainda em estágio incipiente, um corpinho maroto e juvenil que se impunha como ideal de beleza feminina. No entanto, para caber no fatídico tamanho 42, era preciso não apenas uma estrutura esquelética esbelta, mas também a ausência de massa muscular e, acima de tudo, de qualquer resquício de gordura corporal. Assim, a partir da década de 1970, legiões de jovens começaram a fazer "dieta", no sentido de regime alimentar de emagrecimento, a dieta era o único instrumento a disposição para se tornarem cada vez mais magras e, por fim, acabar adoecendo.
Naquela época, patologias como anorexia e bulimia não tinham reconhecimento social e não eram vistas como doenças que ameaçavam a vida; assim, cair na armadilha da anorexia foi muito mais fácil do que beber um copo d’água. Você começa cortando um pouco aqui e ali, identificando um restrito grupo de alimentos que pode consumir sem sentir culpa; pessoalmente, eu comia apenas alimentos brancos, até que, por fim, até esses foram cortados, deixando-me, como a tantas outras, sem ter mais nada de comestível. Nem mesmo o corpo havia sobrado. Daqueles tempos sombrios de doença e desolação, permanece inviolado no fundo da minha alma, nos recônditos da minha memória, a lembrança da privação, da fome absoluta, da definhação e da dor.
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