06 Julho 2026
O Arcebispo de Buenos Aires presidiu uma missa realizada na Paróquia de São Patrício, no bairro de Belgrano, em Buenos Aires, em memória e homenagem aos três padres e dois seminaristas palotinos assassinados em 1976 pela ditadura militar.
A reportagem é de Washington Uranga, publicada por Página/12, 06-07-2026.
“Hoje choramos juntos, mas, como o sangue derramado há cinquenta anos, nossas lágrimas querem ser fecundas e regar o solo de uma Nação que continua a clamar por justiça”, disse o Arcebispo de Buenos Aires, Jorge García Cuerva, ao final da homilia que celebrou na paróquia de San Patricio, na capital, em memória de três padres e dois seminaristas palotinos assassinados naquele mesmo local há cinco décadas por uma força-tarefa da Polícia Federal.
As vítimas daquela época, hoje conhecidas como “os mártires palotinos”, foram os padres Pedro Duffau, Alfredo Leaden e Alfredo Kelly, e os seminaristas Salvador Barbeito e Emilio Barletti, que o arcebispo descreveu como “testemunhas da paz e da justiça, coerentes em seu compromisso até o fim”.
Retomando as passagens bíblicas lidas durante a cerimônia, García Cuerva disse que “a Palavra que ouvimos hoje nos compromete, nos desafia e nos ilumina; nossos fardos também devem ser os do nosso povo: o fardo do desemprego, a aflição da pobreza, a dor dos doentes, a solidão dos nossos avós, o sofrimento daqueles expostos às intempéries nas ruas da cidade”. E o arcebispo enfatizou que “não queremos ser indiferentes; não queremos ser vencidos pela crueldade e pelo individualismo”.
“Em 1976”, disse García Cuerva, “o fardo era o medo, a perseguição, o silêncio imposto”, e “os palotinos estavam sobrecarregados, sim, mas não pelo desânimo, e sim pelo peso da dor de seu povo, e por isso, escolheram não desviar o olhar, decidiram suportar os sofrimentos de uma Argentina que sangrava”.
Diante de uma igreja lotada, o Arcebispo de Buenos Aires afirmou que o "crime" dos mártires palotinos foi "proclamar o Evangelho fora de época, defender a vida e a dignidade humana" e que "o tapete vermelho manchado de sangue (encontrado no local dos assassinatos) nos lembra o preço dessa fidelidade". Porque, continuou ele, "cinco vidas — três padres e dois seminaristas — foram ceifadas naquela noite de julho pelo ódio e pela violência cega". Ele também alertou que não se tratava "da morte de indivíduos isolados: foi o testemunho de uma comunidade, de uma fraternidade que incomodava as autoridades porque vivia o Evangelho sem anestesia". García Cuerva também lembrou palavras proferidas por Jorge Bergoglio quando era Cardeal de Buenos Aires, referindo-se aos palotinos assassinados e dizendo que "eles viveram juntos e morreram juntos".
Missa pelos palotinos assassinados. O arcebispo García Cuerva celebra missa em homenagem aos cinco palotinos assassinados em 1976 (Foto: Redes sociais/Reprodução).
O arcebispo observou que “meio século se passou desde uma ferida que continua a doer no corpo da nossa Igreja e no coração do bairro de Belgrano”. No entanto, afirmou: “não queremos nos envolver em um exercício frio de memória histórica, mas sim criar uma memória viva, porque cinquenta anos depois, o fardo às vezes se disfarça de impunidade, esquecimento ou uma sociedade que parece ter perdido a capacidade de se comover com o sofrimento alheio”.
E citando o Papa Leão XIV, ele afirmou que “num mundo onde os pobres são cada vez mais numerosos, paradoxalmente, vemos também o crescimento de certas elites ricas, que vivem numa bolha muito confortável e luxuosa, quase num mundo à parte do das pessoas comuns”. Ele prosseguiu argumentando que “isto significa que ainda persiste uma cultura, por vezes bem disfarçada, que descarta os outros sem sequer se aperceber e tolera indiferentemente milhões de pessoas que morrem de fome ou sobrevivem em condições indignas de seres humanos”.
Por isso, continuou García Cuerva, “os cinco palotinos entenderam que o verdadeiro alívio não era a indiferença daqueles que se isolavam para ver a realidade através da mídia, porque o alívio que Jesus promete é experimentado quando, mesmo cansados, damos nossas vidas por uma causa maior do que nós mesmos”.
Ele acrescentou que “o sangue das cinco testemunhas da fé clama que o único alívio frutífero vem da reconciliação fundada na verdade e na justiça”, porque “não há descanso para uma sociedade se ela não curar suas feridas com o olhar fixo em Deus”. Ele afirmou que “não podemos ficar ociosos, chorando” e, citando Leão XIV, pediu que “a dor se transforme em profecia, porque o testemunho delas mostra que o bem não progride automaticamente, mas requer perseverança, memória e uma conversão que nos permita recomeçar mesmo depois das derrotas”.
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