Nhandeflix, uma plataforma Guarani para combater a colonização de aplicativos digitais globais

Foto: Reprodução You Tube

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11 Julho 2026

Em vez de banir completamente a internet, uma comunidade indígena no Brasil propôs um servidor de conteúdo local com seus próprios filmes, podcasts e vídeos.

A reportagem é de Bernardo Gutiérrez, publicada por El País, 10-07-2026.

Quando a internet via satélite chegou em 2021 ao Território Indígena Tenondé Porã, composto por sete aldeias Guarani ao sul de São Paulo, surgiram efeitos colaterais imprevistos. Os jovens começaram a se desvincular das atividades comunitárias. Deixaram de frequentar a casa de oração (santuário) e de participar dos mutirões (ações coletivas). Em vez disso, passavam as noites em seus celulares assistindo a vídeos do TikTok, jogando Free Fire compulsivamente ou consumindo pornografia. Embora a internet tenha facilitado a organização política do Comitê Interaldeias, que abrange vinte e três aldeias de cinco reservas indígenas no sul de São Paulo, ela criou mais problemas do que soluções.

Os anciãos da aldeia decidiram cortar a internet: arrancaram os cabos. “A internet é uma ferramenta de sequestro para os povos indígenas, que não estão acostumados a ela. Eles deixam de aprender suas práticas culturais e se tornam vítimas de conteúdos que banalizam as mulheres, incitam a violência e promovem o álcool. Começam a rir da miséria alheia em vídeos engraçados que circulam rapidamente”, disse Jerá Guaraní, uma das líderes do Território Indígena Tenondé Porã, à América Futura.

No entanto, desconectar a internet não resolveu os problemas. Dada a proximidade da região com a área metropolitana de São Paulo, os mais jovens fugiam para encontrar conexões Wi-Fi. Às vezes, desapareciam por vários dias. “Iniciamos uma série de conversas para encontrar uma forma coletiva de lidar com isso. Fizemos com que os mais velhos entendessem que não havia volta, que a internet é como a televisão, que veio para ficar. Os mais jovens também entenderam que não podiam se imergir nas redes dessa forma, porque isso destruiria o modo de vida Guarani”, afirma Pedro Ekman, do coletivo Intervozes, que colabora em processos tecnológicos com o Comitê Intervilas.

Jerá Guaraní reconhece que a internet exacerbou os problemas causados ​​pelos celulares. “Quem tem celular deixa de entender o que os outros dizem, perde muito tempo e até para de dar atenção aos filhos, netos, marido ou esposa”, explica. Foi assim que nasceu a plataforma Nhandeflix: para fortalecer a própria cultura e valorizar o que acontece em seu território.

A ideia não surgiu espontaneamente. Antes, a Intervozes e a Coolab desenvolveram uma espécie de bloqueio parcial da internet. Com a ajuda de um minicomputador Raspberry Pi e do software de bloqueio Pi-hole, tornou-se impossível o acesso a sites pornográficos ou de jogos de azar nas aldeias. Ao mesmo tempo, plataformas como o YouTube e o TikTok eram bloqueadas durante a noite. “A regra principal era bloquear tudo, deixando serviços de mensagens como o WhatsApp e o Telegram funcionando. O problema é que os jovens contornaram esse bloqueio de domínio com serviços de VPN (Rede Virtual Privada), que permitem o acesso a partir de outros endereços IP”, afirma Pedro Ekman.

Em 2022, após várias tentativas frustradas, surgiu a ideia de lançar uma plataforma de conteúdo Guarani. “Nhandé” em Guarani significa “nós” ou “nosso”. Refere-se a “Nhanderekó”, o modo de vida Guarani. “Para evitar ficarmos presos a uma agenda restritiva, propusemos uma espécie de servidor de conteúdo local. Cada aldeia tem um minicomputador com um cartão de memória contendo filmes, vídeos, áudios e até podcasts, todos acessíveis. Dessa forma, oferecemos uma alternativa, uma internet Guarani”, explica Lucas Kesse, do Comitê Interaldeias, no minidocumentário Nhandeflix.

A Nhandeflix opera em uma intranet local. Ela usa protocolos conhecidos, mas é pouco acessível localmente. Embora o domínio nhandeflix.com não exista, ela funciona dentro das 23 aldeias que compartilham o acesso ao site comunitário. Utiliza o programa Jellyfin, cuja interface é semelhante à da Netflix, também em celulares. A curadoria inicial do conteúdo foi feita pelo Comitê Interaldeias. "A maior parte do conteúdo já está online, mas ninguém acessa; o algoritmo leva você para outros sites, mesmo que você tenha interesse nesses assuntos", explica Pedro Ekman.

Assim, os usuários encontram produções culturais Guarani, como Roda Cutia (uma canção infantil em Guarani), Bicicletas de Nhanderú (um documentário sobre uma aldeia Guarani-Mbya no sul do Brasil). Ao mesmo tempo, inclui material de outros grupos étnicos, como A Arca dos Zo'é (1993), sobre o encontro histórico entre os indígenas Waiãpi e os Zo'é, na Amazônia. “Além de documentários e filmes sobre a vida dos povos indígenas e coisas mais saudáveis ​​e educativas, queríamos destacar conteúdo feito em nossa própria terra”, diz Jerá Guarani. Na Nhandeflix também há conteúdo filmado nas aldeias da região.

No documentário Nhandeflix, o jovem Karai Tiago enfatiza, durante o lançamento da plataforma em uma aldeia, que o foco principal são "vídeos para conscientizar os jovens", porque "manter o modo de vida Guarani é um desafio". Segundo Lucas Kesse, o desafio reside não apenas na "luta por terra e espaço, mas também pelo controle do tempo". Desde o lançamento da Nhandeflix, surgiram problemas. Por exemplo, algumas famílias optaram pela internet de fibra óptica em vez do acesso via satélite comunitário. O ritmo acelerado e a rolagem infinita das plataformas globais já estão se infiltrando em muitas aldeias. Além disso, armazenar conteúdo em cartões de memória mostrou-se trabalhoso: eles exigiam atualizações frequentes.

Portanto, o Comitê Intervilas vai relançar o serviço. Eles também estão em negociações com a Intervozes para construir seu próprio site e até mesmo um centro de dados. “Os Guarani estão pensando em colocar tudo o que têm em um centro de dados comunitário que eles mesmos gerenciarão. Em geral, tudo isso é uma apropriação da tecnologia pelos Guarani. Eles dizem: não vamos deixar a tecnologia destruir nosso mundo. Vamos nos apropriar dela para que possamos manter nosso modo de vida”, afirma Pedro Ekman.

Nhandeflix não é um projeto de entretenimento feito para competir com a Netflix. É sobre autonomia. E sobre o que Jerá Guaraní e Lucas Keese chamam de Tecnologias da Suficiência. Tecnologias que estabelecem um sistema de valores diferente, que transcende o "excesso que adoece", o acúmulo desenfreado e o espetáculo consumista: "Não queremos viver como vitrines das redes sociais. Queremos viver como raízes na terra."

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