11 Julho 2026
"A autoridade religiosa já não se fundamenta mais na tradição, no carisma, no conhecimento, no respeito de uma postura moral ou na capacidade de transmitir, mas sim na estatística", escreve Sihem Djebbi, em artigo publicado por Avvenire, 08-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Sihem Djebbi é docente de Ciências Políticas na Universidade Paris XIII-Sorbonne, no Instituto de Estudos Políticos de Paris e na Faculdade Teológica Pontifícia da Itália Meridional (seção "San Luigi", de Nápoles). Atua como formadora junto a ONGs socio-humanitárias e entidades ligadas à defesa na França e na Itália. Suas áreas de especialização e publicações concentram-se na sociologia política do Norte da África e do Oriente Médio, migração, conflitos armados, cooperação internacional e diálogo cristão-islâmico.
Um trecho do ensaio introdutório de Sihem Djebbi, intitulado "Religiões, fé e mudança", publicado na nova edição de “Dialoghi”, a revista trimestral cultural promovida pela AC. A “Dialoghi” é uma ajuda para redescobrir a riqueza de sentido e de valor inerente à concretude dos tempos em que vivemos. Uma "provocação" para olhar para o futuro com esperança. O dossiê que foca "Fé e Mudança" analisa como a fé se posiciona diante das transformações, das crises contemporâneas e dos processos históricos em geral. Hoje, prevalece a percepção de uma aceleração da história, que caracterizaria a nossa época de maneira inédita. Com a modernidade, a historicidade teria adquirido um ritmo que não parou de se intensificar: mudanças cada vez mais frequentes, numerosas e profundas estariam se sucedendo a ponto de não representar mais "objetos históricos". Essa evolução teria como consequência a hipertrofia, a autonomização e até mesmo a “ditadura do presente” que “se torna a categoria histórica dominante da modernidade”, ao passo que passado e futuro tendem a se dissolver. Tal evolução seria fruto do Iluminismo e das revoluções europeias, bem como do desenvolvimento do capitalismo industrial e da inovação tecnológica a partir do século XIX.
Eis o artigo.
As relativas interpretações sobre normas e valores divergem: para alguns, influenciados por Hegel, essa aceleração está ligada à ideia de um progresso inevitável, positivo para a humanidade, apesar das convulsões e das crises. Diversas correntes ideológicas defendem, entre outras coisas, a extremização das dinâmicas sistêmicas atuais para alcançar um objetivo considerado desejado.
O aceleracionismo de esquerda, em especial marxista, busca provocar o fim do sistema capitalista e a emancipação do homem, enquanto aquele de (extrema) direita, formulado a partir da década de 1990, visa ao colapso dos regimes liberais. Em uma reformulação política da teologia escatológica, o bilionário Thiel, um dos principais defensores da Inteligência Artificial (IA), chega a comparar as vozes críticas à inovação tecnológica ao Anticristo. Elas representariam o mal absoluto, pois impõem freios à mudança sistêmica necessária para evitar o colapso geral, apocalíptico. No entanto, na literatura e na sociedade atual prevalece hoje uma visão que se concentra nos riscos que essa aceleração (e a natureza das dinâmicas que a alimentam, em especial em relação a guerras, desigualdades e mudanças climáticas) representa para a sobrevivência da humanidade e do mundo como um todo.
Segundo Bouton, no entanto, essa aceleração da história poderia ser uma ilusão ligada ao "regime de historicidade", isto é, a concepção de tempo que cada sociedade tem, e que é fruto de construções e interpretações. Em particular, esse paradigma está estreitamente ligado à visão ocidental moderna do tempo, tanto em termos religiosos quanto seculares. O filósofo prefere falar em múltiplos regimes históricos que se entrelaçam e coexistem na mesma época e, por vezes, presentes dentro de uma mesma sociedade. Esse Dossiê analisa como as religiões se posicionam diante das mudanças, das crises contemporâneas e dos processos históricos em geral. Que interpretações, respostas e ações elas propõem aos seus fiéis e, por vezes, a toda a humanidade? Que relações se criam, se consubstanciam ou se perpetuam com as outras esferas da vida coletiva, particularmente com aquelas temporais, e com seus próprios seguidores? E, finalmente, como as religiões produzem, por sua vez, mudanças substanciais na evolução do mundo, sendo ao mesmo tempo sujeitas às transformações que ocorrem nas sociedades?
Essa abordagem é particularmente relevante porque, apesar da crescente secularização das sociedades, 84% da população mundial continua a aderir a uma religião dita "tradicional", ainda que com níveis variados de religiosidade.
Durkheim, fundador da sociologia, deixou uma marca duradoura no estudo do fenômeno religioso. Para o sociólogo francês, os conceitos fundamentais de toda sociedade derivam da religião. Ele mesmo definia a religião como "um sistema unificado de crenças e práticas relativas a coisas sagradas, isto é, coisas separadas e interditas, cujas crenças e práticas unem em uma única comunidade moral, chamada Igreja, todos aqueles que a elas aderem". Esse ato de "revinculação" é produzido tanto pelo sagrado, isto é, um conjunto de elementos simbólicos que representam o conteúdo da crença, quanto pelo vínculo social que une os crentes dentro de uma mesma religião. Eliade insiste sobre a existência, “ab origine” para cada religião, da experiência da transcendência. Para levar em consideração as mudanças nas religiões e das modalidades de crença na época atual – menor institucionalização e uma fronteira menos hermética entre sagrado e profano - a socióloga Hervieu-Léger propõe uma definição menos vinculada ao conteúdo simbólico e ritual ou à função social: a religião, ou melhor, a forma de crer religiosa, é "um modo particular de organizar e de
funcionamento da crença", fundamentado na autoridade de uma tradição. Baseia-se, dessa forma, em três elementos essenciais: a existência de um conteúdo simbólico; a existência de uma continuidade ao longo do tempo, um ato de memória estruturado; a referência legitimadora a uma tradição que atua como filiação, seja ela ligada a um texto fundacional (como a Torá ou o Alcorão) e/ou a uma autoridade religiosa (como o magistério na Igreja Católica ou o mestre espiritual nas religiões orientais).
Responder às questões levantadas por este Dossiê nos coloca diante de significativas dificuldades. Primeiramente, a existência uma considerável diacronia e diversidade em termos de abordagens da mudança, do tempo, de Deus, do cosmos e da ação humana, não apenas entre diferentes religiões, mas também entre as diversas tradições dentro de uma mesma religião. Isso é fruto da modernidade, mas também de fenômenos de "cismogênese" consubstanciais ao fenômeno religioso. Consequentemente, tentar formular respostas globalizantes seria ilusório, assim como o seria tentar prestar conta da extrema variedade de abordagens.
Uma segunda dificuldade é representada pela existência de inúmeras influências recíprocas em termos de abordagens entre a esfera religiosa transcendental e aquela secular e racional. Evidenciar o que pertence à interpretação religiosa e aquilo que deriva das visões seculares, arreligiosas e científicas, revela-se particularmente difícil, por vezes, até impossível, dada a profunda interconexão entre as duas esferas.
Este Dossiê, dessa forma, não pretende esgotar a análise do fenômeno, nem oferecer um quadro perfeitamente diferenciado da especificidade da religião em se colocar diante da mudança. Em vez disso, ao destacar as dificuldades metodológicas da análise, convida à reflexão sobre certos aspectos que ilustram como a religião continua a desempenhar um papel único e abrangente na interpretação das evoluções do mundo, nos processos cognitivos dos crentes (e também dos não crentes) e nas próprias evoluções do mundo.
O primeiro aspecto dessa singularidade diz respeito à proposta e à transmissão de sistemas de significado para interpretar o mundo (ou cosmos), a própria existência e aquela da humanidade (ou do próprio grupo sociorreligioso e moral). Embora seja hoje cada vez mais influenciada por abordagens racionais-científicas, a visão do mundo proposta pelas religiões continua a estar ancorada às crenças e convicções ligadas a um conjunto de mitos e símbolos que norteiam a existência e a compreensão de fenômenos terrenos e metafísicos. A verdade divina nunca se confunde totalmente com a verdade em sentido científico, pois diz respeito a elementos metafísicos que transcendem o âmbito da experiência material humana. [...]
A concepção de tempo proposta pelas religiões é [...] extensa, totalizante e transcendental; relativiza o tempo presente em relação a um tempo [...] simbólico e sagrado, no qual o passado e o futuro possuem uma relevância significativa. Quer adotem uma visão cíclica ou linear do tempo (embora sejam duas categorias não herméticas), as religiões pensam o tempo em termos de origem, teleologia, fim e renascimento, tudo isso inserido em um projeto divino para a humanidade e o cosmos. Essa orientação permite interpretações singulares da mudança, condicionadas pelo “ethos” de cada tradição religiosa.
Estreitamente ligada com a concepção do tempo e da história, temos o conceito de esperança, que é posto no centro das teologias religiosas e ao qual se prende a fé, uma esperança na concretização de um mundo ou uma condição melhor, seja na Terra e/ou num mundo não terrestre. A esperança messiânica, escatológica e redentora, por exemplo, é onipresente no Islã, no Cristianismo e no Judaísmo, ainda que as concepções específicas variem significativamente tanto entre essas três religiões abraâmicas quanto no interior de cada uma delas. [...]
Nos momentos de crise e incerteza diante dos eventos enfrentados no presente, é essa esperança (esteja ou não atrelada às próprias ações e responsabilidades) no projeto de Deus e no andamento do mundo que frequentemente representa um recurso para o crente ou o novo-crente, além do recurso oferecido pela espiritualidade e pelo vínculo social da comunidade religiosa. Numerosos estudos demonstraram a correlação entre situações ansiogênicas como catástrofes e a (re)aproximação das pessoas à crença, à fé e à religiosidade. As religiões não se distinguem apenas por oferecer um universo de sentido holístico específico no qual a esperança e a concepção do tempo são centrais, e que confere inteligibilidade a eventos e situações aparentemente desconcertantes. Elas também elaboram doutrinas e fornecem orientações sobre como agir no mundo e sobre si mesmo, em relação à vontade divina e em conformidade com um conjunto de valores que dela deriva: uma "bússola moral".
De fato, as religiões têm sido, e continuam sendo, formidáveis agentes de mudança, por vezes, até mesmo revolucionários. Muitas vezes visam subverter a ordem dominante, um objetivo que muitas vezes se concretizou numa revolução espiritual e temporal. [...] No entanto, as religiões e, em particular, as instituições e as autoridades religiosas, também podem atuar como forças que buscam conter ou resistir à mudança. Existe uma vasta literatura sobre a tendência das religiões de adotar posturas conservadoras e, por vezes, reacionárias. Isso nos impede de aplicar uma análise monolítica ou essencialista das religiões, e nos convida a preferir uma abordagem mais ambivalente e contextualizada das religiões.
A tendência das religiões de acompanharem, rejeitarem ou desencadearem a mudança depende da época, do “ethos” da tradição religiosa e da relação entre poder político e religião, todos eles também fatores evolutivos. Contudo, para se perpetuarem, transmitirem o credo e o rito de uma geração a outra, salvaguardar o núcleo de seus sistemas de valores e evitarem a dissolução, todas as religiões precisam encontrar um equilíbrio entre tradição e mudança. A pergunta essencial que precisam responder é como enfrentar a mudança sem alterar o significado da tradição, ou a própria tradição. Em muitos casos, a preservação da tradição pode transformar-se em uma retórica mobilizadora, frequentemente com finalidade política, que, paradoxalmente, torna-se a própria causa da transformação dessa tradição e da perversão de seu “ethos”. [...]
O aumento dos fundamentalismos e da exaltação da identidade, em detrimento do espírito ético-moral das religiões, é uma tendência sintomática de como, nos momentos de crise, as religiões podem instrumentalizar seus próprios recursos simbólicos e cognitivos para assegurar sua autolegitimação e poder. Esses recursos também são instrumentalizados pela esfera política. O risco de alteração ou perda do “ethos” das religiões, e da dimensão social espiritual, é particularmente agudo hoje, devido ao desenvolvimento da IA que se estendeu ao campo da interpretação religiosa. A rápida proliferação de “chatbots” religiosos e espirituais em todas as religiões está reconfigurando profundamente a forma do crer, os modelos interpretativos e doutrinais e os símbolos, bem como as autoridades religiosas e os canais de transmissão do sentido e do rito. [...]
A autoridade religiosa já não se fundamenta mais na tradição, no carisma, no conhecimento, no respeito de uma postura moral ou na capacidade de transmitir, mas sim na estatística.
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