11 Julho 2026
Para os jovens do mundo todo, as mudanças climáticas deixaram de ser apenas uma “preocupação ambiental” e se tornaram uma crise existencial, sistêmica e de justiça social.
A reportagem é de J. Luis Carpintero, médico, publicada por Rebelión, 10-07-2026. A tradução é do Cepat.
Ao contrário das gerações anteriores, os jovens não exigem apenas conscientização, mas também responsabilidade legal, ações políticas vinculativas e uma transformação radical dos modelos econômicos. No entanto, eles também refletem um aumento na fadiga climática e na frustração com os retrocessos políticos (o chamado greenlash – reação verde) observados em meados da década de 2020.
Diversos estudos sociológicos mostram que a grande maioria dos jovens (frequentemente mais de 80% em várias pesquisas da União Europeia) considera as mudanças climáticas um dos problemas mais urgentes do mundo. Isso gera sentimentos de traição e elevadas doses de ansiedade ecológica, pois percebem que as gerações mais velhas e os atuais líderes políticos estão “roubando seu futuro” ao priorizar o crescimento econômico de curto prazo em detrimento da sobrevivência da Terra. Isso gera sentimentos de medo, impotência e angústia diante da degradação dos ecossistemas e dos eventos climáticos extremos (ondas de calor, estiagens e incêndios florestais no sul da Europa).
Isso os leva à desconfiança política em relação às instituições, considerando projetos como o Pacto Ecológico Europeu insuficientes ou citando retrocessos, como as concessões políticas feitas a partir de 2024 (flexibilização das regulamentações agrícolas ou restauração da natureza para apaziguar setores conservadores), que são vistas como evidências de que os políticos cedem aos lobbies econômicos. Isso se traduz em uma exigência de coerência, com leis climáticas protegidas contra os ciclos eleitorais, que modificam as metas de emissões de acordo com a orientação política do governo no poder.
À luz das evidências mais recentes publicadas na revista The Lancet Planetary Health, 2026 (1), a percepção dos jovens sobre as mudanças climáticas (inclusive no contexto europeu) deve ser entendida não apenas como uma demanda política, mas também como uma crise de saúde mental pública sem precedentes. A angústia climática (ecoansiedade, luto ecológico, medo do futuro) é uma resposta racional e adaptativa a uma ameaça existencial real. Nesse contexto, o ativismo climático deixou de ser apenas uma ferramenta de protesto e se tornou uma estratégia terapêutica fundamental que permite aos jovens transformar a paralisia em protagonismo. No entanto, o relatório alerta para o sério risco de burnout (esgotamento) e danos morais caso esse fardo psicológico recaia exclusivamente sobre eles.
As mudanças climáticas como uma crise de saúde mental juvenil
A adolescência e o início da vida adulta (13-25 anos) são fases críticas para o desenvolvimento neuropsicológico e a formação da identidade. As mudanças climáticas estão perturbando as condições necessárias para um desenvolvimento saudável, como demonstram os estudos globais citados no artigo da Lancet Planetary Health, onde 75% dos jovens consideram o futuro assustador, causando-lhes preocupação constante e sentimentos de tristeza, impotência, incerteza e até pensamentos suicidas e dúvidas sobre ter filhos.
Além disso, os jovens estão expostos a narrativas da indústria de combustíveis fósseis e à falta de ação política que provocam o “doomismo” (a ideia de que é tarde demais para agir), o que exacerba a desesperança e os sintomas depressivos.
Diante disso, o estudo da Lancet destaca que a angústia sentida pelos jovens não é um transtorno mental em si, mas uma resposta emocional válida e racional à destruição ecológica, à injustiça climática e à falta de ação de governos e empresários. Essa falta de ação não apenas gera ansiedade, mas também provoca um sentimento de traição e abandono, pois sentem que as instituições que deveriam protegê-los estão falhando.
Além disso, existe um “silêncio socialmente construído” em torno dessas emoções, que muitas vezes desencoraja os jovens a expressarem sua dor por medo de não serem levados a sério ou de serem mal compreendidos.
Diante da falta de ação institucional, o artigo enfatiza que a participação em ativismo e ação coletiva funciona como uma poderosa prevenção primária e intervenção em saúde mental. A militância atua como um amortecedor psicológico, transformando o sofrimento avassalador em ação proposital. Ao participarem de esforços coletivos, os jovens recuperam seu senso de protagonismo e autoeficácia, combatendo a paralisia gerada pela ecoansiedade.
Paralelamente, a militância permite que os jovens alinhem suas ações diárias com seus valores mais profundos (justiça, sustentabilidade, empatia). Essa “esperança ativa”, ou enfrentamento centrado no significado, ajuda a processar o luto ecológico, permitindo que coexistam o desespero em relação ao estado da Terra e a esperança no futuro. Isso é ainda mais reforçado pelo fato de que a ação climática coletiva fomenta redes de apoio social. Em um contexto em que os jovens se sentem isolados por suas preocupações (muitas vezes incompreendidos em seus ambientes familiares ou educacionais), os movimentos climáticos oferecem um senso de comunidade, solidariedade e pertencimento que é vital para a saúde mental.
Além dos protestos, surgem também intervenções baseadas na comunidade, como os Cafés Climáticos e grupos de apoio entre pares (como o Force of Nature ou o Good Grief Network). Esses espaços descentralizados permitem que os jovens processem suas emoções, compartilhem experiências vividas e construam resiliência psicossocial coletiva em um ambiente livre de julgamentos.
Mas é importante destacar que o artigo da The Lancet apresenta um alerta crucial: o ativismo não pode ser o único suporte para a saúde mental dos jovens, nem pode substituir a responsabilidade sistêmica.
Quando os jovens se envolvem em ações climáticas sob a premissa de que a situação é “urgente demais para descansar”, podem ser levados ao burnout (esgotamento crônico). Esse esgotamento é severamente exacerbado pela percepção de falta de ação dos políticos e empresários. Quando os jovens lutam incansavelmente e são ignorados ou traídos pelas instituições, eles sofrem “uma lesão moral”, um profundo dano psicológico decorrente da transgressão de seus próprios valores ou do testemunho de injustiças sistêmicas sem poder impedi-las.
Por isso, a The Lancet argumenta que as intervenções terapêuticas e os movimentos sociais devem ensinar os jovens a equilibrar a militância com outras facetas de suas vidas, normalizando o descanso e o autocuidado não como uma rendição, mas como uma necessidade para a sustentabilidade a longo prazo. Para isso, além do ativismo, deve-se incentivar ações baseadas na natureza, como passar tempo na natureza ou participar de atividades de conservação, que ajudam a reduzir o estresse (embora seja importante notar que a degradação da natureza também pode ser uma fonte de sofrimento).
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) é apropriada para isso, ajudando os jovens a aceitarem pensamentos dolorosos sem se deterem neles, a esclarecerem seus valores e a se comprometerem com ações significativas. Terapias comportamentais também podem ser usadas para regular emoções intensas e tolerar a angústia sem se deixar paralisar por ela.
Regular o consumo de mídia também é importante, pois as redes sociais são uma faca de dois gumes (conectam os ativistas, mas também os bombardeiam com imagens apocalípticas), e é vital desenvolver habilidades para lidar com a exposição a notícias catastróficas.
Em síntese: para os jovens, a militância climática é um mecanismo de sobrevivência psicológica. Permite-lhes transformar o medo paralisante em comunidade, propósito e esperança ativa. No entanto, para que essa resiliência seja sustentável, a sociedade e as instituições devem apoiar a sua militância, assumindo simultaneamente a responsabilidade sistêmica que lhes foi retirada.
Nota
(1) Therapeutic strategies to manage climate distress among young people (Gunasiri et al., The Lancet Planetary Health, maio de 2026).
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