07 Julho 2026
Os católicos conservadores americanos poderiam ajudar a desviar a presidência da batalha das "guerras culturais" e a direcioná-la para uma revolução política pragmática e substancial liderada por Trump.
O artigo é de Marcello Neri, teólogo italiano, publicado por Setimanna News, 04-07-2026.
Eis o artigo.
Após as ordenações episcopais celebradas pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), a Santa Sé emitiu um decreto de excomunhão formalizando o cisma. Todos os bispos, sacerdotes e fiéis leigos que são formalmente membros deste grupo estão excomungados.
O contexto
Este cisma não foi resultado de negociações fracassadas com a Santa Sé, pois a FSSPX não tinha intenção de evitá-lo. Na verdade, as negociações fracassadas remontam ao tempo do Papa Bento XVI. A seu pedido, foi oferecida à FSSPX lefebvriana a oportunidade de se transformar em uma prelazia pessoal nos moldes do Opus Dei (2011-2012). Na época, as negociações fracassaram devido a tensões e dinâmicas internas na FSSPX.
A partir daquele momento, a FSSPX não teve nem a vontade nem a capacidade de se reconciliar com a Igreja Católica, pois isso a reduziria e reduziria todo o movimento lefebvriano à irrelevância — não apenas eclesiástica, mas também sociopolítica. Retornar à Igreja Católica significaria desaparecer, tornar-se apenas um ponto insignificante no espectro conservador do catolicismo global.
Isso é especialmente verdade nos Estados Unidos, que é uma das regiões com o maior número de membros, padres e seminaristas da FSSPX.
Catolicismo conservador americano em teste
No entanto, esse cisma também se torna um problema para todo o espectro tradicionalista e conservador do catolicismo, particularmente para a ala americana mais próxima do governo do presidente Trump. Há duas razões fundamentais pelas quais isso está se tornando um problema.
Em primeiro lugar, este segmento do catolicismo americano alinhado a Trump deve agora distinguir-se, pelo menos formalmente, das posições e exigências da FSSPX. A mensagem da Santa Sé sobre este ponto é clara: se alguém não for capaz de demonstrar as suas diferenças em relação ao movimento lefebvriano e não obedecer às diretrizes emitidas pelo primeiro papa americano, então não lhe resta outra opção senão aderir à FSSPX.
Isso significaria deixar de ser católico e perder o direito de reivindicar esse título no exercício de suas funções públicas e no contexto do debate americano.
A segunda razão é mais sutil, mas também mais importante. O poder da elite católica americana conservadora reside em sua capacidade de exercer forte pressão sobre o papado e, de certa forma, manter a Santa Sé como refém. Essa corrente do catolicismo encontra seus representantes institucionais no Cardeal T. Dolan e em Dom R. Barron, e seus representantes no governo americano no vice-presidente J.D. Vance e no secretário de Estado M. Rubio.
Paradoxalmente, essa influência torna-se mais difícil de exercer precisamente no momento em que um americano lidera a Igreja Católica.
Por um lado, porque o Papa Leão XIV, apesar de ter sido incumbido de resolver as tensões internas da Igreja Católica, demonstrou, através da excomunhão dos lefebvristas, que não estava disposto a salvaguardar a unidade da Igreja Católica a todo custo. Os limites impostos pela Santa Sé à influência do que poderíamos chamar de "catolicismo MAGA" na direção fundamental da Igreja Católica estão agora claros.
Por outro lado, se a facção católica conservadora dentro do governo Trump, juntamente com seus apoiadores na esfera pública, não conseguir exercer pressão efetiva sobre a Santa Sé, então será politicamente inútil. E Trump provou ser extremamente implacável quando se trata de se livrar de pessoas próximas a ele e de quem não precisa mais.
Diante da escolha entre se tornar politicamente irrelevante e ser expurgada por Trump, ou ser completamente absorvida como uma pequena minoria pelo evangelicalismo americano — que encontrou sua nova declaração de fé no slogan MAGA — a ala católica conservadora dentro da administração dos EUA e aqueles em posições institucionais importantes podem optar por um terceiro caminho.
O olho da agulha de uma segunda experiência americana
Duzentos e cinquenta anos após sua fundação, as instituições democráticas e a civilização americana estão entrando em um impasse que pode se provar fatal para a experiência americana. O establishment católico no círculo íntimo de Trump, e os apoiadores católicos de suas políticas em geral, podem optar pelo caminho mais difícil: o "olho da agulha" bíblico, promovendo uma segunda experiência democrática nos Estados Unidos.
Isso significa não agir contra o Papa Leão XIV e a Santa Sé para promover a agenda do presidente. Em vez disso, significa dialogar construtivamente com a posição do Papa Leão XIV e com os esforços diplomáticos da Santa Sé, de forma a fomentar a "revolução política" de Trump na construção de uma nova ordem mundial, visto que a forjada no período pós-Guerra Fria já não é sustentável.
Talvez tenha chegado a hora de essa classe dominante católica conservadora demonstrar sua maturidade — como políticos, fiéis e representantes institucionais. O desafio é evitar uma dupla tentação na qual parece ter caído no início do segundo mandato de Trump. Por um lado, deve parar de conferir legitimidade bíblica e religiosa a todas as decisões políticas do presidente, entrando em debate teológico com o Papa.
Ao fazerem isso, não só parecem derrotados desde o início aos olhos do catolicismo global, como também acabam imitando a abordagem do evangelicalismo americano, os verdadeiros apoiadores religiosos de Trump. Se nada os distingue dos evangélicos, e se não conseguem exercer qualquer poder de negociação com a Santa Sé, sua posição na esfera de influência de Trump será efêmera e de curta duração.
Por outro lado, a elite católica conservadora próxima ao presidente deve impedir que as "guerras culturais" se desloquem da moralidade individual para a ética social. Caso contrário, tudo o que restará dos Estados Unidos da América e de seu sonho serão os vestígios de uma promessa quebrada: uma relíquia arqueológica sobre a qual nossos netos contarão histórias aos seus, como a segunda estrela da esquerda na Via Láctea.
Os evangélicos já estão perpetuando "guerras culturais" entre a população americana. À medida que essas guerras se deslocam da moralidade individual para a ética social, elas se aproximam cada vez mais de uma verdadeira "guerra civil". Isso comprova que Samuel Huntington estava certo e errado em sua máxima sobre o "choque de civilizações".
Ele estava certo ao argumentar que a religião desempenhou um papel fundamental na política global desde o 11 de setembro. No entanto, ele estava errado, porque o conflito não se limitou à civilização ocidental e aos países islâmicos. Pelo contrário, está se desenrolando no próprio coração da civilização ocidental — ou seja, nos Estados Unidos.
Além disso, esse conflito inesperado é um choque entre diferentes formas de cristianismo que se desenvolvem dentro de cada denominação cristã, o que adiciona um nível inesperado de complexidade à situação.
Para além do evento secundário do cisma lefebvriano, o futuro da experiência americana está em jogo, assim como a forma como a elite católica conservadora será lembrada na história da nação: como a personificação do fim do sonho americano ou como cofundadora de uma segunda experiência americana — uma nova história de democracia e liberdade. Agora cabe a eles decidir.
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